5 Anos de Plantio Direto no Brasil engenheiro agrônomo Hans Peeten, formado no seu país de or'igem, a Holanda, foi um dos mais importantes sustentáculos técnicos do desenvolvimento do plantio direto na regiao dos Campos Gerais do Paraná e, por extensão, no Brasil. Desde sua chegada ao Brasil, em 1977, ele esteve presente na linha de frente das inúmeras batalhas que se travaram para a consolidação do sistema. Coordenou vários experimentos a campo, fez incontáveis palestras para agricultores e técnicos na região, no Paraná e em todo o Brasil, auxiliando na difusão da semeadura drreta. Esteve presente na organização e participou como palestrante nos 3 encontros de plantio direto realizados em Ponta Grossa em meados dos anos 80, além de vários outros eventos técnicos lá realizados e que foram importantes na difusão e estabelecimento do sistema nas demais regiões do pais. No início da década de 90, Hans Peeten, principalmente por questões familiares, retornou a Holanda, onde passou a trabalhar como assessor técnico internacional para algumas áreas agrícolas. Em 1996, ele esteve presente no | Congresso Brasileiro de Plantio Direto, realizado pelo IAPAR e outras entidades, em Ponta Grossa. Naquela ocasião, conversamos com Hans sobre suas atuais atividades. Aqui, um pouco de sua história, após a saída da Fundação ABC.
Revista Plantio Direto - Como foi a tua história depois da Fundação ABC? Hans Peeten - Voltei a Holanda em 1990, para meus filhos terem a chance de aproveitar a escola holandesa. Fui convidado para trabalhar numa empresa de consultoria em um projeto de privatização da agricultura na Rússia, em 90/91. Naquele momento, esse e E ?) ra um grande desafi Rússia. 9 esafio na 6 - Revista Plantio Direto - Janeiro/Fevereiro de 1997 Hans Peeten RPD - Como foi esse período?
Hans - Passei um ano morando o Rússia, sem a família. Nesse projeto, 23 fazendas estatais tiveram que destinar par À te de suas áreas para privatizar. NÓS de À mos os primeiros impulsos, através de “ namento para os produtores particulado EF tentamos implantar algumas fazendas la- ph monstrativas, na parte de pecuária É VOUra. Á RPD - Havia muita diferença de tecnologia?
Hans - Além dos problemas 9, : micos do comunismo, a dificuldade EL era a mecanização, pois o pessoa!
; não ha nha implementos, faltavam peças, não via manutenção das máquinas. Toda a parte de insumos estava paralizada: adubos, sementes, pesticidas. Toda a logistica da agricultura estava estagnada naquele momento, de tal maneira que a produção agrícola teve uma queda drástica. Foi um ano difícil, e nós tivemos que parar nossa atividade, porque não haviam condições de trabalho e o projeto precisaria mais tempo para obter sucesso. Regressei a Holanda e ingressei numa Fundação da área de produção de sementes de batatas, que existe há 50 anos. Ela foi criada pelos produtores com objetivo de abrir novos mercados no mundo. À Holanda vende anualmente 700 mil toneladas de batata-semente para mais de 80 países e os produtores criaram essa fundação independente que objetiva a introdução de novas variedades e uma ligação entre os produtores e instituições de pesquisas, cooperativas e outras instituições nos demais países. Hoje, ocupo o cargo de gerente da América Latino, trabalhando desde o México até o Uruguai.
RPD - Como está o desenvolvimento desse trabalho? Hans - A cultura da batata tem um ciclo relativamente curto e um potencial de produção muito grande por unidade de área. É um alimento muito rico. Nota-se que é mais fácil produzir uma variedade maior de alimentos a partir da batata do que do trigo. Sob os altos custos da irrigação, é possível produzir muito mais por área na batata do que em trigo. De parte do consumidor, observa-se um outro padrão de exigência, em direção à comida de fácil preparo. É algo que está crescendo em todo o mundo. O processamento da batata está crescendo também. Hoje, na Europa, mais de 50% da batata produzida é processada.
RPD- Como você vê a cultura da batata em termos de Brasil? Hans - Eu vejo a cultura da batata como uma excelente opção a mais para os agricultores do sul do Brasil. A cultura do trigo, soja e milho tornaram-se atividades que precisam de uma escala muito grande . Se compararmos com os anos 70, onde um agricultor poderia sobreviver com 100 ha, hoje, na minha opinião, com estas culturas, ele precisa de 400 ha. Vejo a necessidade de uma outra cultura fazer parte da rotação de culturas usada por aqui. Entretanto, a cultura da batata não é fácil!
RPD- A cultura da batata não auxilia na conservação do solo. Como você tem administrado essa contradição, já que foi um pioneiro no combate à erosão na região dos Campos Gerais?
Hans - Procurei não enfatizar a cultura da batata nesta região. Os agricultores tem que estar cientes de que a conservação do solo é o primeiro passo para sobreviver dentro da agricultura nas regiões tropicais, principalmente no Brasil. Temos exemplos de onde a alta quantidade de insumos usadas na lavoura de batata está sendo levada para os rios. Acredito que, se for para fazer uma cultura de batata dentro de uma tecnologia, o produtor tem que estar ciente, antes de mais nada, de que ele deve fazer esta cultura dentro de um conceito total de conservação de solos. De qualquer forma, reconheço que esta área merece muito mais atenção na área de desenvolvimento e tecnologia.
RPD- Por que a cultura da batata se desenvolveu tanto na Europa? Trata-se de terrenos mais férteis e menos sensíveis à erosão, mas ela requer um número elevado de tratos culturais, além de um aporte grande de insumos.
Hans - Realmente, por ser uma cultura de ciclo curto e de alta produção, ela tem uma alta demanda de insumos, fertilizantes e pesticidas. Na Holanda, estamos trabalhando no desenvolvimento de variedades mais resistentes e já podemos trabalhar num conceito de menor uso de pesticidas.
Temos um programa governamental que objetiva uma redução do uso desses insumos em 50% até o ano 2000, e todas as instituições de pesquisa estão trabalhando em cima disso. Todos estão cientes de que, daqui para frente, o uso de produtos químicos precisa ser reduzido para que tenhámos uma cultura sustentável, RPD - E quanto à mobilização do solo?
Hans - Nós vivemos numa região do mundo onde metade do ano tem neve, com temperaturas abaixo de zero. São solos férteis e planos, com facilidade para mecanização. O enfoque é diferente daqui, pois a erosão é problema em solos leves, onde não se planta batatas. Na Holanda, especificamente, a erosão não é um problema significativo.
RPD - Como é o preparo de solo para a cultura da batata? Hans - No Brasil nós fizemos cerca de 4 passadas para preparar o terreno. Na Holanda, já temos tecnologia a nível de produtor onde ele pode plantar apenas com uma operação. Depois de uma aração, antes de chegar o inverno, é possível fazer uma mecanização com um implemento acoplado na frente do trator, que leva a semeadora na parte trazeira, permitindo uma única operação no momento do plantio. Nós fizemos isso não por causa da erosão mas sim porque a cultura da batata precisa de um solo com estrutura bem preparada, sem compactação. Nós fÍizemos essa combinação de preparo e plantio para reduzir o número de operações de forma drástica. Este seria um passo para os produtores brasileiros.
Esta mecanização existe no mundo todo mas, nos últimos anos, os produtores brasileiros se descapitalizaram e isto é limitante para a introdução de novas técnicas. Meu trabalho visa justamente sentir como, quando e onde estas novidades podem fazer parte do desenvolvimento normal da agricultura. be Revista Plantio Direto - Janeiro/Fevereiro de 1997- 7