Sucesso do Plantio Direto nos Arenitos do Sudoeste Gaúcho


Autores:
Publicado em: 01/01/1997

Nonô Pereira fêz sua palestra durante a | Conferência Anual de Plantio Direto, em Setembro de 96, em Passo Fundo, e reafirmou a sua convicção de que os Campos Gerais do Paraná e diversas outras regiões agrícolas brasileiras jamais deveriam ter sido lavradas, pelo menos dois assistentes do Sudoeste Gaúcho ouviam atentamente sua explanação. Eram eles o representante técni co da Ciba Sementes, em Santa Maria, Pedro Padilha e a engenheira agrônoma Isabel Minussi, da Cooperativa Tritícola de São Francisco de Assis. Durante a rê” alização do evento, eles nos procuraram para falar sobre o árduo trabalho de difuf são do plantio direto que estavam fazem do naquela região do Rio Grande do Sul e, principalmente, para destacar a existeéncia de uma fazenda, localizada no meio do “deserto do Alegrete”, que vinha fazem do plantio direto há cerca de 6 anos, com amplo sucesso nar AO que o assunto nos deixou ansiosos, porque a descrição prelim” ra muito interessante. Com a informação genérica sobre a questão estabelecida o 'mprensa e televisão a respeito das áreas em processo de desertificação nã ampanha do Rio Grande do Sul, imaginá 12 - Revista Plantio Direto - Janeiro/Fevereiro de 1997 trechos com areais explícitos ainda são relativamente pequenos, embora SIgnificativos e preocupantes, e a fazenda em questão não se encontra no “meio do deserto”, como nossa imaginação descreveu.

De qualquer forma, é extremamente interessante o histórico de 6 anos com plantio direto que fêz prosperar a Fazenda do produtor Milton Mundstock, localizada na divisa entre os municípios de São Francisco de Assis e Manoel Viana, região que já plantou milhares de hectares de soja, arroz e trigo e hoje se encontra num Impasse econômico, cristalizado pelo uso inadequado de um solo frágil, descrito por Aziz Ab Saber e diversos outros cientistas, principalmente do Rio Grande do Sul.

DESERTO? A passagem pelo Departamento de Solos da Faculdade de Agronomia da Universidade Federal de Santa Maria, onde tomos recebidos pelo engenheiro agrônomo e professor Dalvan Reinernt, foi fundamental para que nos inteirássemos sobre o que havia de conhecimento científico a respeito do “Deserto do Alegrete”. Para nossa alegria, uma compilação de vários trabalhos sobre o assunto havia sido publicada na Revista “Ciência «e Ambiente”número 11, de julho-dezembro/ 95, da Editora da UFSM. Nesta edição, sob o título “Areais do Sudoeste do Rio Grande do Sul”, cientistas da Universidade Federal de Santa Maria, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Porto Alegre), da Universidade de São Paulo e de outras instituições fazem uma análise aprofundada da formação geológica e das características mais marcantes dessa região. No artigo “O Rio Grande do Sul Descobre seus “Desertos”, da professora Dirce M. A. Suertegaray, da UFRGS , do qual estamos publicando alguns trechos, é possiível entender aquilo que parece ser um consenso entre os pesquisadores: a denominação “deserto”é inadequada para explicar os processos que ocorrem no Sudoeste Gaúcho porque, entre outros coisas, uma região com uma precipitação anual de 1400 mm não apresenta características de aridez. E não existem indicadores de que o clima úmido da região estaria se transformando em árido.

Outro ítem descrito pela pesquisadora da UFRGS, e que parece ser aceito pelos demais pesquisadores da área, diz respeito à ação antrópica na formação e/ou na evolução dos areais . Segundo a professora Suertegaray, foram pesquisados relatos da existência dos areais no início do século passado, quando da demarcação da primeira sesmaria na região. Ela também cita o autor B. Rambo que, em 1942, descreve a presença de “areais de muitos hectares de superfícies no meio do campo, como verdadeiras dunas continentais”. Para Dirce Suertegaray, “a expansão da lavoura de soja, no final década de 1960, poderá ter sido o instrumento de intensificação de um processo previamente existente e que faz parte da dinâmica natural dessa paisagem extremamente frágil.” O desenvolvimento da cultura da soja na década de 70, quando o Município de São Francisco de Assis, por exemplo, chegou a plantar mais de 40.000 ha da oleaginosa, trouxe uma agressão incomparável para o solo da região, com o uso indiscriminado de arados, grades e máquinas de grande potência. A existência de incentivos governamentais para a agricultura mascarou uma relação insustentável. Hoje, quando São Francisco de Assis planta menos de 10.000 ha de soja e a imobilidade econômica parece engessar a produção primária, a maioria dos fazendeiros não conseguem visualizar soluções que não sejam Incentivos do governo e agricultura com solo preparado. A tecnologia do plantio direto parece ser uma mudança inconcebível, ape- Sar de tão simples e óbvia.

A INTRODUÇÃO DO PLANTIO DIRETO O vento norte e a areia que ele jogava na lavoura de soja, juntamente com uma palestra motivacional feita por Nonô Pereira, em Horizontina, seu município de origem, em 1990, foram dois impulsos básicos para que o produtor Milton Mundstock começasse a fazer plantio direto na sua fazenda, localizada exatamente sobre a divisa dos municipios de Manoel Viana e São Francisco de Assis.

“O vento norte matava a soja, por causa da areia, relata Mundstock. No começo, quando fui arrendar uma área de 150 ha, quem plantava a área anteriormente me alertou: não plante lá que o vento norte vai matar tudo, ”Os ecossistemas das padrarias mistas da região arenítica, no Sudoeste Gaúcho - em ambiente subtropical úmido - constituem-se em um dos tecidos geoecológicos mais frágeis do Aziz Nacib Ab'Saber, Instituto de Estudos Avançados-USP ”Existem determinados tipos de solos, em várias regiões do Brasil, que Jamais deveriam ter sido lavrados””.

Manoel Henrique Pereira - Presidente da Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha Revista Plantio Direto - Janeiro/Fevereiro de 1997- 13 Eles tinham áreas em que o problema do vento e da areia era realmente grave, provocando a morte das plantas. A fazenda, adquirida em 1970, possuia 370 ha e foi dividida em 4 partes, para uso agrícola.

“Em certa ocasião, quando voltávamos de Horizontina, disse a esposa de Milton, dona Eli MundstockK, e era um daqueles dias de vento norte, tinhamos uma área que Iria ser plantada com soja e o vento carregava a areia por cima da terra. Disse para o Milton que precisávamos fazer alguma coisa com urgência porque nossa terra estava virando areia.

Hoje, estas áreas estão muito bem, bastante produtivas.” Para Eli Mundstock, que é responsável direta pela administração econômica da fazenda, se as pessoas se conscientizarem que é preciso cuidar da terra, São Francisco, Alegrete e outros municípios não vão vI- rar ”desertos”.

UMA HISTÓRIA DE SUCESSO O plantio direto na fazenda dos Mundstock iniciou em 1990, numa área de 45 ha, cerca de 10% do total plantado na ocasião. Até então, a erosão, naturalmente, era um problema sério. “Fazíamos terraços de meia base e largávamos a água na estrada e no mato, onde as árvores chegaram a cair, afirmou o produtor durante a visita que fizemos à sua propriedade, durante uma quinta feira chuvosa de outubro do ano passado. O arroio Caraguataí foi sendo assoreado e já não se via mais peixe all.” Com o plantio direto, o controle da erosão e a progressiva melhoria das qualidades do solo, pela manutenção de cobertura, as produtividades foram aumentando, proporcionando um retorno econômico que redundou na compra de novas áreas e arrendamento de outras. Hoje, as áreas de lavoura estão 100% sob plantio direto: 600 ha de soja, 250 de milho e 600 ha de pecuária, além de 150 ha” de matas.

*Antes de fazer plantio direto, colhíamos uma média de 33 s/ha em Os Mundstock com os convidados soja, afirma Mundstock. Na primeira saíra em que semeamos direto já tivemos um aumento de 4 s/ha. Com o novo sistema passamos de 40 s/ha imediatamente e a produtividade sempre aumenta.

Apesar do sucesso alcançado na propriedade dos Mundstock com o plantio direto de soja, milho, trigo e pastagens, os produtores vizinhos, em geral, olham com desconfiança e nós mesmo encontramos lavouras próximas, lavradas e gradeadas, sofrendo com a persistente chuva de outubro, que impedia a semeadura. Segundo Milton Mundstock, alguns dos vizinhos afirmam que eles estão quebrados, porque não têm dinheiro nem para romper (lavrar) a terra. “Nos primeiros tempos, disse ele, quando compramos algumas fazendas menores e agregamos à nossa, como cada fazenda tinha seu cemitério, nós ficamos com 4 deles nas nossas terras. E volta e meia apareciam buracos, feito por pessoas que procuravam jóias e panelas de dinheiro. Um fazen- | deiro vizinho me disse que, para ele, nos havíamos achado uma panela de 14 - Revista Plantio Direto - Janeiro/Fevereiro de 1997 dinheiro e, por isso, estávamos comprando mais terras.” MESA REDONDA Como já citamos, a chuva de outubro permitiu apenas uma rápida circulada pelas áreas da Fazenda, onde foi possível observar, em determinadas partes, formações arenosas em fazendas vizinhas. É fácil ver que O uso realizado pelo homem (antrópico) do solo daquela região (pecuária, lavoura, desmatamento, fogo) é um fator que intensifica a degradação natural feita pela chuva e pelo vento.

A chuva constante, de outro lado, além de um bom churrasco, proporcionou um debate sobre alguns aspectos interessantes do plantio direto e das perspectivas regionais, pois estávamos acompanhados dos engenheiros agrônomos Almir Rabelo, do Clube Amigos da Terra de Tupanciretã, Isabel Minussi, da Cooperativa de São Francisco de Assis, do representante técnico da Ciba S- mentes Pedro Padilha, de Santa Ma- . verdinho seja mai e | | ! ria, do técnico agrícola Marcos ja mais nutritivo do que a — porém falta a informação. Acho que palha seca. E o fogo acaba entrando — a ; . : : grande mudança tem que aconte- Zimmer, de São Francisco de Assis, — dentro da nossa propriedade! cer não só na cabeça do produtor mas do capataz da fazenda Roque Dermnboski e outras pessoas, além da na comunidade técnica também.

; Almir Rabelo - Quando o pesfamília Mundstock. Aqui, apresenta- soal faz z a ; p ; : os alguns trechos das declaraçõ ES a queimada, induzem a RPD=- As áreas com areias es- , brotação da gr - de cada um, que contribuem para o . grama, para fazer verde, — tão aumentando por aqui?

: como eles dizem. regionais como um todo. ! pancireta, que Roque Demboski - Sim. Se estamos no centro das áreas de plan- — você olhar em volta, se apavora. O Revista Plantio Direto - Quan- tio direto no Rio Grande do Sul , Ve- pessoal que faz plantio convencional to tempo leva para recompor uma Á e que aqui no meio do “deser- — ainda acha que é melhor, não estão terra aqui nesta região? O está a solução. E interessante que preocupados com o problema da eroos agricultores de São Francisco de — são. Há pouco tempo, veio uma chu- Assis olhem para a sua propriedade! — va de 150 mm que chegou a mudar a estrada. Esse problema nós não te- Isabel Minussi - O pessoal do — mos mais. Nossas águas são limpas plantio convencional está querendo — e, se os que plantam nas cabeceiras mudar e aqueles que já estão noplan- — ajudarem, os peixes poderão voltar tio direto precisam de informações. . aos nossos rios. Existe muita resistência para a mudança, mas o pessoal tem nos procu- RPD- Como é administrar uma rado porque estão sentindo que é ne- = fazenda neste momento de transicessário mudar. Para reverter esse — ção? Por que das mudanças que quadro, necessitamos de mais infor: — vocês implementaram? mações, de pessoas que nos ajudem. Em safras anteriores, o município de Eli Mundstock - Porque se não São Francisco de Assis chegou a — evoluíssemos, se não mudássemos, plantar entre 30 e 40 mil ha de trigo, — dentro de pouco tempo não teríamos hoje plantamos apenas 700 ha. Estas condições de administrar a fazenda. áreas foram direcionadas para a pe-==- Nós temos um cronograma de gastos as necessidades de correção. cuária, porém, os produtores estão — e é preciso administrá-lo. Nós não E sentindo que, para baixar os custos — estamos mais dependentes de ban- RPD - Como os vizinhos de produção, é necessário uma .cos.Desde que resolvemos por os pés Milton Mundstock- Quando iniciamos o plantio direto, colhíamos uma média de 33 s/ha em soja. Já na primeira safra, tivemos um aumento de 4 s/ha na produtividade. De lá para cá, tem aumentado todos os anos.

RPD- Com o mesmo custo de produção? A quantidade de adubo continua sendo a mesma?

Milton Mundstock - À adubação continua a mesma. Nós usamos o Fosmag, da Manah, que nos assiste nessa área. A cada dois anos fazemos uma análise de solos para ver acompanham o processo do plan- — integração lavoura-pecuária. Nós pre- = no chão, nós vendemos gado, camitio direto em sua fazenda? cisamos reconstruir nossos solose eu — nhonete, diminuimos nosso padrão de só vejo o plantio direto como saída. vida , os filhos estão sem carro, para Milton Mundstock - Eles não nos adequarmos aos novos tempos. acreditam muito. Um grande proble- Pedro Padilha - Temos notado — Apesar disso, nossa lucratividade auma que enfrentamos são as queima- uma falta de informação na comuni- — mentou, pois, quando você tem consdas. Este ano já tivemos três. odaa — dade técnica. Muitas vezes, o produ- — ciência, procura comprar melhor, vennoite eles colocam fogo, para reno- . tortem vontade de entrar no sistema, — der melhor, tudo no momento certo. var o pasto, na ilusão de que o broto : ; Equipamentos de proteção para aplicação Plantio Direto em Passo Fundo e com à PRODUTÉCNICA - Máscaras de vários tipos (pó,gas) | - Luvas (importadas, de nitrilo - Distribuidor e revendedor dos defensivos agrícolas: material impermeável que oferece maior proteção) | Herbitécnica, ICI/Zeneca, Defensa, - Roupas de proteção | Trevo, Ciba-Sementese Sipcam-Agro - Outros Av. Brasil, 901 - Fone: (054) 313 6855 | —— — ...

Revista Plantio Direto - Janeiro/Fevereiro de 1997- 15