Parte do texto publicado na Revista Ciência Ambiente - Julho/Dezembro de 1995 Os “desertos” do Sudoeste do Rio Grande do Sul encerram importantes controvérsias. Entre elas, as discussões de natureza conceitual (desertos ou areais, desertificação ou arenização?), a polêmica sobre a gênese, distribuição e extensão dos núcleos de areia na região (processo natural ou antrópico?) e as estratégias para recuperação de áreas em avançado estágio de degradação (espécies autóctones ou exóticas ?). Como forma de enriquecer o debate sobre o último tópico e em atenção à idéia de sustentabilidade, convém introduzir o con- 2 Maqui.
NU 'acequi 1 IA 31º A ivrament ) Rio Ih N/A do Sul 57º Up A taets 1 A, 7 SU 4 de VS DE 1 VAN * São Gabrie A P dri do, Cc 11 dA Muguaiana legrete São Vicente do Su Sahtana d Ç ESCALA 20100 40 60 8Okm Dirce Maria A. Suertegaray* ceito de biodiversidade e os princípios e procedimentos daí decorrentes.
Desertificação: conceito e uso do termo no Rio Grande do Sul A partir da década de 70, a Campanha Gaúcha começa a ser vista como uma área sujeita a processos de desertificação. Isto se deve aos primeiros trabalhos feitos à época, mas especialmente uma série de reportagens sobre degradação dos solos naquela região. Nesse sentido, merece Rio Jacix 6 POR x) o e EGRE Figura 1. Localização da área de ocorrência de areais no Rio Grande do Sul 16 - Revista Plantio Direto - Janeiro/Fevereiro de 1997 - Região Sudoeste.
destaque o conjunto de reportagens escritas por Kolecza entre 1979 e 1981, utilizando em seus títulos o termo deserto para indicar o fenômeno. A partir daí, os trabalhos e reportagens divulgados tratam o fenômeno visualizado como deserto, e o processo como desertificação. Associam a este processo as causas antrópicas, seja a pecuária e o superpastoreio, seja a agricultura e a mecanização e expansão da lavoura da soja, em municípios como Alegrete, São Francisco de Assis e Itaqui. Tal explicação - a origem antrópica para a desertificação no Sudoeste do Rio Grande do Sul - é apresentada com ênfase por Souto no livro denominado ”Desertos, uma ameaça?”.
É importante registrar que nessa época realizou-se a Conferência das Nações Unidas sobre Desertificação em Nairóbi, Quênia, (1977). Neste evento foram discutidos e amplamente divulgados os conceitos de desertificação, além da problemática decorrente da intensificação do uso do solo, em particular no Sahel, Africa. “Coincidentemente”, o Rio Grande do Sul descobre seus “desertos”, até então conhecidos como areais e inseridos na paisagem regional.
A identificação e divulgação desse processo despertou nosso interesse pelo tema, em 1983. O passo inicial destes estudos residiu na busca de uma base conceitual para deserto e para desertificação. Desta etapa, resultaram diversos conceitos, entre eles, OS que seguem.
O primeiro deles é oriundo da Conferência das Nações Unidas sobre Desertificação, de 1977:
Desertificação é à diminuição ou à destruição do potencial biológico da terra, o qual desemboca em definitivo em condições do tipo desértico. A desertificação é um aspecto da dete- Noração generalizada dos ecossistemas sob pressões combinadas de um clima adverso e flutuante e de uma exploração excessiva.
O segundo conceito é extraído do Seminário sobre Desertificação no Nordeste Brasileiro:
— À desertificação é devida à fragilidade dos ecossistemas das terras secas em geral, que, em decorrência da pressão excessiva pelas populações humanas ou às vezes pela fauna autóctone, perdem sua produtividade e capacidade de recuperar-se.
O terceiro conceito é expresso por Comti e diz que sob o ângulo ecológico, deserto significa:
Empobrecimento da biomassa do solo, erosão superficial e invasão de areias em decorrência do crescimento demográfico e pressão sobre recursos.
A análise destes conceitos, bem como os de outros autores, indica como causa da desertificação a atividade antrópica em forma de explora- Ção excessiva da natureza, ao mesmo tempo que vincula, a exemplo dos dois primeiros citados, o processo é uma forma de degradação que desemboca em definitivo em condições do tipo desértico (climático) ou que OCcOrre em áreas secas em geral. Partindo, portanto, destes principios e analisando a região objeto de estudo, considerou-se inadequado o uso do conceito de desertificação para explicar os processos lá observados. A região sudoeste do Rio Grande do Sul não se apresenta como área com características de aridez (as precip!- tações médias estão em torno dos 1400 mm anuais) e, por outro lado, não se dispõe de dados que indiquem que a expansão desse processo estaria mudando em definitivo o clima regional (úmido) para um clima do tipo desértico.
Denominou-se então, em nosso estudo, o fenômeno observado como areal (que, aliás, é a denominação historicamente utilizada) e o processo como arenização. Importa, no entanto, mesmo que tenhamos excluído o processo de degradação do Sudoeste do RS, da ótica da desertificação, explicitar outra questão: a arenização consiste em fenômeno de causa antrópica ou natural?
Distribuição e extensão dos areais O Sudoeste do RS apresenta expressiva ocorrência de áreas arenosas desprovidas de vegetação. Os areais distribuem-se mais precisamente entre as latitudes de 29º 00 S e31º 00 S e as longitudes de 54º 30' W e 58º 45' W Gr, sobretudo nos municípios de Alegrete, São Francisco de Assis, Manuel Viana, Itaqui, Quaraí e Cacequi. Como analisamos a situação em território brasileiro, é importante mencionar a existência de areais no Departamento de Artigas (município limítrofe com o de Quaraí), na República Oriental do Uruguai.
A ocorrência de areais está associada ao substrato arenítico - até 1987 mapeado para a região sudoeste como Formação Botucatu - com cobertura vegetal predominantemente de gramíneas.
Os primeiros trabalhos que determinaram a extensão desses areais datam da década de 70. Móller et alii registram ocorrências em Alegrete e Quaraí, apresentando um total de 721,5 ha de areais, Cordeiro e Soa- Sementes Mario José Basso Associado à APASSUL desde 1969 Trigo - Cevada - Aveia - Soja Ervilhaca - Nabo Forrageiro - Milheto BR 285 - Km 20 - Caixa Postal 107 Fone/Fax: (054) 231 1132 - CEP: 95200-000 VACARIA - Rio Grande do Sul - BRASIL Franquiado:
FT - Cometa FT - Saray FI-SO FI - Abyara FT - Estrela FIT-PESQUISA E SEMENTES — — oe ——s—=—m—- Revista Plantio Direto - Janeiro/Fevereiro de 1997- 17 res identificam a ocorrência de areais nos municípios de Alegrete, São Francisco de Assis, Cacequi e Quaraí, perfazendo um total parcial de 258 ha.
Num primeiro levantamento em âmbito regional, elaborado entre 198/ e 1988, através de imagens de satélite Landsat, na escala 1 : 500.000 e cartas topográficas do Serviço Geográfico do Exército na escala 1 : 50.000, determinou-se uma área que correspondeu na totalidade a 1.568,19 ha.
Mais recentemente, Suertegaray, Guasseli e Martins, realizaram um novo levantamento e cálculo de área dos areais, utilizando imagens de satélite. Os resultados obtidos aparecem expressos na tabela | e demonstram um significativo aumento em relação aos dados levantados em 1987 e 1988. Atribui-se este aumento, não a expansão propriamente dita dos areais nos últimos anos, mas particularmente a metodologia utilizada e a escala de observação. Neste último levantamento, a identificação dos areais foi feita com base na escala 1 :
50.000, o que permite uma maior visualização e precisão de cálculo. À tabela registrou um valor de 2.454.400 ha, que compreende a região Sudoeste do RS. Deste total foi classificada e calculada a área de duas categorias: areais e focos de arenização - perfazendo 4.747,53 e 1.675,45 ha respectivamente. O somatório dessas duas categorias - 6. 422,98 ha corresponde a 0,26% da região em observação.
A imprensa, por sua vez, costuma apresentar dados de milhares de hectares em “desertificação” / arenização nesta região. Souto se refere a uma área em torno de 300.000 ha como extensão cujo substrato é o arenito e, por consequência, suscetível à arenização. Estudos de maior detalhe elaborados por Veiga et alii e Suertegaray indicam uma heterogeneidade granulométrica dos arenitos que constituem as formações superficiais da região (tabela 2), o que permite afirmar que: o substrato arenoso na região não é de todo conhecido e que os estudos até então elaborados indicam, para a área, uma variabilidade bem como um grau de susceptibilidade diferenciada no que se refere à erosão. Tomando-se a referência de 300.000 ha como substrato passível de arenização equivalente a 0,49% deste total. Chama a atenção o fato de que, embora o percentual relativo seja pouco expressivo no contexto regional, trata-se de um processo de degradação que atinge áreas significativas no interior das propriedades rurais.
Sobre a gênese dos areais No que se refere à gênese, partimos do pressuposto de que os areais eram de origem antrópica. Esta era a voz corrente, e continua sendo para alguns setores da imprensa e da Secretaria da Agricultura do Estado, entre outros.
A busca de dados ao longo desses anos nos fez recorrer à história e, através do relato de viajantes que percorreram o Estado do RS ainda no século passado, verificou-se a existência de areais àquela época.
Um desses relatos é de Avé- Lallemant. Diz o autor: ”A jua um pouco velada, deitava um clarão turvo sobre a região. Subitamente, em torno de nós tudo parecia branco. Crer-se-ia viajar num campo de neve. Em volta, a areia pura, limpa sem nenhuma vegetação, verdadeiro deserto africano embora de pouca extensão. Dava-me a impressão particularmente melancólica. Viajamos juntos-em silêncio”.
Este relato e um outro apresentado em uma crônica escrita por Heraclides Santa Helena, relativa aos areais de Quaraí, reforça a idéia de gênese não antrópica para esses areais. Na crônica, o autor apresenta o depoimento de Velho Braga, antigo morador da região, o qual afirma que Tabela 1. Distribuição e área total (em ha) de areais no sudoeste do Rio Grande do Sul.
Imagem de satélite 22481.B Alegrete Data: 05/11/89 Imagem de satélite 22480.D Data: 05/11/89 Imagem de satélite 22481.C Data: 05/11/89 Imagem de satélite 22480.C São Francisco de Assis Data: 05/11/89 Total Fonte: Suertegaray (1992) 18 - Revista Plantio Direto - Janeiro/Fevereiro de 1997 seus pais teriam chegado àquelas aragens por volta de 1835 e que lá já se encontravam os areais.
Assim, as informações sobre o processo de ocupação/dominação portuguesa ocorrido na área, a partir de 1810, quando da distribuição de sesmarias, O fato de já existir o gado(introduzido pelos Jesuitas espanhóis), e este criar-se Xucro, sem confinamento, pois o cercamento das propriedades só Iria ocorrer no RS, por volta de 1870, permitem a confirmação do fenômeno dos areais como de causa natural.
O dado definitivo nesta busca, foi a data e os limites da primeira sesmaria doada, na região. Tal doação ocorreu em 1816 e, no documento que expressa sua confrontação, é possível observar que o norte dessas terras confrontava-se com “o arroio que serve de divisa ao Rincão do Areal”, atual distrito do areal no município de Quaraí, RS.
De posse dessas informações, conclui-se que os areais do Sudoeste do RS, particularmente as áreas de maior expressão em hectares, são de origem natural. Áquele tempo, a apropriação da natureza regional se faziase por razões políticas, muito mais que econômicas. Não existia, na épo- Ca, pressão sobre os recursos naturais, decorrente da excessiva ocupação; ao contrário, a área dava início a seu processo de incorporação ao território nacional.
Merece ser destacado também como referência, já neste século, o relato de Rambo:
Em alguns lugares mais altos e planos depara-se um fenômeno único em todo o RS: areais de muitos hectares de superfície no meio do campo, como verdadeiras dunas continentais: é como se a paisagem quisesse conservar uma lembrança do que foi toda essa região nas longínquas eras do triássico, quando ainda não existia a valente flora de campo para subjugar os areais”.
— Este relato é também de muita significância, na medida em que, mesmo qualitativamente, expressa a presença de areais de grande extensão; pressupõe um fato decorrente da dinamica da natureza; Rambo usa o termo Areal, historicamente utilizado para reconhecimento dessas áreas; e ' finalmente, porque escreve em 1942, Periodo que antecede a expansão da tório gaúcho. A cultura da soja é introduzida na região, em parte via arrendamento da terra, ao final da década de 60. Portanto, poderá ter Sido a expansão dessa lavoura Oo instrumento de inten- Sificação de um processo previamente existente e que faz parte da dinâmica natural dessa paisagem extremamente frágil.
Não obstante, reconhecemos que é possível a intensificação desse Processo, em decorrência da atividade antrópica. Em busca da confirmação desta assertiva, concentramos a observação num período histórico Mais recente, 1960 a 1993. Avaliamos, mediante análise multitemporal de Imagens de Satélite, o uso do solo e suas transformações, particularmente na região em que ocorreu a expansão da agricultura (Soja). Objetivou-se com isso, verificar em que medida a atividade agrícola e/ou pastoril tem originado novas manchas de areia.
Os dados levantados em área piloto nos limites de São Francisco de Assis e Manuel Viana, indicam a confirmação do surgimento de novas manchas” de areia. A análise muititemporal feita com fotografias aéreas e imagens de satélite, tomando como período de referência 1964 a 1989, indica uma aumento de 55,53 ha na extensão dos areais, num período de 15 anos.
Propostas de recuperação As propostas de recuperação das áreas arenosas surgiram na década de 70 com a implantação de um “Plano Piloto” em Alegrete, experiência conduzida pela Secretaria de Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul. Este projeto, após 20 anos de implantação, sofreu uma avaliação, na qual o proprietário que cedeu sua terra à experiência mostrou-se insatisfeito com os resultados alcançados. Entre os problemas levantados durante a avaliação merecem destaque: o uso de verbas públicas para recuperação de degradação (areais) em propriedade particular; o sistema de plantio inadequado, com espécies arbóreas plantadas em linha e no sentido contrário às curvas de nível (montante para jusante), provocando, com o tempo, problemas de erosão hídrica; a construção de esteiras para retenção de areia com material transportado de longa distância; a frustração com o plantio de acácia e o cancelamento do projeto por falta de verba. Os problemas apontados provocaram um certo abandono do processO de recuperação dessas áreas. No entanto, a década de 80 constituiu-se num momento de pesquisa mais intensiva e no final deste período e início dos anos 90, sob a orientação de um novo governo do Rio Grande do Sul, surgiram outras tentativas de discussão e de proposições de recuperação. Assim, as propostas alternativas, hoje em discussão/implantação no Estado, têm em seu bojo os seguintes elementos: 1. Recuperação de areais através da iniciativa privada com Intermediação do Governo do Estado via Secretaria da Agricultura; 2. Recuperação dos areais atravês do plantio de espécies exóticas (eucalipto e acácia negra) pelo sistema de consórcio entre produtor rural e empresário ou pela aquisição direta de mudas na empresa; 3. Incorporação das áreas de areais ao processo produtivo pela introdução de outras formas de uso do solo, em particular, o reflorestamento com vistas a industrialização da região. Esta proposição assenta-se, injcialmente, no reflorestamento e, posteriormente, na implantação de indústrias moveleiras, de madeira e celulose naquela zona do Estado, e na promoção de incentivos fiscais para desenvolvimento das atividades agro-industriais sem as quais não haveria competitividade, em razão do custo de transporte da matéria-prima até as indústrias localizadas na região metropolitana.
No âmbito da Universidade, por Iniciativa de Bellanca e Suertegaray, foi registrado no Instituto Nacional da Propriedade um pedido de garantia de prioridade de Patente Modelo Utilidade. O pedido de prioridade consta de um plano de manejo em áreas arenosas para fins de recuperação e plantio de gramíneas e/ou frutíferas. Este projeto constitui uma possibilidade de recuperar os areais com a vegetação que originalmente recobre aquelas áreas ou através de frutíferas cítricas (espécies com boa adaptabilidade aqueles solos). Z Revista Plantio Direto - Janeiro/Fevereiro de 1997- 19