O solo constitui um sistema termodinâmico aberto onde se processam intercâmbios de energia e de matéria com o ambiente. Assim, de acordo com a lógica sistêmica, a trajetória evolutiva dos solos depende da velocidade e da complexidade dos fluxos através dos quais se realizam as trocas. Perturbações nestes fluxos, que ultrapassam um determinado limite, tendem a se ampliar pelo sistema, modificando o seu funcionamento e produzindo um novo regime. Nesta ótica, os ”campos de areia”revelam precariedades quando se trata de compensar perturbações, o que se evidencia em vários indicadores: a fragilidade da vegetação, a baixa capacidade de fornecimento e retenção de nutrientes e à alta suscetibilidade à erosão hídrica e eólica.
Inda que o tema esteja longe de ser crescente interesse pelos processos ace” esgotado, torna-se importante re- : lerad ê s, especial ver o conceito mais antigo e restri- mente no A bla us S PACYONU desde em to de desertificação. Tal conceito pressupõe “tãoo conceito de deserto começou a sei a existência de regiões onde a produção de ampliado, incorporando a degradação, à vegetal ou animal é impossível ou margi- regressão da O COMUNINAdS biológica, espenal, se dependente de água da chuva, e cialmente vegetal, a diminuição na capacujos solos se caracterizam pelo acumulo cidade produtiva do sistema e a perda dos produtos de intemperismo na ou próxi- Substancial de solos por erosão hídrica e mo à superfície, gerando acúmulo de Sais, — eólica como O aracts elas rincipais dos como carbonatos. Assim, a definição de de- proces d EA P serto, mesmo a encontrada em dicionário, 255 OP Ceseriiicação:
ã Os solos são entes tanto mais com- *Antonio Carlos de não adequa as características dos campos plexos quanto aa Q— O CONTaueto Azevedo e João ge areia do Rio Grande do Sul. Suertegaray observamos, o que pode ser feito de dife- Kaminski são denomina Sds de entre eAao o Processo defor- rentes maneiras. O solo pode ser imagina” professores do Departa- cao a co, e AE SS Es DO irdo,do ponto de vista termodinâmico, comº mento de Solos, do retrabalhamento de depósitos areníticos um sistema aberto, isto é, que troca ener- Centro de Ciências pouco ou nada consolidados, promovendo gia e matéria com o ambiente (neste caso Rurais da Universidade mobilidade aos sedimentos não protegidos ambiente significa somente o espaço dos Federal de Santa Maria. —— Pela vegetação.
limites arbitrados para o sistema). A dinâ- À partir da década de 70, houve um mica do sistema geralmente é caracteri- 20 - Revista Plantio Direto - Janeiro/Fevereiro de 1997 zada pela velocidade e composição dos fluxoS através dos quais se realizam as trocas. | Prigogine revolucionou o entendimento sobre O comportamento de sistemas termodinâmicos abertos introduzindo, entre outros conceitos, o de que estes possuem subsistemas que amortecem variações nos fluxos até um certo limite, que depende da composição e funcionamento do sistema. Perturbações nos fluxos que ultrapassem este limite, ampliam-se Tabela 1. Propriedades de horizontes superficiais de sudoeste do Rio Grande do Sul.
equilíbrio dinâmico com o ambiente mas sujeito à perturbações, tanto maiores quanto menor a capacidade de Seus subsistemas em compensar as flutuações. No solo, um exemplo desta capacidade é o poder tampão, ou a Sua resistência à mudança de uma propriedade qualquer.
Sobre o sistema que se desenvolve nos campos de areia, pode-se ressaltar de início sua fragilidade, por se tratar de solos com baixa capacidade de compensar as perturbações Adaptado de Klamt (1994). Amostras:
|: Areia Quartozsa Vermelho Amarela em São Francisco de Assis. 2: Latossolo Vermelho Escuro Distrófico em Manoel Viana 3: Podzólico Vermelho Amarelo em Rosário do Sul.
pelo sistema e modificam seu funcionamento para um novo regime. Portanto, os solos possuem uma trajetória e uma taxa evolutiva que podem ser alterados a qualquer momento por modificações antrópicas ou naturais nesses fluxos. O equilíbrio entre a matéria e a energia que o sistema recebe do ambiente, chamado de equilíbrio dinâmico, pressupõe que as variáveis características do sistema não mudem no tempo, o que não implica que o mesmo esteja parado.
Apesar de parecerem bastante abstratas à primeira vista, estas con- Siderações descrevem com uma boa aproximação o comportamento e a evolução de solos. De fato, ao se aplicar os conceitos na interpretação de modificações ocorridas em um solo 25 anos após aplicação de calcário, encontramos coerência com o comportamento observado.
Em síntese, podemos entender O Solo como um sistema aberto, em nos fluxos de troca com o ambiente. À fragilidade dos subsistemas se nota pela precariedade na permanência da população vegetal que, quando eliminada, dificilmente se reinstala (subsistema biológico), pela baixa capacidade de fornecer nutrientes (subsistema mineralógico) e de retêlos (subsistema físico-químico) ou pela alta suscetibilidade à erosão hídrica e eólica (subsistema físico).
A ocorrência destes campos tem registros antigos e está relacionada à erosão geológica, porém, a ação antrópica de ocupação e o aumento da pressão de exploração destes sistemas aceleram as taxas de ocorrência do processo degradativo.
A região dos núcleos de arenização está inclusa principalmente na unidade de mapeamento Cruz Alta (Latossolo Vermelho Escuro, com ocorrência de Areias Quartzosas, mas também de solos Podzólicos das uni!- dades São Pedro e Santa Maria). As unidades possuem em comum perfis profundos, textura areia e areia franca nos horizontes superficiais. Nos horizontes subsuperficiais, a textura se mantém arenosa nas Areias Quartzosas, havendo um aumento suave na percentagem de argila no By do Latossolo, passando a textura para franco arenosa, enquanto que no B; dos Podzólicos há um aumento abrupto de argila, passando a textura para franca argilo arenosa. Possuem forte limitação natural quanto à fertilialguns solos que ocorrem em regiões de campos de areia do ameno | Wo 6 37 0,2 7 36 0,8 3 37 0,1 dade e alta suscetibilidade à erosão, devido à pobreza de bases no material do qual se originaram e em razão de sua granulometria grosseira.
Os núcleos de arenização manifestam-se predominantemente sobre as areias quartizosas, as quais não estão mapeadas porque não puderam ser representadas ao nível de detalhe com os levantamehtos de solos disponíveis para o Estado do rio Grande do Sul (reconhecimento, 1:750.000, Brasil (1973); Radambrasil (1986), 1:1.000.000).
Os solos originados dessas formações arenosas apresentam um perfil granulométrico que dificulta a formação de unidades de estrutura - OS teores de argila oscilam entre 6 e 12% e a acumulação de matéria orgânica (M.O.) é muito pequena, da ordem de 0,1a 0,7%. Isto lhes confere um caráter extremamente débil de resistência aos processos erosivos, quer de origem hídrica ou eólica. Por Revista Plantio Direto - Janeiro/Fevereiro de 1997- 21 outro lado, os baixos teores de argila e M.O. imprimem ao solo propriedades físico-químicas que se refletem na retenção dos nutrientes essenciais ou das substâncias portadoras destes nutrientes em níveis muito baixos ou insuficientes (Tabela 1). Também o armazenamento de água torna-se difícil, provocando consideráveis déficits hídricos mesmo em curtos períodos de estiagem. Aliando-se ainda a ocorrência de ventos e a má distribuição das chuvas, apesar da elevada precipitação média anual (1.400 mm), criam-se as condições para o aparecimento de pro- Cessos erosivos. Além disso, a forma de ocupação descontrolada tem contribuído para agregar novos agentes de degradação da cobertura vegetal, como o aparecimento fregqúente de formigas cortadeiras. Nesse sentido, Amante destaca que dez sauveiros/ha com cinco anos de idade ocupam 1% da superfície do solo e consomem, em média, quantidade de pasto equivalente a um boi/ ha. O mesmo autor relata que a infestação dessas formigas, quando não existem inimigos naturais ou outro tipo de controle, pode atingir a 64 sauveiros/ha em cinco anos.
A utilização desses solos para fins econômicos deve merecer cuidados, entre os quais se destacam essencialmente a perenização da cobertura dos solos e o aporte de nutrientes. Isso pode ser fundido numa mesma sistemática de uso e manejo destas terras - rotação de culturas, adubação verde, manejo de restos TECNORE== — EESACRO | Passo Fundo - Av. Brasil, 2428 - Fone: (054) 314 1130 - Fone/Fax: ( Boqueirão 054) 314 1533 culturais, plantio direto, renovação de pastagens, etc -, de modo que se Introduza no sistema OS nutrientes essenciais, e que sejam manejados para minimizar as perdas por lixiviação, com uso de menores doses e aplicações mais frequentes, dadas as características físico-quimicas de solos arenosos. O benefício será a maior produção de massa verde, permitindo maior cobertura do solo e o aumento da matéria orgânica, com todas as vantagens que ISSO representa, inclusive na manutenção de umidade e no armazenamento das águas das chuvas.
Trabalhos conduzidos no Paraná com solos originados do arenito Caluá destacam que, além do nitrogênio, Fósforo e Potássio, também o Enxofre tem apresentado teores deficientes. Porém, em áreas usadas há mais tempo são observadas deficiências de Zinco, Boro e Molibdênio e não são raros os relatos de insuficiência de Cálcio e Magnésio. É possível que essa situação também ocorra com os solos arenosos do Sudoeste do Rio Grande do Sul.
Este conjunto de fatores permite concluir que o uso destes solos deve ser muito criterioso, de modo a evitar a ocorrência de VOÇOrocas imensas que surgem e se expandem rapidamente devido ao manejo incorreto. Especial atenção deve ser dedicada às areias quarizosas, atentando para o impedimento do tráfego de animais, para a manutenção e se possível incremento da vegetae Sementes e Fertilizantes e Produtos para * Cultura da Maçã 22 - Revista Plantio Direto - Janeiro/Fevereiro de 1997 ção, com especies adaptadas às con. dições de baixa fertilidade, baixa ca.
pacidade de retenção de água pelo solo, e que se caracterizam pela re. sistência dos tecidos à agressão pela areia carregada pelo vento. Esforços no sentido de implementar práticas adequadas e economicamente viá. veis têm sido feitos pela Secretaria da Agricultura e pela Emater, sendo constante a divulgação e ampliação das mesmas, como pôde ser constatado recentemente em dia de cam- DISTRIBUIDOR AGROCERES Plantio Direto - Soja e Milho COM ASSITÊNCIA TECNICA po realizado em São Francisco de Assis. Na ocasião, o escritório local da Emater apresentou resultados sobre o manejo de gramíneas na prevenção do aparecimento dos núcleos de arenização, e sobre o uso de reflorestamento na estabilização das áreas já afetadas, com algum retorno econômico. Segundo os dados apresentados, o uso de braquiária se Justifica pela alta taxa de cobertura do solo (10 t/ha de massa seca), boa resistência ao pisoteio, adaptação a solos arenosos, boa palatabilidade e valor nutritivo. A recomendação dos técnicos da Emater para o manejo consiste na subdivisão das áreas em parcelas “cercadas, usadas alternadamente para o pastoreio, permitindo o rebrote e a cobertura constante do solo. Também foi apresentada uma avaliação econômica da implantação de espécies de pinus e eucalipto, que já competem em igualdade com o kg do boi vivo, res” tando em aberto a questão do periodo de retorno do investimento. — E Baytan - Lebaycid - Folícut Baycor - Bayfidan - Tamaro