Carlito Loss está Desenvolvendo Plantio Direto na Bolívia


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Publicado em: 01/03/1997

história do plantio direto no Brasil foi feita por inúmeros produtores e técnicos, de diversas áreas da pesquisa, extensão e de empresas privadas. Naquele que foi o principal cenário onde o sistema se estabeleceu como uma tecnologia vitoriosa, os Campos Gerais do Paraná, que tem como centro geográfico a cidade de Ponta Grossa, um grupo de técnicos e produtores se destacou no final da década de 70 e início dos anos 80, atuando na linha de frente das grandes batalhas que se travaram para o estabelecimento da nova tecnologia. Um desses técnicos, o engenheiro agrônomo Carlito LOSS, pessoa vastamente conhecida em todo o Brasil e também no exterior, participou desse grupo, e desde que terminou o curso de agronomia, já estava direcionado a trabalhar com plantio direto. “Em 1979, fiquei um ano na À, Holanda, em função de E. um convênio da Coope- ”hm rativa Central de Lact- IT ijcínios, que era a Central VEN Técnica das cooperativas Arapoti, Batavo e Castrolanda, com objetivo de estudar melhoramento vegetal para o desenvolvimento de forrageiras com potencial de cobertura verde, para a implantação da semeadura direta”, disse Carlito Loss à Revista Plantio Direto, durante a realização do Congresso de Plantio Direto, em março de 1996, em Ponta Orossa. Trabalhando atualmente na Bolívia, onde está tendo importante papel , juntamente com outros técnicos e produtores, Carlito foi uma das figuras mais proeminentes naqueles anos básicos da década de 80, quando o plantio direto se estabilizou nos Campos Gerais e estabeleceu raízes em diversas regiões do Brasil e da América Latina. Com uma tranquilidade que lhe é característica, ele narrou alguns lances de sua história, intimamente ligada aos principais momentos dos 25 anos que o plantio direto desenvolveu até 1997. O respeito que Carlito Loss adquiriu nesse período é uma prova de sua maturidade técnica e de uma postura pessoal admirável, do qual todos somos testemunhas. Aqui, contados por ele mesmo, apresentamos alguns dos principais momentos históricos de sua trajetória na Cooperativa Central de Lacticinios, na Basf , na Fundação ABC e agora como assistente técnico da Distriburdora da Zeneca na Bolívia, tem como suas opiniões sobre agricultura e o plantio direto.

O INÍCIO “Formado em 1978, pela Universidade Federal do Paraná, eu já estava acertado com a Cooperativa Central de Lacticínios, de Carambeí. Nesse mesmo ano, os rumos Já mudaram e fui fazer uma especialização na Holanda, no sentido de trabalhar com forrageiras, o que, na verdade, já tinha a ver com plantio direto. Hans Peeten já estava por aqui desde 76. Em 1978, estava programada para sair uma lei de proteção de cultivares e aconteceu um projeto conjunto de 2 empresas holandesas produtoras de sementes de forrageiras com a CCLP, para a montagem de uma empresa de capital misto, que chegou a ser formada, com o nome de Holbrasil. Fiquei todo o ano de 19/9 na Holanda estudando melhoramento vegetal!

Revista Plantio Direto - Março/Abril de 1997- 5 em forrageiras, com objetivo de obter coberturas verdes para implantação de plantio direto, pois era pouco o conhecimento a respeito desse assunto. Na metade do ano, como a lei de proteção à cultivares não saía, os holandeses desistiram do negócio e a empresa mista acabou. Nesse período, iniciamos um trabalho paralelo com a GT Z e Rolf Derpsch, trazendo uma grande quantidade de espécies e variedades para checar sua adaptação entre nós, em função da cobertura de solo, pois muito pouco se conhecia nessa área.” ”Não havia conhecimento suficiente por parte dos produtores e técnicos, de forma que muitos erros foram cometidos e a frustação apareceu. Os frutos do plantio direto vieram mais tarde do que se imaginava.” POSTO DE FOMENTO “Quando voltei, no início de 1980, começamos um trabalho de produção de sementes de forrageiras, fizemos o projeto de uma unidade produtora mas enfrentamos uma dificuldade muito grande que é a não existência de uma regulamentação para semente dessa categoria. Isto impediria o crescimento nessa área, porque o mercado não absorveria a produção de um material com um custo maior. Nessa época, a Cooperativa Central fêz um convênio com o Ministério da Agricultura para a utilização do Posto de Fomento, uma área de 440 ha, em Castro, e eu fui deslocado para coordenar a parte experimental. Iniciamos imediatamente um trabalho visando o desenvolvimento de coberturas com forrageiras e os efeitos de cada material na cobertura do solo. Foi no Inficio de 80 que começamos a estudar e a conhecer o efeito das coberturas no plantio direto, o relacionamento entre cultura anterior e posterior, combinação e rotação de culturas.

Começamos também naquela época ensaios comparativos entre plantio direto e preparo convencional, tentando levantar custos, efeitos e benefícios para o plantio direto da região. Nos tres anos que estive no posto de fomento, trabalhamos em conjunto com Hans Peeten, que na época também já se dedicava exclusivamente ao plantio direto, atendendo mais a parte de máquinas e controle de ervas.

Em 1982, a agricultura enfrentava uma situação difícil e houve a possibilidade do ingresso na Basf, que possula um interesse bastante acentuado no plantio direto, apresentada como uma agricultura sustentável, de maior rendimento para o produtor. A Empresa desenvolveu os primeiros produtos herbicidas pósemergentes, Basagran e Poast, que foram importantes no estabelecimento do sistema, porque, até então, não tinhamos condições de controlar gramíneas na cultura da soja, em plantio direto. Naquela Época, era comum o produtor de plantio direto perder grande parte da área em função de Infestações pesadas de braquiária muito comum na nossa região. Por esse interesse da Basf em alguém que pudesse ajudar no desenvolvimento do plantio direto é que passei a trabalhar para a Empresa, atendendo a região dos Campos Gerais. Foram 9 anos de Basf, com um trabalho básicamente direcionado Para plantio direto. Nesse período, minhas atribuições em termos de área foram crescendo, mesmo que eu continu- 6 - Revista Plantio Direto - Março/Abril de 1997 asse morando em Castro. No final como minha incumbência era a nívei nacional, a situação ficou difícil de administrar e isso acabou determi. nando a minha saída. Como, na ver. dade, o relacionamento entre as co. operativas do grupo ABC e a Basf continuava forte, não houve trauma nenhum. Pelo contrário, em 86 conseguimos firmar o primeiro convênio entre uma empresa privada e uma cooperativa (Basf e Castrolanda) visando o desenvolvimento da experimentação agrícola num campo demonstrativo. No começo, este projeto sofreu restrições porque haviam desconfianças sobre os objetivos do emprendimento. Hoje, todos sabemos que foi um projeto vitorioso.

PLANTIO DIRETO ”Avaliando hoje, podemos aíirmar que cometemos alguns erros, principalmente no sentido de querer fazer a coisa muito grande. Muita gente se frustrou porque não havia uma base necessária. Nós faziamos grandes eventos, com quase 2 mil pessoas, que saíam empolgadas mas, quando encontravam as dificuldades em casa, não havia ninguém para socorrer, porque não havia uma estrutura técnica que desse suporte. Não havia conhecimento suficiente por parte dos produtores e técnicos, de forma que muitos erros foram cometidos e a frustração apareceu. Os frutos do plantio direto vieram mais tarde do que se imaginava. A região dos Campos Gerais firmou no plantio direto a partir de 1984. No período de 78 a 81 houve uma grande euforia mas, a partir de 1984, desenvolveu-se um maior questionamento sobre aspectos como compactação, Incorporação de calcáreo, controle de ervas, etc. A partir de 1984, o produtor passou a dizer que não queria mais revolver o terreno. Isto favore- Ceu a que se procurasse as alternat!- vas dentro do sistema. Situações Como as de doenças do milho, cancro da haste da soja, bicudo da soja em que a proposta de resolução Int cial passava pela lavração, foram rejeitadas pelos produtores e técnr- COS, que passaram a buscar as soluções dentro do sistema. De uns 3a 4 anos para cá, o crescimento tem sido firme e podemos afirmar que não existe mais a possibilidade de regressão.

FUNDAÇÃO ABC ”Entrei na Fundação no início de 1991, para substituir Hans Peeten. A Fundação foi criada em 1984 com uma equipe pequena, mas a idéia era boa e ela cresceu, No início dos trabalhos as perguntas se referiam à questões como a implantação do plantio direto e tudo levou a entidade a ser mais pesquisa do que antes, quando ela trabalhava para o desenvolvimento, em áreas demonstrativas, Pelo nível de dificuldades que enfrentamos, tivemos que nos aprofundar e evoluir dentro de cada tópico, mas sempre mantendo o plantio direto como base. A Fundação ABC trabalha para ter soluções para a agricultura dos Campos Gerais e, como esta agricultura passa pelo sistema, todo o trabalho se baseou no plantio direto. Hoje, existem outros questionamentos, pois as terras também ficaram caras para a exploração sómente de grãos, em função do alto custo Inicial. Existe escassez de terra porque os limites e as fronteiras acabaram, não tem mais como se expandir em termos de área. O que me parece claro é que qualquer cof!- sa que se faça nesta região, teremos uma dependência grande do plantio direto. Seria uma lástima você Interromper um processo de plantio direto com 86-10 anos, para fazer uma cultura de batatas. Naturalmente que, quando se faz isso com um mínimo de revolvimento, o que é viável, torna-se possível um beneficio geral em toda esta situação, fazendo a cultura e retornando para o sistema. lemos o exemplo de um produtor pioneiro de plantio direto, que iniciou em 1976, que já fez plantio de batatas em áreas de PD, com um preparo de menor antecedência, menor revolvimento, menor agressão. De qualquer forma, para quem lutou tanto pelo plantio direto, dá uma dor no coração ver “-.. 2... .

”Sabemos que o plantio direto extrapola, é uma forma de educar o produtor, pois se trata de um sistema muito mais dependente de planejamento e de uma adequada condição de lavoura.

uma lavoura de batatas. Como declarou Mr. Shirley Philips, o plantio direto só é limitado pela imaginação do homem e, de fato, percebemos que as opções são inúmeras. Quando iniciamos o sistema, tinhamos como objetivo apenas o controle da erosão, mas hoje sabemos que o plantio direto extrapola estas questões e, acima de tudo, é uma forma de educar o produtor, pois se trata de um sistema muito mais dependente de planejamento e de uma adequada condição de lavoura.

”Esta nova empreitada traz um monte de desafios. Em julho de 1995, quando estive na Bolívia para participar da Primeira Jornada de Plantio Direto, realizada em Santa Cruz de la Sierra, mantive os primeiros contatos com pessoas interessadas em desenvolver o sistema naquela região. Minha mudança evoluiu rápidamente e a primeira coisa que me chamou a atenção foi o fato de que cada local tem seus próprios motivos para fazer plantio direto. Se trouxermos um produtor que faz preparo convencional, principalmente, ele dirá que aqui não precisa plantio direto, porque a erosão é improvável. Além da topografia fantástica, a fert!- lidade é bastante alta e o pH próximo de 7. Os motivos básicos para se fazer plantio direto na região de Santa Cruz é a erosão eólica e a estrutura fraca do terreno. Tratam-se de solos jovens, não muito bem estruturados. Em pouco tempo, você acaba perdendo essa estrutura. Uma descrição da região mostram solos formados por sedimentos vindos dos Andes (Santa Cruz está numa bacia). A altrtude média é de 400 m e a precipitação fica em torno de 2000 mm, o que gera problemas de infiltração e perdas de produção por excesso de água.

À cultura da soja está crescendo muito e hoje já passa de 500 mil ha. Isto se deve básicamente aos brasileiros que vieram para cá. Além da soja temos milho, algodão, uma cuitura em expansão, e cana, nas proximidades de Santa Cruz. O potenci”!- al para soja aponta uma área de um milhão e meio de ha, com áreas de altíssima fertilidade, onde é possível plantar sem adubo. No momento, diminuiu um pouco a chegada de brasileiros porque muitos que compraram terras na Bolívia não puderam saldar seus compromissos, em função da falta de liquidez da agricultura no Brasil.” = Revista Plantio Direto - Março/Abril de 1997- 7