A Expansão da Agricultura no Centro-Oeste Brasileiro e os Surtos Recentes do Percevejo-Castanho


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Publicado em: 01/07/1997

entre as poucas regiões ainda existentes no nosso planeta que permitem a expansão da atividade agrícola, está a região do centrooeste brasileiro, com belíssimos planaltos (chapadas) que se estendem até as franjas da floresta Amazônica. Nos últimos anos, essa região tem sido incorporada ao processo produtivo agrícola a uma velocidade as- Sustadora, com o surgimento de cidades e pólos centralizadores ainda muito pouco conhecidos do cidadão comum e que não constam dos mapas. Essas mudanças com o surgimento de cenários agrícolas (soja, principalmente) e pastoris (pastagens), em substituição à vegetação nativa, trouxeram, indiscutivelmente, uma atividade econômica agrícola efervescente, fato raro nos dias de hoje, não apenas a nível local, mas até mesmo no cenário internacional.

Mas o que parece tão somente progressos traz consigo problemas também. O fato de se erradicar grandes extensões de vegetação nativa, com a diversificação inerente dos sistemas naturais, para se implementar monoculturas agrícola como a soja, milho ou sorgo, ou extensas áreas com pastagens artificiais, como as braquiárias e outras gramíneas melhoradas, não iria passar incólume frente as leis da natureza. Ou seja, quaisquer que sejam as perturbações que se façam ao ambiente natural estável, ocorrem respostas mais ou menos imprevisíveis. Dentre estas respostas, está o surgimento de erupções populacionais de um inseto, CO- nhecido popularmente como percevejo-castanho ou percevejo-enterrador. Habitante na- Antônio Ricardo Panizzi* tural de vegetações nativas, e muitas vezes desapercebido, encontrou nas vastas áreas cobertas com soja (neste caso a espécie Scaptocoris castanea) ou com pastagens (neste Caso a espécie Atarsocoris brachiarea - espécie recém descrita pela Profº Drº Miriam Becker da UFRGS) um ambiente extremamente favorável para sua multiplicação. O fato de serem ambas espécies polifagas, a passagem ”Hoje esses insetos transforman-se na preocupação prioritária dos agricultores e pecuaristas, que estão experimentando os seus efeitos devastadores nas lavouras e pastagens”, da exploração de hospedeiros nativos para os hospedeiros artificiais, introduzidos maciçamente, foi um processo simples, questão de detalhe. Hoje, esses insetos transformaramse na preocupação prioritária dos agricultores e pecuaristas, que estão experimentando os seus efeitos devastadores nas lavouras e pastagens.

Diferente de outras espécies de percevejos fitófagos, que se alimentam de frutos ou sementes, o percevejo castanho apresenta Revista Plantio Direto - Julho/Agosto de 1997- 27 cevejo-castanho. No norte do Paraná onde o inseto tem se localizado em áreas restritas, muito provavelmente por não se adaptar ao solo extremamente argiloso da região.

hoje. Há inúmeros registros na literatura da ocorrência do percevejo castanho (no caso a espécie S. castanea, embora possa ter havido confusão com a espécie nova identificada recentemente) em inúmeras culturas, incluindo a cana-de-açúcar, amendoim, o algodão, entre outras, em vários estados, do Rio Grande do Sul a Minas Gerais. Esses surtos, com rergistros nas décadas de 40 e 60, desapareceram tempos depois. Houve, na época adoção de medidas de controle, tais como o uso de inseticidas (os hoje banidos clorados) e práticas culturais (controle mecânico, substrtuição de culturas, etc.). Entretanto, fica difícil apontar as razões que levaram, se não ao desaparecimento, uma das mais espetaculares adaptações para explorar as raízes das plantas como fonte de nutrientes. É pequeno (menor que 1 cm), com o corpo ovalado-achatado, apresentando o primeiro par de patas com as tíbias ponte agudas (os tarsos por serem estruturas utilizadas para se prender ao substrato - folhas, por exemplo - são vestigiais na espécie S. castanea e desapareceram completamente na espécie A. brachiarea) e fortemente desenvolvidas, adaptadas para cavar. O segundo par de patas apresenta as tíbias achatadas, tipo remos , adaptadas para puxar Oo Solo; e o terceiro par de patas, apresenta os fêmures engrossados e as tíbias reforçadas terminando em cor- Enquanto o problema persiste. em especial no centro oeste brasilerro, e, na medida que se dispõe de poucas informações para manejar esse inseto-praga, fica-se na dependência da evolução do conhecimento sobre a bioecologia do percevejocastanho, em especial nesta região de expansão da agricultura, com todas as suas peculiaridedes. Claramente, há necessidade de se gerar informações de longo alcance, das quais poderia se mencionar algumas: estudos de aspectos biológicos (temte vertical (tipo ”pata de elefante”) adaptadas para empurrar. Dotado de tais características, é fácil de entender o porquê desses percevejos atingirem até 2 m de profundidade, explorando raízes profundas. Além desse hábito de enterrar-se (daí o nome de percevejos enterradores), são voadores hábeis. É fácil presenciar pequenos enxames dos percevejos em vôo, principalmente nos dias quentes e úmidos, típicos do verão do Brasil central, embora isso ocorra também em outras regiões (com certeza, muitos dos leitores já experimentaram uma ”saraivada” de insetos no parabrisa do carro - muito provalvelmente um enxame do percevejo-castanho). Com isso os insetos vão se espalhando e colonizando novas áreas. Além dessas características, o forte cheiro exalado pelos insetos quando perturbados (feromônio de alarme), faz com que sejam pouco apreciados por predadores quando em vôo ou quando pousam no solo, antes de se enterrarem. Além disso, o mimetismo (são marrons da cor do solo) fazem com que escapem de algum possível predador menos seletivo.

Com tantas características adaptativas, esse inseto realmente parece se contituir num sério desafio aos entomologistas. E isso não é de à drástica redução no número desse inseto, ou mesmo, se esse inseto apresenta ciclos eruptivos cíclicos, típicos da espécie, independente da ação humana. Claramente, passados todos esses anos, o grau de conhecimento da biotecnologia do percevejo-castanho permanece o mesmo, Isto é, quase nada, a maior parte do conhecimento sendo especulativo a nível de opiniões.

A análise histórica, indicando surtos, seguidos de quedas, na abundância do percevejo-castanho, aponta para uma acomodação das populações do percevejo em níveis toleráveis pelos agricultores e pecuaristas do centro-oeste brasileiro no futuro. Enquanto essa situação mais confortável não chega, algumas medidas para mitigar o efeito do percevejo-castanho tem sido tomadas, com resultados parcialmente animadores, embora não definitivos. Essas medidas incluem o tratamento de sementes com inseticidas e/ou incorporação de inseticidas granulados no solo por ocasião da adubação. Estudos que estão em curso no Mato Grosso (desenvolvidos pelo Dr. José L. do Amaral da EMPAER e colaboradores) indicam que os solos arenosos, ácidos e com baixos teores de matéria orgânica, favorecem o perpo de desenvolvimento de ninfas e de adultos, longevidade, performance reprodutiva, etc.), aspectos ecológrcos (hábitos alimentares e consequências para a planta hospedeira, dispersão, enxameamento, plantas hospedeiras preferenciais, comunicação feromonal) e aspectos comporiamentais (ligados a reprodução, ali mentação, dispersão e competição inter e intraespeciífica).

Sabe-se que na história da vida de um organismo existem pontos vulneráveis. O conhecimento dessa história da vida faz com que se descubra os pontos fracos do organismo em estudo. Uma vez conhecidos, à questão é delinear uma estratégia para atingi-los e assim dominar O oponente. Esse conceito se aplica muito bem ao percevejo-castanho. Estudos como os mencionados, outros, são necessários para permitir elaborar medidas de controle efi- Cazes desse inseto. Enquanto essa” medidas não se tornando disponíveis, deve-se implementar as práticas mencionadas de resultados duvidosos, mas que podem funcionar. E esperar para que a abundância atua!

do percevejo-castanho decresça para níveis mais reduzidos que permitam uma convivência aceitável econom!- camente. -