ISO 14000: O Impacto Ambiental e a Agricultura


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Publicado em: 01/09/1997

Pesquisador da Embrapa Trigo, Passo Fundo-RS epois da ISO 9000, surgiram as séries ISO 14000, relacionada à gestão ambiental, e a ISO 18000 que trata da segurança e da saúde do trabalhador.

O credenciamento de empresas que se adaptam as normas gerais das séries ISO garante confiabilidade ao mercado e ao consumidor. Nos mercados regulamentados ele já é uma das exigências legais para a entrada de produtos de outros países; por exemplo, instrumentos e equipamentos médicos, na União Européia.

À partir da experiência e do sucesso da ISO 9000, a Organização elaborou normas e procedimentos destinados a uniformizar as metodologias para a implantação e a avaliação de sistemas de gestão ambiental. A nova 36 - Revista Plantio Direto - Edição Especial - Setembro/Outubro de 1997 Dirceu Gassen' série recebeu a denominação de ISO 14000, que se divide em seis grupos de atividades: sistema de gestão ambiental; auditoria ambiental: certificação ambiental; avaliação de desempenho ambiental; análise de ciclo de vida: e termos e definições. Além desses, hã um grupo de trabalho responsável pela compatibilização das normas ISO 9000 e as normas da ISO 14000.

As normas de gestão ambiental, terão grande influência no mercado internacional de produtos, resultando num caráter mais efetivo que as normas de gestão de qualidade. A aprovação e a adoção das normas da ISO 14000 começa a preocupar aos produtores e aos criticos que a denominam de “ecoprotecionismo”, 3 - Exemplos na agricultura A produção de alimentos sempre foi considerado setor estratégico para a soberania dos países, Com a globalização das economias, a queda das tensões de guerra, a necessidade de melhorar as condições de vida dos países pobres e as exigências de produção com menor impacto ambiental, a agricultura passa por profunda reestruturação, buscando maior rendimento e melhor qualidade, associados à recuperação e manutenção dos recursos naturais.

Com a conscientização da sociedade e as exigências dos mercados, a produção agricola deverá ser mais eficiente, sem descuidar da recuperação dos recursos naturais. Esta combinação certamente terá um custo social elevado. A exclusão de pequenos produtores, minifundiários, de baixos rendimentos, serâ inevitável.

Os indicadores de qualidade ambiental na produção agropecuária ainda estão sendo definidos. Algumas evidências indicam que a água, a erosão, O carbono no solo, o uso de para a aplicação de agrotóxicos, para a aliagrotóxicos co rendimento obtido se constitu- mentação de animais domésticos e para o em nas principais variáveis a serem medidas. — lazer. É Neste documento, alguns destes possíveis indicadores serão analisados dentro dos novos princípios que orientam as demandas da sociedade e a produção de alimentos.

para Impedir o acesso à água, temendo intoxicações e abortos. Pode-se afirmar que a água de superfície, em geral, é inadequada | à água é o elemento da maior Importância na produção de alimentos. Estudos sobre plantas, leite e carne, para alimentar um humano evidenciam o consumo de 17 mil litros de água por dia. Alguns produtos como o arroz descascado e o feijão, consomem mais de 2 mil litros de água para cada kg de grão. A carne bovina, produzida em pastagem, consome mais de 43 mil litros de água por Kg. Outros produtos encontram-se listados na Tabela 1. Esses dados evidenciam a importância de adotar práticas de manejo dos recursos naturais para recuperar a qualidade água nos agro-ecossistemas. No Rio Grande do Sul, a crise da água é 3.1 - Água A poluição da água é o sinal maior da aproximação de uma grande crise ecológica. O PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), está alertando sobre a eminência da crise da água potável, que pode ameaçar a população humana, inclusive gerando conflitos internacionais (guerras) pela disputa deste recurso.

Durante as negociações do NAFTA (North American Free Trade Agreement - Mercado Comum da América do Norte), a água foi motivo de acirradas discussões entre o Canadá e os Estados Unidos. O Canadá, detentor de grandes lagos de água po- Tabela 1. Consumo estimado de água para a produção de alguns alimentos (adaptado de Schulbach e Aldrich 1978).

| áqual/kag produto Produto | águal/kg produto tável, argumentou que ela não seria de Alface 192 Laranja 543 uso comum, conforme pretendiam os Arroz 23/1 Leite 1.086 Estados Unidos. Ciente da posição pri- Batata 200 Maçã 409 vilegiada, o Canadá afirmou “no futu- Carne bovina 43.537 Margarina 24.737 : : eo. Carne de Melancia 409 ro a água poderá ter valor estratégico frango 6 805 Milho 1 360 equivalente ao que tem o petróleo Carne suína 13.610 Repolho 326 No Rio Grande do “Sul, a água Cebola 134 Tomate 192 vendida em pequenas embalagens, sem Cenoura 276 Trigo 1 019 gás e sem tratamento, ao preço que va- Feijão 2.122 Uva 964 ria de 0,50 a 0,80 dólares por litro, portanto, superior ao do leite (US$ 0,60/ 1) e ao do diesel (US$ 0,40/1). É cada vez maior o número de pessoas preocupadas com a qual!- dade dos líquidos que ingerem.

As águas de superfície (rios e lagos), quase todas, encontram-se poluídas com esgotos, resíduos de indústrias e material erodido de la- VOUras.

Os agricultores, que usam água para a apl!- cação de herbicidas estão construindo poços artesianos para abastecer os pulverizadores, por causa da presença de argila e material orgânico na água de rios que desativam os produtos apl'- cados na dessecação de plantas. Os criadores de animais de melhor qualidade cercam os rios constatada em quase todos os municípios, exigindo ações imediatas na recuperação deste recurso natural. As exigências das autoridades de fiscalização ambiental deverão ser cada vez maiores e as restrições poderão inviabilizar a produção de alguns alimentos com as tecnologias tradicionais.

3,2 - Erosão de solo A perda de solos provocada pela erosão de chuvas, no Rio Grande do Sul, foi um dos fatores mais negativos associados à modernização da agricultura na década dos Setembro/Outubro de 1997 - 37 Revista Plantio Direto - Edição Especial - lidade de solo. A adição de carbono no solo ocorre através da decomposição de material or. gânico produzido pelas plantas. Quanto maior a intensidade de revolvimento do solo, maior será a perda de carbono na forma de CO, A aração, além de provocar a perda de carbono, causa o aquecimento da superfície através da exposição da terra à radiação solar, importante fator no aumento do “efeito estufa”. A temperatura de solos secos e descobertos pode atingir até 70 ºC, nas tardes quentes de verão. Em dias normais, a diferença de temperatura na superfície de solos cobertos com palha e arados pode atingir valores superiores a SPC:

Dados experimentos evidenciam que a perda de carbono, nas primeiras horas após a aração, varia entre 26 e 67 g/m , enquanto sob plantio direto perde-se 0,8 g (Fig. 1). Em períiodos mais longos, a perda de carbono nos solos arados é seis a o1to vezes superior a de áreas sob plantio direto.

O carbono é considerado o “ouro negro do solo. Na natureza, ele caracteriza terras fértels e a sua manutenção deveria ser a meta principal dos agricultores que planejam produzir a médio e longo prazos. O plantio direto é a prática de semeadura que “seqgiiestra” o carbono no solo, sendo considerado altamente desejável.

anos 70. além dos impactos sobre a água, a fauna e a flora nativas. Os solos arados e gradeados são muito mais suscetíveis aos efeitos negativos das chuvas.

Na década dos anos 70, período de maior impacto ambiental na agricultura do Estado, as perdas de solo por erosão foram estimadas em 24 t/hectare/ano, baseadas em resultados de experimentos de campo. Os rendimentos médios de grãos, neste período, foram de 1350 kg de soja e 850 kg de trigo, totalizando 2200 kg de grãos/hectare/ ano, ou seja, foram perdidas mais de 10 toneladas de terra fértil, pela erosão de chuvas, para cada tonelada de grão produzida.

Perda CO, (g/m?) | | 3.4 - Rendimento de produtos O uso da terra para a produção vegetal ou animal deve ser a mais eficiente possível. Se numa área pode ser obtido rendimento maior com o mesmo uso de solo, de água e riscos de erosão, não é aceitável que se obtenham rendimentos baixos. Como exemplo, o município maior produtor de milho do Rio Grande do Sul, com 50 mil hectares, sob preparo convencio- Figura 1. Perdas de gás carbônico em sete tipos de solos arados (1 a 7) até 3h30 após a aração e sob plantio direto (PD) (Reicosky 1993).

Estes dados evidenciam a insustentabilidade do sistema convencional de preparo de solo. Também, permitem afirmar que “arar e gradear o solo” é prejudicial à aegricultura e ao ambiente natural.

3.3 - Carbono no solo e o “efeito estufa” Estudos recentes, desenvolvidos por D. Reicosky, nos Estados Unidos, evidenciam que a liberação de CO, de solos arados é superior aos emanados pelo consumo de combustíveis fósseis em todo o mundo.

O teor de carbono total é, talvez, o melhor indicador de sustentabilidade e de qua- 30 - Revista Plantio Direto - Edição Especial - Setembro/Outubro de 1997 nal de solo, apresenta rendimento histórico de 1800 kg/ha, equivalente a uma espiga média (180 g) por m2. Com facilidade poderia se produzir duas ou três espigas e duplicar ou triplicar o rendimento médio, com o mesmo esforço e o mesmo uso dos recursos naturais. Cruz Alta é o segundo maior produtor de milho, com rendimentos de 4500 kg/ha, cultivados sob plantio direto, caracterizando o produtor de milho sustentável.

No Estado, os rendimentos médios anuais de milho nos últimos 15 anos, foram 540 kg inferiores aos do Paraná e 2250 kg inferiores