Manejo Integrado e Plantas Daninhas no Rio Grande do Sul


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Publicado em: 01/09/1997

FUNDACEP ”uz Alta (RS) Interferência das plantas daninhas nas culturas de interesse comercial se dá devido a competição por água, luz, CO, e nutrientes e também pelo efeito alelopático, reduzindo-lhes a produção e a qualidade do produto colhido.

Estima-se que a redução causada por plantas daninhas na produção das culturas no Brasil seja da ordem de 20 a 30%, podendo chegar a até 90% em casos extremos, além da diminuição na qualidade do produto e no rendimento da operação de colheita. Para minimizar estas perdas diversas formas de controle podem ser usadas, tais como: evitar a introdução e disseminação de plantas daninhas na propriedade; oferecer condições para que a cultura se estabeleça antes das mesmas, propiciando o controle cultural; uso de cobertura morta, rotação de culturas e o plantio direto; e o controle químico.

O controle químico é uma forma eficiente de controle de plantas daninhas. Entretanto, se usado inadequadamente e de forma isolada, pode onerar o custo de produção. É importante, então, utilizar os métodos de controle de forma integrada e racional, procurando-se um manejo eficlente técnica e economicamente, que considere o sistema de rotação de culturas e não uma cultura isoladamente.

O Manejo Integrado de Plantas Daninhas (MIPD) é um conjunto de práticas que visa a redução da população infestante nas áreas destinadas à agricultura, evitando sua interferência no rendimento das culturas. Com este objetivo, a F UNDACEP, com o apoio das empresas AgrEvo, Basf, DowElanco, Dupont e Zeneca Iniciou, EM Revista Plantio Direto - Mário Antonio Bianchi!

1992, o Programa de Difusão do Manejo Integrado de Plantas Daninhas na Soja, visando a difusão de tecnologia sobre o uso adequado e racional de herbicidas, procurando estabelecer a real necessidade de aplicação dos mesmos.

No início do trabalho em 1992, e hoje em dia também, é comum o controle quíimi!- co de plantas daninhas em 100% da área, sem que para isso sejam efetuados alguns questionamentos básicos como: Quais as espécies existentes?, Qual a quantidade (densidade) de cada espécie?, Qual a distr1- buição ou onde estão localizadas estas espécies na lavoura? e, É de fato necessária a aplicação de herbicida? Acredita-se que com a resposta destas perguntas é possivel proceder uma recomendação mais segura, mais técnica e mais econômica para o produtor.

Durante três anos foram avaliadas 107 propriedades rurais, distribuidas em 26 cooperativas no RS, constatando-se a ocorrência, em percentagem, das seguintes infestantes na soja: leiteiro (Euphorbia heterophylla L.) em 71%, picão preto (Bidens pilosa L.) em 66%, papuá (Brachiaria pantaginea (Link) Hitehe.) em 56%, guanxuma (Sida rhombifolia L.) em 38% corriola (Ipomoea spp.) em 37%, balãozinho (Cardiospermum halicacabum L.) em 16%, nabiça (Raphanus spp.) em 11%, caruru (Amaranthus spp.) e carrapichão (Xanthium strumarium L.) em 8% . Em 70 propriedades rurais foram classificadas as plantas daninhas por densidade (Tabela 1). Nota-se que picão preto, guanxuma, corriola, papuá e milhã, plantas com maior ocorrência, apresentaram maior frequência em densidades de 1 a 10 pl/mº e oleiteiro em densidades de 11 a 60 pl/m 2 Edição Especial - Setembro/Outubro de 1997 - 53 Tabela 1. Frequência de plantas daninhas na soja por classe de densidade em 70 lavouras avaliadas nas safras de 1993/94 e 1994/95. FUNDACEP, Cruz Alta (RS).

Densidade (pl/m”) + de 60 lal0 11 a 60 Ocorrência O r (n de áreas) % por classe de densidade Bidens pilosa L. (Picão preto) 52 44 Euphorbia heterophylla L. (Leiteiro) 22 56 Brachiaria plantaginea (Link) Hicthc. (Papuã) Sl 35 Sida rhombifolia L. (Guanxuma) 74 23 Ipomoea spp. (Corriola) 88 2 Digitaria horizontalis Willd. (Milhã) 66 19 Raphanus raphanistrum L. (Nabiça) 46 27 Cardiospermum halicacabum L. (Balãozinho) 88 12 Amaranthus spp. (Caruru) 73 2) AXanthium strumarium L. (Carrapichão) 71 29 Extraído de Bianchi, 1994 e 1995.

O levantamento destas informações na região produtora de soja no RS, propicia o estabelecimento de prioridades de pesquisa. No entanto, a nível de propriedade, após a identificação das espécies, determinação da densidade de cada espécie e sua localização na lavoura, é possível, quando efetuado o controle químico, escolher o herbicida pós-emergente ou a mistura de herbicidas mais adequada à situação, priorizar o controle naquelas áreas com maior densidade e aplicar onde existem plantas daninhas estabelecidas (germinadas). Estes procedimentos propiciaram, no programa MIPD, uma redução no custo reto, a rotação de culturas e a cobertura do solo.

O não revolvimento do solo para a semeadura mostra-se eficiente, a médio-longo prazo, na redução das principais plantas daninhas. Ruedell (1995), constatou que após 9 anos, o plantio direto reduziu 10 vezes a quantidade inicial de plantas daninhas e o plantio convencional de apenas 2,7 Vezes.

À rotação de culturas no inverno e no verão possibilita o uso de técnicas diferenciadas de controle de plan- Tabela 2. Densidade de plantas daninhas afe tas daninhas. Possibilita também o uso de herbicidas com eficiência e mecanismo de ação diferente, diminuindo com Isto o risco de uma falta de controle, como ocorreu com leiteiro e atualmente ocorre com balãozinho, e da resistência de plantas daninhas a determinados herbicidas, o que seria mais grave. Quanto a rotação de culturas, um estudo conduzido por Ruedell (1995), há nove anos com a proporção de 1/3 de milho e 2/3 de soja, observou redução na densidade de folhas largas e aumento na densitadas pelo sistema de manejo do solo e culturas de inverno, medida 10 dias depois da colheita ou rolagem das culturas (dados referentes ao terceir x Alta (RS). O ano de avaliação) FUNDACEP, Cruz se a A O AA Sistema de manejo Culturas de inverno Densidade (plimº?) peste aeee E a o ui EACERCÁRES de controle de 31 a 58% (Tabela 3), sem ocorrer perdas no rendimento da soja, e redução de 2 a 3 vezes a quantidade de ingrediente ativo utilizada, caracterizando menor impacto ao ambiente (Bianchi, 1994 e 1995). Ervilhaca 13 É importante para o MIPD que Plantio Direto Aveia preta 5 ocorra a redução de plantas daninhas Trigo 235 ao longo dos anos, possibilitando que o controle possa ser realizado em par- ' Ervilhaca 282 te da lavoura, sem haver prejuízo do “lantio Convencional Aveia preta 317 rendimento da cultura. Isto pode ser Trigo 299 alcançado com o uso em conjunto de Fonte RUGAoIL [OGRr QI TE E O ear Se ris sal Es onte: Ruedell, 1988. (Dados não publicados) práticas de manejo como o plantio di- , 04 - Revista Plantio Direto - Edição Especial - Setembro/Outubro de 1997 Area Manejada * LU 22. 28,7 65,3 70) 14,0 (39%) LU ” ã n de áreas avaliadas Controle de plantas d 14,5 22 | 41,8 112,3 13,1 31%) 47,0 (42%) 3 39 3] 101 Extraído de Souza (1993), Bianchi dade de gramíneas. Isto indica que em áreas infestadas de gramíneas, o controle das mesmas normalmente é suficiente para evitar perdas no rendimento do milho, porém poderá ocorrer germinação tardia, deixando a la- : Controle de (1994) e Bianchi (1995) vVOUura suja”. Este fato proporcionou o problema do aumento da densidade de gramíneas na cultura da soja no verão seguinte seguinte. Por outro lado, após a colheita do milho, a presença de papuã pode ser aproveitada plantas daninhas em parte da área como pastagem para bovinos. Neste caso, o referido “escape” tardio do papuá seria desejável.

Técnicas que visam o aumento de resíduos culturais na superfície do SsOIO ao longo dos anos, dificultam a Finalidade:

Tratar a semente de soja, milho, feijão, arroz, trigo e cevada, melhorando o desempenho na dosagem e homogeneidade damistura de defensivos.

Características: - Utilização de produtos químicos líquidos e pó. MTSB 1060 50 a 60 sacas por hora - Acionamento elétrico por. motor de 1CV monofásico ou opção para tomada de força.

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Almeida & Rodrigues (1985), relatam que há predominância de folhas largas após gramíneas e de folhas estreitas após as leguminosas ou cruciferas, sendo a aveia preta, em geral, a mais eficiente na redução de folhas largas e estreitas. Roman (1990), trabalhando com culturas para cobertura de solo mostra que é possível ser obtido controle acima de 95% com aveia preta, aveia branca, colza e trigo para papuãá, com aveia preta, E6 - Revista Plantio Direto - Edição Especial - Setembro/Outubro de 1997 Alta (RS). Densidade Euphorbia heterophylla (Leiteiro) Bidens pilosa (Picão preto) de plantas Rendimento — — Redução de Redução Rendimento * Redução de — Redução de daninhas rendimento de receita rendimento receita (pl/m”) (kg/ha) (kg/ha) (U$/ha) (kg/ha) (kg/ha) (US$/ha) Dao PGR QU ar dao AA, baamiara das 1 ua AA ANOS A ATE AS Elas MRE Fo mmAe rr Ea ro o caça 22 | 2296 13 27 2305 23 45 2 2283 26 5.2 2283 45 9,0 3 2270 39 7,8 2261 67 13,4 4 2258 51 10,3 2239 89 17,8 5 2245 64 12,8 2217 111) 22,1 6 2233 76 15,2 2196 132 26,3 7 2221 88 17,6 2175 153 30,5 8 2209 100 20,0 2155 173 34,6 9 2197 112 22,4 2135 193 38,7 10 2186 123 247 2115 213 42,7 1 2174 135 27,0 2095 233 46,6 12 2163 146 29,2 2076 252 50,4 13 2152 157 31,5 2057 271 54,2 14 2141 168 33,7 2038 290 57,9 15 2130 179 35,8 2020 308 61,6 16 2119 190 38,0 2002 326 65,2 17 2109 200 40,1 1984 344 68,8 18 2098 2H 42.2 1967 361 12,2 19 2088 221 44,2 1950 378 75,6 20 2078 231 46,2 1933 395 79,0 aveia branca, chícharo e ervilhaca para poaia branca, com aveia preta, aveia branca, colza, chícharo e trigo para picão preto, e controle menor do que 30% para corriola e guanxuma, para qualquer cobertura solo usada. Na Tabela 2, que representa umã área com soja semeada sobre aveia preta e trigo, e milho semeado sobre ervilhaca, nota-se que o tipo de cultura de inverno e o sistema de cultivo determinou o número de plantas dainhas germinadas. No plantio direto, E eovid o a menor densidade de plantas aninha o uso de herbicidas poderá ar reduzido na soja semeada sobre a aveia preta e no milho que sucede a ervilhaca. No plantio convencional, não houve efeito das coberturas de solo, sendo a densidade de infestantes alta em todas as coberturas, perdendo-se a opção propiciada no plantio direto quanto a redução de área aplia e quantidade de herbicidas. Portanto, o uso de práticas que diminuam o número de espécies, sua densidade e a quantidade de área em que Se estabelecem numa lavoura, são de suma importância para o Manejo Integrado de Plantas Daninhas. Vários trabalhos indicam as densidades em que ocorrem perdas de rendimento de soja. Chemale & Fleck (1982), relatam que 12 pl/mº? de leiteiro convivendo com a soja por 115 dias foram suficientes para reduzir o rendimento da cultura. Karam et al.(1993), constataram perdas de 12% numa densidade de 42,5 pl/mº de leiteiro e de 42% numa densidade de 16,7 pl/ mº de papuá, no rendimento de soja cv. BR-16. Karam et al. (1994), estimam que seria necessário mais de 11 plimº de picão preto para interferir no rendimento da soja cv. BR-29 e que 8 plimº de Ipomoea aristolochiaefolia (H.B.K.)G.Don. (corriola) reduzem aproximadamente 1000 kg/ha no rendimento da soja cv. BR-16. É importante estabelecer critérios para efetuar o controle nas áreas da lavoura onde existem plantas daninhas, sendo necessário conhecer a densidade que interfere no rendimento de soja e, também, em qual densidade é viável o controle.

Foram realizados pela FUNDACEP na safra 1996/97, vários trabalhos com densidades de leiteiro [13 experimentos) e picão preto (8 experimentos) no intervalo de O a 100 pm. Embora sendo dados prelimiares, necessitando de validação, é Possível estabelecer alguns critérios cad ção no rendimento (Kg/ha) e a redução de receita bruta da soja (US$/ha) para um intervalo de O à 20 pl/m2 (Tabela 4). Esta tabela permite determinar, a partir de qual densidade de leiteiro ou de picão preto, haveria retorno econômico pela aplicação de herbicidas pós-emergentes. Por exemplo, se para o controle de leiteiro gastamse US$ 20,00/ha, só seria indicado seu controle em áreas com mais de 8 pl/ m2. Nota-se, também, que o picão preto reduziu mais o rendimento da BIANCHI, M.A. Programa de difusão do manejo integrado de plantas daninhas em soja no Rio Grande do Sul-1993/ 94. Cruz Altaa FUNDACEP FECOTRIGO, 1994. 22p.

BIANCHI, MA. Programa de difusão do manejo integrado de plantas daninhas em soja no Rio Grande do Sul-1994/ 95. Cruz Alta, FUNDACEP FECOTRIGO, 1995. 22p.

CHEMALE, V.M. & FLECK, N.G. Avaliação de cultivares de soja (Glicine max (L.) Merrill) em competição com Euphorbia heterophylla L. sob três densidades e dois períodos de ocorrência. Planta Daninha, Campinas, v.2, n.2, p 36-45, 1982.

soja do que o leiteiro, devido a maior acumulação de massa seca do picão preto durante o ciclo da cultura. Analisando-se a Tabela 4, pode-se estabelecer uma relação de equivalência entre picão preto e leiteiro de 1:17. Esta relação auxilia na estimativa da densidade quando ocorrem estas duas plantas daninhas no campo.

KARAM, D.; VOLL, E.; GAZZIERO, D.L.P”.; CAÇÃO, L.E.F. Estudo da interferência de plantas daninhas com a cultura da soja (Glycine max L. Merrill). In: CONGRESSO BRASILEIRO DE HERBICIDAS E PLANTAS DANI- NHAS, 1993, Londrina, PR. Resumos... Londrina: SBHED, 1993. p.32- KARAM, D.; GAZZIERO, D.L.P.; VOLL, E; ARCHANGELO, E.R. Efeito de densidades de plantas na cultura da soja. In: REUNIÃO DE PESQUISA DA SOJA DA REGIÃO SUL. 1994. Cruz Alta, RS. Ata e Resumos... Cruz Alta: FUNDACEP FECOTRIGO, 1994.

Considerações finais: No Manejo Integrado de Plantas Daninhas é importante: - Utilizar métodos que reduzam a ocorrência e a densidade de plantas daninhas na propriedade; - Efetuar o levantamento de plantas daninhas nas culturas de Iinteresse comercial, para identificar as espécies ocorrentes, suas densidades e em que áreas da lavoura estão presentes; - Proceder o controle quando for economicamente viável.

RUEDELL,J. Plantio direto na região de Cruz Alta. Cruz Alta, FUNDACEP/ Basf, 1995. 134p.

ROMAN, E.S. Effect of cover crops on the development of weeds. In: INTERNATIONAL WORKSHOP ON CONSERVATION TILLAGE SYSTEMS, 1990, Passo Fundo. Conservation tillage for subtropical areas; proceedings. Passo Fundo: CIDA/EMBRAPA-CNPT, 1990. p.218- Literatura Citada | SOUZA, R.O. de. Programa de difusão do manejo integrado de plantas daninhas em soja no Rio Grande do Sul - 1992/ 93. Cruz Alta, FUNDACEP FECOTRIGO, 1993. 21p.

ALMEIDA, F.S. de & RODRIGUES, B. N. Guia de herbicidas - contribuição para o uso adequado em plantio direto e convencional. Londrina, IAPAR, 1985. 482p.

o Especial - Setembro/Outubro de 1997 - 51 Revista Plantio Direto - Ediçã