Novas técnicas produzem “Revolução agrícola” ecológico positivos REA La a *Engenheiro Agrônomo, consultor e presidente do Conselho Administrativo da Manah S.A, Texto publicado no Jornal ”O Estado de São Paulo” Dia 06/10/97 — A maior perturbação do ecossistema Jamais ocorrida no País foi a abertura de milhões de hectares de mata, para que a luz do solo viesse a atingir as plantas comerciais que não medram à sombra, tais como cana, café, milho, arroz e feijão.
A escolha dessa imensa área recaiu sobre solos mais férteis, que, em clima tropical são recobertos por mata alta, dita atlântica ou floresta de chuva. Só muito recentemente, no calendário da nossa agropecuária, tivemos tecnologia e insumos para aproveitamento das terras originalmente fracas e ácidas dos cam- Dos nativos e cerrados.
Não há por que censurar a utilização dessas terras para o homem que dela dependia como para os habitantes das cidades.
Removida a manta protetora, seja arboréa, relvosa ou mista, a terra fica exposta às intempéries como a chuva, o vento e os raios solares. Os efeitos desses agentes agravam-se quando o solo é periodicamente perturbado em sua superfície por cultivos variados, indispensáveis ao controle das ervas daninhas, seja do “mato” ou inço.
Essa repetida perturbação da superfície resulta ao mesmo tempo na destruição dos torrões que, sobrepostos uns aos outros, com diferentes tamanhos, dá uma estrutura à terra, proporcionando arejamento, permeabilidade e penetrabilidade. Um grumo desmanchado 1!- bera as argilas que o cimentam e o pó fino levanta-se em nuvens alarmantes ou percolam, sorrateiramente, vindo a formar, mais abaixo, camadas adensadas, pouco permeáveis e penetráveis. Então as águas de chuva, não conseguindo ser absorvidas pela terra, escorrem pela superfície, somando-se umas às oucom impactos econômicos e Fernando Penteado Cardoso* tras, avolumando-se, para fluir com rapidez crescente. Mesmo sem apelar para o ditado da “água mole em pedra dura”, águas rápidas arrastam e escavam, agredindo o solo fértil no processo calamitoso da erosão.
Grandes esforços para parcos resultados foram despendidos no controle da erosão por meios mecânicos e vegetativos. Canais e camalhões em nível, culturas de espaçamento denso, cultivos na horizontal, ajudam bastante Quadro devastador da erosão põe em perigo o campo e pede reação da sociedade mas não resolvem o problema da desagregação dos torrões, das nuvens de poeira e da camada impermeável no subsolo, pois é preciso ter a terra solta e livre de empecilhos para poder destruir mecanicamente as sementeiras das ervas daninhas. Estas, crescendo, vem competir com as culturas comerciais, roubando água, luz e nutriente além de, por vezes, excretar toxinas. Revolvendo e remexendo a terra para manter a lavoura no limpo, há uma persistente degradação do solo, com consequente impacto sobre a sociedade, dependente como é da produção de alimentos, de fibras e de energia renovável representada pela lenha, carvão e álcool.
Revista Plantio Direto - Novembro/Dezembro de 1997- 35 Não é só o uso da terra para fins agrícolas que resulta em erosão. Obras civis como terraplanagens, estradas e águas pluviais mal conduzidas podem contribuir para esse deslocamento de terra.
As erosões em seu conjunto são responsáveis pelas águas lamacentas, assoreamentos, voçorocas assustadoras e caminhos intransitáveis que agridem o meio ambiente ao contaminar as águas, além das nuvens de pó impuro que poluem a atmosfera, infestando-a com defensivos e ovos de nematóides que parasitam as raízes das plantas. Essa contaminação tem efeitos ecológicos e agricolas negativos sobre a flora e a fauna atingidos por sólidos e produtos porosidade, além de, por si só, reduzir a velocidade da água excedente, que sobrava limpa no baixo das encostas. Com o passar do tempo, a permeabilidade crescente ensejou maior infiltração e as águas sobradas foram se reduzindo até desaparecerem. Esse processo, além de evitar a poeira, dava tempo para completa decomposição dos herbicidas já de baixa toxidade inicial.
O sistema revolucionário veio a se chamar “Plantio direto na Palha”. “Direto”, por dispensar preparo do solo para enterrar os restos de cultura. “Na palha”, ao se injetar adubo e semente através dos resíduos que formam a manta protetora do solo. A terra protegida pela manta de Os efeitos perversos alcançam palha é de ros, minhocas, larvas, formigas, também a paisagem quando valas ris- . . , térmites, fungos, bactérias e algas cam as E antoétas, E AXAGAS são ater- inquestionável inditiplcam-se deixando o solo de radas, lagos assoreados, águas ficam Interesse social, vivo, mais arejado, mais permeável. pardo-avermelhadas e o ar tingido por ud Repete-se até certo ponto as condinuvens de partículas rosadas. Os da- CHIIprinao-nos ções primitivas da mata em que fonos para a sociedade vão além ao pre- ;: ; Ilhas e galhos se sobrepõem, ano após Judicar nossas hidrelétricas, reduzindo contribuir Fá sã ano, reciclando os nutrientes extraío volume de seus reservatórios e cor- estendeê-lo à dos pelas raízes profundas e facilitanroendo as paredes das turbinas pelas : do a total infiltração das águas, com finas areias em suspensão, OU ao ame- totalidade dos 32 renovação do lenço! freático que aliaçar áreas habitadas com voçorocas milhões de hectares menta as fontes espontâneas e os incontroladas. d I : poços que o alcançam.
Esse quadro devastador da ero- e Culturas anuais no O Plantio Direto na Palha reprosão, paralelo à degradante queda da País, base do sustento duz as condições que a serapilheira fertilidade do solo, deve ser conhecida floresta proporciona. Com uma do, reconhecido e meditado para vir a de 160 milhões de vantagem: em vez de frutos escasmerecer uma saudável reação da sociedade, hoje na maior parte urbanizada. São os formadores de opinião e os responsáveis pelo poder pú- macem— blico, privado, religioso ou da mídia, que vão dar meios e incentivos aos principais responsáveis diretos: agricultores, agrônomos e engenheiros, cada um em seu campo de ação.
Do lado da agropecuária há boas notícias a registrar quanto à conservação e melhoria do solo e quanto ao combate à erosão que resulta das águas excedentes da infiltração. O desenvolvimento da agroquímica veio a proporcionar herbicidas que controlam as ervas daninhas, substituindo seu combate por meios mecânicos que requerem terra limpa e solta, com todos os inconvenientes mencionados.
O que aconteceu, aparentemente muito simples, representa na realidade uma revolução na agricultura: os resíduos vegetais passaram a ser deixados na superfície da terra. Plantios intermediários vieram a aumentar a camada desses resíduos, também chamados de “palha”. Ao mesmo tempo se observou que a manta protetora favorecia a fauna e a flora do solo que promovem maior 36 - Revista Plantio Direto - Novembro/Dezembro de 1997 brasileiro SOS que alimentavam poucos habitantes da mata primitiva, o sistema possibilita a produção sustentada de volumes de alimentos requeridos pela crescente população urbanizada.
O plantio direto é um estado da arte da agricultura que assegura uma agricultura sustentável que persistirá no futuro para segurança da população crescente em suas exigências de alimento, de fibras e de energia. Atende à definição do Prof. E. Malavolta, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiróz - USP: “A agricultura é a arte de perturbar os ecossistemas, sem danos irreversíveis”.
Não se trata pois de um estado da arte que interessa somente aos agricultores que já o praticam em 6 milhões de ha. É muito mais que isso: é um estado da arte agricola vinculado à estabilização dos ecossistemas quê protegem o solo e o homem. | Assim, o Plantio Direto na Palha é de inquestionável! Interesse social, cumprindo-nos contribuir para estendêlo à totalidade dos 32 milhões de hectares de culturas anuais no País, base do sustento de 160 milhões de brasileiros. a