Na Agricultura, Podemos Aprender mais Todos os Anos (Fernando, Palotina)


Autores:
Publicado em: 01/01/1998

Quando me formei e voltei para trabalhar em Palotina, ainda estavam fortes os mitos de que plantio direto não funcionava, que aqui não era possível formar cobertura morta, que baculovirus não funcionava, entre outras afirmativas. E óbvio que não passava da imaginação de muitos, porque ainda não se havia percebido a necessidade de adicionar material orgânico em grandes quantidades, para que se formasse uma cobertura morta que permanecesse no solo por um tempo maior.

As afirmações foram feitas pelo engenheiro agrônomo Fernando Engler, um dos coordenadores do II Encontro do Sistema Plantio Direto em Milho e Soja, realizado em Palotina, Paraná, em dezembro de 1997. Para ele, a agricultura é uma escola permanente, que permite um aprendizado constante a cada safra. Fernando, filho do produtor Guido Engler, presidente da Sociedade Rural daquele município, é um dos responsáveis pela reto- Revista Plantio Direto - Janeiro/Fevereiro de 1998 mada do plantio direto, no início da década de 90, na região. “Ainda temos muito que fazer no campo para que possamos nos considerar integrados ao sistema, disse ele numa entrevista à Revista Plantio Direto, porém já temos solução para a maioria dos principais problemas apontados como entraves. “ Segundo Fernando, as vantagens do plantio direto são Inquestionáveis e a entrada dos produtores para o sistema é questão de tempo.

A seguir, os principais tópicos da entrevista que ele nos concedeu em Palotina. Reinício Revista Plantio Direto - Quando e como foi o teu primeiro contato com plantio direto?

Fernando Engler - Desde 1988 estudando fora, eu ficava meio distante da agricultura. Mas, nascido em cima de uma grade, acompanhei os tra- O C = Q GO o.

balhos na fazenda e cheguei à universidade com à idéia do preparo convencional de lavoura. Em 91/ 92, tive oportunidade de acompanhar os trabalhos realizados pelo Juca (João Carlos de Moraes Sá), na época ainda trabalhando na Fundação ABC, de Castro, que fazia seu curso de mestrado na Universidade Federal do Paraná. Eu não precisava de um aporte científico maior para iniciar o sistema, pois o Juca tinha conhecimentos de 15 anos em plantio direto.

Aqui em Palotina, tive alguma resistência na família, quando propus o plantio direto, mas meu pai bancou a idéia e a possibilidade de eventuais prejuízos, o que não aconteceu.

RPD - Você aprendeu sobre plantio direto praticado em outra região, no caso os Campos Gerais, com outras características de clima e solo. Como você administrou esse diferencial?

Fernando - Eu procurei informações daqui de Palotina também, na ocasião. Comecei a adaptar o sistema de Ponta Grossa para a nossa região.

Safrinha, por exemplo, é uma situação local que éfavorável e precisamos explorá-la. Com a safra de milho colhida em fevereiro, nós temos cerca de 100 dias, em que é possível explorar outra cultura antes do plantio da cultura de inverno. Trata-se de um potencial que não existe no mundo inteiro!

À aveia é a base de sustentação do plantio direto em Ponta Grossa e aqui em Palotina ela é um sucesso. Plantada em abril, ela pode render 6 a 10 ton de massa seca/ha/ano. O milheto, que é a base de sustentação do plantio direto na maioria das regiões do Cerrado, aqui também vai muito bem e pode render 12 a 20 ton de massa seca/ha em 90 dias. A maior reclamação quando eu voltei a Palotina, após a faculdade, era sobre a dificuldade em formar cobertura morta, porque a degradação dos resíduos acontecia muito rápido. Hoje, nós sabemos que é preciso adicionar uma quantidade maior de material orgânico, para que essa degradação ocorra de forma mais lenta. Com avela e Ainda temos muito o que fazer no campo para nos considerarmos Integrados ao sistema, porém já lemos solução para a maioria dos principais problemas apontados como entraves.” Produtividade/Custos RPD - Existe um aumento da produtividade no plantio direto ou apenas uma redução de Custos, no comparativo com o preparo convencional?

Fernando - Quando entramos no plantio direto a soja tende a produzir mais, não sei exata. mente quais os fatores que influem, talvez o menor estress hídrico. Nós produzimos 1.000 kg/ha acima da média municipal, que foi de 2.400 kg/ha nos últimos 4 anos. No caso de milho e trigo nós tivemos dificuldades em adequar o uso da adubação nitrogenada, pois fazíamos normalmente uma aplicação muito leve, na base, e uma cobertura em estágios inadequados. Trocando idéias com o Juca, fomos adequando nosso procedimento, com introdução de nitrogênio no manejo antecipado da aveia, inclusive. No trigo não se fazia cobertura nitrogenada e no milho fazíamos quando a cultura Já alcançava uma altura avançada. Hoje, à nossa produtividade em milho supera os 7.000 kg/ha, bem superior à média do município, que é de 4.800 kg/ha.

RPD - E quanto a redução de custos, quais OS aspectos principais? Fernando - O nosso custo de produção está baixando muito. Observamos uma redução drástica na utilização de máquinas. Nos 180 ha de lavoura do meu pai existe apenas um trator de 80 HP, uma semeadora adaptada para plantio direto, um pulverizador de 2.000 | e uma colheitadeira. O consumo de óleo diesel baixou de forma notável. Um agrônomo e produtor aqui da região tinha um consumo de 60.000 | de óleo diesel/ano nos seus 2.000 ha de lavoura. Com a introdução do plantio à direto em toda a área, hoje ele está consumindo — 12.000 I/ano, E olhe que quem passou esse dado foi o próprio fornecedor dele.

Além da redução nos custos de máquinas e combustível, houve uma gradativa diminuição e uma readequação no uso de fertilizantes como um todo, :

RPD - Como vocês procederam em relação = à adubação? Fernando - Passamos a usar mais adubos nitrogenados e adequamos o processo de rotação das culturas, o que nos possibilitou a retirada da adubação na soja, a partir desta safra. No nosso esquema, a safrinha é contemplada para ter um 1071% potencial produtivo. Ela é plantada no cedo, A escapar do risco de geada, justamente O oposta. que se faz, comprometendo a safra de verão 6) função da safrin ha, isto é, planta-se a SGAMNNRTO pada, com menor potencial, para fazer MI Revista Plantio Direto - Janeiro/Fevereiro de .

safrinha. Nós tiramos a soja da rotação por um ano. Diferente de Ponta Grossa, aqui nós temos quase 120 dias entre a colheita do milho e o plantio de aveia, trata-se de um período muito longo para ficar sem cobertura, pois o custo para manejar a flora infestante seria muito alto. Então nós jogamos milho na safrinha, com um potencial produtivo tão grande como no verão. E como esse milho é colhido em julho/agosto, entramos com milheto, que, em 90 dias, servirá como cobertura para o plantio de soja em novembro, que é a melhor hora, com um potencial produtivo de 500 a 1.000 kg a mais por ha do que aquela semeada em outubro.

RPD - E em relação ao controle de ervas, como vocês estão procedendo? Fernando - Está ocorrendo uma redução nos custos porque utilizamos herbicida numa cultura e não para manter a área limpa. Fizemos um remanejo da utilização dos produtos, baixamos as dosagens e aproveitamos a luz abundante na nossa região, onde os produtos de contato funcionam muito bem. São produtos mais baratos e que não são tão dependentes de condições climáticas, possuem uma tolerância um pouco maior em relação às variações de clima. A flora infestante baixou a tal ponto que estamos utilizando 2 l/ha de atrazina em milho, em áreas onde havia mais de 100 plantas/m2 de capim marmelada. Todas as outras ervas, como picão preto, leiteiro, corda de viola, estão diminuindo. À planta daninha mais resistente é a trapoeiraba, mas é uma planta que pode ser manejada com facilidade.

RPD - A região tinha uma fama de uso abusivo de inseticidas. Neste início de safra, podemos notar vários pulverizadores em ação nas lavouras. O plantio direto propicia uma redução no uso de inseticidas?

Fernando - À primeira coisa que a gente vê no campo é a utilização preventiva de inseticidas, muitas vezes de amplo espectro, o que é um absurdo! Com o plantio direto, fizemos um planejamento global, trabalhando com manejo integrado de plantas daninhas, fertilidade, doenças e de pragas. Com isso, nós conseguimos restabelecer um equilíbrio e, quando necessário, só usamos produtos de Muitas vezes, você está colhendo milho safrinha e Já tem milho no campo. Nós alteramos esse ciclo, colocando milheto após o milho safrinha. É importante que você mantenha a área coberta e se houver um manejo correto, a população de inimigos naturais é mantida e se evita uma explosão populacional do inseto praga.

RPD - Quantas aplicações são feitas nas lavouras da região? Fernando - Se considerarmos 3 safras durante o ano, com duas culturas no verão (milho e soja), é comum ocorrerem mais de 15 aplicações de inseticidas. Nós usamos doses reduzidas de inseticidas fisiológicos ou baculovírus, inclusive na cultura da aveia, quando ocorre lagarta. Em geral, reduzimos para 3 a 4 aplicações durante o ano, com produtos seletivos. Notamos que a cada ano vai diminuindo a intensidade dos ataques. Creio que, muitas vezes, O produtor chega no gabinete do engenheiro agrônomo e diz que as lagartas estão com 10 cm de comprimento e praticamente obriga o profissional a receitar um produto de amplo espectro. Como o técnico atende muita gente e não consegue acompanhar todas as lavouras, acaba no quadro que nós conheçemos. F Rotação de Culturas Fazenda Dallas ANO INVERNO VERÃO SAFRINHA —— OM — — —— —.2.—.s— ses — Milheto e Trigo pode ser substituído por Triticale (o que vinha acontecendo); e Milho safrinha pode ser substituído por Sorgo ou GO - . Q T so menor impacto ambiental possível, como Milheto no sistema de Integração Lavoura/Pecuábaculovírus ou fisiológicos. Às vezes, corremos ris- Na; cos com percevejo, aplicando dosagens baixas ou e Nabo, relacionado na safrinha do 5º ano da rotadeixando de aplicar justamente para tentar um con- ção, é uma alternativa que está sendo estudada e trole natural. será praticada no próximo ano antes de trigo; e Aveia Preta pode ser substituída por Aveia Bran- RPD - E o ataque de trips e percevejo barri- ca.

ga verde em milho, como está sendo manejado: O Nabo deve ser incluído no sistema de rotação de culturas para tentar aumentar a percentagem Fernando - Trata-se de um problema sério | i de culturas com baixa relação C/N.

na região, que acontece justamente pelo desequilíbrio que a safrinha de milho proporciona.

Revista Plantio Direto - Janeiro/Fevereiro de 1998