centeio é uma cultura conhecida por sua rusticidade e pela adaptação aos solos ácidos, arenosos e/ou frios e pelo sistema radicular profundo, podendo contribuir para aumentar a diversidade e para garantir a sustentabilidade da agricultura. Pelo potencial de produzir palha e pelo sistema radicular profundo, o centeio é indicado para a produção de massa verde para a proteção do solo durante a estação fria, período em que a erosividade da chuva e a lixiviação de nitrogênio são elevados, no sul do Brasil. Cultivares precoces apresentam elevada produção de forragem verde durante o inverno. À produção adicional de grãos, em áreas pastoreadas durante o inverno, pode ser elevada se o diferimento — retirada dos animais — for realizado antes do início da elongação. O grão de centeio é usado na fabricação de produtos dietéticos, especialmente pães e biscoitos integrais, cujo consu- Algusto Carlos Baier ”E rs 7 io:
E à A 1 3 ”“- E. 5 E A - ó“ E Ea mo se encontra em franca expansão. À área de centeio, no Brasil, em 1997, foi de 7.000 ha, distribuídos entre os estados do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e do Paraná, e no mundo, em 1996, foi cultivado em 15 milhões de ha, principalmente na Polônia, na Alemanha e na Rússia.
Durante o desenvolvimento das culturas de trigo, de aveia e de soja, avaliações em lisímetros, conduzidas por Wiethôólter (1996) demonstraram que a lixiviação de nitrogênio para camadas de solo fora do alcance das raízes é de pouca importância, pois o NO e o NH. provenientes do processo de mineralização da matéria orgân!- ca, dos resíduos culturais ou dos fertilizantes, continuamente absorvido pelas raízes das plantas. Porém, durante o período de pousio, especialmente após a colheita da soja, as perdas variaram de 19 (plantas de soja colhidas na maturação e baixa precipitação) a 73 (plantas colhidas na Revista Plantio Direto - Março/Abril de 1998 Tabela 1. Rendimento de grão e de palha e teor de nitrogênio de centeio, de trigo e de triticale, | nos Ensaios Brasileiros de Triticale, conduzidos em Passo Fundo, no RS, em 1987 e em 1988 (Relatório CNPq, Cinthya Herley Kochhann, 1989).
| E Rend. grão Rend. de palha — TeordeNnogrão — TeordeNna palha cie, cultivar q/ha Kg/ha % % Passo Fundo, RS, 1987 Centeio, BR1 = 5110 13077 2,33 0,45 Triticale, BR 4 8783 11452 2.17 0,43 O Triticale, Arapoti 7248 10343 206 0,36 PD Trigo, CEP 11 5034 8650 2 49 0.50 = Passo Fundo, RS, 1988 O Centeio, BR 1 4390 10086 232 0,61 o) Triticale, BR 4 | 6615 6198 2,20 0,59 OQ Triticale, Arapoti | 7066 7391 216 0,65 Q. Trigo, CEP 11 3193 5307 2,62 0,89 ———————— ss c««—qs—»—sss s ss s»ssss=—- NO “l floração e alta precipitação) kg N/ha e foram baixa relação nitrogênio/carbono, decomposta maiores nos primeiros 60 dias após a colheita da lentamente, protege o solo por um período lonsoja. Conclui que, desta forma torna-se evidente go. Roman (1990) estudou o produção de palha que a continua cobertura verde do solo é um fator de algumas espécies adaptadas ao cultivo importante em termos de preservação do nitrogê- invernal, no sul do Brasil, cultivadas antes de nio no sistema de produção, fazendo com que o soja, e a permanência dos resíduos deixados na nitrogênio dos residuos culturais seja reciclado e superficie (Tabela 2). Observou que os restos mantido na camada superficial do solo e recomenda, que toda vez que o intervalo entre duas cultuja superior a 30-40 di ras seja Superior dias, que uma cultura de Tabela 2. Rendimento de palha e sua permanência na supercobertura temporaária do solo se) e. ; ; nico E initrdo fãs: o o tetas fície do solo aos 60, 120 e 180 dias após a semeaplo hp Com que o residua dura da soja (CNPT-EMBRAPA, Passo Fundo, 1989- seja incorporado em plantas que estas ao serem 90: Roman, 1990). decompostas liberem nitrogênio para a próxima cultura. REA E Produção Permanência de resíduos Centeio é indicado para a produção de mas- Espécie — depalha G60dias 120dias 180dias sa verde e de cobertura morta para o sistema plan- kg/ha % % % t10 direto, durante a estação fria, no sul do Brasil, Aveia preta 8231 A 51B 42 E 36 DE pois apresenta crescimento inicial vigoroso, tem- oiço branca fo á Sã. i o Ê à A ; aa PO OTA ' - entelo peratura basal baixa, resistência à seca e à acidez AZEVÓM 4007 E 40 G 31 E 21 G do solo e um sistema radicular profundo. À tem- Cevada 3239 F 59 DE 51 D 446 peratura basal do centeio é de 0 ºC, o que sign1f1- Triticale 3025 F 61 CDE SO D 40 CD Trigo 2965 F 66 C 99 C DO À ca que a partir desta temperatura a planta apresenta atividade fisiológica de crescimento. A temperatura basal de aveia e de azevém é superior a 4 ºC. Isto explica por que estas culturas, na maio- do centeio foram decompostos lentamente. Aperia dos anos, apresentam produções elevadas de nas 27 e 39% da palha de centeio, deixada na forragem mais tarde. As raízes do centeio têm um superfície, havia sido decomposta, crescimento inicial rápido e atingem vários metros respetivamente, aos 120 e 180 dias após a imde profundidade. Avaliações realizadas em 1987 plantação da soja. A produção relativa de pae 1988, no CNPT, da EMBRAPA, em Passo Fun- lha das diversas espécies depende das cultivado, anos com condições climáticas muito favorá- res, das doenças prevalecentes, das condições veis (temperatura baixa e precipitação moderada climáticas. O monocultivo ou o predomínio de no Inverno e alta insolação no final do ciclo), in- qualquer das espécies — como ocorre com a « dicam o elevado potencial do centeio para produ- aveia hoje, por exemplo — terá por consequênzIr grãos e palha com baixo teor de nitrogênio cia o aumento de agentes patológicos especifi- (Tabela 1). Foram produzidos 13 e 10 toneladas cos. Isto também ocorrerá com o centeio, quande palha por ha, com teor de nitrogênio de 0,45 e do a área cultivada aumenta. de 0,61 %. respectivamente em 1987 e em 1988. Ensaios de rendimento conduzidos, em La- À palha de centeio, pobre em nitrogênio, com goa Vermelha, em Passo Fundo e em São Borja Revista Plantio Direto - Março/Abril de 1998 Percentagem da produção total de Pesquisa matéria seca Tabela 3. Rendimento de “Centeio BR 1º em comparação com trigo e com triticale, nos Ensaios Preliminares de Triticale, de 1988 e de 1991, em Lagoa Vermelha, em Passo Fundo e em São Borja, no RS.
CE DDNCChCGCGtatõ>óiíú»ó;ój IiIóX»>»riEx»wr)))IitotottEgG=SEES— Espécie, cultivar Lagoa Vermelha Passo Fundo Passo Fundo São Borja enompEneencELenmaaeneRnerTECEaasaaCnarieaanATA Kg/ha --———————-=”—————W e ese———— Em 1988 1º Época 2º Epoca Trigo, CEP 14 2.333 2.650 3.774 2.848 Centeio, BR 1 2.694 3.817 3.294 2.701 Triticale, Embrapa 18 2.856 5.761 6.028 4.120 Em 1991 solo corrigido — solo ácido (com Al+) Trigo, BR 32 2.867 2767 767 1.426 Centeio, BR 1 2.813 2.567 1.793 944 Triticale, BR 4 3.893 3,567 1.033 1.778 Cq— . sssss—.. . A] s====—..—>>&dssss ss qcúss%sass esse A .C-ÉÃDaspMOQAsecssesn ese (Tabela 4), também indicam o potencial produtivo, pois foram obtidos rendimentos entre 944 e 3817 kg/ha de grão. Considerando que “Centeio BR 1º apresenta um índice de colheita em torno de 0,30 (3 kg de grão para 7 kg de palha ou para 10 kg de produto biológico aéreo total), obteremos uma produção de massa aérea total (palha + grão) entre 3147 e 12723 kg/ha, ou entre 2203 e 8906 kg/ha de palha. Observa-se na Tabela 4 que a semeadura na 2º época de 1988, beneficiou trigo e triticale, mas foi deletéria para o centeio. Isto confirma resultados de muitas observações que evidenciam que o centeio aproveita seu melhor potencial produtivo em semeaduras do cedo.
O rendimento mais elevado do centeio no experimento de Passo Fundo, em 1991, conduzido em solo ácido, sem correção com calcário (Tabela 3), é indicativo de outra particularidade que se observa repetidamente com o centeio, qual CENTEIO Ms A ada, ET AVEIA — s — e —e— AZEVÉM Junho Julho seja, o seu rendimento, em relação aos outros cultivos, reduz-se menos à medida que o solo fica mais ácido ou mais degradado. Os resultados de São Borja (altitude de 100 m), local representativo para ambientes mais quentes, no sul do Brasil, também evidenciam uma característica peculiar da espécie de perder potencial produtivo relativo em ambientes mais quentes.
À capacidade de rebrotar, depende da precocidade de cada cultivar de centeio, do manejo e da época do ano. Cultivares precoces, apresentam elevada produção de forragem verde durante o inverno. Cultivares de ciclo mais longo produzirão menos massa no inverno, podendo, no entanto, ser pastoreados por mais tempo na primavera. À produção adicional de grãos depende do diferimento ou da colheita de forragem antes do início da elongação. O potencial forrageiro do centeio e sua precocidade foram destacados por Postiglioni (1982) que, avaliando a produção de forragem entre maio e setembro (Figura Figura 1. Distribui- ) ção mensal da pro- : “ dução de forragem, h na média das doses de nitrogênio em cO- : bertura (25, 50 e 100 kg de N/ha) dos anoS5 = (1976, 1977 e 1978) em Ponta GrossSàã; PR (Postiglioni, S.R- 1982) Agosto Setembro Revista Plantio Direto - Março/Abril de 1998 1), observou que o centeio, mais precoce, produ- 7iu 55%, do total de forragem no período, em maio e junho; à aveia, intermediária, produziu 60 % em junho e Julho; enquanto que o azevém, mais tardio, produziu 70 % em agosto e setembro. Observou ainda que a produção de forragem aumentou à medida que a fertilidade do solo foi melhorada. Concluiu que a consorciação é importante para melhor distribuir a oferta de forragem durante o período em que há maior deficiência de alimento para o gado.
Eventuais problemas do centeio O centeio é cultivado em áreas restritas, no sul do Brasil, há mais de 100 anos, e seu cultivo não se expandiu porque apresenta algumas limitações e problemas que podem requerer alguma criatividade para serem superados. Em algumas situações, a suscetibilidade ao acamamento, ao mal-do-pé e à ferrugem do colmo, a incidência de lagartas no final do ciclo e a suscetibilidade à debulha e à germinação pré-colheita, podem criar problemas para os produtores. Se tolera baixas temperaturas, tem desenvolvimento prejudicado em regiões ou em anos mais quentes. Solo mal drenado ou encharcado e o pisoteio podem prejudicar o rebrote e a produtividade, por 1sto, em dias chuvosos, os animais devem ser retirados. A deficiência de umidade no solo, no outono, para proporcionar condições para a germinação, limita a possibilidade de implantar pastagens no cedo. O mercado restrito para o grão e a ausência de padrões de comercialização, no Bras1l, dificultam a comercialização do grão. A indústria alega que a presença de grãos de aveia dificultam o processamento industrial do grão.
Recomendações de cultivo As recomendações de cultivo adotadas para os outros cereais de inverno podem ser aplicadas ao centeio. A época indicada para a semeadura do centeio destinado à cobertura do solo ou para produzir forragem é entre meados de abril e final de maio. O mês de junho é indicado para lavouimplantadas corretamente e bem desenvolvidas os inços não têm vez. Lagartas ou ferrugem do colmo, no final do ciclo, podem requerer controle. As recomendações para os outros cereais também podem ser adotadas no centeio. À colheita do centeio deve ser realizada na maturação plena.
O mangjo apropriado do pastoreio de lavouras de cereais deve ser considerado o gargalo mais importante para a difusão desta prática, depende de como será usada, apenas para pastoreio ou para pastoreio e posterior colheita de grãos. Pastoreio tardio - plantas em elongação - aumenta a produção de forragem, mas compromete o rebrote e reduz a produção de grãos, enquanto que, plantas jovens fornecem pouco alimento, portanto o pastejo deve ser realizado antes da elongação, quando as plantas tiverem entre 15 e 25 cem.
Centeio BR 1 Centeio BR 1 foi selecionado em populações brasileiras de centeio, entre 1978 e 1985 e foi lançada para cultivo comercial, nos Estados do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e do Paraná, em 1986, pelo Centro Nacional de Pesquisa de Trigo, da EMBRAPA . E precoce, de hábito de crescimento ereto, de porte alto. “Centeio BR1* destaca-se pela resistência às doenças foliares dos cereais de inverno, ao crestamento, pela boa sanidade foliar, pelo aproveitamento de água do solo, pelo enraizamento profundo e pela temperatura basal baixa. Tende a se destacar, produzindo mais massa, em relação aos outros cultivos de inverno, em reg1- ões ou em anos mais frios e/ou secos, em solo ácidos e/ou arenosos.
Referências Bibliográficas BAIER, A.C. Centeio. Passo Fundo: Embrapa-CNPT, 1996. 29p. (Embrapa-CNPT. Documentos, 15).
KOCHHANN, CINTHYA, Relatório Final, Bolsa de Aperfeiçoamento do CNPq, EMBRAPA, CNPT, 1989.
OD = 2 7 O POSTIGLIONI, S.R. Comportamento da aveia, azevém e centeio na região dos Campos Gerais. PR. Londrina, IAPAR, 1982. (Boletim técnico IAPAR, 14) ROMAN, E.R. Effect of cover on the dev elopmento of weeds. In: INTERNATIONAL WORKSHOP ON CONSERVATION TILLAGE SYSTEMS, 1990, Passo Fundo, RS. Conservation tillage for subtropical area. Passo Fund: CIDA-EMBRAPA- CNPT, 1990. P258-262.
ras em que se deseja apenas colher o grão. À densidade de semeadura não deve exceder 250 sementes viáveis por metro quadrado. Quanto à adubação, o centeio é o menos exigente dos cereais de inverno, sendo que, para evitar perdas por acamamento é indicado ter cuidado especial com a fertilização nitrogenada. Não se deve semear cevada ou trigo em sequência ao centeio. É competitivo contra plantas daninhas, pois apresenta WIETHOELTER, S. Adubação nitrogenada em sistecrescimento vigoroso no inverno e ainda pr oduz mas plantio direto. Passo Fundo: Embrapa-CNPT, substâncias alelopáticas. Em lavouras de centeio 1996. 44p Revista Plantio Direto - Março/Abril de 1998