Lucién Seguy Sem biomassa, o plantio direto não funciona no Cerrado O engenheiro agrônomo Lucién Seguy é uma pessoa incomum. Nascido e formado na França, ele próprio afirma que hoje é 60% brasileiro e o restante francês, em função do tempo que vive e trabalha no Brasil. “Eu diria que sou um cidadão do mundo”, disse ele à Revista Plantio Direto, em maio, na cidade de Rio Verde, durante a realização do Curso de Fertilidade, na qual foi um dos palestrantes.
Fascinado pelo mundo tropical, Lucién Seguy recusou uma bolsa de estudos no MIT (Massachussets Institut of Technology) quando se formou, aos 21 anos de idade, para poder realizar o sonho de conhecer a África e outros continentes. Desenvolvendo um rítmo de trabalho impressionante, juntamente com o companheiro Sérge Bouzinac, Lucién Seguy falou conosco em Rio Verde, num intervalo para jantar. À exposição do seu raciocínio é rápida e a quantidade de informações voa em todas as direções. Aqui, uma síntese de suas colocações e da maneira como ele encara o plantio direto e o trabalho que realizam no Brasil e na África.
Revista Plantio Direto - O que é o Cirad? Lucién Seguy - O Cirad é um Centro de Cooperação Internacional em Pesquisas Agronômicas que, localizado na França, tem cerca de mil pesquisadores trabalhando na Ásia. África e América Latina, em todas as culturas. É uma enorme Embrapa Internacional, com sede francesa e conceito francês. O Cirad possui ligações com o INDRA, o Instituto Nacional de Pesquisa Agronômica da França, que possui cerca de seis mil pesquisadores.
RPD - Por que você escolheu o Brasil para trabalhar? Lucién Seguy - Porque eu sou agricultor, nasci como agricultor, no sudoeste da França, meu pai tinha uma pequena propriedade de 17 ha, semelhante as propriedades rurais da região de Irati, no Sul do Paraná. E porque sou fascinado pelo mundo !ropi- Cal.
RPD - Como está o trabalho de vocêseo plantio direto no Cerrado? Lucién Seguy - O plantio direto no Cerrado é um pouco diferente, tem que adicionar biomassa porque, só com restos de co- Iheita, não funciona. As frentes de colonização foram feitas por pIOneiros paranaenses, que são donos do processo e não conseguiram implantar isso ali O grande desafio é integrar diversas Lucién Seguy culturas, além da soja, com milheto, sorgo, arroz e pecuária, e aí o plantio direto não terá fronteiras.
nO Revista Plantio Direto Especial Cerrado - Maio/áJunho de 1998 RPD - É possível usar arroz na rotação de culturas em plantio direto?
Hoje estamos entrando direto em cima. Esses Mmurunduns que se faz aqui em São Paulo e Goiás para conter a erosão e que custam caro, nada Lucién Seguy - O arroz é , Via rodoviária WS ' £ É UM Mau aluno RPD - Como : E 1tio di j A - está o manejo em plantio direto. Ele exige condições especiais com plantio direto no Mato O Orosegm Loto 8 no perfil do solo, como macroporosidade. Mas, À ; com a entrada de variedades de alta produtivi- Lucién Seguy - Há 4 anos atrás nós refor- oO dade, como o Cirad 141, que nós criamos e que mávamos pastagens através de preparo do solo. - cobre uma área de mais de 100 mil ha no Mato Grosso, é possível produzir uma média de 70 S/ ha, com um custo 20% inferior ao que se produz disso precisa mais. Retira o gado, elimina os no Sul do pais. cupins, desseca e planta. No Mato Grosso exis- RPD - Como está a perspectiva da cultu- tem 15 milhões de ha de pastagens degradadas, em regiões onde chove cerca de 2.000 mm, ra do algodão? 47 g com uma carga ridícula de 1 cabeça a cada 5 Lucién Seguy - Só o plantio direto pode ha. Os gringos levam essa imagem para dizer dar uma saída para o algodão. Se examinarmos — qJUe não podemos mexer na Amazônia. Mas, a os custos de produção no Paraná e São P aulo, reforma dessas pastagens com plantio direto é algo em tomo de USS 1.200,00/ha, não há como 3 SoiaçaÃo. competir com o algodão argentino, que tem um RPD - O que o pessoal tem feito para custo muito inferior, porque usa pouco insumo. eliminar os cupinzeiros?
A safrinha de algodão pode ser uma saída. em seguida de uma soja de ciclo curto ou médio, Fucién Seguy - Para entrar em plantio direto o pessoal sabe que não pode deixar o plantando direto, pois o custo baixa para cupinzeiro. Quando a área já está super degra- USS$S700,00 e existe uma possibilidade de colher da, com os cupinzeiros todos juntos, aí não tem 2.500 kg/ha.Uma expectativa é em torno da aber- Jeito. No começo, é possível eliminá-los com o tura do corredor norte de exportação, o que pode uso da broca e o tratamento com Fipronil, que é tornar o custo Amesterdã do algodão produzido um inseticida faixa verde, mas muito eficiente.
MADAGASCAR Solo: NnoslHsnigus Pársira No mês de março, uma delegação brasileira esteve em Madagascar, participando de um seminário denominado “Gestão Agrobiológica do Solo”, idealizado por Lucién Seguy e pelo Cirad para desenvolver o plantio di1- reto naquele país. Manoel Henrique Pereira, presidente da Federação Brasileira, pesquisadores da Embrapa, do Iapar e outras instituições fizeram narte da delegação brasileira. Fizemos esse seminário em Madagascar para debater uma situação caótica, relatou Seguy . Em Madagascar, segundo ele, a erosão é uma coisa extraordinária, sem comparativos no Brasil. O tipo de solo, as alt1- tudes, a declividade, tudo são fatores diferenciados, mas a persistência na proposta de resolução do problema através de tecnologias simples é algo notável. “Não existe dinheiro para comprar advEe ou herbicida, disse Seguy, e além de tudo temos que eliminar práticas culturais estabelecidas, como o fogo. O plantio direto em Madagascar é o mais simples e O que exige uma maior criatividade, em função da falta ES A CIânf: ilh de recursos. Baseados em tração animal, os agricultores produzem alimentação de subsistência, como milho, arroz, | mandioca e feijão. “Os agricultores, que são extremamente pobres, finalizou ele, captaram tecnologias simples como, | para substituir herbicidas, colocar palha roçada no mato e ! .vada para colocar entre as linhas das culturas.
; 3 Revista Plantio Direto Especial Cerrado - Maio/Junho de 1995