Produtividade e Uso de Fertilizantes


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Publicado em: 01/07/1998

portas do terceiro milênio, estamos assistindo a uma verdadeira revolução na agricultura. Modernas tecnologias começam a chegar às propriedades, sinalizando novos patamares de produtividade ao agricultor, à medida que, através destas modernas tecnologias, poderemos gerenciar fatores adversos, responsáveis por limitações nas produtividades das nossas lavouras. Dentre estes fatores, destacamos as doenças, pragas e Invasoras, para muitas das quais começam a surgir plantas resistentes, através da Introdução de gens de resistência em diversas culturas de interesse econômico. São as plantas geneticamente modificadas, também chamadas transgênicas.

Estes avanços permitirão a criação de alterações fantásticas, como a produção de fibras de algodão já na cor blue jeans, além de outras, cuja simples menção algum tempo atrás resultaria em rotular de visionário ou louco quem as descrevesse!

Também nas áreas de plantio, adubação e colheita, estão ocorrendo grandes avanços, fruto de equipamentos cada vez mais eficientes e precisos na realização de cada uma destas etapas do processo produtivo, inclusive com o monitoramento via satélite (GPS-Global positioning system ou Sistema de posicionamento global), permitindo um mapeamento completo da fertilidade de uma determinada gleba.

Tudo isto, com elevado índice de acerto e, não poderia ser diferente, com o custo correspondente à estas tecnologias!

Porém, todas estas maravilhas tecnológicas e da biotecnologia continuam, a curto prazo, representando apenas uma possibilidade e, quando estiverem disponíveis ao produtor estas novas cultivares contempladas com estes avanços da biotecnologia, elas continuarão dependentes de um fator primordial para poderem expressar todo este potencial produtivo na lavoura.

Este fator se chama FERTILIDADE. E, em termos de fertilidade, já temos um bom nível de conhecimento e recomendações gerados pelos vários órgãos de pesquisa que atuam no es. tado, as quais, se adotadas integralmente por todos os produtores, não demandariam Investimentos em pesquisa ou novos equipamentos e permitiram um salto nos níveis de produtividade das principais culturas do RS, com reflexos em toda nossa economia, haja visto que o agribusiness responde por nada menos que 45% do PIB gaúcho.

Lamentavelmente, neste ponto fundamental de todo o processo de produção - Fertilidade do soloo Rio Grande do Sul vem perdendo terreno para os demais estados da federação, colocando-se numa situação delicada de produtividade/lucratividade/ competitividade, num mercado cada vez mais competitivo, globalizado e seletivo.

Mesmo reconhecendo todas as adversidades climáticas ocorridas no estado nos últimos anos, ali adas a nossa complexa estrutura fundiária, com predomínio de pequenas propriedades, é muito simplista atribuirmos todas as mazelas de que temos sido acometidos na nossa atividade agrícola apenas a estes dois fatores, dando as costas a um fato incontestável, para o qual estas linhas pretendem despertar a reflexão de todos: em termos gerais, nossos produtores estão adubando mal nosso patrimônio maior, o solo agricola! Prova disto é o exemplo de inúmeros produtores que, mesmo submetidos aos problemas de clima adverso em suas propriedades, conseguiram, nestes anos ruins, obter médias de produtividade bem acima das médias doenças e de pragas.

Embora esta situação de baixo uso de fertilizantes atinja todas as culturas, em maior ou menor Intensidade, vamos utilizar, para embasar nossa reflexão, dados estatísticos com parativos sobre a mais Importante cultura econômica do RS, a SOJA, os quais deixam bem evidentes os pontos até aqui le- Na tabela 1, estão as produtividades médias no Brasil, contemplando os principais estados produtores, seguido das áreas de cultivo, nestes mesmos estados, nos últimos cinco anos.

Comparando esta realidade com o mais importante e completo levantamento sobre a fertilidade dos solos e necessidade de adubos no RS, publicado pela UFRGS em 1.995, a situação começa a ficar mais clara. Neste levantamento, com base nos resultados de mais de 58.500 análises de solo Revista Plantio Direto - Julho/A gosto de 1998 Estado/Safra Goiás — 2220 | 2230 | oo 469 2500 | 250 | 228 | 1074 ai eme A 2.124 —a500 | esmo 2.366 983 do Mato Grosso Mato Grosso do Sul Minas Gerais Fertilidade Paraná “Santa Catarina 2:20 2.630 2.606 2.402 o | 2.630 2.630 248 são Paulo Rio Grande do Sul : : AA 2.350 Co redegeaeedoo da Rede Oficial de Zzantes para garantia dos teores de nutrientes das ão E e Solo - ROLAS, em amos- formulações comerciais de adubo, as quais consas representativas das diferentes regiões e 22 prin- tam na sacaria dos produtos E AEDSS e fe Ás estado e utilizando as Recomen- Considerando a recomendação de utilização des E Er O ARS de a para os Esta- de 29% do N na base, para atendermos as neces- E OQ8O). chenor- e de anta Catarina (3º sidades apontadas, precisaríamos utilizar 2.160.000t ção), gou-se a uma necessidade anual de da formulação de adubo 04-23-20 complementanutrientes da ordem de 343.000 t de N, 485.000 t das com 570.000 t de Uréia, em cobertura para de PO; e 432.000 t de K5O, contemplando estas fornecer os restantes 75% das necessidades de N mesmas 22 principais culturas do estado. Somando-se estes volumes, chegaríamos a uma Esta reterência aos nutrientes em N, P.Os e necessidade total de fertilizantes da ordem de KO é a mesma utilizada pelas empresas de fertili- 2./30.000t/ano.

0 Plantio Direto só é sustentável com rotação de culturas. PD não existe sem rotação 0 milho na rotação de culturas Planejamento Plantio Direto não é somente deixar de usar a O milho, além de sua importância A implantação do sistema de rotação de grade e o arado. A sequência de culturas a econômica, é a principal cultura no sistema culturas é um plano de médio prazo, onde a serem plantadas, a interação entre elas e a de rotação de verão com a soja e o maior sequência alternada de culturas tem como constante adição de palha ao solo são fornecedor de palha para o sistema em objetivo, além do rendimento econômico, a essenciais para o sucesso do Plantio Direto. qualquer região do Brasil. E importante Interação entre as culturas, a formação da Hoje se sabe que o sistema de Plantio Direto deixar claro que a prática de plantar soja no palhada, o controle de pragas e doenças e o é inviável sem um plano de rotação de verão seguida pelo milho safrinha não é melhoramento do solo. Esta opção deve culturas de verão e de inverno bem claro e rotação e sim uma sucessão de monoculturas. sempre prevalecer sobre as especulações É possível, no entanto, ter um plano de com preços futuros ou culturas milagrosas. rotação de culturas que inclua tanto o milho de verão quanto o de safrinha, desde que sejam respeitados alguns firmemente executado. Os agricultores que se mantiveram fiéis ao plano de rotação de culturas ao longo dos anos, são os que hoje tem melhor situação financeira e obtêm as melhores médias de produtividade na requisitos básicos, SEMENTES « MARCA lavoura, tanto no milho quanto na soja. E) [ds Pp | O N E E R Lo SEMENTES LM / GRAPIENE PD com rotação de culturas: a melhor opção para a nossa agricultura. Tecnologia Que Rende Fertilidade Contrastando com estes números, está a realidade: temos aplicado, na média dos últimos cinco anos, apenas 151.840 t de N, 236.520 t de P,Os e 251.120 t de KO, através de 1.460.000 t de fertiizantes, os quais resultam na fórmula média 10,4— 16,2— 17,2.

No quadro 1, as doses de nutrientes e de fertiizantes/ano, necessárias e efetivamente utilizadas, bem como as fórmulas médias resultantes.

este déficit no uso de fertilizantes, acumulado apenas nestes últimos cinco anos, chegaríamos ao fantástico volume de 6.349.000 t, o qual, somado à necessidade anual apontada no levantamento da UFRGS, nos daria uma hipotética necessidade total de 9.000.000 de t de fertilizantes em 1.998, contemplando estas mesmas 22 culturas mais importantes do estado. Aplicar este volume de fertilizantes em um ano, é inviável técnica e economicamen- Quadro 1. Comparativo de nutrientes, fórmula ideal e volume (para 1 ano) Balanço de nutrientes (em mil t Fórmula média Volume de resultante fertilizantes (mil t Necessários 12,5-17,7-15,8 2.730 Aplicados 10,4-16,2-17,2 1.460 Déficit 191 | 249 | 181 | 15,0-19,6-14,3 1.270 Fonte: UFRGS/Anda/A.A. - Manah Obs.: Conforme este comparativo, teríamos que aplicar, somente para cobrir o déficit médio de 1 ano, a quantia nada desprezível de 1.270.000t da fórmula comercial média 15-20-15, ou seja, 166kg/ha na totalidade da área abrangida pelas 22 culturas analisadas.

No quadro 2, comparativo entre consumo de fertilizantes e déficit resultante, nos últimos 5 anos, no RS.

Quadro 2. Volume anual de fertilizantes entregue x déficit EEE EE AO A E a a aa o a Volume (mil t) Ano 1993 essssscesterecsses 1684 ssssssss-.ss.-.s—-...........Ç.liccsss..

CC.T-....—.———.——......—.—.Ç—.Ç .............eCEEIA sSCpSCESSFASEESSCEECERCSE SUECA ...TC.Tv.CSGRSSESERFANCREOS IssCESADCCCracasestessessresascsssscessesnva FITqtaesssssssévesssessessss.ssfesescc...v..

ESSAS ESSANCSCSASSSSAECSCSSECSCSCCESSSSsCeesCassee ss...s.........———. ......r. lee Média/ano — | Fonte: Anda/A.A. - Manah Este consumo de fertilizantes do RS, praticamente estagnado aos níveis de 1.993, contrasta com o quadro observado em termos de Brasil, onde, neste mesmo período, o consumo saltou de 10.541.000t (1.993) para 13.758.000t (1 997), com expressivo crescimento de 30,5%. Se o RS tivesse experimentado este mesmo crescimento, teríamos atingido um consumo de 2.000 .000t de fertilizantes em 1.997.

Agora fica mais fácil o comparativo entre as médias de produtividade obtidas e o consumo de fertilizantes, o qual, como podemos observar, influi também a safra seguinte. Se fosse possível zerar te, pois este volume é quase o consumo anual do Brasil!

A fertiidade precisa ser construída em etapas, ano após ano, safra a safra, como se fora uma “poupança de nutrientes”, onde devemos prover necessário “saldo positivo”, capaz de atender a demanda das culturas para altas produtividades e resultando num.solo mais fértil após a colheita. Aliás, nossas atuais tabelas de recomendação de adubação, contemplam esta melhoria gradual na fertilidade do solo!

Esta defasagem entre o volume de fertilizantes utilizado, em relação ao necessário, nos dá o tamanho aproximado do déficit que estamos provocando nas reservas de nutrientes dos nossos solos agrícolas, mesmo levando-se em conta os significativos avanços proporcionados pela melhoria dos sistemas de produção surgidos nos últimos anos, sistemas estes menos Impactantes sobre o solo e o ambiente, com especial destaque para o Sistema Plantio Direto, Importante redutor das perdas de nutrientes e recuperador do solo.

Também é importante lembrar que, apesar de todos os avanços ocorridos, não temos como fugir de uma perda significativa de nutrientes que ocorre em cada propriedade, perda esta muitas vezes 1gnorada ou esquecida: é a perda de nutrientes via colheita, retirando, safra após safra, um pouco da fertilidade do solo. Quando este nível de fertilidade Já está crítico, como ocorre em muitas propriedades, esta perda se torna ainda mais significativa e merecedora de atenção, pois agrava as limitações e produtividade. Importante frisar, também, o ele- Revista Plantio Direto - Julho/Agosto de 1998 plantas melhoradas que estão sendo lançadas no REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS mercado, o que significa maior necessidade de aporte de nutrientes. | AGRICULTURA: RS deve aumentar a produtividade Sem dúvida, muitos poderão estar Indagan- de soja. Diário da Manhã, Passo Fundo, 06 de ago. 1997. Contra-capa. Reportagem sobre palestra proferida por Paulo Roberto Galerani.

contundente: a China, país mais populoso do pla- ASSOCIAÇÃO NACIONAL PARA DIFUSÃO DE ADU- neta e entre os maiores produtores de grãos, com BOS E CORRETIVOS AGRÍCOLAS-ANDA. Anumais de 400 milhões de toneladas e que, ário estatístico do setor de fertilizantes 1993.

milenarmente, faz o melhor uso em todo o mundo São Paulo , 1994. 152p da matéria orgânica representada por estrume ani- ASSOCIAÇÃO NACIONAL PARA DIFUSÃO DE ADU- mal e excrementos humanos, fez, nos últimos vinte BOS E CORRETIVOS AGRÍCOLAS-ANDA. Anuanos, enormes investimentos em instalações para ário estatístico do setor de fertilizantes 1 294.

produção de fertilizantes minerais, dos quais todo São Faulo, 1995-7186p. avrador chinês faz uso atualmente. A China setor- — ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE AGRIBUSINESS - nou o maior produtor, maior Importador e maior con- ABAG/RS. Plano integ rado de ação para o agribusiness gaúcho: primeira fase. Porto Aledo: E os resíduos orgânicos?

Fertilidade sumidor de fertilizantes nitrogenados do mundo e E 99 4 seus investimentos foram amplamente recompen- E NT Sia E) ; sados, fazendo à produção agricola saltar dos 147 ASSOCIAÇÃO NACIONAL PARA DIFUSÃO DE ADU- milhões de t vem 1.961. para os mais de 400 mi- BOS E CORRETIVOS Sra fe Dlahtas q Ihões de t atuais, num crescimento superior a 70%, SS Ao a tio Mo SS nr Je fertilizantes | mantendo praticamente a mesma área de produ- a | o ção. Isto mostra que devemos fazer o melhor uso SDS E CORRETNCS co E PLAS.ANDA, A Ant: pOSSIVA Se residuos elo eietos gerados na Ppropri- ário estatístico do setor de fertilizantes 1996 edade, não contaminando mananciais, lembrando São Paulo, 1997. 152p ue estes resíduos orgânicos não excluem o uso a | 7 de fertilizantes, mas oo fica bem claro com o ASSOCIAÇÃO NACIONAL PARA DIFUSÃO DE ADU- ' : BOS E CORRETIVOS AGRÍCOLAS-ANDA. Ferexemplo da China, existe uma complementaridade tilizantes entregues ao consumidor final: períentre os dois fatores, na melhoria da qualidade do odo de janeiro a dezembro de 1997. São Pausolo e da produtividade agrícola. lo 1998. Separata com dados preliminares. ola podemos observar, este é um proble- | cno E DOWSWELL, C.R. As terras ácima complexo e que diz respeito não só à agricultu- das: uma das últimas fronteiras da agricultura. ra ou ao setor de fertilizantes, mas abrange, de for- In: SIMPÓSIO INTERNACIONAL SOBRE AS INTERAÇÕES PLANTA/SOLO EM BAIXO PH, 4., 1996, Belo Horizonte. Palestra de abertura.

São Paulo: Manah, 1996. 28p. ma direta, toda a economia do RS, um estado Já chamado de “celeiro do Brasil”, à medida que milhões de dólares deixam de circular na economia estadual. Apenas a diferença de produtividade mé- BORLAUG, NE. ; DOWSWELL, C.R. Fertilizante dia da soja do RS, em relação ao Paraná, nestas para nutrir o solo infértil que alimenta uma popuúltimas cinco safras - menos 774kg/ha - ao preço 'ação fértil que povoa um mundo frágil. In: CON- médio de US$ 200,00/t fez com que deixassem de |” ERENCIA ANUAL DA ASSOCIAÇÃO INTERNA- ; SD ; CIONAL DE FERTILIZANTES, 61., 1993, New circular U$ 465 milhões/ano em nossa economia. - : ; Orleans. Palestra de abertura. São Paulo Novamente, ficando só com o exemplo da soja, pois Manah, 1993. 36p a inclusão das demais culturas nesta linha de avali- | - : ; Tao : DRESCHER, M.; BISSANI, CA. GIASSON, E. et al. ação, nos levaria a cifras de milhões de dólares que Avaliação da fertilidade. dos solos do Estado deixaram de circular na economia gaúcha pela bai- do Rio Grande do Sul e necessidade de aduxa produtividade média! bos e corretivos. Porto Alegre : Departamento Como vimos, esta é uma realidade que afeta de Solos da UFRGS, 1995. 24p. (Boletim Técnia todos nós, direta ou indiretamente. Que possa- co, 7) mos, todos os envolvidos com a questão, refletir GASSEN, D.N. Perspectivas para a agricultura do sobre o futuro da nossa agricultura e que, desta re- RS.[Porto Alegre]: Ed. Autor, 1997. 23p. flexão de cada um possamos aglutinar soluções que MCCORKLE, C.O.; MCCORKLE, S.A. A agricultura reduzam nossa defasagem em termos de fertilida- no século XXI: tendências e implicações para os de, alavancando novos patamares de produtivida- maiores participantes do mundo. São Paulo de e uma nova realidade de progresso e bem estar Manah,1997. 20p. [E para todos os gaúchos!

Revista Plantio Direto - Julho/Agosto de 1998