Esperando La Niña


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Publicado em: 01/07/1998

Gilberto R. Cunha Agrometeorologista da Embrapa Trigo, Passo Fundo, RS. O momento é de preocupação e de expectativa. Pelo menos, para aqueles que trabalham em atividades sensíveis à variabilidade climática; por exemplo, em agricultura. Os veículos de comunicação divulgam que La Niha pode estar chegando no segundo semestre de 1998. Afinal, quem é essa tal La Niha? O que realmente está sendo previsto? Que impactos pode trazer no clima do sul do Brasil? Como utilizar a informação disponível para reduzir os riscos associados? Eliminar esse tipo de dúvida é o que se pretende com esse artigo.

O fenômeno El Nifio-Oscilação do Sul (ENOS) ou apenas El Nifhio, como é referido nos veículos de comunicação de massa, possui duas fases: uma quente (El NiÃho) e outra fria (La Nifõa). O comportamento da temperatura das águas do oceano Pacífico tropical (parte central e junto à costa oeste da América do Sul) associado aos campos de pressão (representados pelo Índice de Oscilação do Sul) altera o padrão de circulação da atmosfera. Com isso, acaba influenciando no comportamento do clima, em diferentes regiões do mundo. Sendo o responsável pelas chamadas anomalias climáticas persistentes, isto é, pelos desvios em relação ao clima normal, que duram bastante tempo (6 a 18 meses, por exemplo).

Admite-se que há 20 regiões no mundo, cujo clima é afetado pelas fases do ENOS. Entre essas, no caso do Brasil, a parte norte da Região Nordeste e o leste da Amazônia (na faixa tropical) e a Região Sul (na faixa extra-tropical). As anomalias climáticas mais conhecidas e de maior impacto são as relacionadas com o regime de chuvas, embora o regime térmico também possa ser modificado. De modo geral, as anomalias de chuva relacionadas com o El Nifio (águas do Pacífico tropical quentes e Indice de Oscilação do Sul negativo) e com a La Niõa (águas do Pacífico tropical frias e Índice de Oscilação do Sul positivo) atingem as mesmas regiões nos mesmos períodos do ano (ou um pouco defasados), porém de forma oposta. Ou seja, naquelas regiões onde em anos de El Niho há excesso de chuvas, nos anos de La Nifia pode ocorrer seca.

Particularmente no sul do Brasil, tem-se excesso de chuvas nos anos de El Niho e estiagem em anos de La Nina. Apesar da influência dar-se durante todo o período de atuação desses eventos, há duas épocas do ano que são mais afetadas pelas fases do ENOS. São elas: primavera e começo de verão (outubro, novembro e dezembro), no ano inicial do evento, e final de outono e começo de inverno (abril, maio e junho), no ano seguinte ao início do evento. Assim, nessas épocas, as chances de chuvas acima do normal são maiores, em anos de El Nifio (como ocorreu em 199//98), e chuvas abaixo do normal, em anos de La Niha.

Neste século, registrou-se a ocorrência dos seguintes eventos La Nifia: 1903/1904, 1906/1907, 1908/1909, 1916/1917, 1920/1921, 1924/1925, 1928/1929, 1931/1932, 1938/1939, 1942/1943, 1949/1950, 1954/1955, 1964/1965, 1970/1971, 19/3/1974, 1975/1976, 1988/1989, 1995/1996 e 1996/1997.

Estiagens no período de primavera-verão não são raras no sul do Brasil. Algumas vezes estão relacionadas com o fenômeno La Nifia , em outras não. Nos últimos dez anos, quatro grandes estiagens causaram perdas de 13,8 milhões de toneladas de grãos no Rio Grande do Sul. Foram elas: 198//88, 1990/91, 1995/96 e 1996/97. Conforme levantamentos da EMATER/RS, causando perdas de 3 milhões de toneladas de grãos, 5,6 milhões de toneladas de grãos, 3,0 milhões de toneladas de grãos e 2,3 milhões de toneladas de grãos; respectivamente. Porisso, o nome La Nifha e sua associação com secas preocupa quem trabalha com agricultura no sul do Brasil.

— Nesse momento (julho de 1998), está diagnosticado o fim do evento El Nião 1997/1998. Desde o começo de maio havia indícios de resfriamento da águas do oceano Pacífico tropical e mudanças nos ventos junto à superfície oceânica, com os prognósticos baseados em modelos de acoplagem oceano-atmosfera sinalizando para um provável evento La Nifia, à partir do segundo semestre de 1998. Com base nisso, foram difundidos o “Aviso Meteorológico Especial — 5/06/98”e o “Alerta Meteorológico para o Inverno — 17/06/98”, pelo Instituto Nacional de Meteorologia, além do Boletim INFOCLIMA, do Centro de Previsão de Tempo Estudos Climáticos/Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTEC/INPE), disponibilizados via Internet, entre várias outras fontes, sobre o tema. À ata de então, houve grande repercussão sobre o sSsunto nos veículos de comunicação, quanto aos Revista Plantio Direto - Julho/Agosto de 1998 possíveis impactos desse evento na região, nos próximos meses (inverno rigoroso e seca, entre outras).

Em 16 de junho de 1998, especialistas em previsão climática, de várias instituições, estiveram reunidos em Foz do Iguaçu, PR, para tratar do assunto e realizar um prognóstico de consenso para o Sudeste da América do Sul (região reconhecidamente afetada pelas fases do ENOS). Concluíram eles: (1) o período julho-agosto-setembro de 1998 será caracterizado pela transição de condições de El Nião para La Nifha; (2) espera-se, no trimestre julho-agosto-setembro de 1998, um regime de chuvas próximo do climatológico (caraterizado pelas médias históricas); (3) há maior probabilidade de chuvas abaixo do normal no trimestre outubro-novembro-dezembro de 1998, particularmente no sudoeste do Rio grande do Sul, no Uruguai e no nordeste da Argentina. Destacaram também: (4) o acerto da previsão do regime de chuvas com horizontes superiores a seis meses diminui. Contudo, não há indicação do aumento de probabilidade de chuvas acima do normal na região para os três meses que seguem dezembro de 1998 e (5) o prognóstico é fundamentado na evolução esperada de condições de La Nina, durante o segundo semestre de 1998.

Portanto, tudo vai depender da evolução do evento La Nifia nos próximos meses. Para a agricultura do sul do Brasil, destacase que La Niha também não é exclusivamente má. E o caso do trigo, por exemplo. Os anos de La Nifia são caracterizados por primavera seca. E esse tipo de clima é favorável à cultura de trigo, pois diminui a ocorrência de doenças da espiga e favorece as caraterísticas de qualidade do grão (PH). Em análise que realizamos sobre as fases do ENOS e a cultura de trigo, ficou constatado como os anos de La Niha sendo os de maiores rendimentos de trigo no sul do Brasil.

Por outro lado, estiagens (que não são exclusividade de La Nifhia) causam sérios problemas às culturas de verão. Milho e soja são as mais afetadas. Nessas culturas, os rendimentos são favorecidos pelo fenômeno El Nihio (em função de chuvas acima do normal, no período primavera-verão).

O momento é de cautela e de busca de Informações para a tomada de decisões aplicadas ao manejo de culturas, na safra 1997/98. À se confirmar a evolução do evento La Nifia e seus possiíveis impactos no clima, algumas estratégias podem ser adotadas, visando reduzir riscos em agricultura. De forma genérica: diversificar épocas de semeadura, plantar cultivares de ciclos diferentes, optar por culturas mais resistentes ao estresse hídrico (sorgo comparativamente ao milho, quando for o caso), plantar quando há umidade no solo suficiente para garantir o estabelecimento da cultura, usar sistemas que conservam a umidade no solo (plantio direto em relação ao convencional), entre outras. Acima de tudo, definir o nível tecnológico a ser empregado a partir de riscos climáticos conhecidos.

Revista Plantio Direto - Julho/Agosto de 1998 La Nifa e a safra de verão 98/99 Dirceu N. Gassen Pesquisador da Embrapa Trigo Passo Fundo-RS.

À imprensa tem divulgado previsões alarmantes relacionadas ao fenômeno La Nifia, re- | sultado do resfriamento das águas do Oceano = — Pacífico, e seu possível efeito na redução de chuvas no sul do Brasil. As manchetes anunciam prejuízos de 50% na safra de verão e um quadro | extremamente pessimista para a agricultura.

O importante agora é saber os mecanis- - — mos de El Nião e seus efeitos sobre o aumento — ocorrer menor quantidade de chuvas. Isso não | — previsões indicam que poderá chover 30% mede chuvas no sul do Brasil, e de La Nina, com a | redução nas precipitações médias. Há preocu- - pação em prever com maior grau de certeza o | efeito do resfriamento da água do Oceano Pacífico sobre a localização e a intensidade da redução das precipitações na Região Sul. A partir de outubro e até dezembro poderá significa que haverá seca ou falta de água. Às nos do que a média. Entretanto, a frequência, a intensidade das chuvas e o potencial efeito so- | ”bre as culturas de verão, são de difícil previsão.

Destaca-se que as estiagens que afetaram as culturas de verão em 1991 e 1994 não foram — provocadas por La Nifia. os especialistas afirmam que nem sempre existe uma relação entre as | — ocorrências de El Nifio e de La Niha nem relação de intensidade de um evento com o outro, E importante destacar que as previsões para 98 indicam precipitações menores do que as normais nos meses de outubro a dezembro, — com efeito positivo na colheita de trigo. Os eventos La Niha do passado mostram menor efeito negativo sobre a colheita de milho, contrariando a decisão de muitos agricultores que pretendem evitar essa cultura apostando na menor intensidade de chuva com a semeadura de soja.

Para a safra de verão recomenda-se semear usando menor revolvimento de solo, plantio direto com maior volume de palha na superfície e semeadora equipada com sulcador mais profundo para permitir o desenvolvimento radicular em eventuais fases críticas de seca.

A previsão climática é importante ferramenta para a agricultura as outras variáveis também devem ser usadas para superar as característ!- cas de instabilidade de clima no sul. À rotação de culturas, o planejamento da propriedade e a previsão de preços futuros de milho e de soja devem ser os componentes principais da viabilização da unidade de produção rural.