grande ganho do pequeno produtor A NA com a adoção do plantio direto é a ”“* * redução da mão de obra, da quantidade de trabalho. Conheço um agricultor da reg1ão Centro Sul do Paraná que diz o seguinte: com o plantio direto sobra mais tempo para pensar. Eu considero 1sso fundamental porque, nas atuais circunstâncias, quem não gerenciar a propriedade, usando mais a cabeça e menos os músculos, estará fora da competição.” As afirmações são da engenheira agrônoma e pesquisadora Maria de Fátima dos Santos Riberro, do IAPAR - Instituto Agronômico do Paraná, presidente da Comissão Organizadora do III Seminário Latino Americano Sobre Plantio Direto na Pequena Propriedade, realizado de 19 a 22 de outubro em Pato Branco, Paraná. Ela estava satisfeita com os resultados do Encontro, que reuniu mais de 800 pessoas, incluindo um número slenificativo de pequenos produtores do sul do Brasil e do Paragual, no Centro Regional de Eventos da cidade. “Considero isso um dos pontos altos do II Encontro, disse Fátima”, numa breve aval ção sobre os resultados do evento feita à Revista Plantio Direto. Para ela, os objetivos princina:
do HI Encontro foram debater o quadr sistema na fronteira das pequenas pro buscando sua inserção dentro de um produção, que envolve um contexto s lapriedades, Sistema de 12) Revista Plantio Direto - Novembro/Dezembro de 1998 TI Encontro Latino Americano Sobre Plantio Direto na Pequena Propriedade Maria de Fátima dos Santos Ribeiro pontos que podemos destacar é o objetivo atingido de mostrarmos o avanço que já temos em relação à equipamentos para semear, pulverizar e outros trabalhos do plantio direto na pequena propriedade.” Durante 4 dias, extensionistas, pesquisadores, produtores, estudantes e outras categorias ligadas à agricultura assistiram palestras de técnicos do Brasil, do Paraguai, do México e dos Estados Unidos, que abordaram a situação atual e as perspectivas da pequena propriedade agrícola, que usa o sistema plantio direto, sob os mais variados enfoques. Foi reservado um dia para as atividades de campo, onde os participantes puderam acompanhar os trabalhos do IAPAR, da Emater e de empresas particulares, na Estação Experimental do IAPAR de Pato Branco, e validações de tecnologias direcionadas à pequena propriedade nos municípios de Chopinzinho, Coronel Vivida e Pato Branco.
História Com mestrado em mecanização agrícola, Maria de Fátima Ribeiro, coordenadora do III Encontro Latino Americano Sobre Plantio Direto na Pequena Propriedade, acompanhou desde o início os trabalhos preliminares do IAPAR, que serviram de base para o desenvolvimento do plantio direto nas pequenas propriedades não só no sul do Brasil como no Paraguai e em diversas outras regiões da América Latina. “Em 1991. relatou ela, levamos a campo 30 protótipos da semeadora Gralha Azul, que já estava em testes desde 1984. Juntamente com a NH Equipamentos, que apostou na 1déia, foram feitos diversos trabalhos de pesquisa sobre o funcionamento da semeadora, para aperfeiçoar seu desempenho, principalmente na região de Irati, que concentra um grande número de pequenos proprietários. A realização do I Encontro Latino À mericano, realizado em novembro de 1993, em Ponta Grossa, foi, principalmente, o resultado das pr1- meiras experiências e da participação dos produtores nesse processo de desenvolvimento tecnológico. Segundo a coordenadora do III Encontro, cuja segunda edição aconteceu em 1995, na cidade de Edelyra, no Paraguai , a evolução da adoção do plantio direto nas pequenas propriedades no estado do Paraná ainda é pequena. Dados da Emater indicam que, de um total de 300 mil propriedades, apenas 5 mil (cerca de 15 mil ha) adotam o plantio direto.
“Em relação ao tempo em que a tecnologia começou a ser adotada, acho que temos um grande avanço”, frisou a pesquisadora paranaense. Para ela, “existe uma diferença entre a visão do técnico e do produtor em relação à tecnologia do plantio direto nas pequenas propriedades. Quando desenvolvemos esse trabalho, pensamos no plantio dtreto como uma técnica para controlar erosão. Porém, os agricultores estão adotando o sistema prtmeiramente pela redução na mão de obra. De m1- nha parte, acredito que o produtor ganha no controle da erosão, na redução da mão de obra e no aumento da produtividade, que acontece a longo prazo.
Satisfeita com o sucesso do evento, Maria de Fátima salientou que esse resultado somente foi possível graças ao trabalho de todas as entidades envolvidas no processo, como o CEFET-PR, a Prefeitura Municipal de Pato Branco, a Emater, a Secretaria de Agricultura e Abastecimento, Associação dos Engenheiros Agrônomos de Pato Branco e a Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha.
As vantagens dos pequenos Nos últimos cinco anos, mais de 10 mil vis1- tantes já deixaram sua assinatura nos cadernos de anotações do produtor Félix Krupek, que possul uma propriedade de 47 ha, considerada pequena, 2 32 km da cidade de Irati, no sul do Paraná. Os motivos da presença de tantos visitantes é a fama que ele foi adquirindo ao longo desse tempo como o pioneiro do uso da tecnologia do plantio direto em pequenas propriedades, no Brasil e na América Latina. Foi na sua propriedade que o IAPAR iniciou os trabalhos de pesquisa e validação de tecnologia no começo da década de 90. Em Pato Branco, durante a realização do III Encontro Latino Americano, ele foi um dos 3 agricultores agraciados com um prêmio especial pelo pioneirismo.
“Melhoramos muito em termos econômicos”, disse ele à Revista Plantio Direto, naquela ocasião. Apesar dessa evolução econômica, nos 12 anos em que deixou de arar e gradear o solo para plantar milho, feijão, soja, cebola e outras culturas, Félix Krupek não quis comprar mais terra, carro ou trator. “Em determinadas ocasiões eu poderia ter comprado um trator com muita facil1- dade, disse ele, mas não existe necessidade porque a área é pequena e nem toda ela pode ser mecanizada. Não vale a pena ter uma máquina para ficar parada na garagem. Além disso, a terra trabalhada com tração animal se conserva melhor do que com trator. Nas áreas de 12 anos com plantio direto nunca foi posto um escarificador. ' Em Pato Branco, Félix Krupek também ressaltou os benefícios básicos que o plantio direto trouxe. “Hoje nós temos tempo de descansar en Revista Plantio Direto - Novembro/Dezembro de 1998 18.
Revista Plantio Direto - Novembro/Dezembro de 199 8 tre um trabalho e outro. No preparo conven para colhermos uma lavoura de fel Jão, era S passar 12 vezes em cima daquele chão. No mo mento, contando com à ajuda da esposa e dois f1- lhos, Krupek está programando à montagem de uma pequena fábrica de açúcar mascavo, para aproveitar a sobra na capacidade de trabalho. Da área total da propriedade, cerca de são utilizados para as culturas de soja, milh jão e cebola. “Depois que firma o plantio direto, finalizou Félix Krupek, após 3 anos, É possível colher mais que o dobro, na cultura do feijão, por exemplo. No convencional colhíamos 12 s/ha e agora já estamos produzindo mais de 30 s/ha. No caso do milho, onde usamos uma cobertura com ervilhaca no inverno, nossa produtividade subiu de 30 para mais de 80 s/ha.
25 ha o, fei- Sem herbicida “É possível sobreviver com uma área de 7ha*º Foi a pergunta que fizemos ao casal Sérgio e Mar. | lene Duglovitz, agricultores de Iratinzinho, município de Bituruna, no Sul do Paraná, que participaram do III Encontro Latino Americano de Plantio Direto na Pequena Propriedade, em Pato Branco.
“ A ntes era difícil, respondeu Sérgio, mas agora,com o plantio direto, melhorou bastante. Antes, usávamos muito adubação química e tínhamos que pagar máquinas para lavrar. O feijão antes não alcan- Çava a média de 15 s/ha e hoje colhemos mais de 20 s/ha, na consorciação com milho.” Marlene, a esposa de Sérgio Duglovitz, cujos três filhos menores ajudam na lavoura, considera que houve uma melhora geral, com uma rápida recuperação da terra, redução na adubação e aumento na produção. “Melhorou até na questão da poeira, afirmou ela, pois à terra que é plantada com adubo verde é fofa. Antes era uma terra lavada, parecia um tijolo ou uma estrada.” O casal Duglovitz participou do III Encontro graças ao trabalho da AS-PTA (Assessoria e Servi- | ços de Projetos em Agricultura Alternativa) uma entidade não governamental, com sede em União da Vitória-PR, que desenvolve um trabalho de par“ — ceria com 11 sindicatos e 123 pequenos grupos de > produtores e associações comunitárias no Sul do — —“Nossotrabalho é fundamentado no desenvol- j vimento de tecnologias sustentáveis para a agricultura familiar, com base no manejo ecológico do solo”, informou o técnico agropecuário José Maria Tardin, coordenador do Programa de Desenvolv mento Sustentável da entidade, que é mantida com recursos do Ministério do Meio Ambiente e de em-- presas e entidades internacionais, principalmentê aquelas ligadas às Ierejas católica e luterana. Iníclado em outubro de 1993, o projeto da AS-PTA de- à féne ae õ experimentação e a difusão do uso E e Re >: adubação verde, nas culturas de invernos) natural es com sub dosagens de calcário e o | astante nas culturas de verão. “Nosso programa templa a ee plo, na verdade, afirmou Tardin, com ndo um trabalho de recursos genéticos objetivando : O resgat icionails milho, arroz “Sgate de variedades tradicionê* jornal com o título “Plantio Direto Sem Herbicidas” ação principal que mantém suas lavouras livres foi distribuída por eles ao público do HI Encontro. de papuã, um dos maiores problemas em toda a O produtor Cláudio Bischoff, cuja família faz plan- região. “No começo, quando havia uma infestação tio direto e cultivo mínimo há 11 anos, na locali- maior de papuã, relatou ele, numa área de 10 ha, 5 dade de Conceição de Baixo, município de pessoas faziam & catações por safra. Hoje, 3 pes- Rebouças, considera que à manutenção do agri- soas fazem esse trabalho, com 3 catações por sacultor no campo passa por duas ações básicas, prin- fra, sendo que uma catação leva uma semana.” cipalmente: manter a produtividade e reduzir cus- “E possível manter a família na pequena protos. “Nós estamos conseguindo reduzir os custos priedade”, diz Otávio Bischoff, pai de Cláudio, de adubação, disse ele em Pato Branco, mas um numa matéria do jornal da AS-PTA. Segundo o resultado excelente que estamos tendo é no con- chefe da família, para que isso se torne realidade, trole de plantas daninhas sem o uso de herbicidas. é preciso aproveitar tudo e não depender apenas Estamos reduzindo os custos e provando que é do milho e do feijão. Para ele, se o agricultor tiver possível plantar sem ter que usar herbicidas.” que comprar comida, aí não dá. Ele lembra que Segundo Bischoff, o uso de adubação verde conhece produtores com área de 70 ha que depencom ervilhaca, ervilha, aveia e o trevo carretilha. dem do supermercado para comer, por 18so estão que a família trouxe do Rio Grande do Sul, de onde em dificuldades.
vieram em 1985, é um item importante no controle dos 1inços. Depois, a catação manual tem sido a Troca de experiências “Podemos aprender com a experiência do Brasil, | que possuium avanço significativo em termos de plantio direto.” A afimação é do pesquisador Larry Harrington, diretor do Grupo de Recursos Naturais do CIMMYT (Centro Internacional de Mejoramiento de Maíz y Trigo), localizado no México, que foi uma das autoridades internacionais presentes ao Ill Encontro Latino Americano, em Pato Branco. O Dr. Harrington abordou o tema “Aspectos Sócio-econômicos do Plantio Direto na Pequena Propriedade”, quando teve oportunidade de abordar diversos exemplos das mais variadas regiões do mundo, principalmente aqueles aspectos que influenciam na tomada de decisão por parte dos produtores que vão adotar o plantio direto. | “No Brasil estão sendo feitos muitos trabalhos com bons resultados e progresso na adoção do sistema,” disse ele à Revista Plantio Direto, após a sua apresentação durante o Encontro. “Em outros países, como Índia, México e | Vietnã existem exemplos em que o sistema não funciona muito bem ainda, por falta de equipamento e tecnologia de manejo das coberturas.” O Programa de Recursos Naturais do CIMMYT tem apenas dois anos, mas já atua em vários países, principalmente em regiões mais carentes de tecnologia, como o Sul da Ásia, África e América Central. Segundo o Diretor desse Programa, o lema da Instituição é direcionar os trabalhos para produtores de recursos escassos, em países onde a pobreza é mais concentrada. “Nosso Programa objetiva pesquisas em sistemas sustentáveis e manejo de recursos naturais, sobretudo água e biodiversidade, afirmou Larri Harrington. Nossas preocupações estão voltadas para as consequências a longo | prazo dos impactos ambientais das tecnologias aplicadas. Por isso, trabalhamos dentro de práticas sustentáveis como o plantio direto, adubação verde, culturas de cobertura, etc. Para o pesquisador americano, o plantio direto é uma das várias tecnologias para o melhoramento do sistema de produção de milho no sul da África e na América Central, em áreas propensas à seca, principalmente pelo manejo de resíduos que utiliza. Ele também considera importante as perspectivas do uso do plantio direto em regiões, como o sul da Ásia, onde o sistema pode proporcionar o plantio de mais um cultivo anual, como o trigo.
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