Manejo de Doenças na Cultura da Soja no Mato Grosso - Safra 98/99


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Publicado em: 01/11/1998

preocupações dos aeri- / cultores na implantação da cultura da soja principalmente nas regiões tropicais é sobre a ocorrência de doenças e pragas que lhe tiram a tranquilidade.

Provavelmente em função das campanhas de divulgação de informações executadas pelas instituições de pesquisa como a Embrapa-Soja, Fundação MT entre outras, o agricultor toma conhecimento dos problemas, porém sempre com dificuldades no manuseio dos mesmos.

El Revista Plantio Direto - Novembro/Dezembro de 1998 Tiago Vieira de Camargo Eng.-Agr., Pesquisador da Fundação MT - Rondonópolis-MT SEOrS AS as ajudar um pouco nossos amigos [ uales, O cerrado, através de uma conversa 11º ro. ; VAMOS tentar lazer algumas colocações sobre 'naã que tanto aflige nossos amigos.

À solução e tranquilidade em relação a este assunto ini; 1 es E Ie, eraTsE no Planejamento da cultura. Primêélt - o agricultor deve Juntamente com o seu têenNICO Tres 4 : POnsável, elaborar O diagnóstico dos proble- Por exemplo, já faz alguns meses que um colega. produtor de soja na região de Chapadão do Céu - GO, esteve em nosso escritório e Indagava o porque que o resultado de sua lavoura de sOja era tão diferente de seu vizinho (43 sacas/ha versus 56 sacas/ha), sendo que a produtividade de milho eram semelhantes. No momento lhe respondi que seria muito difícil dar assistência, pois nunca tinha visitado sua lavoura, apesar de ter passado por aquelas proximidades. Mas a insistência deste colega era muito grande, e mostrava as análises de solo comparadas ao seu vizinho. As análises químicas eram semelhantes, porém com a saturação de bases elevada (excesso de calcário na superfície). Mas este dado somente não poderia elucidar muita coisa.

Coincidentemente, neste dia estava recebendo os dados dos experimentos dos ensaios de cultivares, e naquela relação, constava um dos experimentos que havia sido realizada na propriedade deste colega, Juntamente com outros dados desta região. Ao analisarmos conjuntamente estes dados, pudemos observar que duas cultivares resistentes ao nematóide de cisto (MI/BRS-63 Pintado e MT/BR95-] 23-246) estavam com produtividade ao redor de 66 sacas/ha. Logo abaixo destes valores observamos que as cultivares MG/BR-46 Conquista e MT/BR-49 Pioneira estavam no patamar de 56 sacas/ha. As demais estavam próximo do patamar alcançado pelo agricultor em questão, ou seja 43 sacas/ha.

Para os menos desavisados, poderíamos concluir somente que todas estas grandes diferenças eram apenas devido as diferenças das cultivares. Caso concluísse 18to, estaria parcialmente correto, pois havia ainda problemas que este agricultor não estava conseguindo desvendar. O maior problema nesta lavoura é o nematóide de cisto que roubava-lhe em torno de 10 sacas/ha, apesar da rotação de cultura com milho e devido ao excesso de calcário na superfície. Este fato é explicado pela diferença entre o grupo de cultivares resistentes ao nematóide de cisto e o segundo grupo. O segundo vilão nesta história foi a presença de nematóide de galhas, mais provavelmente da espécie Meloidogyne javanica e do Íungo causador da podridão vermelha das raízes (Fusarium solani) que conferia a diferença de 13 sacos/ha em relação ao terceiro grupo de cultivares. Este fato pode ser comprovado pela performance das cultivares MG/BR-46 Conquista e MT/BR-49 Pioneira que são bastante tolerantes a estes dois fatores limitantes à produtividade. As demais cultivares que faziam parte do terceiro grupo, estavam com a média de produtividade próxima do índice alcançado pelo produtor, Ou seja 43 sacas/ha.

Veja quanto estava sendo perdido por não conseguirmos desvendar o problema antes de fazer a colheita. Será que não há muitos agricultores nesta mesma situação? Será que estes números não facilitam os agricultores a adotarem novos procedimento em relação a este assunto? Veja o quanto é importante conhecer os problemas da sua lavoura antecipadamente, ou seja diagnosticar corretamente é muito Importante nas tomadas de decisões quanto a cultivar a ser plantada, manejo adequado do solo, densidade de plantio, aplicação ou não fungicidas, qual a época de aplicação, entre outras medidas preventivas.

Para lembrar das doenças novamente, vamos discorrer sobre as mais importantes a fim de auxiliar cada um no diagnostico correto, antes de chegar a colheita.

Veja, a cultura da soja é atacada por grande número de doenças em todos os seus estágios de desenvolvimento, englobando fungos, bactérias, vírus e nematóides. No inicio da lavoura, o ideal é o plantio de uma semente livre de qualquer microorganismo indesejável. Desta forma o agricultor deve fazer o tratamento químico da semente, primeiramente para garantir um estande normal, e além disso não introduzir novas doenças ou raças de patógenos, que ainda não ocorrem em suas propriedade.

Muitos dos patógenos que causam doenças nos cultivos do Cerrado, já estão presentes nas lavouras, portanto o agricultor deve realizar um controle integrado das doenças para impedir que as mesmas se manifestem. O controle integrado é o emprego da melhor combinação de práticas culturais (rotação/sucessão de culturas, cultivar resisten GRO sorr Informática para o meio rural Ass assoria e Desenvolvimento de Sistemas Ltda. = AGROCUSTO AGROPROJE AGRORECEITA No. Aná ' lis ! é - ã | - Emissão de Receita nar É trimônio eciação de Bens — - Geração Automática de : à i Dsterminação de O CMetOS Fime e Variáveis Projetos de Custeio - Livros Registros/Geração Automática - Análise de Lucratividade (Gleba, Área Geral) — - Geração Automática de Laudos - Relatórios Estatísticos para Análise - Orçamento e Custos Reais - Controle de Patrimônio - Controle de Receita para Análise - Livro Caixa (Agricultura/Pecuária) - Orçamento Analítico e Capacidade - Fluxo de Caixa (Orçado e Realizado) de Pagamento Automática Av. Maurício Cardoso, 888 - Fone/Fax: (054) 522 1701 - Erechim-RS - E-mail: agrosoftest.com.br AGROREVENDA - Automação de Revenda - Nota Fiscal, Estoque - Contas a Pagar e Receber te, manejo do solo, tratamento químico da semente e da parte aérea, época de semeadura, espaçamento e densidade adequados e o controle de plantas daninhas e insetos). Dependendo das condições climáticas da safra 1998/99. da suscetibilidade da cultivar e da agressividade dos patógenos, poderão ocorrer di versas doenças no Mato Grosso (Cerrado), entre elas:

Cancro da haste (Diaporthe phaseolorum f. sp. meridionalis / Phomopsis phaseolorum [. Sp. meridionalis ) Já foi considerada a principal doença da soja no Brasil a alguns anos atrás. A presença de folhas amareladas e com necrose entre as nervuras (folha “carijó”) é uma das primeiras características da infecção pelo cancro. Para o diagnóstico correto da doença deve-se também observar manchas escuras na haste, e com auxilio de um canivete fazer um corte longitudinal na lesão, verificando o escurecimento da medula, o agricultor ou técnico não terá duvida de que se trata do cancro.

Se a sua lavoura já apresentou essa doença, é muito importante o uso de cultivares resistentes, pois esse fungo sobrevive em restos culturais por vários anos e através do plantio de uma cultivar suscetível na área, o fungo novamente 1rá infectar essas plantas. O problema já se encontra solucionado através dos programas de melhoramento, com o uso de cultivares resistentes.

Mancha olho-de-rã (Cercospora sojina) Doença Já foi de ocorrência generalizada em todas as regiões produtoras de soja, onde provoca danos em folhas, hastes, vagens e sementes. Muitas cultivares hoje utilizadas como resistente ao cancro da haste, apresentam padrões de suscetibilidade a mancha olho-de-rã, desta forma atente-se a esse problema. O fungo tem a capacidade de desenvolver muitas raças (23 raças identificadas no Brasil), portanto é muito importante o uso de rotação de cultivares resistentes, além do tratamento químico das sementes para evitar a introdução de novas raças. As raças Cs-15 (restrita a algumas regiões do Mato Grosso e Balsas -MA, ocorrência em cultivares que se originaram de cruzamentos envolvendo a “Santa Rosa) e Cs-23 (observada em Niquelândia — GO) podem se constituir em problemas nas lavouras dessas reg1ões.

Mela ou requeima (Thanatephorus cucumeris | Rhizoctonia solani) E de ocorrência fregiiente e severa nos municípios de Lucas do Rio Verde, Nova Mutum, Sorriso, Sapezal, Campo Novo dos Parecis - MT e no 26 Revista Plantio Direto - Novembro/Dezembro de 1] 998 Maranhão. À alta umidade, alta temperatura e nebulosidade prolongada são as condições 1deais para o estabelecimento da doença. Pode causar perdas de até 50% no rendimento, dependendo das condições ambientais. Os sintomas são observados nas folhas, as quais apresentam-se derretidas/ queimadas em função da presença do fungo. Inicia-se geralmente em reboleiras logo após as chuvas, onde os respingos da chuva com o solo atingem as folhas. Deve-se evitar o plantio adensado, pois as plantas em contato aumentam a disseminação da doença, controlar plantas daninhas e fazer rotação/sucessão de culturas com gramíneas. A aplicação de produtos químicos tem dado bons resultados em alguns locais.

Podridão Vermelha da Raiz (Fusarium solani f. sp. glycines) Atualmente é considerada a principal doença da soja devido a dificuldade do seu controle, sendo | encontrada desde o MA até RS, principalmente ao | redor de Brasília, nas regiões altas de Goiás, Chapadão do Céu, Chapadão do Sul, São Gabriel do Oeste, M1- neiros, Primavera do Leste, entre outras. Ocorre tanto em reboleira como de forma generalizada na lavoura. O sintoma característico da doença é a presença na raiz principal de mancha avermelhada abaixo do ní- : vel do solo, as quais podem se expandir, circundando | toda a raiz e adquirindo coloração mais escura. As folhas também apresentam sintoma de “carijó”. Cultivares resistentes é a única forma de controle, pois nenhuma prática agronômica dá resultado como no caso do nematóide de cisto. Existem entretanto algu- | mas cultivares tolerantes, como a MG/BR-46 Con- | quista e MT/BR-49 Pioneira.

| Complexo de doenças final de | ciclo (DFC) (Cercospora kikuchii e Septoria glycines) Ocorre em todas as regiões produtoras de soja do país, sendo mais Importantes nas regiões quentes e chuvosas dos Cerrados. À visualização dos efeitos Ocorre após o estádio R6 (completa formação de va- 8em) e R7.1 (início da maturação). Os efeito são relacionados sobre o aceleramento da desfolha e conse- RAE Sp de culturas, sementes sadias, tratamen- 1 co das sementes, manejo do solo, adubação — Oídio (Microsphaera diffusa) Em 1996/97 ocorreu em várias cultivares ticamente em todas as regiões produtoras de soja do Brasil, causando perdas de até 40%. As propriedades acima de 650 m de altitude, como no Alto Taquari e Serra da Petrovina, são mais afetadas do que em outros locais. Em 1998, através do uso de cultivares resistentes, controle químico e alterações climáticas houve uma redução das perdas. Essa doença afeta em qualquer estádio de desenvolvimento da soja, e quanto mais cedo for detectada a doença maior será o seu efeito no rendimento de grãos. Para esta safra as condições climáticas deverá influenciar na ocorrência da doença.

Controle: Cultivares resistentes e controle químico (quando o nível de infecção atingir de 40 a 50% da área foliar até o estádio R6).

Mancha alvo (Corynespora cassiicola) De ocorrência generalizada em todas as regiões do Cerrado, sendo que os sintomas iniciam nas folhas baixeiras para cima através de pontos escuros, com halo amarelado, evoluindo para grandes manchas circulares. Em cultivares suscetíveis ocorre destolha prematura, apodrecimento das vagens e manchas nas hastes. Através da vagem o fungo atinge a semente, sendo disseminada para outras áreas. O sintoma de podridão da raiz em locais de plantio direto ainda não foi detectada nos Cerrados, também não está associado aos sintomas da parte aérea.

O fungo é de difícil controle pois sobrevive em uma ampla gama de hospedeiros e por muitos anos no solo, recomenda-se a rotação de culturas, o controle de plantas daninhas, o tratamento de sementes, aplicação de pulverização da parte aérea e uso de cultivares resistentes (R) a moderadamente resistente (MR).

Antracnose (Colletotrichum dematium var. fruncata ) Essa doença é disseminada por sementes infectadas, aparecendo inicialmente manchas escuras nos cotilédones logo após a germinação, além de sintomas nas haste e vagem. E de ocorrência generalizada nos Cerrados, principalmente em regiões com alta temperatura, alta umidade e prolongamento da nebulosidade, semeadura adensada e o cultivo contínuo da soja favorecem o patógeno. O uso de cultivares com certo grau de resistência, aliado ao tratamento químico da semente e população adequada de plantas apresenta bom nível de controle da doença.

Podridão negra da raiz (Macrophomina phaseolina) É uma doença que está diretamente relacionada ao mau manejo do solo (principalmente solo compactado) e à deficiência hídrica. O fungo se aproverita da planta raca em função de uma estiagem prolongada, invadindo as raízes que se enfraquecem, e sofrem também o ataque das doenças de final de ciclo, desta forma as plantas rapidamente entram em maturação, reduzindo drasticamente O seu rendimento. Como controle recomenda-se o manejo físico/ químico do solo, plantio direto e cobertura vegetal, para evitar estresse hídrico.

Nematóide de galhas (Meloidogyne javanica e M. incognita) Na região dos Cerrados o problema é crescente, principalmente nas regiões do chapadões e em São Gabriel do Oeste. Onde OCOITem, aparecem manchas em reboleiras, as plantas ficam pequenas e amareladas, com folhas “carijó”, além de abortamento de vagens e amadurecimento prematuro das plantas atacadas. Anos de veranicos na fase de enchimento de grãos, os danos tendem a ser maiores. Nas raízes observam-se galhas em número e tamanhos variados, dependendo da suscetibilidade da cultivar e da densidade populacional do nematóide.

As medidas de controle devem ser preventivas, onde o primeiro passo é identificar a espécie. Controle com rotação/sucessão de culturas, adubação verde com espécies não hospedeiras e eliminação de plantas invasoras, dá bons resultados, porém a forma mais eficiente de controle é através de cultivares resistente.

Nematóide do cisto da soja (Heterodera glycines) É uma importante praga pelos prejuízos e a sua facilidade de disseminação. Quando presente, dificulta a absorção de água e nutrientes, em conseqiiência aparecem em reboleira plantas de porte reduzido e poucas vagens, não conseguindo produzir e acabam morrendo. Ocorrem normalmente em locais com excesso de calcário em associação a deficiênclas nutricionais, onde as plantas já se encontram debihlitadas. O sistema radicular é reduzido, aparecendo minúsculas fêmeas do nematóide (cisto), com formato de limão. As larvas eclodem das fêmeas e penetram na raiz, onde o ciclo se completa dentro de 3 a 4 semanas. No solo o nematóide consegue sobreviver por mais de 8 anos.

Controle: cultivares resistentes, rotação de culturas e manejo do solo. Atualmente existem as cultivares MG/BRS-54 (Renascença) — resistente a raça 3 e MT/BRS-63 (Pintado) — resistente a raça | e 3.

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