O Plantio Direto e as Doenças da Cultura da Soja


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Publicado em: 01/11/1998

Olavo Corrêa da Silva Aar Pesquisador da Fundação ABC - Área Fitossanidade E ohórtar (0422) 32 2662 - E-mail: fabc &fundacaoabc.com.br Doenças da Soja Introdução Nas últimas três décadas a cultura da soja vem sendo o alicerce da produção de grãos do Brasil e, sem dúvida, proporcionou a abertura de novas áreas de produção, entre elas o Cerrado. Sua adaptação nos Campos Gerais do Paraná foi rápida e logo conquistou lugar de destaque entre as demais culturas, e hoje, consegue-se altas produtividades e bom retorno financeiro para o produtor rural.

À introdução do sistema plantio direto nos Campos Gerais se fez necessária, afim de evitar problemas trazidos pelo preparo convencional, tais como erosão e uso excessivo de insumos agrícolas, o que tornava a agricultura quase impraticável. O plantio direto viabilizou uma agricultura sustentável, tornando esta região, alguns anos depois, referência e pólo tecnológico de produção de grãos no país.

Com o aumento da área semeada com a cultura da soja e sucessivos cultivos, surgiram várias moléstias capazes de causar danos e prejuízos ao produtor. E com o surgimento do plantio direto, houve a necessidade de rever alguns conceitos básicos de manejo das doenças. O principal ponto a ser atacado pelos fitopatologistas é o manejo dos restos culturais, pois estes resíduos vegetais da cultura são importante meio de sobrevivência de fungos necrotróficos. Po tanto, fazse necessário um bom manejo cultural. Neste contexto a rotação de culturas foi a principal ferramenta para contornar tais enfermidades, pela redução do inóculo e pela alternância de culturas que evitam a formação de camadas de compactação, tão favoráveis à doenças radiculares.

As primeiras doenças Os problemas sanitários que à soja vem atravessando com o plantio direto representaram obstáculos quase que intransponíveis para a conti- E Revista Plantio Direto - Novembro/Dezembro de 1998 AAA o nuidade do mesmo. A primeira doença que representou uma real ameaça ao sistema nos Campos Gerais foi a PODRIDAO BRANCA DA HASTE (Sclerotinia sclerotiorum). Sua recomendação de controle passava necessariamente pelo preparo profundo do solo, afim de se anular o inóculo superficial, representado pelos escleródios, que permanecem viáveis na camada superficial do solo por vários anos. Contudo, os experimentos demonstram uma redução na viabilidade dos escleródios em sistema de plantio direto, pela ação de organismos antagónicos e também pela palhada superficial que representa uma barreira física a sua germinação (figura 1). O tempo confirmou os resultados experimentais, o plantio direto não foi desfeito, e a Incidência da podridão branca da haste declinou, mesmo com a introdução de culturas altamente suscetíveis a esta doença, como o feijoeiro. É importante salientar que este fato somente foi possível pela prática da rotação de culturas.

inco rporado 1 Asp foram justamente em nossa região. Mais uma 3 14 I 3 MC e o sistema estava novamente em teste twraô 59 foi a resistência genética que trouxe Nes e inida solução ao problema, e como não aria deixar de ser, a rotação de culturas con- , decisivamente para que o sistema mais uma necesse intacto.

poenças de final de ciclo e oídio da soja Nas safras de 1996/97 e 1997/98 foram realizados trabalhos nos campos experimentais da cundação ABC para se determinar possíveis danos à produção causados pelas Doenças de Final de Ciclo da Soja ( DFC ), representadas pelo CRESTAMENTO FOLIAR (Cercospora Kikuchi) e MANCHA PARDA (Septoria glycines). Em nos- — gas condições, somamos a estes dois patógenos umterceiro, o fungo Corynespora cassiicola agente causal da MANCHA ALVO, que provoca infecções nas folhas, hastes, vagens e sistema radicular. Por se tratarem de fungos necrotóficos, os ensaios foram instalados em lavouras onde a soja fo! semeada sobre seus restos culturais da safra anterior. Nas lavouras infectadas com DFC geralmente há uma desiolha prematura da soja e por conseguinte redução quantitativa e qualitativa da produção. Além disto, nestas duas safras houve a ocorrência do OÍDIO DA SOJA (Microsphaera diffusa) que esteve presente nas lavouras a partir da floração, e em cultivares suscetíveis observou-se elevada severidade. Os trabalhos inicialmente projetados para o controle das DFC, agora também objetivavam o oídio, e na maioria dos casos, o controle visava ambas, o qual poderíamos chamarde “COMPLEXO DE DOENÇAS FOLIARES DA SOJA”, Os primeiros resultados obtidos na saíra 1996/97, mostraram acréscimos na produção, em torno de 8%, nos tratamentos com aplicação de fungicida foliar na fase de enchimento de grãos, em ambos os locais pesquisados (figura 2). ES- tes resultados foram obtidos na condição de soja Semeada sobre soja do ano anterior, e este fato não se confirmou na condição de soja sobre milho ou feijão do ano anterior.

— Emambos os cultivares foi observado redução na produção nos tratamentos sem aplicação foliar de fungicidas, mesmo no cultivar FT- ADyara que possui uma resistência satisfatória ao oídio. Fato este que coloca as D.F.C. como decisivas na redução da produção (figura 3).

“Fungicida | aooaT ”Testemunha - A : Igura 2. Eficiência do fungicida Carbendazin 350 ml 1.a./ha no controle de oídio e doenças de final de ciclo da soja sobre a media do rendimento em dois Cultivares, BR 16 e FT Ayara, em dois locais nos Campos Gerais do PR. Safra 1996/97 - Campo Experimental Fundação ABC. Silva O.C., 1997.

— Fungicida = Testemunha — Cultivares Figura 3. Eficiência do fungicida Carbendazin 350 ml i.a./ha no controle de oídio e doenças de final de ciclo da soja sobre a média do rendimento em dois locais, Tibagi! e Castro nos Campos Gerais do PR, em dois cultivares. Campo experimental Fundação ABC, safra 1996/97. Silva, O.C., 1997.

O principal fator de produção afetado pelas D.E.C. e oídio foi o peso de 1000 grãos, isto se deve a desfolha prematura provocada por estas enfermidades, sendo observado em ambos os locais e cultivares testados (figura 4).

Este primeiro ano de experimentação contribuiu para determinarmos OS níveis de dano, 8%, os quais são fundamentais para optar pelo uso OU não da aplicação foliar de fungicidas. Também contribuiu para avaliar os efeitos da rotação de culturas sobre as DFC, e o impacto do oídio, que prop!- antecipação das DFC. E importante comern- CIOU à tar que as chuvas muito além das normais nos ses de dezembro e janeiro, favoreceram a ocorrência das DFC.

ó ' =— NJ rr q” — ss. Te yo ? Revista Plantio Direto - Novembro/Dezembro de 1995 E 1907 | JFungicida ATestemunha Na subparceila SOJA sobre Of tratamentos com fungicidas foliares foram 8%, ou 294 ko/ | ha, superiores a testemunha. sendo que esta ob- S 1601 teve a menor produção do ensaio, com 3.387 kg/ S Na subparcela em rotação com milho, a prono 1307 dução da testemunha foi de 3.640 kg/ha, Isto é, foi semelhante aos 3.651 kg/ha produzidos nos tratamentos com fungicidas foliares na subparcela soja 100 : sobre soja. Este fato sugere que à produção obtida Tibagi sem o controle das doenças foliares em rotação com E EA Prada milho equivale a produção sem rotação de culturas, soja sobre soja, mais o controle químico das Figura 4. Eficiência do fungicida Carbendazin 350 ml i.a./ha no doenças foliares. ! AA: controle de oídio e doenças de final de ciclo da soja, A produção máxima do experimento foi obtida sobre a média de peso de 1000 grãos em dois cultiva- — como controle das doenças foliares em rotação com res, BR 16 e FT-Abyara, em dois locais do Campos — milho, com 3.944 kg/ha . E esta foi 8.47 superiora Gerais do Paraná, safra 1996/97 - Campo Experimen- — testemunha na subparcela em rotação com milho e tal Fundação ABC. 17 % superior a testemunha da subparcela de soja Silva, O.C., 1997. sobre soja (figura 5 ).

Na avaliação das DFC e oídio observou-se índices significativamente menores na media dos tratamentos em rotação com milho, em relação aos Na safra de 1997/98 os trabalhos continua- tratamentos de soja sobre soja (figura6). ram, afim de que pudéssemos avaliar melhor o aspecto da rotação de culturas e o peso que cada b ”26 doença, D.F.C. e oídio, têm sobre os danos. Em ano experimento realizado para avaliar fungicidas da À parte aérea, utilizou-se subparcela na qual tínha- 85 mos soja semeada sobre soja do ano anterior, sem FE FEODrceNTE, rotação de culturas, e soja semeada sobre milho, O & | | Tosta com rotação. Neste trabalho observou-se eleva- l 2,9 O SEN ATÁIO da severidade de oídio e média de DFC, e utili- FA zou-se um cultivar altamente suscetível à oídio, BR 16 (figura 5). Figura 6. Efeito da rotação de culturas sobre a se- 4000 - E Testemunha Pr À ata de oídio da soja e doenças de E : Inai de ciclo, em plantio direto, média dos AE Fungicidas foliares fungicidas foliares. cultivar BR=16. Local: Campo Experimental Fundação ABC, saíra 1997/98. kg /ha 3500- Silva, O.C., 1998. 32250 4 o SS AS trabalhos subsequentes confirmaram E á quantidade SS rr foliares da soja podem reduzir à 3000 D— e E Sioídio E ca da produção. ão Soja Milho de dano, inde enta a doença de maior risCº SENNA faztfcro ”pendente da rotação de culturas, e Se ultura do verão anterior (subparcela) cCessario o controle com aplicação de fungici m St aaa em cultivares suscetíveis. Esta conclu- | Figura 5. Efeito da rotação de culturas sobre o rendimento da ção ABC Set soja, em resposta a aplicação de diversos fungicidas foliares, no controle de D.F.C. e oídio, cultivar BR-16 | io di : À ocorrênci eo lh A DdOCSo ABC T DESISTE a tegn ag Fimen- Chuvas ço DFC é mais dependente de , . n Silva, O.C., 1998. | reprodutiva da soja ETA bora 38 Revista Plantio Direto - Novembro/Dezembro de 1998