Soja Transgênica no Rio Grande do Sul


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Publicado em: 01/01/1999

Soja transgênica no Rio Grande do Sul

Em um mundo multifacetado como o que vivemos neste fim de século, é cada vez mais difícil um posicionamento sobre os assuntos que envolvem conflitos de idéias, versando sobre questões objetivas ou não. A necessidade de falar sobre a introdução das variedades de soja transgênica no Rio Grande do Sul, entretanto, parece-me um imperativo do momento, em função de algumas consequências que poderão ocorrer. Vejo com simpatia a agricultura orgânica, que leva inúmeras vantagens sobre as demais formas de produção. Ela cresce, na medida em que soma conhecimentos técnicos e de mercado. E não creio que haja limites para esse tipo de produção, em termos de área. O importante é você ter a idéia e atacá-la na prática, sabendo que enfrentará dificuldades não usuais para os produtores que preferem a simplicidade do uso de produtos químicos. O plantio direto está distante da agricultura orgânica mais pura, mas, sem dúvida, baseado na recuperação dos solos através da matéria orgânica, ele é uma evolução significativa na forma degradante como a agricultura foi praticada, no Rio Grande do Sul e no Brasil, principalmente durante o ciclo da cultura da soja. Em relação ao uso de defensivos, o plantio direto tem sido uma grata surpresa para os produtores que buscam uma agricultura mais racional, em termos ambientais e econômicos. Com o uso da palha como cobertura morta, hoje é possível aplicar herbicida pós emergente só naqueles locais onde as plantas daninhas competem com a cultura. Com o passar do tempo, quando o plantio direto vai se estabilizando e o regime de chuvas permite uma boa cobertura, como foi o caso de 1998, a aplicação de herbicidas pode se reduzir a menos de 50% da área total. E, principalmente para os pequenos produtores, como o demonstram inúmeros exemplos bastante divulgados, pela Revista Plantio Direto inclusive, o recurso da catação manual é um processo viável, que vai se tornando facilitado no decorrer das safras. O plantio direto busca a aplicação zero de herbicidas, com a utilização da cobertura morta e muitos grandes produtores chegam perto desse objetivo. Para os pequenos, as possibilidades são inquestionáveis. Outro grande avanço é a estabilidade e a diversificação proporcionado pelo plantio direto no controle biológico de pragas. Com a volta da vida às lavouras, com a presença de pássaros e outros elementos integrantes da micro e da meso fauna, o controle das principais pragas que atacam a cultura da soja, hoje é possível realizar de forma natural, praticamente dispensando o uso de inseticidas. Agricultores estabilizados no plantio direto, como os pioneiros Herbert Bartz e Nonô Pereira, já contabilizam mais de 5 safras sem uso de inseticidas para o controle de lagarta da soja. Historicamente, a principal dificuldade para o estabelecimento do plantio direto foi o manejo e controle das plantas daninhas. A evolução do conhecimento a respeito de culturas de cobertura, alelopatia e efeito supressivo, além do aparecimento de novos produtos, mais eficientes e de atuação específica, foram fatores que favoreceram o desenvolvimento do sistema, ao longo dos últimos 25 anos, no Brasil. Infelizmente, uma grande parcela dos produtores e técnicos não dominam e não levam à prática esse conhecimento. Agora, quando os custos de produção, dos quais o controle de plantas daninhas continua sendo um componente elevado, remetem para um controle rígido, sem o que a atividade fica inviável, a vinda da soja transgênica é aguardada como um item extremamente favorável pelos produtores, embora nem todos devam usá-la. Portanto, proibir o uso de materiais transgênicos está parecendo uma atitude impositiva sobre uma comunidade que tem uma expectativa favorável, pois a tecnologia em questão já provou sua viabilidade nos dois principais países produtores de soja (Estados Unidos e Argentina) e pode nos deixar para trás na competição por produtividade. A agricultura orgânica e suas variáveis deve ser incentivada. O plantio direto é uma delas. A produção de soja pode ser feita dessa maneira, como está provado por experiências conduzidas no Planalto Gaúcho, com mercado garantido. O plantio de soja não transgênica pode ser um objetivo, pois ele direciona para uma agricultura isenta de qualquer produto químico, com balanço energético favorável e com mercado em aberto. Mas, a pergunta que fica é: seria politicamente correto impor uma fórmula absoluta para todos, quando, na prática sabemos que iria gerar um grande desconforto e uma dificuldade ilimitada de controlar o contrabando, entre outros aspectos? Muitos sabem minha posição política favorável aos novos dirigentes do Rio Grande do Sul e acho lógico que o direcionamento para uma agricultura familiar e ecológica seja incentivada. Entendo a postura contrária à soja transgênica. Mas, estabelecer uma determinação que obrigue a todos a não usufruir de uma tecnologia já liberada pelo mundo científico nacional, e já usada em países onde o controle ambiental e de saúde é mais rígido do que o nosso, parece um gasto de energia e de tempo desnecessário, que pode fazer falta. E que pode não estar de acordo com a nossa proposta democrática.

Gilberto Borges