Tecnologia do Paraná para a África
Pesquisador do Iapar difunde plantio direto na Namíbia.
Josiane Schulz Jornalista da Folha de Londrina - Londrina-PR
O plantio direto poderá ser um importante instrumento dos agricultores da Namíbia, país localizado no Sudoeste da África, na produção de mais alimentos. Essa é a expectativa do pesquisador da área de solos do Iapar Ademir Calegari, que esteve naquele país em dezembro, para difundir a tecnologia. Atendendo a um convite da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), Calegari ficou durante duas semanas nas regiões de Okawango e Oshakati, no Norte da Namíbia, fazendo palestras, visitando comunidades, pesquisando o solo e estudando as possibilidades de melhorar o manejo. Aridez e subsistência - Com solos áridos e temperaturas elevadas a Namíbia enfrenta escassez de chuvas que se concentram em no máximo três meses do ano (normalmente de dezembro a fevereiro) e não ultrapassam os 500 mm. É nessa época que as comunidades rurais iniciam o cultivo do milheto, do sorgo e do milho. A agricultura praticada no país é de subsistência. “As comunidades rurais são estruturas tribais compostas por pequenos produtores extremamente pobres, sem tecnologia, sem assistência e que há milênios trabalham a terra da mesma maneira”, conta Calegari. As técnicas de cultivo são rústicas e consistem na roçagem, na queima dos resíduos, na aração do solo com tração animal e no plantio manual. O Objetivo da FAO é buscar alternativas para que essas comunidades produzam mais e amenizem a escassez de alimento. “Podemos contribuir muito para isso”, diz Calegari, lembrando que o Brasil é um dos países que se destacam no desenvolvimento e aplicação de técnicas conservacionistas. Segundo o pesquisador, o exemplo do Paraná, Estado pioneiro em tecnologias para conservação e recuperação do solo, pode levar muitos benefícios aquele país. “Apesar das diferenças de clima e solo, os princípios e estratégias da prática são aplicáveis no Brasil e também na Namíbia”, explica o pesquisador. Desafio - O principal desafio, segundo o pesquisador, é convencer os agricultores de que não é necessário revolver a terra. “Por ser muito arenoso, não existe compactação de solo, o que facilita o plantio direto. Mas lavrar a terra é uma tradição de muitos anos entre eles, o que cria maior dificuldade, porque, nesse caso, o plantio direto acaba exigindo uma mudança cultural”, explica. Apesar das condições extremamente adversas, Calegari aposta na melhoria do cultivo do país. Segundo ele, é possível consorciar plantas mais rústicas de cobertura com as culturas tradicionais, mantendo assim a umidade do solo e aumentando a quantidade de matéria orgânica. “É um trabalho lento, mas que pode dar excelentes resultados”. As técnicas de plantio direto foram explicadas e demonstradas para os agricultores. Vídeos mostraram a experiência de agricultores paranaenses, Calegari levou também alguns equipamentos e sementes de plantas de cobertura, que foram doados às comunidades. “Lá praticamente não existe tecnologia. Eles ficaram impressionados ao conhecerem a matraca (semeadeira manual)”, conta. As novidades chamaram a atenção dos agricultores que tiveram boa receptividade. “Os chefes de cada tribo demonstraram muita gratidão e pediram que houvesse continuidade desse trabalho”. O governo da Namíbia pretende agora, em parceira com a FAO, desenvolver um projeto de incentivo ao plantio direto. “É uma tecnologia muito importante e que traz inúmeros benefícios. Acredito que esse foi um passo importante para a melhoria da vida desses povos”, diz Calegari.
Namíbia: calor, seca e desertos Com área total de 824.292 quilômetros quadrados (quatro vezes maior que o Paraná), a Namíbia localiza-se no Sudoeste da África. Sua faixa costeira é tomada pelo deserto da Namíbia e o interior pelo deserto de Kalahari. O clima árido tropical faz com que o país tenha temperaturas muito elevadas. O pesquisador do Iapar, Ademir Calegari, conta que durante a época de cultivo, só é possível trabalhar no começo da manhã e final da tarde. “A temperatura é insuportável”, diz. Nas comunidades rurais, as casas são feitas de palha e durante o período em que é impossível trabalhar, os moradores ficam reunidos ao abrigo do sol. O país tem baixa densidade demográfica. São ao todo 1,6 milhão de habitantes. O idioma oficial é o inglês. Na agricultura destaca-se a produção de milho, milheto e tubérculos. Na pecuária os maiores rebanhos são de ovinos bovinos e caprinos. A Namíbia destaca-se pela produção de minérios como diamantes e urânio. E é o segundo produtor mundial de chumbo. Apesar de toda a adversidade climática e da situação de pobreza das comunidades rurais, o que chamou a atenção de Calegari foi a alegria e o interesse dos agricultores daquele país. “É um povo pacífico, amigável e que demonstrou força, perseverança e muita alegria para enfrentar os problemas do dia-a-dia”, conta.