Plantio Direto: rumo da agricultura sustentável no Brasil GPD - Grupo de Plantio Direto, é resultado do esforço conjunto de Importantes empresas do agronegócio no Brasil (Agrevo, Basf, Braskalb, DowAvrgrociences Jumil, Manah, Monsanto, Novartis, Pioneer e Zeneca). O intuito é promover e difundir a técnica do plantio direto na palha nas grandes áreas agrícolas do país.
Técnica conservacionista de suma Importância para a sustentabilidade da agricultura, o plantio direto na palha tem seu emprego em franca expansão por boa parte das principais áreas de produção. Conduzindo à alta produtividade e proporcionando manutenção e melhoria das propriedades do solo, principal base da agropecuária, o sistema tem sido um aliado dos produtores que visam a exploração racional dos recursos disponíveis, possibilitando uma maximização do emprego de mão-de-obra, tempo, área e, finalmente, insumos.
E necessário realçar a importância da informação para a perfeita implantação da técnica. Nas áreas pioneiras, o surgimento das associações de plantio direto promoveu um intercâmbio vital para que os primeiros produtores pudessem trocar idéias, experiências e aprender mais com seus próprios erros, além de compartilhar o sucesso ating1do. A disseminação do plantio direto recebeu um egrande impulso, também, com o maior suporte da iniciativa pública e privada. Mais informações chegaram mais rapidamente ao maior interessado - o produtor - que, com o apoio dos técnicos de campo, pôde usufruir de cada novo método para alcançar melhores safras.
O GPD está, há sete anos, ajudando a promover expansão do plantio direto. Apoiando pesquisas, realizando seminários, treinamentos e promovendo suporte às assocliações de plantio direto e “clubes amigos da terra” (além da própria Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha), O grupo se empenha para acelerar a adoção da técnica em diferentes áreas do país. Uma grande 1lha, porém, tem permanecido no cenário rural: o Estado de São Paulo. Caracterizado por solos produtivos e dominado setorialmente por grandes culturas, São Paulo tem permanecido à margem dos avanços do sistema de plantio direto na palha (PDP). O Estado teve alguma experiência anter1- ore alguns casos de sucesso que, contudo, não receberam 0 impulso necessário para a disseminação mais completa do PDP de forma abran gente. Era hora do Estado receber atenção focalizada no tema. Pensando assim, as empresas Eng.-Agr. Michel HR Santos Marketing — Manah - Representante do Grupo de Plantio Direto integrantes do GPD começaram a avaliar quais os principais impactos das ações a serem empregadas para reverter esse cenário. Concluíu-se que parcerias com outras instituições seria a forma mais rápida de integrar o produtor paulista à realidade das outras grandes áreas agrícolas. À CATI (Coordenadoria de Assistência Técnica Integral, orgão da Secretaria da Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo), com seu capital humano e cobertura de área, é a parceira ideal para os trabalhos de difusão de tecnologia.
À parceria com a CATI visa prover o produtor com melhor suporte relacionado ao PDP. Foram realizados 2 grandes treinamentos do pessoal técnico daquela 1institu1- ção a fim de nivelar os conhecimentos, enriquecendo-os com a colaboração de grandes nomes do desenvolvimento do plantio direto, experiências de outras áreas além, é claro, o suporte acadêmico dirigido para incrementar ainda mais os treinamentos. Um estudo conjunto da CATI com o GPD revelou 13 áreas potenciais para o início dos trabalhos Já na safra 1998 / 99 (Andradina, Araçatuba, Avaré, Guaíra, Dracena, Batatais, Fernandópolis, Jaboticabal, Ourinhos, Orlândia, Presidente Prudente, São João da Boa Vista e São José do Rio Preto) Assim, as áreas demonstrativas foram montadas simultaneamente por todo o Estado.
O objetivo primordial do programa é difundir o plantio direto no Estado de São Paulo, levantar necessidades particulares da região, promover o intercâmbio entre as áreas pólo e facilitar a adaptação do sistema à realidade local. As ações, mais que montagem de áreas demonstrativas, englobam também o acompanhamento das áreas a fim de que todos os passos sejam dados dentro das necessidades do sistema. Evita-se, desta forma, erros graves na Implantação os quais poderiam prejudicar o sucesso do programa. Os técnicos da CATI estão promovendo também visitas às áreas trabalhadas, palestras e dias-de-campo. O GPD já está impulsionando a formação de associações, “clubes de amigos da terra”, seminários, publicações e pesquisas em plantio direto no Estado.
O projeto conjunto tem previsão de duração de 6 anos, sendo que nas próximas safras mais áreas estarão sendo incorporadas aos trabalhos. Pretende-se, com isso, revitalizar o PDP em São Paulo mantendo o Estado, assim como já acontece na indústria, dentro da vanguarda da agricultura de grãos e integração com pecuária. — Revista Plantio Direto - Janetro/Fevereiro de 1999 5 engenheiro agrônomo Rolf Derpsch , atual coordenador do % E // Proyeto Conservación de Suelos ”E MAG-GTZ, que envolve o Ministério de Agricultura e Pecuária (Ganaderia) do Paraguai e a agência alemã GTZ, da qual é funcionário, foi um dos primeiros pesquisadores a assumir a idéia do plantio direto, tendo acompanhado as experiências pioneiras de Herbert Bartz, no início da década de 70, quando morava em Londrina -PR. Rolf é uma pessoa especial e agora, mesmo quando o plantio direto se consolida como uma tecnologia estabeleci1- da, ele tem uma preocupação constante com os rumos do sistema, como se tudo tivesse apenas iniciado. Sempre na frente de batalha, participando em todos os momentos importantes do desenvolvimento do plantio direto na América Latina, Rolf Derpsch esteve no 6º Encontro Nacional de Plantio Direto na Palha, em Brasília, no mês de junho/ 98. Naquela ocasião, entre tantas atividades, sobroulhe tempo para desenvolver uma entrevista múltipla com 3 produtores pioneiros do plantio direto no Brasil, com o objetivo de questioná-los sobre o problema da compactação na semeadura direta, assunto que o inquieta, assim como a diversos produtores e técnicos, em todas as regiões.
Na sua nova função de repórter, Rolf foi feliz e conseguiu fazer com que os entrevistados colocassem claramente suas posições sobre o assunto. “Entre os 3 produtores entrevistados, pioneiros do plantio direto no Brasil e na América Latina, nenhum acredita que seja necessário preparar o solo de vez em quando, uma vez iniciado o sistema”, disse ele na conclusão do trabalho. Segundo o pesquisador e difusor de tecnologia da GTZ. todos são comncidentes em afirmar que uma boa ro- 6 Revista Plantio Direto - Janeiro/Fevereiro de 1 999 É preciso descompactar o solo?
tação de culturas, com à inclusão de adubos verdes | e a manutenção de uma camada permanente e abun- | dante de cobertura do solo são suficientes para descompactar o solo. E, finalmente, o trabalho bio- | lógico de minhocas, insetos, mMICroorganismos e pelas próprias raízes das plantas pode ser a solução do problema de compactação do solo em plantio direto.
Compactação de solos no plantio direto, motivo de preocupação? Observa-se ultimamente que alguns agricultores tem optado por descompactar o solo depois de vários anos no sistema plantio direto. E importante preparar o solo a cada espaço de tempo para evitar . uma compactação excessiva? Que outras formas existem para descompactar solos endurecidos? Para responder a todas estas perguntas foram feitas entrevistas com os agricultores de maior experiência no sistema em toda a América Latina, por ocasião do 6º Encontro Nacional de Plantio Direto na Palha, realizado no mês de junho, em Brasília. Os três agricultores entrevistados somam juntos 70 anos de experiência em plantio direto. - Manoel Henrique Pereira RESSACA e a nas — Rolf Derpsch - Estamos observando que na re- 3/80 ocidental do estado do Paraná (Cascavel, enre outras), assim como em algumas regiões do Paraguai, muitos agricultores estão passando im- Manoel Henrique Pereira (Nonô) - Eu creio quê E SO Na região ocidental do Paraná mas também &. O SME de Ponta Grossa se observa esse com E E A do agricultor, que sente certa uso razões À a preparar o solo, e existe uma ado i RacÃo e ISSO. Por exemplo, a falta de uma Sou entar o pra.Ca de melhor qualidade, que possã Om aço produtor para evitar o preparo do solo &º Tn quando em áreas de plantio direto. Por OU Sementes Mário José Basso Trigo - Aveia - Cevada - Milho - Feijão - Soja BR 285, km 142 - Caixa Postal 107 - 95200-000 Fone/Fax: (054) 231 1132/504 5651 VACARIA - RS E-mail: stesmjb O mackmilan.com.br y Trigo: BR 23 - Fundacep 29 - Rubi Aveia: UPF 16 e UPF 17 - Cevada: BR 2 Franqueado Melhor desde a raiz Soja: FT 2000 - MSoy 2002, 6501 e 6101 - FT 9 - FT Cometa Manoel Henrique Pereira, produtor em Ponta Grossa - PR, presidente da CAAPAS (Confederação de Associações Americanas Para uma Agricultura Sustentável), 22 anos de plantio direto.
lação à outra. Por isso, estamos convencidos que a melhor preparação do solo é aquela realizada pelas raízes das plantas que nós semeamos, sejam plantas produtoras de grãos comerciais, se- Jam adubos verdes, cultivados em épocas intermediárias com a produção de grãos.
Laboratório de Análises de Sementes Ltda. e Prestação de serviços em análises de sementes e Determinação da qualidade física, fisiológica e sanitária de sementes Rua Diogo de Oliveira, 640 Fone/Fax: (054) 314 1585/314 2233 Email: unilabE& pas.matrix.com.br Site: http://Www.pas.matrix.com.br/unilab Passo Fundo - RS Revista Plantio Direto - Janeiro/Fevereiro de 1999 7 Franke Dijkstra, produtor rural de Carambeí - PR, presidente da Cooperativa Batavo, 22 anos de plantio direto Rolf Derpsch - Para deixar bem claro: você afirma que não é absolutamente necessário utilizar algum implemento depois que se inicia o plantio direto?
Nonô - Exatamente! É totalmente dispensável a utilização da preparação do solo para descompactá-lo. Temos resultados excelentes com o trabalho das raízes das plantas e a manutenção da umidade do solo por efeito da cobertura morta. Isso é o que se deve buscar em plantio direto.
Franke Dijkstra FTSE ARRAES RRARNAEAUTEREARNAASLAARANALAINAAREESSESL Rolf Derpsch - Temos observado que nos últimos meses no oeste do Paraná e em algumas regiões do Paraguai, agricultores que utilizaram o plantio direto durante vários anos estão arando a terra, gradeando ou passando subsolador. É preciso fazer isso de vez em quando no plantio direto?
Franke Dijkstra - É absolutamente desneces.- sário! Normalmente isso ocorre por má Informação. O produtor precisa Ter informações adequadas, porque é muito raro haver uma razão científica para mover esse solo depois que se inicia O plantio direto. Normalmente a compactação está na cabeça do produtor e não no solo.
Rolf Derpsch - Você está realizando testes sobre essa questão. Quais foram os resultados?
8 Revista Plantio Direto - Janeiro/F. evereiro de 1999 Franke Dijkstra - A produção chegou até a diminuir na área subsolada, porque, em muitos ca. sos, com a subsolagem, diminui a capilaridade do solo, que traz água para a superfície. Rompendo a capilaridade natural que existe, o solo necessita de algum tempo para se recompor.
Rolf Derpsch - Nos 22 anos em que você está usando a semeadura direta na sua propriedade, em alguma área foi necessário arar ou fazer subsolagem?
Franke Dijkstra - Absolutamente não! Fiz testes para sair da dúvida mas, até agora, não vi nenhuma vantagem em fazer qualquer tipo de subsolagem.
Rolf Derpsch - Então, a subsolagem ou preparo do solo significam um gasto totalmente desnecessário para o produtor?
Franke Dijkstra - Nas minhas condições é absolutamente desnecessário, eu vi somente uma pequena vantagem onde se faz milho para silagem, onde se colhe a massa verde e a transportamos, distribuindo o esterco mais tarde, com várias passadas de caminhão. Onde ocorre um excessivo tráfego de máquinas pesadas, pode ser vantajoso escarificar, porém, é necessário realizar a semeadura imediatamente, para cobrir o solo. Em condi- | ções absolutamente extremas de alguns cultivos, — com tráfego excessivo de máquinas pesadas éque — eu vi vantagem em fazer a operação.
Franke Dijkstra - Num ou noutro local poderia ser, porém é muito difícil de detectar. Afrouxando o solo nesses locais onde esteja extremamente < Pactado e sem cobertura, ali pode ser neces- Sário. À compactação também é maior pela falta de palha e pelo esquentamento do solo.
Rolf Derpsch - Então, se houver cobertura suf ciente para O solo, mesmo que ele esteja duro, não E Necessário Subsolar?
Herbert Bartz pers, Rolf Derpsch - Estamos observando que, no Oeste do Par anã e no Paraguai, muitos agricultores estão começando a lavrar as terras que estavam sob plantio direto há vários anos. Existem produtores que tem a opinião de que é preciso soltar 2 terra a cada 3 ou 4 anos. Qual é a sua opinião sobre arar ou subsolar a terra de vez em quando no plantio direto ?
Herbert Bartz - Hoje não temos mais dúvidas. É óbvio que alguém que lavra praticamente destrói a fertilidade do solo devido à acelerada mineralização da matéria orgânica. O carbono do solo é liberado na atmosfera em forma de gás e contribui para o chamado efeito estufa ou o aquecimento global do planeta. Isto não era conhecido há alguns anos atrás. Antigamente se argumentava que era necessário arar o solo para assegurar que o calcário chegasse a níveis mais profundos para neutralizar o alumínio tóxico. Os trabalhos realizados pelo pesquisador Marcos Pavan, do IAPAR comprovam que o calcário aplicado na superfície se move para as camadas mais profundas do solo através dos anos. Este processo pode ser acelerado mediante o uso de adubos verdes adequados, como a aveia preta, que é muito eficiente nesse sentido. Então, o argumento de que é preciso preparar o solo para incorporar o calcário ou colocálo em profundidades maiores, hoje não possui nenhuma força de argumentação.
Rolf Derpsch - Muitos agricultores argumentam que o solo está endurecido pelo plantio direto, que está compactado. Isto seria uma razão para arar, escarificar ou subsolar?
Herbert Bartz - Eu pessoalmente tenho uma excelente experiência nessa parte porque faço pastoreio periodicamente. E, no meu caso, com búfalos, que é um animal extremamente pesado. Eu não retiro os animais das parcelas durante os períodos de chuva, como é recomendado. Isso poderia gerar compactação, teoricamente. Sem duvida, para mim foi uma surpresa total quando Introduzi um pequeno escarificador na semeadora, há cerca de 5 anos atrás. Este escarificador não tem outra finalidade além de romper a camada compactada na superfície, de 2 a 3 mm de profundidade, causada pelo pisoteio. Uma vez rompida essa camada, conseguimos depositar a semente de soja ou de milho na profundidade adequada, proporcionando condições perfeitas à semeadora. À germinação é mais favorável em condições de Um solo um pouco endurecido do que em condrções de solo mais frouxo. Nós preferimos um solo ligeiramente compactado, naturalmente que sem EXCesso. Em geral, a compactação é a consequrencia da falta de atenção para um sistema intel!
gente de rotação de culturas e adubação verde. É necessário formar uma camada razoável de cobertura (acima de 5 a 6 toneladas de massa seca/ ha), que deve ser composta por algum material que não se decomponha rapidamente, como miho, , Sorgo ou tipos de palha que permaneçam por mais tempo. Assim se resolve o problema da compactação.
Rolf Derpsch - Qual a importância da adubação verde? Herbert Bartz - Seguramente ainda não foi aproveitado pelos produtores o potencial que representam as coberturas verdes, especialmente a fertilização interna proporcionada aos solos. Um sistema radicular diversificado, que traz vantagens em termos de alelopatia e de cobrir com eficiên- Herbert Bartz, produtor em Rolândia, Paraná, presidente da Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha, há 26 anos fazendo plantio direto.
cia a superfície do solo, que por sl só proporciona uma biodiversidade em termos de microorganismos, somente pode ser alcançada quando um nível de 5 a 6 (/ha de cobertura seja proporcionada. Nessas condições, a própria presença da biodiversidade, através de microorganismos, consegue realizar a descompactaçaão.
Rolf Derpsch - Segundo sua opinião, uma vez iniciada a semeadura direta, nunca mais será necessário passar qualquer tipo de implemento para soltar ou preparar o solo?
Herbert Bartz - Eu tenho a plena convicção de que não existe mais argumento hoje para arar ou preparar o solo, ao contrário, o problema maior que eu vejo em relação à compactação do solo é uma certa incapacidade mental para assimilar o sistema. Muito mais problemático é descompactar o cérebro. Desculpe a expressão, mas o maior problema se encontra na cabeça! e Revista Plantio Direto - Janetro/Fevereiro de 1999 1