É preciso descompactar o solo?
O engenheiro agrônomo Rolf Derpsch , atual coordenador do Proyeto Conservación de Suelos MAG-GTZ, que envolve o Ministério de Agricultura e Pecuária (Ganaderia) do Paraguai e a agência alemã GTZ, da qual é funcionário, foi um dos primeiros pesquisadores a assumir a idéia do plantio direto, tendo acompanhado as experiências pioneiras de Herbert Bartz, no início da década de 70, quando morava em Londrina -PR. Rolf é uma pessoa especial e agora, mesmo quando o plantio direto se consolida como uma tecnologia estabelecida, ele tem uma preocupação constante com os rumos do sistema, como se tudo tivesse apenas iniciado. Sempre na frente de batalha, participando em todos os momentos importantes do desenvolvimento do plantio direto na América Latina, Rolf Derpsch esteve no 6º Encontro Nacional de Plantio Direto na Palha, em Brasília, no mês de junho/98. Naquela ocasião, entre tantas atividades, sobrou-lhe tempo para desenvolver uma entrevista múltipla com 3 produtores pioneiros do plantio direto no Brasil, com o objetivo de questioná-los sobre o problema da compactação na semeadura direta, assunto que o inquieta, assim como a diversos produtores e técnicos, em todas as regiões.
Na sua nova função de repórter, Rolf foi feliz e conseguiu fazer com que os entrevistados colocassem claramente suas posições sobre o assunto. “Entre os 3 produtores entrevistados, pioneiros do plantio direto no Brasil e na América Latina, nenhum acredita que seja necessário preparar o solo de vez em quando, uma vez iniciado o sistema”, disse ele na conclusão do trabalho. Segundo o pesquisador e difusor de tecnologia da GTZ, todos são coincidentes em afirmar que uma boa rotação de culturas, com a inclusão de adubos verdes e a manutenção de uma camada permanente e abundante de cobertura do solo são suficientes para descompactar o solo. E, finalmente, o trabalho biológico de minhocas, insetos, microorganismos e pelas próprias raízes das plantas pode ser a solução do problema de compactação do solo em plantio direto.
Compactação de solos no plantio direto, motivo de preocupação?
Observa-se ultimamente que alguns agricultores tem optado por descompactar o solo depois de vários anos no sistema plantio direto. É importante preparar o solo a cada espaço de tempo para evitar uma compactação excessiva? Que outras formas existem para descompactar solos endurecidos? Para responder a todas estas perguntas foram feitas entrevistas com os agricultores de maior experiência no sistema em toda a América Latina, por ocasião do 6º Encontro Nacional de Plantio Direto na Palha, realizado no mês de junho, em Brasília. Os três agricultores entrevistados somam juntos 70 anos de experiência em plantio direto.
Manoel Henrique Pereira
Rolf Derpsch - Estamos observando que na região ocidental do estado do Paraná (Cascavel, entre outras), assim como em algumas regiões do Paraguai, muitos agricultores estão passando implementos para descompactar o solo. Qual a sua opinião sobre a necessidade ou não de descompactar o solo de vez em quando com arado escarificador ou subsolador no sistema plantio direto?
Manoel Henrique Pereira (Nonô) - Eu creio que não só na região ocidental do Paraná mas também na região de Ponta Grossa se observa esse comportamento do agricultor, que sente certa atração em voltar a preparar o solo, e existe uma série de razões para isso. Por exemplo, a falta de uma informação técnica de melhor qualidade, que possa orientar o produtor para evitar o preparo do solo de vez em quando em áreas de plantio direto. Por outro lado, alguns agricultores passam implementos para evitar a alta infestação de plantas daninhas resultante do pousio no inverno. Então, eles estão fazendo uma preparação do solo e nada disso é coerente. Se houvesse uma assistência técnica mais eficiente, mais permanente ou mais próxima ao produtor rural nesse momento, ele seria orientado a fazer uma cobertura com adubos verdes, que poderia deixar a área coberta. Creio que existem dois problemas essenciais: um econômico, por falta de opções de cultivos de inverno, e outro por falta de uma melhor assistência técnica ao produtor.
Rolf Derpsch - Nos 22 anos em que você utiliza o plantio direto na Fazenda Agripastos, depois que começou a semeadura direta, alguma vez usou arado, escarificador ou subsolador para soltar o solo?
Nonô - Nunca! Fizemos algumas pequenas parcelas experimentais, com implementos recém lançados por alguma empresa que solicitava uma demonstração. Quando fizemos essas experiências, não obtivemos nenhuma informação ou algo que nos causasse surpresa, porque nas áreas onde não se fez preparo não apresentaram diferença em relação à outra. Por isso, estamos convencidos que a melhor preparação do solo é aquela realizada pelas raízes das plantas que nós semeamos, sejam plantas produtoras de grãos comerciais, sejam adubos verdes, cultivados em épocas intermediárias com a produção de grãos.
Manoel Henrique Pereira, produtor em Ponta Grossa - PR, presidente da CAAPAS (Confederação de Associações Americanas Para uma Agricultura Sustentável), 22 anos de plantio direto.
Rolf Derpsch - Para deixar bem claro: você afirma que não é absolutamente necessário utilizar algum implemento depois que se inicia o plantio direto?
Nonô - Exatamente! É totalmente dispensável a utilização da preparação do solo para descompactá-lo. Temos resultados excelentes com o trabalho das raízes das plantas e a manutenção da umidade do solo por efeito da cobertura morta. Isso é o que se deve buscar em plantio direto.
Franke Dijkstra
Rolf Derpsch - Temos observado que nos últimos meses no oeste do Paraná e em algumas regiões do Paraguai, agricultores que utilizaram o plantio direto durante vários anos estão arando a terra, gradeando ou passando subsolador. É preciso fazer isso de vez em quando no plantio direto?
Franke Dijkstra - É absolutamente desnecessário! Normalmente isso ocorre por má informação. O produtor precisa Ter informações adequadas, porque é muito raro haver uma razão científica para mover esse solo depois que se inicia o plantio direto. Normalmente a compactação está na cabeça do produtor e não no solo.
Franke Dijkstra, produtor rural de Carambeí - PR, presidente da Cooperativa Batavo, 22 anos de plantio direto.
Rolf Derpsch - Você está realizando testes sobre essa questão. Quais foram os resultados?
Franke Dijkstra - A produção chegou até a diminuir na área subsolada, porque, em muitos casos, com a subsolagem, diminui a capilaridade do solo, que traz água para a superfície. Rompendo a capilaridade natural que existe, o solo necessita de algum tempo para se recompor.
Rolf Derpsch - Nos 22 anos em que você está usando a semeadura direta na sua propriedade, em alguma área foi necessário arar ou fazer subsolagem?
Franke Dijkstra - Absolutamente não! Fiz testes para sair da dúvida mas, até agora, não vi nenhuma vantagem em fazer qualquer tipo de subsolagem.
Rolf Derpsch - Então, a subsolagem ou preparo do solo significam um gasto totalmente desnecessário para o produtor?
Franke Dijkstra - Nas minhas condições é absolutamente desnecessário, eu vi somente uma pequena vantagem onde se faz milho para silagem, onde se colhe a massa verde e a transportamos, distribuindo o esterco mais tarde, com várias passadas de caminhão. Onde ocorre um excessivo tráfego de máquinas pesadas, pode ser vantajoso escarificar, porém, é necessário realizar a semeadura imediatamente, para cobrir o solo. Em condições absolutamente extremas de alguns cultivos, com tráfego excessivo de máquinas pesadas é que eu vi vantagem em fazer a operação.
Rolf Derpsch - Então, poderíamos afirmar que nos lugares onde as máquinas fazem retornos seria um lugar onde existe compactação e que, de vez em quando, seria necessário uma subsolagem?
Franke Dijkstra - Num ou noutro local poderia ser, porém é muito difícil de detectar. Afrouxando o solo nesses locais onde esteja extremamente compactado e sem cobertura, ali pode ser necessário. A compactação também é maior pela falta de palha e pelo esquentamento do solo.
Rolf Derpsch - Então, se houver cobertura suficiente para o solo, mesmo que ele esteja duro, não é necessário subsolar?
Franke Dijkstra - Absolutamente não é necessário subsolar porque a atividade biológica desse solo se encarregará de afrouxar essa terra novamente.
Rolf Derpsch - Quer dizer então que o mais importante é a cobertura do solo com adubação verde e rotação de culturas? Seria essa a forma de solucionar o problema?
Franke Dijkstra - Sim, certamente!
Herbert Bartz
Rolf Derpsch - Estamos observando que, no Oeste do Paraná e no Paraguai, muitos agricultores estão começando a lavrar as terras que estavam sob plantio direto há vários anos. Existem produtores que tem a opinião de que é preciso soltar a terra a cada 3 ou 4 anos. Qual é a sua opinião sobre arar ou subsolar a terra de vez em quando no plantio direto?
Herbert Bartz - Hoje não temos mais dúvidas. É óbvio que alguém que lavra praticamente destrói a fertilidade do solo devido à acelerada mineralização da matéria orgânica. O carbono do solo é liberado na atmosfera em forma de gás e contribui para o chamado efeito estufa ou o aquecimento global do planeta. Isto não era conhecido há alguns anos atrás. Antigamente se argumentava que era necessário arar o solo para assegurar que o calcário chegasse a níveis mais profundos para neutralizar o alumínio tóxico. Os trabalhos realizados pelo pesquisador Marcos Pavan, do IAPAR comprovam que o calcário aplicado na superfície se move para as camadas mais profundas do solo através dos anos. Este processo pode ser acelerado mediante o uso de adubos verdes adequados, como a aveia preta, que é muito eficiente nesse sentido. Então, o argumento de que é preciso preparar o solo para incorporar o calcário ou colocá-lo em profundidades maiores, hoje não possui nenhuma força de argumentação.
Rolf Derpsch - Muitos agricultores argumentam que o solo está endurecido pelo plantio direto, que está compactado. Isto seria uma razão para arar, escarificar ou subsolar?
Herbert Bartz - Eu pessoalmente tenho uma excelente experiência nessa parte porque faço pastoreio periodicamente. E, no meu caso, com búfalos, que é um animal extremamente pesado. Eu não retiro os animais das parcelas durante os períodos de chuva, como é recomendado. Isso poderia gerar compactação, teoricamente. Sem dúvida, para mim foi uma surpresa total quando introduzi um pequeno escarificador na semeadora, há cerca de 5 anos atrás. Este escarificador não tem outra finalidade além de romper a camada compactada na superfície, de 2 a 3 mm de profundidade, causada pelo pisoteio. Uma vez rompida essa camada, conseguimos depositar a semente de soja ou de milho na profundidade adequada, proporcionando condições perfeitas à semeadora. A germinação é mais favorável em condições de um solo um pouco endurecido do que em condições de solo mais frouxo. Nós preferimos um solo ligeiramente compactado, naturalmente que sem excesso. Em geral, a compactação é a conseqüência da falta de atenção para um sistema inteligente de rotação de culturas e adubação verde. É necessário formar uma camada razoável de cobertura (acima de 5 a 6 toneladas de massa seca/ha), que deve ser composta por algum material que não se decomponha rapidamente, como milho,, sorgo ou tipos de palha que permaneçam por mais tempo. Assim se resolve o problema da compactação.
Rolf Derpsch - Qual a importância da adubação verde?
Herbert Bartz - Seguramente ainda não foi aproveitado pelos produtores o potencial que representam as coberturas verdes, especialmente a fertilização interna proporcionada aos solos. Um sistema radicular diversificado, que traz vantagens em termos de alelopatia e de cobrir com eficiência a superfície do solo, que por si só proporciona uma biodiversidade em termos de microorganismos, somente pode ser alcançada quando um nível de 5 a 6 t/ha de cobertura seja proporcionada. Nessas condições, a própria presença da biodiversidade, através de microorganismos, consegue realizar a descompactação.
Herbert Bartz, produtor em Rolândia, Paraná, presidente da Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha, há 26 anos fazendo plantio direto.
Rolf Derpsch - Segundo sua opinião, uma vez iniciada a semeadura direta, nunca mais será necessário passar qualquer tipo de implemento para soltar ou preparar o solo?
Herbert Bartz - Eu tenho a plena convicção de que não existe mais argumento hoje para arar ou preparar o solo, ao contrário, o problema maior que eu vejo em relação à compactação do solo é uma certa incapacidade mental para assimilar o sistema. Muito mais problemático é descompactar o cérebro. Desculpe a expressão, mas o maior problema se encontra na cabeça!