Manejo da Fertilidade do Solo na Cultura do Milho Safrinha


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Publicado em: 01/01/1999

Manejo da fertilidade do solo na cultura do milho safrinha

Dirceu Luiz Broch Eng.-Agr., M.Sc. Pesquisador da Fundação MS

Tabela 1. Extração e exportação de nutrientes pela cultura do milho para produzir 1,0 t de grãos e 1,0 t de restos culturais e necessidade de nutrientes para produzir 4,8 t de grãos e 4,8 t de restos culturais. Maracaju/MS, Fundação MS, 1998.

Extração e exportação

Necessidade de Nutrientes

Nutriente

Grãos (1,0t)

R. Culturais* (1,0t)

Total (2,0t)

Exportação (%)

Grãos (4,8t)

Palhada (4,8t)

Total (9,6t)

N (kg)

15,6

9,3

24,9

62,7

75

45

120

P2O5 (kg)

11,0

2,6

13,6

80,9

53

12

65

K2O (kg)

6,1

25,9

32,0

19,1

29

124

153

Ca (kg)

0,39

6,2

6,6

5,9

2

29

31

Mg (kg)

2,23

5,7

7,9

28,2

11

27

38

S (kg)

1,23

1,3

2,5

48,0

6

12

Fe (g)

17,2

303,3

320,5

5,4

83

1456

1539

Zn (g)

24,4

42,2

66,6

36,6

117

203

320

Mn (g)

8,3

76,3

84,6

9,8

40

366

406

B (g)

3,8

17,2

21,0

18,1

18

83

101

Cu (g)

2,1

19,1

21,2

9,9

10

92

102

Mo (g)

0,7

0,6

1,3

53,8

3

6

Fonte: Broch, D.L. (1998). Adaptado de Barber & Olesson (1969), Philips (1972), Hiroce et al (1989) e Coelho & França (1995). *Toda a palhada do milho, menos os grãos (colmo, folhas e sabugo).

Com base nas informações contidas na Tabela 1, faz-se os seguintes comentários:

Extração e exportação de nutrientes

1 - Fósforo, nitrogênio e molibdênio são os nutrientes mais exportados pela cultura do milho (retirados da lavoura através dos grãos), sendo na ordem de 80,9%, 62,7% e 53,8% respectivamente, necessitando de um maior fornecimento na adubação ou reposição após a colheita para não empobrecer o sistema solo. 2 - O milho é um grande reciclador de potássio, necessita de grande quantidade para o seu desenvolvimento, porém, a exportação através dos grãos é relativamente pequena (19,1%), beneficiando em termos de potássio a cultura que se estabelece após.

Necessidade de nutrientes para uma expectativa de 4,8 t/ha (80 sc/ha)

1 - Produção de matéria seca de restos culturais: Em termos médios, para a cultura de milho safrinha, se considera que para cada tonelada de grãos produzida, também é produzida uma tonelada de matéria seca de restos culturais. Uma vez que as condições edafoclimáticas no período de desenvolvimento da referida cultura são menos favoráveis para a produção de matéria seca do que o plantio na época normal. 2 - Nitrogênio (N): Para uma expectativa de produção de 4,8 t/ha (80 sc/ha) de milho safrinha, o que eqüivale a uma produção de 4,8 t/ha de matéria seca de restos culturais, a cultura necessita de 120 kg/ha. Considerando que a cultura da soja, que antecede o plantio do milho safrinha fixa ao redor 45 kg/ha, a necessidade da adubação nitrogenada será de 75 kg/ha. Adicionando-se 40 kg/ha no plantio, necessita-se ainda o uso de 35 kg/ha em cobertura, isto eqüivale a 78 kg/ha de uréia ou 146 kg de sulfato de amônio. Deve-se dar preferência para o uso de sulfato de amônio em condições de deficiência de enxofre no solo e/ou quando as condições climáticas não estejam favoráveis à aplicação de uréia, evitando assim perdas excessivas de nitrogênio por volatilização. Como geralmente, as condições climáticas não são favoráveis à aplicação de nitrogênio em cobertura do milho safrinha, deve-se dar preferência para o uso de uma maior dose possível no sulco de plantio, e/ou a aplicação em cobertura logo após o plantio, quando geralmente as condições de clima são mais favoráveis a esta prática. 3 - Fósforo (P): Este nutriente deve receber atenção especial na cultura do milho safrinha por dois motivos principais: 1) é o nutriente mais exportado pelos grãos; 2) é o nutriente menos móvel no solo, deslocando-se somente 0,004 cm/dia (4 mm em 100 dias), e o deslocamento é diretamente proporcional ao teor de umidade do solo. Como na cultura do milho safrinha o teor de umidade no solo é menor devido à menor precipitação pluviométrica que ocorre neste período, se faz necessário a aplicação de fósforo no sulco de plantio mesmo em solo bem suprido do elemento. Desta forma, o nutriente fica mais próximo das raízes aumentando a eficiência de utilização do fósforo pela cultura. 4 - Potássio (K): É o nutriente que o milho necessita em maior quantidade, porém sua exportação através dos grãos é pequena (19,1%). Desse modo, se o solo for bem suprido em potássio, ou seja, apresentar um teor ao redor de 0,26 meq/100 cm3 (100 ppm), aliado ainda à sua maior mobilidade no solo do que o fósforo, a aplicação de 30 kg/ha de K2O no plantio (valor este próximo do que é exportado nos grãos na referida expectativa de produção) é suficiente para garantir a produtividade almejada. Caso contrário, deve-se adicionar uma dose maior de potássio, utilizando parte do potássio que iria ser aplicado na cultura da soja que será plantada após o milho safrinha (o milho safrinha pega emprestado parte do potássio que iria ser aplicado na soja “adubação de sistema de produção”). 5 - Enxofre (S): Este nutriente é um dos mais deficientes nos solos cultivados na região de atuação da Fundação MS limitando a produtividade das culturas. Para corrigir sua deficiência basta aplicar a cada dois a três anos 300 a 400 kg/ha de gesso. É importante monitorar a reposição do gesso através da análise de solo e foliar. 6 - Ferro (Fe), Manganês (Mn) e Cobre (Cu): De modo geral, os solos da região são bem supridos nestes três micronutrientes, não havendo necessidade de aplicá-los através da adubação. Caso constatadas deficiências através da análise de solo e foliar, deve-se corrigi-las através da adubação via solo e/ou foliar, dependendo da intensidade da deficiência. Também, o uso destes elementos poderão ser recomendados num futuro breve, se os resultados de pesquisa em andamento na Fundação MS assim o indicarem, para a obtenção de maiores produtividades. 7 - Zinco (Zn), Boro (B) e Molibdênio (Mo): Em geral, os solos da região de atuação da Fundação MS são deficientes nestes três micronutrientes, e por isso devem receber atenção especial dos técnicos e dos produtores para que não continuem limitando a produtividade das culturas (especialmente soja e milho). Constatada deficiência através da análise de solo e foliar, a correção poderá ser feita da seguinte forma. a) Zinco (Zn): Para uma correção total adiciona-se ao solo ao redor de 6 kg/ha, e para correção gradual no sulco de plantio, adiciona-se ao redor de 1,5 kg/ha/ano durante aproximadamente 4 a 5 anos consecutivos. Salienta-se que o zinco apresenta baixa mobilidade no solo e sua aplicação em profundidade aumenta a eficiência. Outra alternativa, principalmente quando se opta pala correção gradual, é a aplicação foliar com fontes destinadas para esse fim. Na tabela 2, encontram-se fontes de zinco, boro e molibdênio para uso via solo foliar. b) Boro (B): Constatada deficiência utiliza-se 1,0 a 1,5 kg/ha em função do grau de deficiência, teor de matéria orgânica e argila do solo. Por ter boa mobilidade no solo, pode-se adicionar a lanço em área total sem diminuir a eficiência. Adubação foliar também pode ser usada com os seguintes objetivos: suprir a deficiência do elemento, complementar a correção via solo, e buscar maiores produtividades. c) Molibdênio (Mo): Pode ser o nutriente mais exportado no sistema de produção soja/milho, o solo encontra-se deficiente. Sabe-se também, que o nitrogênio é o nutriente necessário em maior quantidade no referido sistema e que o molibdênio aumenta a eficiência de uso do nitrogênio pelas plantas, pois o mesmo faz parte de enzimas específicas para esse fim. No caso do milho safrinha, recomenda-se aplicar de 10 a 15 g via semente e/ou de 15 a 20 gramas via foliar (aproximadamente 20 dias após a emergência).

Tabela 2. Principais fontes de Zinco, Boro e Molibdênio para uso via solo e foliar. Maracaju/MS. Fundação MS, 1998

Fontes

Características

Elemento

Zinco (Zn)

(%)

Sulfato de Zinco (S) e (F)

Zinco solúvel em água na forma de sulfato (ZnSO4-7H2O)

22,7

Óxido de Zinco (S)

Zinco total na fórmula de óxido (ZnO)

50 - 80

Carbonato de Zinco

Zinco total na fórmula de carbonato (ZnCO3)

52,0

Quelatos de Zn (ZnEDTA) (F)

6,0 - 14,0

(Zn HEDTA)

9,0

Zincogran (S)

Zinco Granulado

15 - 40

Boro (B)

(%)

Ulexita (S)

Boro na forma de borato de sódio (Na2O.2CaO.5B2O3.5H2O)

8,0

Colemanita

Boro total na forma de borato de cálcio (CaO.3B2O3.5H2O)

10,0

Bórax (F)

Boro na forma de borato de sódio (Na2B4O710H2O)

11,3

Ácido bórico (F)

Boro na forma de ácido (H3BO3)

17,5

Pentaborato de sódio (S)

Boro na forma de borato de sódio (Na2B10O1610H2O) ou (Na2B10O16)

18,0

Solubor (F)

Boro na forma de disodio octabarato tetrahidratado (Na2B8O134H2O)

20,5

Borogran (S)

Boro granulado

9,0 - 10,0

Molibdênio (Mo)

(%)

Molibdato de sódio (Se, F)

Molibdênio solúvel em água na forma de (Na2MoO42H2O)

39,8

Molibdato de amônio (Se, F)

Molibdênio solúvel em água na forma de [(NH4)6(Mo7O244H2O)]

54,3

Trióxido de molibdênio (Se, F)

Molibdênio total na forma de (MoO3)

66,7

Notas: 1) (F) via foliar; (S) via solo via semente; 2) Zinco foliar SETA 100 a 200g de Zn/ha/aplicação; 3) Boro foliar SETA 100 a 200g de B/ha/aplicação; 4) Molibdênio foliar SETA 15 a 20g de Mo/ha/aplicação; 5) Encontra-se também no mercado, vários produtos comerciais fabricados por diversas empresas, contnedo um ou mais destes micronutrientes.