Em Busca do Tempo Perdido
”Hoje, o plantio direto é a bandeira do Centro de Plantas Graníferas (IAC, Campinas) e nós vamos recuperar o tempo perdido”, afirmou o pesquisador José Guilherme de Freitas, durante a realização do IV Encontro Paulista de Plantio Direto, em Piracicaba, em dezembro de 98. Naquela ocasião, conversamos com pesquisadores e extensionistas, procurando saber um pouco do histórico, do momento atual e das perspectivas que o plantio direto apresenta. Pelo que é possível entender, existe uma mobilização geral para reverter o quadro maior de uma agricultura que usa o preparo convencional, apresentando problemas graves de erosão, com perdas significativas da fertilidade do solo. “ É muito questionado o fato de São Paulo não utilizar o plantio direto. No Agrishow do ano passado, em Ribeirão Preto, fizemos um debate sobre o assunto, que era o final de uma série de encontros regionais com esse objetivo. Um das conclusões a que chegamos é que falta organização do produtor, pois, nos demais estados onde o plantio direto evoluiu, tem sido muito forte o trabalho das associações de produtores, Clubes Amigos da Terra e similares como estimuladores do sistema. Outro aspecto importante é a necessidade da formação de uma estrutura técnica mais formal, que proporcione uma orientação ao produtor nessa troca de sistemas, onde ocorrem mudanças radicais.” As conclusões são do pesquisador Orlando Melo de Castro, diretor do Centro de Ação Regional do IAC, que administra as 19 estações experimentais do Instituto no Estado de São Paulo. Para ele, ocorreu uma mudança de postura na pesquisa. “ Nós nunca fomos executores do plantio direto, disse ele, mas, hoje, nós estamos afirmando aos produtores que somos defensores e executores do sistema.” Segundo os dois pesquisadores do IAC, que iniciaram seus trabalhos naquele ano, as primeiras pesquisas com plantio direto na instituição remontam a 1977, quando a preocupação era definir os sistemas chamados conservacionistas. Hoje, o IAC tem experimentos em sistemas de produção em diversas áreas do Estado. A extensão rural também está vivenciando de forma efetiva esse novo momento do plantio direto em São Paulo. A CATI – Coordenadoria de Assistência Técnica Integral, órgão da Secretaria de Agricultura do Estado está treinando assistentes técnicos que farão campos demonstrativos e palestras já programadas para 15 locais estratégicos. “ Existe um programa, cujo objetivo é colocar o Estado no mesmo nível dos demais que praticam o plantio direto. Esta é uma bandeira que o próprio Secretário Estadual de Agricultura Fábio Meireles está conduzindo”, afirmou o engenheiro agrônomo Paulo Henrique Interliche, da área de extensão rural da CATI, em Campinas. Até recentemente, ele trabalhou na região de Assis, onde assistiu uma verdadeira explosão do plantio direto, principalmente nas culturas de soja e milho. Na entrevista com os três técnicos, é possível visualizar um painel das perspectivas do sistema no Estado de São Paulo.
Revista Plantio Direto – Qual o status atual do plantio direto no Estado de São Paulo?
Orlando Melo de Castro – Somente nas duas principais regiões, que é a Sudoeste (Itapeva, Itapetininga) e o Vale do Paranapanema (Assis, Ourinhos), eu acredito que já tenhamos cerca de 100 mil ha sob plantio direto. Na região de Guaíra, devemos ter de 10 a 15 mil ha em plantio direto. Na região Noroeste, que já é cerrado, está ocorrendo um avanço na direção da semeadura direta, principalmente nas culturas de milho e soja, principalmente com introdução do milheto como cultura de cobertura.
José Guilherme de Freitas – Se considerarmos a safrinha, no período outono inverno, somente no vale do Paranapanema, no sul do Estado, nós temos 90 a 100% de plantio na palha. No próximo verão, creio que a área deverá atingir 50% de plantio direto num total de 300 mil ha de soja, milho e até de mandioca.
Paulo Henrique Interliche – Nós estamos revendo os números e fazendo levantamento a campo, pois as estimativas sempre foram menores do que a realidade. Até há pouco, nós trabalhávamos com um estimativa de 50 mil ha no Estado e hoje sabemos que só uma das regionais da CATI possui 45 mil ha com plantio direto. Creio que o resultado dessa pesquisa que estamos fazendo a campo trará uma surpresa muito agradável para o plantio direto. Uma das áreas onde o sistema deverá avançar mais é na parte de pastagens, onde existem excelentes resultados em Goiás e Mato Grosso do Sul. Nós temos mais de 8 milhões de pastagens, com um alto percentual de pastagens degradadas. Se conseguirmos colocar 10% de culturas graníferas nessas áreas, poderíamos aumentar praticamente em 50% a produção de grãos no Estado.
RPD – Ainda temos um percentual de área maior com preparo convencional no Estado de São Paulo. A erosão continua sendo problema?
Orlando Melo de Castro – Sem dúvida. Existem problemas sérios nessas áreas com agricultura antiga, principalmente de compactação do solo, o que leva aos transtornos de enchurradas fortes e erosão, questões que as práticas tradicionais, como terraceamento, não resolvem. RPD – Quais as vantagens que estão sendo apresentadas aos produtores, além do controle da erosão?
José Guilherme de Freitas – Estamos acompanhando a lavoura de produtores, como José Roberto e Lúcio Borges, da Fazenda Velha Lagoa, em Ourinhos. Em 94, eles plantavam somente com preparo convencional. A partir de uma avaliação e uma proposta de recuperação química e física do solo, a produtividade subiu de 1800 kg para 2400 kg/ha na cultura da soja. Fizemos um acompanhamento geral e temos uma área piloto para demonstração aos produtores, com GPS inclusive. É uma fórmula diferente do convencional pois, onde antes tirávamos 10 amostras de solos, hoje precisamos tirar 500. Existem outros aspectos em que o plantio direto é vantajoso. Em termos do desenvolvimento de raízes, por exemplo, nós avaliamos uma lavoura de trigo em Campinas em que o sistema radicular chegou a 1,5 m de profundidade. Na mesma área, com 10 anos de plantio direto, a raiz da soja atingiu 2,5 m. A raiz é um indicador de como está o solo e de como está a fertilidade. O fato da raiz ficar na superfície significa um mau manejo da fertilidade. Orlando Melo de Castro – O plantio direto provou que é mais vantajoso, principalmente no aspecto econômico. Antes, havia o fato de que o uso de herbicidas era mais caro do que preparar a terra, mas, hoje nem mais esse aspecto existe.
Área das Principais Culturas no estado de São Paulo - 1997/98
Cultura
Área
1000 ha
Pastagens
8179
Cana-de-Açúcar
2524
Milho (de verão)
775
Milho Safrinha
380
Citrus
926
Reflorestamento
816
Soja
604
Café
191
Feijão (2 safras)
173
Algodão
122
Arroz
73
Amendoim
62
Banana
43
Seringueira
40
Fonte: Prognóstico Agrícola 1998/99 (IEA)
RPD – Como está a questão das culturas de cobertura, que parece ser uma espécie de gargalo do plantio direto nas regiões tropicais?
Orlando Melo de Castro – O advento do milheto na região do cerrado resolveu também o problema que tínhamos em São Paulo. Em termos de clima, nós temos duas situações distintas no Estado: na parcela abaixo de uma linha que corta o Estado ao meio, passando por Baurú, que engloba a região produtora de grãos do Vale do Paranapanema e Sudoeste, temos uma região praticamente sem déficit hídrico, que permite uma série de opções econômicas no inverno. Na metade superior, a grosso modo, a alternativa do milheto tem sido importante, pela sua resistência à seca e a capacidade de produzir massa nessas condições.
Orlando de Castro: existem problemas sérios de compactação nas áreas com agricultura antiga, mas o plantio direto provou que é mais vantajoso.
RPD – Esse seria o principal entrave para o desenvolvimento do plantio direto em São Paulo?
José Guilherme de Freitas – As desilusões com o plantio direto tiveram várias causas e a primeira está relacionada com a cobertura morta, que aqui não é fácil de fazer, principalmente nas regiões norte e noroeste do Estado, região similar ao cerrado. Outro fato importante é que nas universidades e no IAC não haviam elementos dedicados ao plantio direto. Hoje, graças a Deus, a pesquisa assumiu definitivamente o sistema. Acho que ainda falta um curso de plantio direto na ESALQ e nas demais universidades. É preciso que o engenheiro agrônomo tenha uma formação sobre plantio direto.
RPD – Com toda essa mobilização, em quanto tempo será possível reverter a situação?
Orlando Melo de Castro – Acho que, num prazo de 4 a 5 anos vamos Ter uma reversão do quadro aqui em São Paulo. O próprio Secretário de Agricultura lançou esse desafio, é uma meta governamental, porque nós precisamos sair do sistema de preparo convencional e seus problemas sérios de erosão. Mesmo na cana de açúcar, a saída é o plantio direto. Nessa cultura, o sistema tem evoluído, principalmente com a colheita de cana crua, o que deixa uma grande quantidade de resíduos sobre o solo. Existem muitos ajustes a fazer, como manejo da fertilidade, manejo de pragas e doenças, mas as usinas começaram a experimentar e estão vendo que dá certo. Também na área de pequenas propriedades estamos evoluindo, principalmente na região de Bragança e Monte Alegre, onde a região é bastante acidentada. A Secretaria de Agricultura tem um programa de financiamento para a compra de máquinas agrícolas para pequenas propriedades, o que poderá auxiliar muito nesse sentido.