Redução da Temperatura do Solo por Sistemas de Culturas em Plantio Direto


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Publicado em: 01/06/1999

Pesquisa Redução da temperatura do solo

Pesquisa Redução da temperatura do solo por sistemas de culturas em plantio direto

Márcio José Conceição1, José Miguel Reichert2 e Dalvan José Reinert2 1 Acadêmico do Curso de Agronomia, Bolsista PET-CAPES, CCR/UFSM, e-mail: marciojc@agronet.hypermart.net 2 Professor Titular do Depto de Solos, CCR/UFSM. CEP:97105-900, Santa Maria-RS, e-mail: reichert@ccr.ufsm.br

Introdução

O conhecimento da dinâmica da temperatura do solo é de grande importância para a agricultura, pois essa tem muita influência sobre as plantas, promovendo variações na absorção de água e nutrientes, germinação e desenvolvimento radicular, influenciando também na atividade microbiana, encrostamento e endurecimento do solo. Segundo VAN DER MUELEN (1988), as raízes absorvem mais água à medida que a temperatura aumenta, até atingir o limite de 35ºC, sendo que em valores superiores há redução da absorção de água. CASSEL & LAL (1992) afirmam que as altas temperaturas podem reduzir o crescimento e a produtividade da cultura pelo encurtamento do crescimento e desenvolvimento radicular, e pela redução da disponibilidade, captação e translocação de nutrientes e água. Segundo LAL (1974), para a temperatura do milho, e HETFIELD & EGLI (1974), para a germinação e crescimento de plântulas de soja, a temperatura ideal na zona da raiz situa-se na faixa de 25 a 35ºC. Em temperaturas superiores a 35ºC, ocorre drástica redução do desenvolvimento das plântulas de milho e, em temperaturas superiores a 40ºC, a soja praticamente não germina. Essas temperaturas ideais estão bem abaixo das observadas nas regiões tropicais e subtropicais. Para STRECK et al. (1994) nas condições de extremo sul do Brasil, com regime de chuvas monsônico e elevadas temperaturas na estação quente, é evidente a ação benéfica da cobertura vegetal. Em experimentos da região de Londrina (PR), DERPSCH et al. (1985) observaram que, em solo descoberto, a temperatura a 3 cm de profundidade, nos meses de novembro e dezembro, ultrapassou os 40ºC e, em janeiro, os 50ºC. Para BAVER et al. (1980), as variações da temperatura do solo dependem em grande parte da intensidade e duração da radiação solar, além das condições do solo como umidade e a sua cobertura superficial. O solo vegetado reflete parte da incidência solar, impedindo a elevação da temperatura do solo. Segundo HANKS et al. (1961), os efeitos da cobertura vegetal sobre a temperatura do solo dependem da capacidade dessa em refletir a radiação solar (albedo), variando com a natureza e coloração da cobertura, além do ângulo de incidência dos raios solares. A temperatura é influenciada também pela espessura e condições de manejo da cobertura, que determinam o alcance da radiação que penetra através da cobertura do solo. Inúmeros autores citam que solos com cobertura vegetal apresentam menores variações de temperaturas diurnas, comparados com solos desnudos, devido à uma tendência da cobertura de reduzir as temperaturas máximas e aumentar as temperaturas mínimas do solo (AMADO et al., 1990; BAVER et al., 1973; SIDIRAS & PAVAN, 1986; STRECK et al., 1994; BRAGAGNOLO & MIELNICZUK, 1990). Segundo resultados de SIDIRAS & PAVAN (1986), a temperatura do solo em 3 cm de profundidade às 14 horas freqüentemente excedeu a 40ºC no sistema convencional de plantio de soja, enquanto que em plantio direto de soja e em cobertura permanente as temperaturas sempre foram inferiores a 35 e 30ºC, respectivamente. Este trabalho teve como objetivo quantificar o efeito de diferentes tipos de cobertura vegetal, em plantio direto, na temperatura de um solo com textura superficial franco arenosa.

Métodos experimentais

O experimento foi conduzido na área experimental do Departamento de Solos, Campus da Universidade Federal de Santa Maria-RS, em solo pertencente à unidade de mapeamento São Pedro, classificado como Podzólico Vermelho-Amarelo, substrato arenito. É um solo profundo, avermelhado, textura superficial franco arenosa, friável e bem drenado. O local do experimento situa-se na região fisiográfica da Depressão Central do Estado do Rio Grande do Sul, exposição nordeste, compreendido pelas coordenadas geográficas 29º45’ de latitude sul e 53º42’ de longitude oeste de Greenwich. A altitude é de aproximadamente 96 m acima do nível do mar. O clima da região é do tipo Cfa subtropical úmido sem estiagem, com precipitação média anual de 1561 mm e temperatura média anual de 19,3 ºC. Os tratamentos constituíram-se de cinco tipos de cobertura: (1) solo descoberto; (2) pousio/soja(Glycine max)/pousio; (3) feijão-de-porco (Canavalia ensiformis)/feijão preto (Phaseolus vulgaris)/feijão de porco; (4) aveia-preta (Avena strigosa)/soja/nabo forrageiro (Brassica rapa); (5) campo nativo; e duas profundidades (5 cm e 10 cm). O delineamento experimental utilizado foi inteiramente casualizado, com duas repetições. As parcelas mediram 3,5 m de largura por 22 m de comprimento no sentido do declive, com declividade média de 5%. As variáveis de solo determinadas foram: temperatura do solo (TS), com geotermômetro de mercúrio de leitura direta, com leitura duas vezes por semana, nas quarta-feiras e sábados, às 9 e 15 horas; umidade do solo (Ug) por gravimetria, nas profundidades de 0-5 e 5-10 cm a cada 14 dias; e, cobertura do solo (CS), pelo método do ponto quadrado. As variáveis ambientais foram: temperatura do ar (Tar), umidade relativa do ar (UR), insolação diária (INS) e precipitação pluvial (PP). Essas variáveis foram obtidas na estação meteorológica da Universidade Federal de Santa Maria, localizada aproximadamente a 1,0 km da área experimental. O período considerado na análise dos dados foi de novembro de 1997 a março de 1998.

Tabela 1. Temperaturas médias mensais na profundidade de 5 cm no período de novembro de 1997 a março de 1998. UFSM, Santa Maria - RS, 1998.

TRAT

NOV.

DEZ..

JAN.

FEV.

MAR.

9

15

9

15

9

15

9

15

9

15

SD(1)

20,14a(2)

27,53a

28,25a

33,40a

24,90a

33,08a

22,87b

32,49a

22,31a

28,22a

P

20,30a

26,03ab

27,51ab

31,51ab

24,80a

31,01ab

22,40b

26,14b

20,25b

23,27b

FP

20,37a

24,75ab

25,71c

29,39bc

24,67a

30,57b

21,88b

25,95b

19,95b

22,70b

A/S

20,03a

23,55b

25,04c

29,03c

24,71a

30,69b

22,60b

27,66b

20,22b

24,31ab

C/N

21,02a

23,35ab

26,21bc

29,16bc

25,15a

29,67b

24,60a

28,24b

22,44a

25,90ab

Tabela 2. Temperaturas médias mensais na profundidade de 10 cm no período de novembro de 1997 a março de 1998. UFSM, Santa Maria - RS, 1998.

TRAT

NOV.

DEZ..

JAN.

FEV.

MAR.

9

15

9

15

9

15

9

15

9

15

SD(1)

20,44a(2)

26,34a

27,65a

31,63a

25,16a

31,12a

23,32a

30,35a

22,00a

26,63a

P

20,63a

25,10ab

29,96b

30,15a

24,85a

29,92ab

23,00a

26,94b

20,33b

23,00a

A/S

20,10a

22,63b

24,58c

27,18b

24,86a

28,69b

22,8a

27,04b

20,00b

23,10a

Tabela 3. Equações de regressão obtidas para a temperatura de solo, durante o verão, às 9 e 15 horas, Santa Maria, RS.

Hora

Equação

R2

9

TS=16,67-0,03CS+4,12Tar-0,99UR

0,76

15

TS=163,13-0,08CS-13,88INS

0,87

Resultados e discussão

Observando os dados de temperatura do solo da área em estudo, verifica-se um comportamento diferenciado entre os tratamentos com diferentes tipos de cobertura vegetal do solo. O solo descoberto apresentou temperaturas médias mensais mais elevadas, o pousio invernal teve temperaturas intermediárias até se estabelecer a cultura de verão, e o tratamento plantio direto de soja sobre resíduos de aveia preta teve as menores temperaturas (Tabela 1 e 2). No solo descoberto foi obtida uma temperatura máxima de 47,50C e mínima de 140C, enquanto que sob resíduos de aveia em plantio direto de soja, a máxima foi de 410C e a mínima de 16,50C, demonstrando o efeito amortecedor da cobertura na temperatura do solo. Quanto à influência das demais variáveis sobre a temperatura do solo, podemos observar que a variável que mais a influenciou foi a temperatura do ar (r=0,74), seguida da umidade relativa do ar (r=-0,56), umidade do solo (r=-0,52), cobertura do solo (r=-0,20) e insolação diária(r=0,20). A análise de regressão demonstrou que as variáveis que influem significativamente na temperatura diferem entre às 9 horas e às 15 horas (Tabela 3), sendo que para às 9 horas as variáveis que se ajustam ao modelo são a umidade relativa do ar, temperatura do ar e a cobertura do solo, já para as 15 horas as variáveis ajustadas ao modelo são a insolação diária e a cobertura do solo, podendo-se confirmar novamente o efeito da cobertura do solo. Desse modo, a análise desses parâmetros é de fundamental importância em face dos efeitos marcantes que a temperatura do solo exerce sobre os cultivos e, conseqüentemente, sobre a produção agrícola. Para tentar amenizar e reduzir as perdas de safras, vêm sendo desenvolvidos e adaptados sistemas de manejos do solo, baseando-se na manutenção da cobertura vegetal e do material orgânico na superfície do solo, uma vez que esse material contribui para reduzir a intensidade com que as flutuações na temperatura do solo se manifestem.

Conclusão

A cobertura do solo influencia significativamente a temperatura do solo, sendo que em sistema de plantio direto obtém-se uma menor variação da mesma e, portanto, menores prejuízos quanto ao desenvolvimento da cultura.

Referências Bibliográficas

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BAVER, L. D.; GARDNER, W. H.; GARDNER, W. R. Física de suelos. México: UTEHA. 1980. 529p.

BRAGAGNOLO, N.; MIELNICZUK, J. Cobertura do solo por resíduos de oito seqüências de culturas e seu relacionamento com a temperatura e umidade do solo, germinação e crescimento inicial do milho. Revista Brasileira de Ciência do Solo, Campinas, 14:91-98, 1990.

CASSEL, D.K.; LAL, R. Soil physical properties of the tropics: Common beliefs and management restraints. IN: LAL, R.; SANCHEZ, P.A. eds. Myths and Science of soils of the tropics. Wisconsin: Soil Science Society of America, American Society of Agronomy. p. 61-89. 1992 (SSSA special publication 29).

DERPSCH, R.; SIDIRAS, N. & HEIZMANN, F.X. Manejo do solo com coberturas verdes de inverno. Pesquisa Agropecuária Brasileira, Brasília, 20(7):761-773, 1985.

HANKS, R.J.; BOWERS, S.A.; BLACK, L.D. Influence of soil surface conditions on net radiation, soil temperature, and evaporation. Soil Science, Baltimore, 91:233-238, 1961.

HETFIELD, J.L.; EGLI, D.B. Effect of temperature on the rate of soybean hypocotyl elongation and field emergence. Crop Science, Madison, 14:423-6, 1974.

LAL, R. Effect of constant and fluctuating soil temperature on the growth, development and nutrient uptake of maize seedings. Plant Soil, Amsterdam, 40:589-606, 1974.MATTEUCCI, M.B. de A.; LOBATTO, E.J.V. Comportamento do regime térmico em Latossolo Vermelho Escuro distrófico, em diferentes profundidades, na região de Goiânia, Centro-Oeste do Brasil. In: XIII Congresso Latino Americano de Ciência do Solo, 1996. Rio de Janeiro, RJ. Anais... 1996.

SIDIRAS, N. & PAVAN, M.A. Influência do sistema de manejo na temperatura do solo. Revista Brasileira de Ciência do Solo. Campinas, 10(3):181-184, 1986.

STRECK, N. A.; SCHNEIDER, F.M.; BURIOL, G. A. Modificações físicas causadas pelo mulching. Revista Brasileira de Agrometereologia. Santa Maria, 2:131-142, 1994.