A polêmica das transgênicas
Nunca a sociedade brasileira, principalmente os setores ligados à produção agrícola, foi chamada a um debate tão intenso, como tem acontecido nos últimos meses, em função das possibilidades do plantio, comercialização e consumo de plantas transgênicas. Hoje, no calor do debate e da evolução do quadro, com os inúmeros seminários, publicações e apresentações de especialistas em diversos meios de comunicação, é possível dizer que aqueles que atuam diretamente no cenário da luta estão cada vez mais divididos e seguros de suas razões. Para o público mais amplo, sobram as informações técnicas e objetivas que permitem um esclarecimento mínimo dessa questão. O consenso, entretanto, parece distante, pois a formatação das nossas idéias estão ligadas à alimentação política, religiosa, econômica e a todas as variáveis que nos agregam a determinados galhos da árvore que habitamos. Temos uma noção de que os próximos passos do desenvolvimento do plantio ou não de materiais transgênicos passarão pelo uso da força política, jurídica e econômica. Enquanto isso, procuramos fornecer o maior número de visões técnicas, com objetivo de colaborar para o eventual esclarecimento de dúvidas. Sabemos, de outro lado, que existem mais certezas do que dúvidas. E que a história é uma grande máquina, em forma de patrola, que empurra conceitos e preconceitos para o lado da estrada
Vânia Cirino: Engenharia Genética não vai criar monstros
“Temos que desfazer a idéia de que a engenharia genética vai criar monstros, pois existe uma legislação e um corpo técnico de biossegurança para analisar e controlar as pesquisas com organismos geneticamente modificados (OGMs).” As afirmações são da engenheira agrônoma Vânia Moda Cirino, pesquisadora do IAPAR, Instituto Agronômico do Paraná, que fez uma das palestras técnicas da Expodireto’99, no final do mes de março, em Carazinho-RS. Para ela, os benefícios dos OGMs são inegáveis, citando como exemplos os casos da insulina, hormônios de crescimento e vacinas, que chegam ao consumidor por um preço mais barato. Vânia Cirino é formada na ESALQ, em Piracicaba, tendo feito mestrado e doutorado em genética e melhoramento de plantas. No seguimento, ela fez pós doutorado em manipulação de genética, na Itália. Atualmente, é membro da CNTBio, a Comissão Nacional de Biossegurança. Por todo o seu conhecimento e a forma didática que usa para falar ao público, sua agenda de palestras e debates não tem tido folga. Da apresentação em Carazinho, escolhemos algumas partes que, acreditamos, sejam importantes para o entendimento do assunto. “Acredito que os protestos em relação às plantas transgênicas se deva ao fato do trabalho ainda estar numa fase inicial. As plantas transgênicas resistentes à herbicidas são as únicas produzidas em escala comercial até o momento e beneficiam apenas o produtor porque representam facilidade no trabalho e redução no custo, mas não modificam em nada para o consumidor. As plantas resistentes a insetos significam um benefício direto, em termos ambientais. Mas, será a partir da etapa em que o consumidor tiver vantagens objetivas, como produtos com menor teor de gordura, com maior índice de proteínas ou capazes de degradar toxinas, é que os conceitos deverão se inverter. O pensamento de que o Brasil e países do Terceiro Mundo estariam servindo de cobaia não se justifica. As grandes áreas de cultivo com OGMs estão nos Estados Unidos, China, Argentina e Canadá. No Brasil, ainda não existe nenhuma cultivar de planta transgênica liberada para plantio comercial, embora a Comissão de Biossegurança já tenha dado parecer favorável ao plantio da soja RR, resistente ao Glifosate. Essa é uma polêmica comum no mundo científico e o agricultor acabará adotando essa tecnologia, baseado na relação custo benefício.
Ganhos importantes
Com a biotecnologia tradicional, usada pelo homem desde que começou a fazer agricultura, a selecionar e a cruzar plantas de seu interesse, conseguimos ganhos muito importantes, que utilizamos para nossa alimentação, vestuário, medicamentos, combustíveis, etc. Através da engenharia genética acabou a barreira que impedia o cruzamento entre espécies. O melhoramento convencional conseguia, no máximo, um cruzamento interespecífico, através da utilização do cultivo de embrião. As dificuldades eram grandes para conseguir descendentes férteis. Atualmente, acabaram-se as barreiras e podemos transferir características desejáveis de um organismo para outro, sem impedimento algum, desde que tenhâmos conhecimento da técnica. Plantas transgênicas são obtidas dessa forma, graças à biotecnologia moderna, mais precisamente à engenharia genética, que trabalha com o DNA, o constituinte básico da estrutura do gene. O primeiro plantio comercial de plantas transgênicas no mundo ocorreu no início de 1990, na China Comunista, onde foi cultivado fumo tolerante a vírus. Por volta de 1994, os Estados Unidos começaram a cultivar o tomate longa vida. Após, vieram o milho, a soja e o algodão transgênico. Em 1996, a área total cultivada com OGMs no mundo era de 2,8 milhões de ha. Em 1997 já tínhamos cerca de 12,8 milhões de ha e, para 1998, estima-se que o total tenha ultrapassado os 20 milhões de ha. Os Estados Unidos possuem 70% das áreas cultivadas com OGMs, seguidos da China com 14%, Argentina com 11% e Canadá com 10%. Austrália e México, além de outros países, também já participam desse segmento. Entre as culturas, em 1996, predominava o fumo resistente a vírus, com 35% da área cultivada. A partir de 1997, a maior área é de soja resistente a Glifosate, vindo a seguir o milho resistente a insetos, canola resistente à herbicidas, fumo e algodão resistentes a insetos. É preciso salientar que nada tem risco zero. Devemos trabalhar sempre com risco mínimo e os produtos devem ser muito bem testados e analisados antes da liberação para consumo humano ou animal. No caso de produtos transgênicos, cada um deve ser analisado especificamente. Não é possível afirmar que somos a favor dos transgênicos e comemos o produto que for colocado na mesa, mas também não é possível dizer que somos radicalmente contra os transgênicos. O que precisamos é ter conhecimento do assunto.
Diferenças
Mas o que é essa soja RR? Qual a diferença em relação à soja convencional? Quando temos uma planta convencional e aplicamos o Glifosate, que é um herbicida não seletivo e mata a maioria das espécies vegetais, esse produto bloqueia a atividade de uma enzima (EPSPS) , cuja função é a síntese dos aminoácidos aromáticos, que são essenciais para a sobrevivência da planta. Todos as plantas, bactérias e fungos sintetizam esses aminoácidos. Mamíferos, aves e peixes não fazem essa síntese e obtém os aminoácidos das plantas e microorganismos. Descobriu-se que algumas bactérias do solo, do gênero Tumefasciens, tinham essa enzima e que não sofria o bloqueio pela ação do Glifosate. Mesmo após a aplicação do herbicida, elas continuavam sintetizando os aminoácidos aromáticos normalmente. Os pesquisadores identificaram o gene responsável pela síntese dessa enzima, clonaram e introduziram dentro da soja, que passou também a resistir ao Glifosate. Eles usaram a variedade A5403, da Asgrow e, dessa variedade de soja americana, bastante produtiva e que dava uma regeneração fácil, através da cultura de tecidos, selecionaram a linhagem GTS4032 (GTS - Soja Tolerante ao Glifosate). A enzima EPSPS existente na soja é destruída pela ação do Glifosate mas aquela sintetizada pelo gene, que veio da bactéria, não. Todas as variedades de soja resistentes a Glifosate existentes no mundo derivam da GTS4032. Quando queremos introduzir a resistência a Glifosate na variedade Br 16, por exemplo, é feito um cruzamento através do melhoramento convencional. Como esse gene da resistência ao Glifosate é dominante, na primeira geração ele já se expressa. Será que a soja transgênica é mais produtiva que a soja convencional? Estudos demonstram que não existe diferença em termos de produtividade estatisticamente significante entre os dois tipos de soja. Em alguns casos, a soja RR produziu até um pouco menos que as variedades convencionais. Isso se explica porque, muitas vezes, no processo de retrocruzamento, não se conseguiu quebrar ligações gênicas e recuperar todas as características das variedades adaptadas às nossas condições tropicais. A soja GTS4032 é derivada da A5403, que é adaptada às condições americanas. Em relação à questão da segurança ambiental, temos que analisar que a soja é uma planta essencialmente autógama e as taxas de polinização cruzada são de 1%. A possibilidade de que ocorra o cruzamento da soja RR com espécies silvestres não existe no Brasil, porque o centro de origem da soja é a China, Rússia, países asiáticos e Austrália. Como não existem parentes silvestres da soja no Brasil, não existe a possibilidade desse cruzamento. A soja é uma espécie que foi domesticada e necessita do homem para sua perpetuação. Nós não vemos plantas de soja expontâneas por aí. Finalmente, esse gene não traz nenhuma vantagem adaptativa para a espécie, já que ele só se manifesta na presença do herbicida.
Alimentação
Com relação à segurança alimentar, observou-se que para as pessoas alérgicas à soja não houve diferença. Se ela era alérgica à soja convencional, continuou sendo alérgica à soja transgênica, e aquelas que não eram alérgicas à soja convencional também não o foram à soja transgênica. Em relação à composição dos grãos, em 1992 dectetou-se uma diferença de 5% no teor de óleos, cinzas e carbohidratos. Já em 1993 não foram anotadas diferenças na composição de proteínas, óleos, fibras, cinzas e carbohidratos. Essas variações podem ocorrer provavelmente por interferência do ambiente. No teor de proteína nós sabemos que o ambiente influencia muito. Como o Brasil é um grande exportador de farelo, nós observamos que não houve nenhuma alteração entre soja transgênica e soja convencional. Uma pergunta que foi feita era sobre a possibilidade de a soja transgênica sintetizar uma quantidade maior de aminoácidos, já que ela contém a EPSPS da bactéria. Nesse sentido, foram feitos testes e não houve diferença na composição de feneanolina, triptofano e tirosina na soja convencional e transgênica. Existe a possibilidade da formação de uma super soja resistente ao Glifosate em função das aplicações? Se isto ocorrer, o problema será da empresa fabricante porque ela vai perder todo o investimento nessa tecnologia. Já existem plantas daninhas resistentes ao Glifosate, temos conhecimento de, no mínimo, 4 espécies que já resistem ao herbicida. Se estas ervas estiverem presentes na lavoura, o produtor terá que usar um herbicida seletivo, pois só o Glifosate não vai resolver.
Perguntas & Respostas
Você tem uma posição sobre a possibilidade de proibição do plantio de plantas transgênicas no Rio Grande do Sul?
Vânia Cirino - Com relação à proibição, toda nova tecnologia assusta e as plantas transgênicas são algo especial nesse sentido. Na ciência sempre existem conflitos, divergências e cada caso deve ser discutido com muito detalhe. O que está assustando nossos governantes é com relação à comercialização da soja. Como o Paraná, o Rio Grande do Sul é um estado essencialmente agrícola e existe o medo de que, por ser soja transgênica, a comercialização seja dificultada. O mundo ainda não definiu como isso será resolvido. No momento, 50% da produção americana, que é três vezes maior do que a nossa, vem de soja RR. E é consumida em mais de 80 países. Porém, a Organização Mundial do Comércio ainda não tem uma regra definida em relação à comercialização dos organismos geneticamente modificados. Essa é uma questão política. No início de nossa conversa eu disse que temos que analisar cada caso isoladamente, de maneira específica. Não podemos generalizar. Temos que analisar a relação custo benefício, pois o agricultor hoje precisa trabalhar pensando nisso, quanto essa tecnologia irá trazer de benefícios. A sociedade, por outro lado, também pergunta quais serão seus benefícios. Os agricultores irão lucrar nesta primeira fase e este benefício irá depender de uma série de fatores, como o preço da semente. Deu para verificarmos que o agricultor não terá ganho de rendimento, mas a soja RR trará uma redução de custos, porque ele não precisará fazer duas ou três aplicações de outros herbicidas. Conforme o banco de sementes de sua lavoura, com uma aplicação pós emergência aos 25 dias, ele controla todo o mato. Já ví inúmeros cálculos de produção, com redução de custos de 5% a 8%. Esta redução vai depender muito das condições específicas de cada lavoura, do custo da semente em relação ao custo da semente da soja convencional, do custo do Glifosate, do qual temos uma gama variada de marcas no mercado, com preços que variam de U$3,00 a U$8,00 por litro.
Quando se compara biotecnologia tradicional e moderna há uma ruptura muito forte, porque antes não se misturavam espécies. Abriu-se um precedente e entramos num campo bastante desconhecido, principalmente quanto à biossegurança. O Rio Grande do Sul está pedindo um relatório de impacto ambiental. Como a CNTBio estudou e como liberou a soja RR, em que informações se baseou, quem fez o relatório de impacto ambiental?
Vania Cirino - Segundo a legislação do país, no decreto 1752, no artigo II, inciso 14º , está escrito que compete a CNTBio avaliar a necessidade do EIA (Estudo de Impacto Ambiental) e do RIMA (Relatório de Impacto no Meio Ambiente). No caso da soja RR, a CNTBio não julgou necessário esses instrumentos, baseado nos seguintes aspectos: vários experimentos de liberação planejada no meio ambiente foram efetuados com esta soja, antes da comissão elaborar seu parecer conclusivo. Quando a solicitante vai efetuar essas liberações planejadas para fins de testes, ela responde a um amplo questionário, onde são discutidos vários aspectos de impacto ambiental, de segurança alimentar, etc. De outro lado, julgamos que não havia necessidade do relatório de impacto ambiental porque, como disse antes, a soja é uma espécie autógama, com um risco de 1% de polinização cruzada. Além disso, ela é uma espécie exótica, sem parentes silvestres no Brasil. Se ocorrer a introdução desse gene em variedades comerciais, o ambiente não seria afetado. O mesmo já não ocorre com o algodão, arroz e canola, que possuem parentes silvestres na América do Sul. Nestes casos, dependendo das características que você estiver introduzindo, resistência a insetos, por exemplo, e esse gene passa para espécies silvestres, você poderá estar interferindo na cadeia alimentar de diversas espécies. Por que eu me sinto segura no caso da soja? A soja RR contém uma enzima que a soja comum também possui, e os estudos demonstram que existe uma similaridade com a enzima que veio da bactéria, não se trata de uma coisa nova.
Estas mesmas precauções que estão sendo tomadas com a soja, milho, arroz e outras culturas também foram feitas com o tomate longa vida, que se encontra nas gôndolas dos supermercados?
Vânia Cirino - Você está citando o caso do tomate longa vida e, dentro de pouco tempo, também poderemos nos deparar com o caso do milho tolerante ao herbicida sem que tenha sido avaliada a segurança desse milho. Neste caso, a CNTBio nada pode fazer, porque esse milho tolerante à herbicida não foi obtido através da engenharia genética mas de mutação. A lei é bem clara, a CTNBio só se envolve em casos em que ocorra a manipulação de DNA. No caso do tomate, ele foi obtido por dois processos. Um deles, através de melhoramento convencional, usando espécies selvagens que conferem as características desejadas. A outra fórmula foi através da engenharia genética, onde foi usado um gene invertido do próprio tomate, não foi introduzido gene de bactéria, vírus ou fungo. Nós só vamos saber se os tomates que estão na prateleira do supermercado são transgênico se fizermos os testes moleculares e, nesse caso, a CTNBio não tem nada a ver com isso. Trata-se de puro contrabando e é um caso para a Polícia Federal.