Sobre a Soja Transgênica


Autores:
Publicado em: 01/06/1999

Sobre a soja transgênica

Fernando de Assis Paiva Eng. Agr., Ph.D., Fitopatologia - Embrapa Agropecuária Oeste

O noticiário da mídia brasileira dedica amplo espaço à “soja transgênica”. Apesar de toda a discussão, persistem dúvidas sobre o que são os organismos transgênicos. Isso se deve à polêmica que a novidade suscita, pois existem grupos que se opõem ao uso de tais organismos, colocando dúvidas sobre a segurança, ou os perigos, de se introduzir essa tecnologia sem os devidos estudos de impacto sobre o homem e o meio ambiente. Polêmica à parte, vamos tentar esclarecer o que são organismos transgênicos. Em primeiro lugar, é necessário saber como as características de cada ser vivo passa à sua descendência. É comum hoje falar em teste de DNA para determinar a paternidade de alguém. Pois bem, é através do DNA que as características dos seres vivos são perpetuados de geração em geração. Então, precisamos saber primeiro que DNA é uma sigla formada pelas iniciais (em inglês) de “Ácido DesoxirriboNucleico”. O DNA é o que os químicos (ou bioquímicos) chamam de macromoléculas, devido ao fato de serem muito grandes e complexas. É composto de uma série de moléculas formadas por um açúcar (desoxirribose), um ácido (fosfórico) e uma base orgânica que pode ser uma de quatro opções (adenina, guanina, citosina e timina). (Ver figura). Essa cadeia (muito longa) apresenta-se em uma estrutura chamada “fita dupla”, por ser formada por duas moléculas, mantidas juntas por ligações quimicamente fracas, entre as bases. O mais importante é que a combinação das bases, três a três, forma o código genético que é praticamente idêntico em todos os seres vivos. O fato de esse código genético ser o mesmo em todos os seres vivos é que permite que um gene (pedaço de DNA que codifica para uma proteína) possa ser retirado de um organismo, inserido no DNA de outro e funcionar como se estivesse no organismo original. O organismo que recebeu o gene “estranho” é o que chamamos de transgênico. Um dos primeiros organismos transgênicos úteis ao homem foi uma bactéria que recebeu o gene humano para a produção de insulina. O gene funciona na bactéria que passou a produzir insulina humana, permitindo a produção em larga escala desse produto tão útil e que era antes extraído de cadáveres. Dito dessa maneira, parece fácil a obtenção de um organismo transgênico; seria apenas isolar o gene desejado e “introduzi-lo” no organismo que se quer transformar. Só que as coisas não funcionam tão facilmente. A natureza tem mecanismos que impedem que informações genéticas de um organismo passe a outro com facilidade. Assim, na natureza, a transferência de material genético se dá com facilidade apenas verticalmente, isto é, de uma geração a outra, dentro da mesma espécie. Troca de material genético entre indivíduos, mesmo dentro de uma mesma espécie, é raríssimo na natureza. Claro que essa troca funciona mais em microorganismos, funcionando como uma maneira de promover recombinações genéticas, como nos casos de fungos que não esporulam (não produzem esporos) e ficariam limitados em suas diversidades biológicas. Entre espécies diferentes, então as dificuldades aumentam muito. Casos de cruzamentos entre espécies próximas, geralmente, dão origem a indivíduos estéreis, como é o caso do cruzamento de eqüinos com muares. Devemos considerar ainda que o processo de obtenção de um organismo transgênico não é nem um pouco preciso. Imaginemos que queremos obter uma planta com uma característica somente encontrada em outra espécie. Uma vez obtido o gene desejado, ele deve ser introduzido em uma célula do organismo receptor através de uma série de métodos: 1) Injeção de uma suspensão de muitas cópias do gene com uma micro-agulha; 2) Mistura da suspensão do gene com uma suspensão de células (como se trata de uma planta, devem-se usar protoplastos, que são as células desprovidas da parede celular) do organismo a ser transformado e passagem de uma corrente elétrica na suspensão; 3) Transformação de um vírus ou uma bactéria com o gene e uso dos mesmos vetores para introdução do gene no organismo; adição do gene a minúsculas esferas de metal que são “disparadas” sobre uma suspensão de protoplastos ou embrião do organismo. Qualquer que seja o método utilizado, não se tem controle sobre onde os genes utilizados vão parar. A maior parte dos genes se perde. O que se espera em um trabalho como esse é que “alguns” genes sejam introduzidos em algum cromossomo e que possam ser detectados. Trabalhando-se com embriões ou com células com protoplastos, há necessidade de se obter organismos adultos para se testar se os genes foram eficientemente inseridos e estão ativos no novo organismo. Portanto, a planta que se quer transformar deve ser regenerada a partir do embrião ou do protoplasto transformado. Muitas vezes, essa regeneração não é fácil, exigindo dos pesquisadores o desenvolvimento de técnicas especiais para a sua obtenção. Como não se tem controle sobre o caminho que os genes utilizados seguirão, deve-se obter um grande número de plantas regeneradas, que serão avaliadas para se saber se foram transformadas e se o gene introduzido está ativo no novo organismo. Uma vez obtida a planta transgênica com a característica desejada, o que só pode se efetuado em laboratórios e casas-de-vegetação devidamente licenciadas para tal, é necessário que a mesma seja avaliada a campo. Novamente, é necessário que sejam obedecidas normas de segurança especiais e que o trabalho seja executado por pessoal habilitado e devidamente autorizado. Passada a fase de testes, entra-se na etapa de uso comercial, que é exatamente a fase em que está a famosa soja transgênica citada no início desse artigo. Novamente, é necessária autorização para essa comercialização. As plantas transgênicas que estão nessa fase (além da soja, pode-se citar: mamoeiro resistente a vírus, milho resistente à lagarta, algodão resistente à herbicida, algodão resistente à lagarta , etc.) são protegidas, isto é, suas sementes só podem ser comercializadas com autorização da companhia que obteve a cultivar transgênica. Segundo a legislação brasileira, o produtor pode produzir sementes para uso próprio, sem precisar pagar royalties por isso. Em espécies como a soja, em que não se cultivam híbridos, é possível guardar semente própria, caso o produtor tenha condições tecnológicas para produzir sementes. Entretanto, já foi patenteada nos Estados Unidos uma tecnologia que impede que a semente produzida sem autorização do detentor da cultivar protegida possa ser usada. Essa tecnologia recebeu o nome “Terminator” (literalmente, Exterminador). Em termos simples, o Terminator consiste na introdução de um gene para produzir uma toxina que mata o embrião da semente. Mas o sistema não é assim tão simples, pois a toxina só pode ser produzida na semente, e apenas na fase final de maturação, para não afetar a planta ou a produtividade da lavoura. Além disso, a cultivar com o gene para a toxina precisa ser multiplicada, isto é, a companhia precisa produzir grande quantidade de sementes viáveis, que serão vendidas aos produtores. Portanto, o gene presente na cultivar não pode atuar nas fases anteriores à venda aos produtores de grãos. Assim, a tecnologia prevê que o gene fica desativado nas fases de multiplicação de sementes, permitindo que seja obtido o volume necessário para a venda aos produtores. Imediatamente antes da venda, as sementes são tratadas com o antibiótico tetraciclina que “ativa” o gene, fazendo com que, na fase final de maturação a toxina seja produzida, impedindo que a semente possa ser utilizada para plantio. Com o uso dessa tecnologia, o produtor fica obrigado a comprar sementes todos os anos. Cultivares transgênicas já estão sendo utilizadas em diversas partes do mundo e o Brasil deverá estar cultivando esse tipo de plantas em futuro próximo. Suas vantagens são inegáveis e não podemos ficar alheios ao progresso que poderá propiciar melhoria em uma área tão importante como é a produção de alimentos. Como se trata de algo novo (pelo menos para nós), é claro que todas as cautelas devem ser tomadas para evitar qualquer risco além do razoável.