Preocupações e Conseqüências Negativas do Uso de Plantas Transgênicas


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Publicado em: 01/06/1999

Preocupações e conseqüências negativas do uso de plantas transgências

Preocupações e conseqüências negativas do uso de plantas transgênicas

Marco A. Hoffmann Eng.-Agr. da Sustentagro, Agricultura Orgânica e Grupo Sentinela dos Pampas, Passo Fundo, RS

Introdução

Até o advento da polêmica em torno dos produtos transgênicos, que estamos vivendo, a ciência jamais foi questionada de forma tão veemente ao lançar um novo produto oriundo dos seus estudos e pesquisas. Ao longo da sua história havia granjeado, mercê de suas incontestáveis conquistas de conhecimento para o benefício da humanidade, uma aura de quase infalibilidade, consentida, mas não real. No entanto, hoje os cientistas anunciam o que para eles configura-se como uma das maiores, senão a maior descoberta da ciência, e em todos os lugares no mundo onde existe um pouco do que convencionou-se chamar de “massa crítica”, surgem sérias contestações. Os que contestam, por sua vez, estão muito preocupados justamente com os cientistas, que através das suas declarações anunciam esta nova tecnologia como algo muito seguro, sem perigos consideráveis, sem necessidade de controle e legislação que discipline esta matéria. Afinal, a ciência foi sempre soberana no passado, livre para buscar o aumento do conhecimento, é o que dizem. Mas por quê, então, existe tamanha rejeição aos produtos transgênicos?

Os produtos da ciência só trouxeram benefícios à humanidade?

A grande maioria dos produtos da ciência trouxeram benefícios para a humanidade, mas muitos destes também tinham, acoplados, grandes malefícios que não foram previstos. A sociedade descobriu-se cobaia, sem saber porque. Eis o primeiro motivo para esta rejeição. A sociedade está dizendo: já vimos este filme antes. Algumas das principais descobertas da ciência para a humanidade, hoje ameaçam a própria sobrevivência do homem. Senão vejamos. As geladeiras se tornaram um eletrodoméstico tão importante e útil, que é um dos primeiros itens adquiridos por quem tem um mínimo poder aquisitivo. Os gases que permitiram a construção de geladeiras, também usados em aparelhos de refrigeração do ar e compressores, entretanto, estão destruindo a camada de ozônio, e por conta disso os temíveis raios infravermelhos agora atingem a superfície da terra. É como se a ciência nos tivesse dito: “As geladeiras serão um benefício fantástico, mas mais tarde descobriremos juntos que piorará outros aspectos da sua qualidade de vida”. Milhões de pessoas sofreram e sofrerão, morrem e morrerão de câncer de pele, consumindo recursos de particulares e do estado, o nosso trabalho e lazer é prejudicado, pois não é mais recomendável expor-se ao sol, especialmente quando o sol está alto no céu. Agora a ciência já resolveu o problema descobrindo substitutos para estes gases que não afetam a camada de ozônio (depois de termos, nós e o planeta, sido cobaias, não antes). A Alemanha já os usa. Mas quanto tempo ainda levará para que todos os países os usem, parando o dano na camada de ozônio? Quando pararmos de produzir gases que destroem a camada de ozônio, ela continuará sendo afetada por mais cerca de 150 anos. O N2O (óxido nitroso), oriundo de confinamentos animais e adubação nitrogenada mineral, é este vilão (ENQUETE COMMISSION “PROTECTING THE EARTH’S ATMOSPHERE” OF THE GERMAN BUNDESTAG, 1992). Centenas de quilômetros de geleiras estão degelando nos pólos da Terra, devido ao aquecimento global (efeito estufa). Este aquecimento do planeta trará enormes problemas e sofrimento, os mais aparentes sendo a perda de áreas hoje habitadas. A ciência e o conhecimento por ela gerado nos deu carros e fábricas, sem os quais não podemos mais viver. Os confinamentos animais também estão nessa, embora desses se saiba que grande parte não são nem necessários. Também aqui os malefícios perdurarão por muito, que tempo após ter sido gerado o conhecimento os eliminariam. Mas o mais preocupante está ligado a uma descoberta da ciência saudada pelas mulheres: a pílula anticoncepcional. O hormônio feminino, o estrogênio, passou a fazer parte da água que bebemos, e que também animais bebem. O dramático é que este hormônio torna os machos inférteis. Se a queda da fertilidade do homem continuar no ritmo dos últimos 20 anos, chegará o dia, em algumas gerações, que o homem (e muitos animais), estará estéril. Várias outras substâncias, presentes em agrotóxicos, plásticos, em certos laminados internos usados em conservas e até em detergentes também manifestam atividade estrogênica. Por quê ocorre de o que só deveria trazer benefícios, depois revela malefícios tão preocupantes? Porque o cientista, logo que alcança o primeiro êxito em sua pesquisa já o divulga, e ele se torna um produto para o consumo da sociedade.

Os produtos transgênicos só trarão benefícios?

Vários produtos transgênicos lançados logo apresentaram problemas, alguns já foram retirados do mercado e até proibições de venda já ocorreram. Apesar disso grande número de cientistas, a julgar pelo que falam e escrevem parecem ignorar isso. A seguir alguns exemplos. O primeiro produto transgênico, no mercado já há anos, foi a STB (Somatotropina Bovina). Uma injeção diária aumentaria a produção de leite das vacas em 10 a 20%. Com o passar do tempo comprovou-se que as vacas tratadas com o STB tinham 40% mais mastite, tornavam-se inférteis por longos períodos e, estressadas, tornavam-se mais susceptíveis à doenças. Mas como vacas não reclamam, é mais a descoberta de que o STB aumenta grandemente a produção do hormônio denominado Fator de Crescimento 1- tipo insulina, que em grande quantidade induz ao câncer, a causa da sua proibição no Canadá, União Européia e outros países (KINGSNORTH, 1998). De novo, só depois que se constatou que pessoas que tomaram este leite tiveram câncer por isso. O soja Roundup Ready, centro desta polêmica, transformou o soja num vegetal alergênico. Sempre colocado entre as últimas plantas alergênicas, hoje está entre as 10 primeiras (é o nono colocado), depois que um estudo comprovou que no ano passado, na Inglaterra, aumentou em 50% a alergia a soja (ver adiante). O soja está em cerca de 60% dos produtos alimentícios vendidos em supermercados, e esta variedade conta com uma forte campanha publicitária e lobby para ser liberada no mundo todo. Uma pesquisa muito comentada recentemente, comprovou que ratos que comeram batatas transgênicas tiveram o tamanho de seus cérebros reduzidos. Aqui um novo alerta para a sociedade. Já começou uma campanha de cientistas para desqualificar esta pesquisa. Circula, por exemplo, um material do Dr. Marcel Hofman, Coordenador do Nono Congresso Europeu de Biotecnologia, que tenta desqualificar aquela pesquisa, inclusive num tom jocoso, sem no entanto apresentar um único argumento que leve a esta conclusão. Também já vimos este filme antes.

Outros aspectos preocupantes dos produtos transgênicos

Quando plantas transgênicas são cultivadas na natureza, elas podem transferir o gene modificado para outras plantas aparentadas. Isso quer dizer que após um certo tempo todas as plantas aparentadas de uma população serão transgênicas. Vejamos o caso do soja. Mesmo que apenas 1% (pode ser mais) das suas flores permitem polinização cruzada, em apenas 1,0 ha teremos cerca de 4.000 plantas nesta condição. Como não contaminar outras variedades na vizinhança? Mas com milho, arroz e todas as plantas de polinização aberta isso acontecerá muito rápido, como já temos comprovação em cultivos orgânicos. Isso é erosão genética, e os cientistas sabem bem o que isso significa. No caso de uma doença ligada a este gene (um gene pode afetar mais de uma característica, o que se chama pleiotropia), toda a população seria dizimada, como aconteceu com uma variedade de milho nos Estados Unidos (LEVIGNS, 1990). Por outro lado as próprias plantas transgênicas podem se transformar em invasoras, pois podem ter aumentada a sua capacidade de persistir no campo e de invadir novos habitats (CRAWLEY, 1990). E onde ficará nossa liberdade de plantarmos o que desejamos? Um argumento ainda utilizado por cientistas e profissionais em favor dos transgênicos, é que eles aumentarão a produção. Chega a ser ofensivo ao conhecimento das pessoas o uso deste argumento, ainda mais depois que o indiano Amartya Sen ganhou o Prêmio Nobel de Economia, justamente porque demonstrou que a fome ainda aumenta no mundo não porque falte produção de alimentos, mas pela distribuição desigual da riqueza. Mas nem precisava tanto. É só ver o caso brasileiro. Só de grãos produzimos mais de 2 vezes o que cada brasileiro precisaria por ano (75 a 80 milhões de toneladas para cerca de 170 milhões de habitantes). Fora carne e leite que não precise de grãos na sua produção, peixes e caças, batata, cebola, frutas e hortaliças em geral. A conta no mundo inteiro também fecha com grandes sobras, pelo lado da produção. E não nos esqueçamos que com a tecnologia atual, sem biotecnologia, poderíamos pelo menos triplicar a produção atual. Não seria esta uma tarefa muito mais sensata e segura, para cientistas, profissionais e estado? Também argumentam, tardiamente, que poderemos reduzir e quem sabe eliminar os, agora também para eles, abomináveis agrotóxicos. A agricultura orgânica comprova há décadas que não precisa deles para produzir alimentos de melhor qualidade. Por que não investir nela, que não oferece nem um risco? A maior armadilha, no entanto, é a do poder. Os OGMs (organismos geneticamente modificados) podem ser patenteados. Os donos das patentes de plantas (que não serão mais do que umas poucas companhias multinacionais) dominarão a comida do mundo. Seremos todos reféns destas multinacionais. Plantaremos e comeremos o que eles quiserem. Queremos este “benefício”? As empresas estatais de pesquisa nos protegerão disso? Em época de privatizações, isso não é seguro, ainda mais que estas companhias já forçam nesta direção, e mais fortes acabarão por conseguir. Hoje, pela falta de recursos, as empresas estatais de pesquisa já tem acordos com estas companhias, já recebem delas recursos para pesquisa, em outras palavras, já trabalham para elas. É isso que poderá acontecer. Na área médica, por exemplo, já estamos pagando royalties para o primeiro mundo por medicamentos de plantas brasileiras, mas que foram modificadas por estrangeiros. Nesta área temos muitas e sérias preocupações, porque pouco se houve dos médicos a este respeito. Porém um grupo denominado “Médicos e Cientistas pela Aplicação Responsável da Ciência e da Tecnologia”, alerta para o fato cientificamente comprovado de que, devido à inserção de genes estranhos, substâncias nocivas podem aparecer de forma inesperada. Com os fatos ocorrendo hoje no mundo e com a experiência que temos, não podemos menosprezar, por outro lado, que um lunático qualquer não produza um organismo letal e o lance sobre populações. A engenharia genética possibilitará isso também.

Conclusão

Com base no que acima discutimos, fatos que consideramos entre as maiores decisões já enfrentadas pela humanidade, concluímos o seguinte: os próprios cientistas responsáveis deveriam propor, e discutir com a sociedade ( que já foi muitas vezes cobaia), uma legislação que regulamente a pesquisa, a produção e a venda dos transgênicos. Esta legislação deve prever as penas mais graves para quem as transgredir. Só depois que ela for aceita e obedecida em todo o mundo, poderão ser lançados novos produtos transgênicos. A pesquisa poderá continuar sob estrito controle externo, e a legislação será retroativa. A ciência faria, ao mesmo tempo, uma revisão nos seus métodos de lançamento dos produtos dos seus estudos, para que doravante os seus produtos também sejam lançados quando atingirem aqueles menos de 1% de probabilidade de causar problemas a quem os vier utilizar e ao meio ambiente. È um excelente momento para esta revisão, da qual resultará uma ciência muito melhor do que ela já é. Desta forma poderemos, desta vez, evitar aquilo que tem acontecido com muita freqüência: descobrir depois que muito mal já foi causado, que um suposto benefício continha também grandes malefícios. A tarefa é enorme, mas podemos realizá-la se juntarmos nossas forças. Os cientistas responsáveis são muito importantes agora, mas também cada cidadão.

Estudo compara custos na produção de soja convencional e transgênica

Um estudo do pesquisador da Embrapa Trigo Erivelton Roman indica que o produtor pode gastar menos com herbicidas na produção de soja transgênica, mas terá de pagar mais pela semente. O levantamento foi apresentado em palestra no dia 23 de março, no auditório da Embrapa Trigo, em Passo Fundo, para pesquisadores, engenheiros-agrônomos, técnicos da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento do Estado e estudantes. A semente transgênica, no Canadá e nos Estados Unidos, é 67% mais cara que a convencional. No Canadá, a taxa de uso da tecnologia da Monsanto representa 23% do preço final da saca de semente. O estudo mostra que, considerando o preço por quilo da semente transgênica a US$ 1,15, a estimativa de custo da tecnologia (herbicida e semente) por hectare, no Brasil, seria de US$ 69,50 para a soja transgênica e US$ 70 para a convencional. O mercado mundial de defensivos é de US$ 2,5 bilhões, sendo que os herbicidas representam 54% desse total. “O aumento na competição entre empresas, em função da tecnologia desenvolvida pela Monsanto, pode diminuir o custo dos herbicidas para soja convencional, o que beneficiaria o produtor”, afirma o pesquisador. A tendência de queda de 40% nos preços de herbicidas para soja convencional já está sendo verificada nos Estados Unidos e na Argentina. “O custo deve ficar em torno de US$ 30 por hectare”, acredita Roman. O mercado para produtos geneticamente modificados, que era de US$ 4 bilhões em 1998, deverá chegar a US$ 20 bilhões em 2004. A estimativa para 2020 é de que essa cifra chegue a US$74 bilhões. Na Argentina, cerca de 80% da soja plantada na safra 1998/1999 é transgênica, mas há previsão de redução nessas proporções. “Alguns escritórios de assistência técnica estimam que a diminuição pode ser grande e que nas próximas safras, a área de soja transgênica nas lavouras de alta tecnologia seja reduzida a apenas 30% do total”, esclarece Roman. “Na Argentina, em áreas mais antigas, parecidas com as lavouras brasileiras, são necessárias duas aplicações de Roundup, o que aumenta os custos de produção”, analisa o pesquisador. No Rio Grande do Sul, são plantados milhões de hectares de soja, onde as cultivares BR 16 e Embrapa 66 - ambas da Embrapa -, são as preferidas dos agricultores. A estimativa é de que em 2006, a área plantada no Brasil chegue a 15,7 milhões de hectares.