Genética, Evolução e Melhoramento de Plantas


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Publicado em: 01/06/1999

Genética, evolução e melhoramento de plantas

Maria Irene Baggio Pesquisadora Embrapa Trigo/Geneticista, Coordenadora da Sub-Região Brasil da REDBio/FAO 97/99, SBPC.

Desde 1976, quando surgiram os primeiros resultados de pesquisa na área da biologia molecular e começaram a ser vislumbradas as fantásticas promessas da engenharia genética, ou seja, as possibilidades de transferir quimicamente, de uma espécie para outra, apenas um único gene, de modo que os organismos biológicos pudessem gerar, adicionalmente ao que seus genomas fazem normalmente, mais um único produto químico de valor econômico, que venho acompanhando o que acontece nesta área. Na Embrapa, os pesquisadores das mais de cinqüenta unidades de pesquisa espalhadas pelo país, tem procurado identificar, tornar disponível para a pesquisa agrícola brasileira, aqueles processos ou métodos que possam ser mais úteis para a produção de alimentos no nosso pais, com menor custo e maior qualidade. Dentro das novas biotecnologias vegetais a curiosidade maior que existe atualmente é em relação as plantas transgênicas. O que significa uma planta transgênica? Podemos dizer que qualquer organismo pode ser chamado de transgênico se ele tiver um segmento de DNA ou um gene inserido de outra espécie. Esta denominação transgênico está sendo usada para designar os organismos que tiveram este gene estranho inserido através de um processo chamado transformação o qual, diferentemente dos até agora utilizados permite maior precisão, transferindo um só gene, que poderá fazer o organismo transformado produzir um único produto químico que o outro organismo, doador, já produz.

Melhoramento genético e a origem da agricultura

O melhoramento genético clássico, também é artificial, foi iniciado há cerca de 200 anos na França e vem sendo efetuado pelos programas das estações experimentais, no mundo inteiro, através de cruzamentos que recombinam grandes blocos de genes localizados em cromossomos inteiros ou pedaços de cromossomos. Um exemplo interessante no trigo é um bloco de genes que está num pedaço de cromossomo de centeio que confere resistência à doenças fúngicas como ferrugens e oídio. Junto com a resistência às doenças que permite diminuir o uso de agroquímicos, este segmento de cromossomo do centeio tem genes que sintetizam proteínas chamadas secalinas que afetam a qualidade de panificação. As proteínas da qualidade de panificação dão o volume e a forma ao pão e resultam de uma combinação adequada de proteínas que fazem uma rede que prende os gases para o pão ficar fofinho. A grande maioria dos alimentos que consumimos, derivados de plantas, podem ter genes estranhos, de outras espécies, que poderíamos também chamar de transgênese cujo efeito até hoje não tem sido perigoso. Mas quem pode afirmar que as doenças comuns que ocorrem hoje não têm nenhuma contribuição dos nossos alimentos? Por exemplo, os salgadinhos que as criancinhas levam para a creche de merenda têm tanto sal que já há casos que eu conheço pessoalmente de problemas renais graves. Provavelmente são afetadas primeiro as crianças geneticamente ou nutricionalmente mais vulneráveis. O mesmo vale para os geneticamente vulneráveis a diabetes, por exemplo. A natureza, através dos mecanismos da evolução biológica, faz engenharia genética desde a origem da vida e nós também fazemos, imitando os processos que nós aprendemos da natureza, nas estações experimentais, há mais de 200 anos. Toda a vida que está ai, todos os seres vivos, microorganismos, plantas e animais e a espécie humana, todos nos originamos através da produção de variabilidade genética gerada através das mutações. Aqueles mutantes para uma ou mais características, que a seleção natural considerou adaptados e deixou sobreviver e permitiu que se reproduzissem em maior escala que os outros, ou seja que deixaram maior proporção de descendentes, gerou toda esta variabilidade de seres vivos que nós vemos aí. Quando se acumularam diferenças entre organismos de modo que não puderam mais se cruzar, passaram a ser espécies diferentes e o fato de não se cruzarem mais, aumentou as diferenças. No melhoramento genético das plantas, por exemplo, nós podemos ajudar a transferir genes úteis de espécies próximas cultivando os embriões híbridos imaturos como fazemos no nosso laboratório, lá na Embrapa Trigo e se faz em diversos países do mundo, há mais de 30 anos. Então, o que existe de novo com os transgênicos? Existe, como já disse, a possibilidade de não mais depender de recombinações ao acaso de grande blocos de genes para procurar desenvolver novas variedades de plantas cultivadas e um enorme e penoso trabalho de seleção. Agora se pode isolar um gene apenas de qualquer espécie não mais apenas de indivíduos da mesma espécie ou de espécies parecidas, como é o caso do trigo e do centeio. A transgênese nos permite, por exemplo, cortar um gene da bactéria com moléculas que são verdadeiras tesouras moleculares porque cortam no lugar exato e daí aquele único gene pode ser quimicamente inserido numa planta ou um animal o qual vai começar a produzir a proteína que aquele gene codifica. Portanto, as barreiras que existiam entre as espécies para a passagem de genes por métodos tradicionais estão sendo derrubadas pela transgênese, ou engenharia genética, ou DNA recombinante. Este novo patamar de progresso para a humanidade certamente será irreversível e inexorável. A humanidade nunca voltou atrás em relação a um progresso tecnológico porque oferece perigo. Costumo comparar com a descoberta do fogo. O que isto representou para a humanidade? Você pode preservar os alimentos, pode se aquecer e não sofrer com o frio mas você, se quiser, também pode destruir. E imagine como seria se, quando descobriram o fogo, também fizessem reuniões e mais reuniões para discutir: podemos usar, não podemos usar? proíbe porque é perigoso ou não proíbe? e as autoridades dizerem, não queremos fogo nenhum no Rio Grande do Sul, vamos deixar nosso estado livre, porque vamos perder o mercado europeu, os consumidores não querem comprar nenhum alimento que tenha sido cozido no fogo, é preciso testar, fazer experimentos e enquanto a ciência não provar que não causa nenhum mal, ninguém pode cozinhar nada. Legislar, regulamentar, quem pode e quem não pode usar o fogo e quando? E os descobridores cobrarem royalties: toda a vez que for acender fogo você tem que pagar uma taxa para a empresa que tem direito de propriedade sobre a tecnologia ? Só que o fogo é uma tecnologia com potencial de destruição mais limitado, diferente, por exemplo, do uso da energia nuclear para a guerra, e da poluição química que podem destruir o planeta e a vida na terra. Vejam, à medida que a ciência progrediu, o alcance e os benefícios das tecnologias resultantes das novas descobertas se ampliaram, aumentando a sobrevivência dos humanos do modo que a espécie humana se tornou o mamífero mais numeroso da face da terra, depois dos ratos. Paralelamente, e não há como fugir disto, também se ampliou o potencial de efeitos negativos e do mal que pode ser feito com as mesmas tecnologias, mas o mal potencial nunca bloqueou o uso, apenas moderou. Ainda, há uma diferença entre ciência e tecnologia: as descobertas científicas em si são neutras porque representam conhecimento, o efeito benéfico ou maléfico resulta das tecnologias que o conhecimento permite gerar e do uso adequado ou inadequado. No caso dos alimentos transgênicos o que acontece de novo, entre outras coisas, é a dúvida que temos em relação aos efeitos para a nossa saúde e para o ambiente. Que efeito pode causar você passar um gene que já existe em uma espécie para o genoma de outra? Se o gene conseguir funcionar normalmente, porque as vezes não consegue, como ele vai interagir com os outros genes da espécie receptora? A natureza faz isto desde o inicio da vida na terra há 4 bilhões de anos e a vida que está ai e as espécies que estão aí são o resultado desta experimentação da natureza. Nós somos resultado desta experimentação. Então temos que evitar a ampliação do medo que resulta da ignorância alegando que é um processo novo, que nunca aconteceu. Nem aceitar qualquer argumento que alegue que cientistas estão contra porque muitos cientistas que não têm formação em genética e evolução de plantas ignoram que a troca de genes sempre ocorreu e ainda ocorre. Quando fazemos o melhoramento genético para originar novas cultivares estamos manipulando os genomas em outro nível, mas também é manipulação genética. Só que agora pode ser feito com mais precisão, com finalidades de ganho econômico e existe direito de propriedade sobre os produtos e os processos. Agora entra a competição entre as empresas que sabem fazer porque gastaram fortunas para aprender e as que não aprenderam a fazer e sabem que terão perda de competitividade. Alegar que é necessário segurança absoluta é, no mínimo discutível: existe mais segurança biológica com as plantas transgênicas, por causa de todos os testes exigidos antes da liberação, do que com os processos que estão sendo utilizados atualmente, como os que destroem a camada de ozônio e poluem quimicamente o ambiente. Portanto, variabilidade genética existe desde o começo da vida. Não estamos inventando a variabilidade com as transgênicas. Há mais de 10 mil anos a humanidade começou a selecionar a variabilidade das plantas quando as primeiras agricultoras guardaram as melhores sementes para plantar, enquanto os homens iam para a guerra e a caça. Na França de Napoleão Bonaparte a variabilidade genética começou a ser trabalhada cientificamente pela casa Vilmorin, a primeira empresa de melhoramento moderna. Os Vilmorin selecionaram uma beterraba com maiores teores de açúcar cujo acréscimo de rendimento sustentou os exércitos de Napoleão. Seria correto responsabilizar o melhoramento genético da beterraba pelas guerras Napoleônicas? Depois dos Vilmorin, foram criadas redes de pesquisa agronômica em todos os países, nas Estações Experimentais dos Ministérios e Secretarias de Agricultura para apoiar os produtores dos alimentos. No Brasil, é uma rede oficial governamental, antes vinculada diretamente ao Ministério da Agricultura e nos últimos 25 anos, da Embrapa, que testa todos os novos genótipos em ensaios nos vários agroecosistemas para que depois cheguem como matérias primas para produção de alimentos para o consumidor. Portanto, a transgênese e a variabilidade genética não são novidades, a novidade é que esta variabilidade está sendo manipulada com um método novo e muito mais preciso e transferida de organismos aos quais antes não se tinha acesso, como por exemplo, usar um gene de um peixe do ártico que produz uma proteína anticoagulante na batata para ser cultivada no Chile.

Sobre a soja transgênica

A soja transgênica que está causando toda esta polêmica porque ela tem tolerância ao herbicida, esta tolerância não é uma molécula química nova, que não existia, é uma molécula que um gene de uma bactéria da natureza já fabricava. Então, como esse gene da bactéria se expressa na planta? que tipo de interação isso pode trazer quando este gene começa a funcionar junto com os outros que já funcionam na planta? Que vai acontecer ao nosso organismo quando ingerimos um alimento que tem este gene? Tudo isto as empresas testam antes de serem autorizadas a produzir a semente transgênica. É claro que estas interações dependem do gene que for transferido porque o processo é o mesmo mas o resultado vai depender de qual proteína o gene vai fabricar: genes diferentes fabricam proteínas diferentes. Outro aspecto a considerar é o seguinte: que tipo de prática cultural vai acontecer na lavoura, no manejo dos químicos da lavoura quando o agricultor plantar este material? O mais crítico: o que é que isto representa para a economia de um país? Do nosso país? Que representa uma empresa manipular o mercado para usar somente este material? Ditar preços porque tem o monopólio? O importante é não misturar as coisas, o processo, os produtos que o processo pode gerar se estes produtos podem ser gerados por outros processos menos precisos mas que não estão patenteados e as atitudes das empresas publicas, particulares, nacionais, transnacionais, monopolistas ou não. Infelizmente está se criando na mídia a idéia de que o que for transgênico é problemático, principalmente em alguns países da Europa especialmente na Alemanha, onde há um trauma muito grande ainda presente por causa dos experimentos genéticos com os judeus no período do nazismo. Esse trauma amedronta as pessoas no sentido de se sentirem cúmplices de algum tipo de manipulação que gere monstros!!! Daí manipulação genética, na Alemanha, virou sinônimo de torturas, de execuções nos campos de concentração: abajur de pele humana e outros horrores! Este medo pode ter alguma base real se você pensar em biotecnologias para a guerra. No caso dos alimentos transgênicos não me assusto muito: o que aprendi em 35 anos de pesquisa em genética de plantas não me permite ter medo, como pessoa e como cidadã com 30 anos de mãe e um ano e meio de avó. A transgênese é um processo novo, mais eficiente, que está disponível para a humanidade a preço de royalties, para o bem ou para o mal, como foi o fogo, as leveduras para o pão, a cerveja, o vinho, o álcool, os laticínios, a energia nuclear, as armas, os químicos sintéticos para a medicina, para a agricultura, para a industria e para a guerra. Em muitos casos, estas biotecnologias representam uma grande economia em termos de não se jogar tantos químicos na lavoura. Então, para cada caso, para cada gene, para cada espécie cultivada que vai ser objeto da transgênese, é necessário avaliar com muito cuidado os riscos e benefícios porque em muitos casos não podemos prever realmente todas as conseqüências somente após o uso. Mas agora a humanidade está um pouquinho mais prevenida do que quando, por exemplo, se descobriu a fissão dos átomos e se jogou a bomba atômica no Japão. Já em 1928 os cientistas sabiam do efeito das radiações como indutoras de mutações na mosca das frutas, a drosofila mas, mesmo assim, a energia nuclear foi usada. Depois da guerra, quando faziam testes no deserto de Nevada as autoridades americanas eram convidadas a assistir, de óculos especiais, em arquibancadas, como convidados de um desfile, as demonstrações de todo aquele poder de destruição! Portanto, as autoridades que decidiram pelo uso da energia nuclear para a guerra não levaram em conta, para sua decisão, o que a ciência já sabia sobre os efeitos biológicos e genéticos das radiações ionizantes. Hoje, felizmente, os cientistas e a sociedade estão se antecipando em alertar para os riscos e perigos potenciais. Portanto, é importante se avaliar corretamente o risco de cada tecnologia, porque, pelo fato da ser transgênico não significa que devam ter um efeito negativo para a saúde do mesmo modo que os medicamentos salvam vidas se aplicados corretamente, mas podem ter efeitos colaterais graves em pessoas vulneráveis ou se aplicados inadequadamente. Por exemplo, se você for alérgico, pode morrer se for tratado com penicilina, mas a penicilina salvou e salva muitas vidas e ninguém pensa em proibir porque alguém é alérgico. Então em relação a saúde, temos que considerar a nossa constituição genética que é única para cada indivíduo e temos que considerar que se nosso metabolismo estiver equilibrado, nós somos menos vulneráveis e se estiver desequilibrado, nós nos tornamos mais vulneráveis. Então, atrás de muitas manchetes que estão aí assustando as pessoas sobre alimentos transgênicos pode haver muitos interesses econômicos que nem imaginamos e é muito importante separar o que é conhecimento científico, aplicação tecnológica, competição econômica e empresarial, riscos para a saúde, para o ambiente e para a biodiversidade. Inclusive, temos que considerar a nossa capacidade de competir como país, o que representa para a economia do país a gente dominar um processo novo, saber fazer, porque somos muito vulneráveis em termos de competência tecnológica. Quanto mais ficarmos apenas discutindo se vale a pena ou não vale a pena usar transgênico, proibir ou deixar de proibir transgênicos, é tempo que deixamos de utilizar para progredir no conhecimento que vai nos permitir usar a tecnologia com responsabilidade. O que é que o melhorista faz? Dentro da variabilidade genética existente ele escolhe as variantes mais interessantes para cultivar na lavoura e ele escolhe visualmente ou faz testes para identificar os genótipos mais adaptados, mais resistentes a doenças, etc. Daí ele cruza genótipos com características que ele deseja juntar num só e planta as gerações descendentes selecionando as que tem o que ele procura e depois os novos genótipos vão ser avaliados na rede experimental até serem oficialmente recomendados para plantio. Para isto é preciso um enfoque multidisciplinar; varias disciplinas contribuem para que seja produzido um genótipo melhor do que o que está na lavoura. A Genética é a disciplina central do melhoramento mas é preciso também estatística, disciplinas do solo, do clima, dos patógenos, da fisiologia e anatomia da planta etc. Quanto mais conhecimento mais instrumentos para gerar genótipos melhores. E agora temos a biologia celular e a biologia molecular para apoiar o melhoramento. Antes se tratava a nível de como era a planta inteira no campo ou em condições controladas, agora se usa informações sobre como são os órgãos, os tecidos, as células e as moléculas da planta e como podemos transferir moléculas de seres vivos que não podem se cruzar com as plantas que queremos melhorar. É aí que a transgênese traz uma revolução tecnológica fantástica e inexorável. Não tem como não usar no futuro. Na Embrapa, associando ao melhoramento a tecnologia da cultura de tecidos, em Passo Fundo, foi feita a primeira cultivar de trigo das Américas e a quarta do mundo, gerada através da biotecnologia. Com pouco recurso, laboratório simples e pouca sofisticação mas usando idéias independentes de um projeto de melhoramento para as nossas condições agroecológicas e com trabalho multidisciplinar: laboratório mais campo trabalhando juntos. Portanto, se soubermos utilizar as informações que os grandes laboratórios do exterior geram e selecionarmos o que pode ser útil para resolver nossos problemas e trabalharmos com empenho podemos competir tecnologicamente porque, usando nossa criatividade, podemos gerar soluções úteis. O uso da variabilidade genética e o melhoramento genético cientificamente programado não é ruim e não é novo. Não é com as plantas transgênicas que se está inventando a variabilidade genética. Quando o homem primitivo ao invés de consumir as melhores sementes e os melhores animais domesticados, os preservou para a reprodução, teve inicio o melhoramento genético. A escolha das variantes genéticas mais úteis ao homem começou há mais de 10.000 anos quando as mulheres selecionaram e guardaram para plantio grãos de trigo e cevada enquanto os homens faziam a caça e a guerra. A agricultura permitiu que a humanidade abandonasse um milhão e duzentos mil anos de vida nômade de caça e coleta para se fixar em povoados e cidades porque pela primeira vez na história do homem o alimento pode ser estocado. No momento em que descobriu que poderia se tranqüilizar com reservas de alimentos, o homem primitivo teve tempo de olhar para o céu, as estrelas e imaginar o seu papel no universo e é o que nós estamos tentando fazer até hoje.

A polêmica das plantas transgênicas

O que está acontecendo de novo com as plantas transgênicas? Agora você vai ter que pagar pelos genes enquanto antes o governo distribuía as novas sementes melhoradas gratuitamente. Aqui no Brasil e no exterior, os pesquisadores trocavam livremente o germoplasma, ou seja, os genótipos com novos genes úteis para serem testados em diferentes lugares do mundo. Como você faz plantas transgênicas? Você pode bombardear para inserir um único gene com um equipamento desenvolvido para esta finalidade com partículas de ouro ou tungstênio com o gene enrolado como se fosse um novelinho de linha enrolada numa bolinha. Com pressão de gás hélio você bombardeia as células várias vezes, porque tem que acertar o alvo, tentando, por probabilidade. Com um corante especial você pode observar se houve a transferência: as manchinhas mostram as células que incorporaram o gene que você deseja. Ou você pode usar um agente patogênico chamado agrobacterium que é um patógeno que infecta as plantas injetando um gene que causa a doença. Só que os cientistas substituem o gene por outro que codifica uma substancia que você deseja que a planta fabrique. Se vocês imaginarem que nosso programa genético, codificado no genoma é como uma fita cassete ou um CD com informações gravadas, podemos dizer que todas as células de qualquer organismo têm no núcleo toda a informação genética codificada com uma linguagem química mesmo que a célula só produza cabelo, ou pele ou acido clorídrico no estômago, etc. etc. Então, se numa frase química você acrescentar uma palavra você pode tornar a frase diferente, ou mais enfática, ou mudar o sentido, ou apagar as palavras e não dizer mais o que está escrito. Acontece o mesmo com a transgênese, dependendo do gene que você coloca. Então, o que está acontecendo de muito importante no mundo, também, é que as bibliotecas genômicas que decifram tudo o que está escrito na linguagem química do código genético estão sendo estabelecidas. O projeto genoma humano, por exemplo, pretende decifrar todos os nossos genes, para a produção de medicamentos a partir dos genes saudáveis. No momento em que uma empresa, no caso a Monsanto, mais ou menos há 15 anos atrás, contrata mil e quinhentos pesquisadores para trabalhar exclusivamente na transgênese em plantas, para ajustar o processo que foi desenvolvimento inicialmente em bactérias, pode-se entender porque esta empresa está mais adiantada. A decisão da empresa foi desenvolver a soja tolerante ao herbicida da própria empresa, pensando em vender um pacote: a semente e o herbicida. Foi uma decisão de marketing que está gerando uma resistência muito grande por causa dos traumas causados pela poluição química na agricultura. Se fosse um gene com conotação mais ecológica talvez fosse mais aceitável. Mas quando se toma uma decisão não é possível levar em conta todas as alternativas e aquelas que você não prioriza podem te trazer problemas imprevisíveis a longo prazo. Por isto é importante considerar, uma coisa é o processo, outra a economia, outra a competição empresarial para dominar o mercado e os métodos lícitos ou não tanto que são usados na competição. Como servidores públicos temos obrigação de fornecer todas as informações para que as autoridades, políticos e a sociedade possam se posicionar baseados nas informações disponíveis e não manipulados por ideologias, ignorância ou interesses de mercado. A primeira planta transgênica foi testada simultaneamente em 1986, na França e nos Estados Unidos. Cinco anos depois este pais já tinha 141 em avaliação enquanto a França tinha apenas 79 ou seja, a capacidade de competição dos Estados Unidos é muito superior. As empresas que não investiram na metodologia provavelmente tem interesse que haja uma demora maior no uso para terem tempo de não serem excluídas do mercado. Os rearranjos empresariais em função deste novo mercado são de tal nível que apenas um dos novos aglomerados tem orçamento anual superior ao produto interno bruto de 143 países somados, de acordo com a revista da FAPESP. Estas empresas também atuam na área farmacêutica, que tem maior espaço no mercado, mas a mídia não tem se ocupado da transgênese nesta área que dá um lucro fantástico e modificou a produção de alguns hormônios como a insulina e hormônios de crescimento que eram extraídos de órgãos e animais e hoje são produzidos por bactérias em pequenas placas e com os genes humanos e não dos animais, portanto, mais confiáveis para a medicina. Mas esta área está fora da mídia. Um mercado novo, no Brasil, referente a propriedade de sementes melhoradas está sendo invadido neste período de neoliberalismo. Por isto temos que clarear bem o que é genética, efeitos na saúde, na economia e no ambiente. A dificuldade em relação as empresas é que elas podem não divulgar certas informações sobre a obtenção dos produtos se isto estiver envolvido no que se chama o segredo do negócio, ou seja, informações que possam comprometer sua competitividade naquela patente eles não precisam informar. Só que embutido no segredo do negócio pode acontecer serem escondidas informações que podem trazer prejuízos para o consumidor. Isto acontece com os remédios e o caso da taladomida é conhecido de todos e trouxe jurisprudência sobre isto e processos milionários. Então, é um conflito entre ganhos a curto prazo e riscos de prejuízos a longo prazo. Então, vejam além dos pontos já citados temos que analisar os aspectos legais e éticos. Hoje a ciência não é mais uma atividade em que as pessoas se isolam nos laboratórios pesquisando a origem e os mecanismos dos fenômenos em uma “torre de marfim” que até é legal para a gente fugir dos problemas do dia a dia. Os cientistas estão cada vez mais comprometidos com as conseqüências sociais de suas descobertas. Isto aconteceu primeiro na física com as conseqüências da bomba atômica e depois na química por causa dos medicamentos , agroquímicos na lavoura e químicos na guerra (desfolhantes no Vietnam) e agora está acontecendo na biologia envolvendo principalmente a medicina e a agronomia. As grandes corporações multinacionais que controlam os combustíveis, o petróleo, a química, etc., agora estão também controlando a produção de sementes e os alimentos. Outro aspecto importante é que existe uma distância cada vez menor entre a geração de novos conhecimentos e sua aplicação. Por exemplo, na física, o conhecimento científico que levou a criação do automóvel levou 100 anos para se transformar em tecnologia porque o conhecimento não circulava rapidamente. Hoje, com as comunicações modernas, a geração de tecnologias é quase simultânea à geração do conhecimento. Isto significa uma mudança importante: quanto mais agilidade nós tivermos para entender que precisamos mudar, nós estaremos competindo e entendemos ou só ficamos consumindo sem participar dos processos, sem nenhuma atuação ativa, só passiva. Esta tentativa de separação filosófica entre o que é ciência e o que é tecnologia não tem sentido, portanto. O mesmo cérebro pode gerar ciência e pode gerar tecnologia, desde queira. Por isto, o progresso científico gerou uma aplicação acelerada de um conhecimento imperfeito da realidade e o que deve ser evitado é a arrogância do cientista quando extrapola o método científico que é reducionista para a realidade que é multifacetada. Aí está a importância de um serviço publico independente que tenha isenção para projetar as possíveis conseqüências mas tenha também flexibilidade para não castrar o futuro.