Transgênicos e a Lei Seca


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Publicado em: 01/08/1999

Transgênicos e a Lei Seca

Editorial

Transgênicos e a Lei Seca

Na edição anterior, manifestamos a opinião de que a batalha da utilização ou não de soja transgênica, seria definida na esfera judicial ou política, antes do que na área técnica. E que não gostaríamos de voltar ao assunto, em função do desgaste que debates como esse, semelhantes às discussões políticas e religiosas, trazem, na maioria das vezes entre pessoas que convivem em círculos familiares, de amizade ou de trabalho. Mas, não há como negar que o assunto vaza em todas as direções, tivemos que abrir espaço para manifestações da Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha e dos Clube Amigos da Terra do Rio Grande do Sul, entre outras instituições e pessoas, que fazem parte do processo produtivo da soja, e vivem diretamente as perspectivas que a utilização ou não dos materiais transgênicos apresenta para suas atividades. Volto a afirmar que, nessa briga, todo mundo tem suas razões e ninguém vai abrir mão delas. Na minha opinião, já manifestada anteriormente, a Secretaria de Agricultura do Rio Grande do Sul, eleita com uma plataforma política, tem razões de sobra na sua argumentação, inclusive quando questiona os aspectos políticos, econômicos e de soberania nacional na produção de alimentos. Entretanto, no meu entendimento, um erro básico da linha defendida pela SAA-RS, é a proposta impositiva, da não utilização da soja transgênica para uma comunidade de produtores, que planta uma área de mais de 3 milhões de ha com essa cultura e que, na sua maioria, tem uma expectativa altamente favorável sobre o que significará, em termos econômicos e de praticidade na condução da lavoura, essa nova e revolucionária tecnologia. Imagine isso. Você, que lida com o assunto, quando aparece uma ferramenta tecnológica que lhe dará conforto e vantagens econômicas, chega uma autoridade e diz não, isso está proibido de usar, quando é sabido que até o seu vizinho já está utilizando. Se fosse só você que plantasse soja! Mas não, é a principal cultura do Estado! É como se muitos já estivessem indo de carro em suas viagens mas, justamente agora que uma grande parcela de individuos conseguiu recursos para adquirir seu automóvel, entrou um novo governo que, armado de razões e inflexibilidade, arranja impecilhos legais para que esse grupo seja obrigado a continuar viajando de carroça. Existe um toque de nonsense, do realismo mágico de Gabriel Garcia Marques nesse quadro. Se a proposta de zona liberada de soja transgênica fosse feita para o Maranhão, que planta menos de 500 mil ha, mas o Rio Grande do Sul é um dos maiores estados em termos de área plantada de soja do mundo! Querer modificar o mundo por decreto é algo que a história mostra ser ineficaz, mas nós brasileiros parece que incorporamos esse mecanismo, veja-se a maneira como o Governo Federal conduz sua política. A Lei Seca, que o governo americano impôs na década de 20, pressionado por segmentos religiosos, talvez seja o exemplo mais clássico de como os objetivos podem ser exatamente inversos às propostas do decreto. No caso atual, pode ocorrer algo semelhante: contrabando, falsificações, crimes, tudo o que se possa imaginar e um consumo de tempo e energia que só vai desgastar a todos. Pensando nessa poupança de energia e tempo, que é fundamental para que possamos enfrentar outras batalhas, possivelmente mais importantes, no meu entendimento, é que eu gostaria de ver uma postura mais flexível e democrática por parte da SAA-RS. Mesmo que os produtores de soja não sejam uma maioria, mas as minorias também fazem parte da nossa sociedade e nós temos a certeza que todas tem direitos. Que essa energia poupada seja gasta naquilo que todos concordamos e que fazem parte da proposta eleita no último e histórico pleito. Existem muitas arestas, grandes e pequenas nessas humanas relações, porém, um campo pacífico ainda é a melhor maneira de apará-las, e a minha modesta proposta será sempre nessa direção. Creio que o Governo do Estado ganharia aliados, dentro de um segmento tradicionalmente opositor, e fôlego para incentivar a agricultura familiar e orgânica, entre outras políticas justas, sem deixar de lado seu posicionamento mais amplo pelo qual foi eleito.

Gilberto BorgesEditor