Gerenciamento e transgênicas foram debatidos
GRAMADO
Gerenciamento e transgênicas foram debatidos
”Sempre que aparecem novidades tecnológicas de grande impacto, ocorrem resistências à sua adoção, isso é natural dos seres humanos, como mostra a história. A biotecnologia é uma ferramenta fantástica para a evolução e o futuro da espécie humana, mas, no campo, a capacidade de gestão do produtor rural é um entrave ao desenvolvimento.” As afirmações do pesquisador Dirceu Gassen, da Embrapa Trigo, um dos palestrantes do 14º Seminário de Gramado, tradicional evento da Cooplantio, podem ser consideradas como a síntese das palestras e debates que foram realizados nos dias 1 e 2 de julho, no Hotel Serra Azul, em Gramado. Mais de 500 produtores e assistentes técnicos participaram do encontro, que priorizou um amplo painel sobre as perspectivas do agronegócio no próximo milênio e as perspectivas de uso de plantas transgênicas. Mesmo que somente o pesquisador Rubens Nodari, da Universidade Federal de Santa Catarina, tenha questionado a liberação do plantio de soja transgênica, o primeiro dia do Seminário teve basicamente exposições e debates que ressaltaram as vantagens da nova tecnologia. A maioria dos grandes produtores e técnicos presentes não esconderam suas inclinações favoráveis à utilização da soja RR, que trará uma redução nos custos de produção, o que poderia tornar a oleaginosa competitiva com nossos vizinhos argentinos, que já plantam uma área superior a 70% com as variedades resistentes. Rubens Nodari argumenta que ainda não existem estudos suficientes para confirmar que os sub produtos da soja RR não causarão males à saúde humana, questionando o fato de não ter sido exigido o Relatório de Impacto Ambiental para os ensaios e lavouras da soja transgênica. Para Ernesto Patterniani, membro da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança-CTNBio, a Comissão examinou a fundo os trabalhos apresentados pela Monsanto, que realizou estudos durante mais de 10 anos, e não iria comprometer todo esse projeto, colocando algo perigoso no mercado. ”A soja RR da Monsanto foi um dos materiais mais testados de que se tem conhecimento, disse ele, justamente por ser uma novidade e causar polêmica. Existem 2,5 bilhões de pessoas em todo o mundo que já estão consumindo alimentos produzidos com organismos geneticamente modificados e não se conhece nenhum caso de dano à saúde animal ou humana até o momento.” Luiz Federizzi, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, afirmou que, durante sua estada nos Estados Unidos, ele e sua família consumiram diversos alimentos que continham derivados de soja transgênica. Pertencente à mesma instituição,o pesquisador Homero Dewes, com pós-doutorado em biotecnologia, concluiu que o grande problema é a falta de informações a respeito da biotecnologia, o que tem causado uma reação aos organismos transgênicos. ”De outro lado, afirmou ele em Gramado, a Europa está atrasada em termos agrícolas e propaga fantasiosamente que não quer os produtos transgênicos quando, na verdade, busca ganhar tempo para alcançar o nível de tecnologia atingido pelos americanos.
Eurico DornelesPresidente da Cooplantio
”Se pudéssemos plantar arroz transgênico estaríamos em outra situação”
Razão e emoção ”É necessário que o produtor rural tenha mais rentabilidade, buscando usar mais a razão e menos a emoção”, disse Marcos Jank, consultor na área de agronegócios, que palestrou na tarde do último dia do Seminário de Gramado. Ele abordou as grandes mudanças na agroindústria, a fusão de empresas, a internacionalização e os reflexos na agricultura nacional. O Consultor de Mercados Ciloter Irribarren, da Safras & Cifras, de Pelotas-RS, reforçou aspectos referentes à mentalidade positiva e atitude otimista, junto com uma constante atualização técnica e organizacional. ”A tecnologia é o caminho para a eficiência e para a produtividade. O empresário rural precisa se caracterizar pela mudança rápida, profunda e irreversível. Tudo o que se pode ter é preparo para enfrentar o que vier”, afirmou Ciloter, ressaltando alguns atributos que caracterizam o empresário rural bem sucedido: capacidade de estabelecer eficientes sistemas de custos e orçamentos, ajustes nas estruturas com redução de custos, aumento na integração lavoura-pecuária, incorporação rápida de novas tecnologias e busca de informações e novas alternativas de negócios. Para Eurico Dorneles, presidente da Cooplantio, o produtor não pode viver isoladamente, necessitando participar da cadeia produtiva de forma consciente. Ele estava satisfeito com a presença de um grande público e o resultado técnico do 14º Seminário, apesar de estar preocupado com as tendências de baixa dos produtos agrícolas, conforme ficou claro em algumas apresentações. Segundo Dorneles, a área de plantio direto com arroz irrigado tem crescido pouco em função do individamento e das dificuldades que o produtor enfrenta para comprar máquinas novas. ”O maior problema do arroz é o inço, afirmou Eurico Dorneles. Se nós pudéssemos plantar o arroz transgênico já estaríamos noutra situação. No Rio Grande do Sul, as lavouras de arroz são mais antigas e o problema das plantas daninhas é mais arraigado.” O presidente da Cooplantio está entusiasmado com as perspectivas da introdução da soja nas áreas de várzeas. Para isso, a entidade está fazendo estudos junto com a Embrapa e o Instituto Riograndense do Arroz, visando a obtenção de variedades de soja resistentes à umidade. Segundo Dorneles, são inúmeras as vantagens que a introdução da soja na rotação com arroz pode trazer, inclusive no controle de plantas daninhas. ”O arroz plantada na sequência da soja pode render mais de 1000 kg/ha, finalizou ele. O ideal do plantio do arroz é de 15 de outubro a 15 de novembro. Da soja, a época recomendada é de 15 de novembro a 15 de dezembro. Com uma mesma estrutura de máquinas e implementos, no lugar de fazer uma lavoura de arroz grande e mal conduzida, você pode plantar menos e melhor, de forma escalonada. Na comercialização também ocorrem vantagens, pois, como o arroz tem preços baixos historicamente na época da colheita, a comercialização da soja, mais cedo, poderá suprir os primeiros compromissos, o que permitirá aguardar um pouco mais para a venda do arroz. Os trabalhos do Irga e da Embrapa já estão adiantados nesse sentido, e nós teremos uma lavoura sustentável em termos agronômicos e econômicos.”
Pesquisa revela tendências entre produtores ”Os resultados da pesquisa demonstram que 70% das pessoas entrevistadas no Seminário de Gramado querem a biotecnologia, mas é necessário que ela venha com mais informações”, afirmou o engenheiro agrônomo Daltro Benvenuti, vice presidente da Cooplantio, um dos coordenadores do evento, que reuniu cerca de 550 participantes, na Serra Gaúcha, no início de julho. Do total dos que responderam à pesquisa, 50% eram médios e grandes produtores de soja, milho e arroz. O segmento de engenheiros agrônomos, ligados à lavoura e à empresas do setor, representou cerca de 30% do total de respostas apresentadas. A principal pergunta do questionário foi : A partir da exposição que você assistiu sobre biotecnologia, e pressupondo que haja liberação de plantas transgênicas para cultivo e comercialização, qual a sua posição a respeito? Segundo os dados computados pela Cooplantio, 61% dos participantes que responderam ao questionário disseram que são favoráveis e pretendem plantar na próxima safra, 22% não opinaram, 12% são favoráveis mas não pretende plantar na próxima safra ainda, em caso de liberação, e 2,3% se declararam contrários às plantas transgênicas.