Alerta sobre o uso de calcário
CRUZ ALTAAlerta sobre o uso de calcário
PERGUNTAS & RESPOSTAS Durante os debates entre palestrantes e o público presente no III Curso de Fertilidade, em Cruz Alta, foram feitos inúmeros questionamentos sobre diversos aspectos relativos aos temas apresentados e suas derivações. Escolhemos algumas Perguntas & Respostas, que poderão ser do interesse de todos.
Nitrogênio
Pergunta - O manejo de nitrogênio coincide algumas vezes com a aplicação de herbicida pós emergente. Existe algum problema nessa operação, algum tipo de estress para as plantas? Quais as vantagens da aplicação antecipada de N? Volnei Pauletti (Fundação ABC) - A grande vantagem da aplicação antecipada é a liberação das máquinas na época de semear. Se você antecipar a aplicação de N para o período de dessecação, você tem essa vantagem. No caso do milho, existem alguns herbicidas que acarretam fitotoxidade elevada mas que, na produtividade final, não apresenta diferença. Trabalhos existentes indicam que, mesmo nos híbridos mais sensíveis, a produtividade final não se altera. Acho que a aplicação simultânea de N, juntamente com o pós emergente, ajudaria na recuperação da planta em relação à fitotoxidade causada pelo herbicida. Marcos Fries (Universidade de Santa Maria) - Nós fizemos experimentos em dois anos seguidos com a antecipação da aplicação de nitrogênio e concluimos que a operação pode ser perigosa em anos chuvosos. Nesses casos, ocorre muita nitrificação e a chuva leva o N embora, na hora de crescimento e necessidade da planta. A aplicação em duas vezes sempre foi usada justamente para evitar essas perdas. No caso de aplicarmos uréia, ocorre a nitrificação, formando os íons amônio e nitrato, que são muito solúveis e podem ser carregados pela água, como aconteceu no ano de El Niño. Pergunta - Quando se fala da quantidade de nitrogênio que fica disponível nas plantas, é considerado, no caso das leguminosas, o que foi fixado ou o que está na parte aérea das plantas? Jackson Fiorin (Fundacep - Cruz Alta) - Os dados citados são aqueles analisados em termos do tecido da parte aérea das plantas. Claro que, na questão da disponibilidade, a estimativa é de que o aproveitamento não será de 100% do N incorporado. Mas, sabemos que, pelo menos, a metade desse N é aproveitado. Se considerarmos uma incorporação de 120 kg de N no tecido das partes aéreas, sem falarmos da quantidade incorporada pelas raízes, que pode ser significativa, é certo que ocorre um aproveitamento de pelo menos 50% do N pelas culturas que vem a seguir, desde que bem manejadas. É importante, dentro de um sistema de rotação, você colocar leguminosas que tenham essa capacidade de fixação. No esquema de produção de grãos comerciais nós temos a soja, que faz uma boa parcela desse trabalho. Alguns autores questionam, afirmando que o balanço de N na soja é negativo e, por isso, a importância de colocar leguminosas no inverno para auxiliar no balanço de N. O nabo somente recicla e tem alta capacidade de colocar o N rapidamente à disposição das culturas seguintes. Existe uma preocupação em relação a essa rápida liberação, pois o nabo estaria somente reciclando e liberando, sem fazer incorporação, o que poderia levar a um esgotamento de N.
Terraços/preparo
Pergunta - O Paraná tem sido uma referência histórica para nós, porque é o berço do plantio direto. Viajando por aquele Estado em abril, assustou-me a quantidade de terra virada. Segundo se informa, existe uma recomendação oficial para lavrar o solo para combater a macrophomina, uma doença de raíz da soja, e que cooperativas estariam difundindo essa prática. É verdade isso? Volnei Pauletti (Fundação ABC) - Na região onde atuamos, esse problema também existe, principalmente nas áreas de pecuária, onde o produtor retira silagem e o aspecto de compactação assusta, em função do tráfego maior de máquinas. Na nossa área experimental, o setor de pastagens está fazendo plantio direto há 3 anos em cima de áreas usadas para silagem e a produtividade tem sido normal, sem problemas. E veja que são áreas com textura proporcional de 1/3 de argila, silte e areia, o que significa um alto potencial de compactação! Na verdade, são tabús que precisam ser quebrados. Em relação à recomendação de lavrar para incorporar os restos de soja com doenças, nós temos que ter muito cuidado. Há 4 anos, o pessoal da Embrapa Soja esteve na Castrolanda e mandou incorporar a palha, em função das doenças. A resposta foi não e estamos produzindo a mesma coisa. Eu acho que precisamos buscar soluções, estudar todos os aspectos, como o ciclo das doenças, dos nutrientes e não tomar decisões precipitadas. Pergunta - Em 91, depois de uma visita ao Paraná, produtores e técnicos iniciaram a retirada de terraços, por causa de custos menores e um melhor aproveitamento de máquinas e herbicidas. Hoje, percebemos que muitos produtores estão voltando com terraços em suas lavouras porque, principalmente no período pós colheita da soja, o terreno fica praticamente limpo e, com precipitações como as que tivemos recentemente, de até 170 mm, vimos áreas de plantio direto quase destruídas. A fundação ABC está difundindo a volta dos terraços? Volnei Pauletti (Fundação ABC) - Nas áreas antigas praticamente todas elas ainda tem terraços. O que aconteceu foi uma sistematização deles. Áreas que tinham terraços de base estreita ou murundum, hoje não existem mais. Os terraços são de base larga, bastante planos e, se você não observar com detalhes, pode nem perceber se existem. A manutenção do terraço continua, buscando-se manter o canal e não elevá-lo. Mas não existe nenhuma orientação no sentido de acabar com os terraços. As dúvidas acontecem quando se trata de áreas novas. Nestes casos, quando se trata de terrenos mais planos, não se faz terraços. Em áreas inclinadas, é feito terraceamento normal, sempre de base larga. Marcos Fries (Universidade de Santa Maria) - Gostaria de fazer um comentário e um alerta sobre a remoção de terraços. No plantio direto, nós estamos melhorando a camada superior do solo, que é de 2,5 cm e vai aumentando para cerca de 4 cm. Se nós tivermos erosão, iremos perder um trabalho de vários anos. Se antes nós misturávamos uma camada de 25 cm e perdíamos 2 cm, não era tanto o prejuízo. Mas hoje, se perdermos 2 cm, nós estamos perdendo o filé. Por isso, nós temos que tomar todas as precauções para deixar quase a nivel zero a erosão. É um alerta para que também haja um critério adequado na questão da retirada ou não dos terraços.
Calagem/nutrientes
Pergunta - Feita uma aplicação de calcário em superfície, quanto tempo levaria para ocorrer o aprofundamento desse corretivo? Sim, porque nós trabalhamos com culturas econômicas e temos que ter resultados na atividade e a determinação desse período é muito importante. Volnei Pauletti (Fundação ABC) - O que temos observado é que com 8-10 anos de plantio direto acontece um deslocamento do cálcio e um pH bastante homogêneo no perfil do solo. Este seria um tempo razoável, dependendo da região, para você ter esse efeito notável, em termos de análise. Nos trabalhos do Marcos Pavan, do Iapar, ele comprovou que ocorre o deslocamento mas que, com a rotação de culturas, o tempo seria maior. Esse trabalho foi feito para verificar a ocorrência do deslocamento em profundidade mas não mediu o período. Por exemplo, a aveia não será plantada durante 5 anos ou 10 cultivos sucessivos. Pergunta - Você citou que o trigo não teria influência quanto ao deslocamento de cálcio no perfil . Por que ocorre isso? Existe alguma diferença entre aveia preta e aveia branca nesse sentido? Volnei Pauletti (Fundação ABC) - O Marcos Pavan está realizando pesquisas para tentar verificar essas diferenças. Quanto ao trigo, a utilização da palha é após a colheita. Então, o manejo antecipado ou a espera do término do ciclo da cultura pode determinar a ocorrência de compostos orgânicos diferenciados na palha. Uma das espectativas do Pavan seria em relação a esse aspecto, mesmo porque ele ainda não teria identificado os compostos que se ligam com o cálcio e o deslocam em profundidade. Marcos Fries (Universidade de Santa Maria) - Pelo que eu lembro do trabalho do Pavan, o ácido oxálico seria um dos principais responsáveis por esse papel. Realmente, os sub produtos dependem do estágio da planta. No caso do trigo, como foi dito, a palha é utilizada após a colheita e pode haver uma modificação dos compostos internos. Mas,0 ele atribuía ao ácido oxálico um papel importante no transporte do cálcio.
Análise de solo
Pergunta - Numa área sob plantio direto, ou mesmo de campo nativo, um ano após, onde foi aplicado fosfato natural a lanço, quando se faz uma coleta deste solo para análise, esse fósforo influenciaria o resultado? Carlos Gustavo Tornquist (Universidade de Passo Fundo) - Certamente. O método que usamos não é adequado para analisar representativamente os fosfatos naturais. Ele tende a superestimar a quantidade de P disponível para as culturas. Esta é uma primeira consideração. Neste caso eu recomendaria análise pelo método de resina, que é um método de rotina no Paraná e outros estados, que nosso laboratório também faz, e que não apresenta problemas de interpretação de P. A segunda questão é que a aplicação a lanço é menos problemática, porque ela não apresenta estratificação lateral e a amostragem fica menos complicada. Não vejo problemas em coletar amostras nessa área, tirando fatias de 5x10 cm, em 20 pontos da área. Pergunta - Você falou da concentração de P na linha de semeadura, que poderia ter até 400 ppm. Quanto tempo levaria para diluir esse P no solo? Teria alguma vantagem em termos agronômicos e se esse P ficaria menos passível de fixação por estar concentrado? Carlos Gustavo Tornquist (Universidade de Passo Fundo) - Considerando que a análise foi feita logo após a fertilização, a curva tende a se achatar com o tempo. Estudos mostram que o grânulo de P só vai atingir uma área 3 vêzes o seu volume, ele vai afetar uma área muito pequena em torno de si. Nós vamos continuar fertilizando em linha e isso aumentará o número de linhas daquele tipo. O problema será se eu coincidir essas linhas, aí a curva iria aumentar. A difusão do P é muito lenta, mas eu tenho que considerar que, com culturas anuais, as raízes vão preferencialmente para os pontos onde tem mais P. A tendência é diminuir muito mais pela absorção pelas plantas e pela oclusão, que é alta em nossos solos, podendo ser diferente em outros tipos. Pergunta - Foi dito que o alumínio se situa entre duas partículas de argila e que a atração é tão forte que, mesmo com um extrator poderoso, não era possível retirá-lo. A análise de solo através do método Mehlich tem condições de retirar esse alumínio, de tal forma que a recomendação não superdimensione a necessidade de corretivo? Roberto Salet (Universidade de Cruz Alta) - O extrator usado no caso é o CaCl, o Mehlich é para fósforo. Existem situações bem diferentes no plantio direto. Existem lavouras que tem pH baixo e lavouras que tem pH alto mas o alumínio não é tóxico. Existem situações em que o alumínio aparece mas o pH está baixo. Essa é a situação em que o alumínio está fortemente sequestrado por substâncias húmicas. Você joga o CaCl e não consegue retirar o alumínio. Para essa situação, o pH não tem sido um bom indicador para a recomendação de aplicar calcário ou não: o pH é baixo, 4,7-4,8 e não aparece alumínio. Estamos trabalhando com as duas coisas: se tem pH baixo mas não tem alumínio, cautela no uso do calcário. O que importa é a produtividade final.
Volnei Pauletti
”É preciso buscar soluções, estudar todos os aspectos e não tomar decisões precipitadas”