Plantio direto e resistência das culturas às doenças
L. Séguy, S. BouzinacAgrônomos do CIRAD-CA/GEC, baseados em Goiânia - Tel. e fax (062) 280 6286.A.C. MaronezziDiretor de uma empresa de pesquisa, Agronorte Pesquisa Ltda., em Sinop - Tel. e fax (065) 531 2289.
1. Introdução
As relações ”genótipos - fatores do meio-ambiente”, tem exercido uma verdadeira fascinação para a pesquisa, constituindo sempre um pólo de interesse maior. Mas, as relações planta-parasita são complexas e intervém, em interação, os fatores genéticos (resistência varietal), o ciclo fisiológico da planta, o fotoperiodismo, o clima, a natureza do solo, a fertilização e, finalmente, a incidência dos pesticidas sobre a fisiologia da planta. O homem pode entretanto, agir de maneira eficaz sobre a maioria dos fatores do meio ambiente que condicionam a sanidade das culturas, através da gestão dos sistemas utilizados. Com as técnicas de plantio direto que foram desenvolvidas, originando múltiplos sistemas de produção de grãos, em integração ou não com a pecuária, a gestão dos fatores do meio ambiente mudou radicalmente no Brasil, no decorrer dos últimos 25 anos, em áreas consideráveis (mais de 10 milhões de hectares em plantio direto em 1999); além das modificações sobre os fluxos de água e a dinâmica dos cátions e ânions, as tecnologias de plantio direto permitem, em qualquer situação pedoclimática, recarregar o perfil cultural com matéria orgânica, sendo conhecidas as suas propriedades essenciais para a nutrição e a sanidade das culturas. Após um ciclo de erosão contínua do recurso solo, entre 1970 e 1990, seguiu-se um ciclo de restauração, reconstrução, e de preservação da fertilidade e da qualidade dos solos. O CIRAD-CA, intervém sobre a melhoria dos sistemas de cultura nos diversos ecossistemas do centro-oeste e do Oeste do Brasil há mais de 15 anos e contribuiu enormemente para a prática e a difusão das técnicas de plantio direto. Sua dinâmica de trabalho se baseia sobre a criação-difusão de sistemas de cultura inovadores, cada vez mais performantes (critérios agronômicos e técnicas-econômicas), com os agricultores nas suas fazendas. Nesse caminho de pesquisa participativa, conduzida justamente com os diversos atores do desenvolvimento, o CIRAD pode perenizar uma ampla gama de diferentes sistemas de culturas, conduzidos em plantio direto nos diversos ecossistemas; seus impactos puderam ser avaliados em relação aos mesmos sistemas praticados com preparo do solo: impactos sobre a evolução da fertilidade dos solos, a produtividade das culturas, sua estabilidade interanual, a incidência das doenças, etc... (L. Séguy, S. Bouzinac, 1998). A perenização dos sistemas permitiu, após vários anos de funcionamento, acumular os efeitos das técnicas que foram perfeitamente controladas, e assim, de avaliá-las com rigor. A Agronorte, em colaboração com o CIRAD, no mesmo tempo, criou um material genético de ponta, notadamente variedades de arroz de alto potencial; a seleção do material foi feita para e nos sistemas de cultura praticados tanto em plantio direto como também com preparação mecanizada dos solos. Desta experiência, tendências reprodutíveis, principalmente sobre o comportamento das culturas em relação as doenças, puderam ser identificadas; este é o objeto principal deste curto artigo.
2. A resistência do arroz de sequeiro as doenças fúngicas é nitidamente melhorada em plantio direto
O caso do plantio direto de arroz sobre cobertura morta
O plantio direto do material genético foi efetuado durante 2 anos consecutivos sobre cobertura morta de Eleusine coracana, que vem em sucessão da soja, o ano precedente; a aração feita para comparação, foi realizada sobre os mesmos precedentes; os componentes do itinerário técnico do arroz de sequeiro são iguais nos dois sistemas (data de plantio, adubação, tratamento de sementes, herbicidas, etc.) A incidência das principais doenças criptogâmicas foi avaliada sobre diferentes cultivares de arroz (na presença de uma forte adubação nitrogenada e sem fungicidas), cujo nível de resistência acompanhado no decorrer dos dois anos precedentes para o conjunto das doenças, é variável2.
Tabela 1.Nível de resistência (*) de 3 cultivares de arroz AGRONORTE X 2 modos de gestão do solo: plantio direto (PD) e aração (A) (Agronorte-MT - 1997/99).
1997/1998
Cultivar
BSL 47-12
8 FA 281-2
Best 2000
PD
A
PD
A
PD
A
Doenças3
Brusone foliar
1-2
2-3
0-1
2-3
1-2
2-3
Escaldadura
1
2-3
0-1
1-2
0-1
2-3
Brusone do pescoço
1-2
2-3
1-2
3-4
1-2
2-3
Complexo fúngico das manchas dos grãos
0-1
1-2
0-1
1-2
2
3-4
Produtividade (kg/ha)
4.740
3.440
5.846
4.204
5.685
4.863
Média plantio direto X PD = 5.423 (100)Média aração X A = 4.260 (77)
1998/1999
Cultivar
BSL 47-12
8 FA 281-2
Best 2000
PD
A
PD
A
PD
A
Doenças3
Brusone foliar
1-2
2-3
0-1
2
1-2
3-4
Escaldadura
1-2
2
1
3
1
2-3
Brusone do pescoço
1-2
2-3
0-1
2
1-2
6-7
Complexo fúngico das manchas dos grãos
0-1
1-2
0-1
2-3
5-6
Produtividade (kg/ha)
4.857
4.070
5.112
3.362
5.105
1.223
Média plantio direto X PD = 5.025 (100)Média aração X A = 2.885 (57)
* Notações (escala IRAT/CIRAD) - De 0 (imune) a 9 (destruição total).
A tabela 1 resume os principais resultados obtidos. De maneira mais geral, anotações efetuadas sobre mais de 600 linhagens (de F3 a F6) que tratam igualmente sobre a comparação entre os dois modos de gestão do solo, mostram uma nítida melhoria geral da resistência do material genético em plantio direto: linhagens consideradas como muito sensíveis no preparo convencional do solo podem ser classificadas como medianamente resistentes na parcela vizinha em plantio direto. O impacto sobre a produtividade do arroz em plantio direto é altamente significativo: de 23 a mais de 40% de aumento em função das condições climáticas do ano (tabela 1)
O caso do plantio direto de arroz sobre cobertura viva de Arachis pintoi
A avaliação do impacto do complexo fúngico parasitário3 sobre o arroz de sequeiro foi efetuada entre parcela arada e parcela em plantio direto sobre cobertura viva de Arachis p., no decorrer do 1º ciclo cultural 1998/99. A variedade Best 3, que serviu de material genético de referência para a avaliação, está classificada como muito sensível ao complexo fúngico (exceto à escaldadura e mancha estreita) na presença de uma forte adubação nitrogenada (80 a mais de 100 kg/N/ha) e na ausência de proteção fungicida final, a partir da emissão das primeiras panículas, como nas condições de estudo. Os resultados reunidos na tabela 2, colocam em evidência uma melhora bastante significativa da resistência da variedade Best 3 às doenças sobre o plantio direto, que se traduz por um aumento nítido de produtividade e uma melhor qualidade de grãos, totalmente sadios, sem manchas.
3. A resistência do algodão (cultivar Deltapine 90), ao complexo parasitário de fim de ciclo6
O ano climático 1997/98 foi particularmente propício aos ataques parasitários no sul do Estado de Goiás, onde o CIRAD-CA intervém sobre a gestão da cultura algodoeira em plantio direto, em parceria com o Grupo Maeda. Os danos causados graças ao complexo parasitário4 (bacteriose, viroses) sobre a cultura algodoeira (variedade Deltapine 90, muito sensível as viroses) foram consideráveis, uma vez que a média obtida em mais de 20.000 ha, que é próxima de 2.500 kg/ha nos anos climáticos mais favoráveis, caiu a menos de 1.500 kg/ha, em 1997/98.
Tabela 2. Nível de resistência da cultivar Best 3 ao complexo fúngico parasitário x 2 tipos de gestão do solo (Agronorte - Sinop-MT - 1999.
Doenças criptogâmicas
Plantio Diretosobre Arachis p.
Aração profunda
Brusone foliar
1-2
3-4
Escaldadura
0-1
2-3
Brusone do pescoço
1-2
4-5
Complexo fúngico das manchas dos grãos
1-2
4-5
Produtividade em kg/ha
3.857 (100)
2.324 (60)
Estado sanitário dos grãos
excelente
medíocre
Neste contexto de pressão parasitária excepcional, a mesma variedade, DP 90, muito sensível a essa pressão na maior parte das áreas plantadas em preparo convencional do solo (aração, escarificação), mostrou-se praticamente imune sobre cobertura viva de Arachis pintoi, como demonstram os resultados na tabela 3. Esta parcela de meio hectare produziu mais de 2.120 kg/ha nestas condições, estava sadia, apesar de estar rodeada de parcelas muito afetadas, apodrecidas pelo complexo parasitário e que, por isto, produziram entre 950 a 1.330 kg/ha.
Tabela 2. Produtividade e estado sanitário do algodoeiro (DP 90) em função de 2 modos de gestão do solo - Fazenda Canadá - Porteirão - GO - 1998.
Modo de preparo do solo
Produtividadekg/ha (%PD)
Estado sanitário
Plantio direto sobre Arachis p. (SD)
2.129 (100)
2-3
Aração x MonoculturaParcelas cercando o plantio direto
1
949 (44)
6-7
2
1.237 (58)
5-6
3
1.332 (63)
5-6
(*) Complexo parasitário - Nota de 0 (imune) a 9 (destruição total da planta)
4. Conclusão
Os três exemplos apresentados, tanto o arroz de sequeiro de alto potencial na zona tropical úmida do centro norte do Mato Grosso, como o algodão no sul do Estado de Goiás, mostram que as técnicas de plantio direto podem permitir a redução da pressão das doenças fúngicas e bacterianas. No caso do arroz de sequeiro, a melhoria da resistência aos fungos é reprodutível sobre cobertura morta de Eleusine coracana. A cobertura viva de Arachis pintoi, nas duas condições pedoclimáticas muito diferentes, permite em plantio direto uma redução bastante significativa da pressão do complexo parasitário sobre essas duas culturas tão diferentes como o algodão e o arroz de sequeiro. Se ainda é muito prematuro formulamos conclusões sobre as causas da melhoria da resistência das culturas em plantio direto sobre cobertura permanente do solo, podemos entretanto tecer algumas hipóteses, a partir do conhecimento dos diferentes mecanismos de funcionamento que regem o plantio direto e a aração. Em primeiro lugar, um melhor e mais estável ajuste da alimentação hídrica e mineral da planta em plantio direto pode permitir a minimização da importância dos estresses hídricos e, assim, ajudar a planta a melhor resistir às agressões parasitárias. Em segundo lugar, a alimentação mineral da cultura é muito diferente entre os dois modos de gestão do solo e, em conseqüência, a fisiologia da variedade também. A alimentação nitrogenada da cultura é, em particular, fortemente modificada, sendo que, com preparo de solo, fortes adubações nitrogenadas a partir dos primeiros 30 dias do ciclo favorecem a sensibilidade do arroz à brusone foliar. Esses mesmos níveis de adubação nitrogenada em plantio direto não afetam o nível de resistência das variedades, mesmo as sensíveis. Este fato, reprodutível sobre uma ampla gama de variedades de nível de resistência variada, sugere que a alimentação nitrogenada em plantio direto é perfeitamente regulada, graças a preponderância dos mecanismos biológicos. Ao contrário, no preparo do solo, a planta absorve o nitrogênio preferencialmente dos adubos químicos e se desregula, ao absorver nitrogênio em excesso. Esse excesso de nitrogênio solúvel aparece nos tecidos foliares (assim como os glucídios solúveis redutores) e constitui um prato cheio para os fungos. Ao absorver muito rapidamente e em excesso o nitrogênio na aração, a fisiologia da planta é profundamente modificada, e a absorção de outros nutrientes fica prejudicada (L. Séguy, J.L. Notteghem, 1981 - L. Séguy, S. Bouzinac, 1989); esse estado de desequilíbrio irá favorecer os ataques parasitários, provocando um estresse na planta que aumentará sua sensibilidade. Como já demonstraram inúmeros autores, desde há muito (Pantanelli, 1921, Dufrenoy J., 1935, 1936; Chaboussou F., 1985) a importância dos nutrientes solúveis para a contaminação e a infecção por fungos patógenos e os vírus é incontestável. Mais abrangente, um estado predominante de proteólise se encontrará ligado às doenças e, inversamente, a resistência estará em relação com uma proteosintese dominante; as relações planta-parasita poderiam ser antes de tudo, nutricionais (teoria da trofobiose de Chaboussou, 1985). No contexto das técnicas de plantio direto, que vão se tornar rapidamente dominantes no Brasil, estas hipóteses merecem ser aprofundadas.
Bibliografia
L. Séguy, S. Bouzinac, A. Trentini,. N.A. Cortês, 1998 - Brazilian frontier agriculture - Special issue - Agriculture et développement - ISSN 1249-9951.
L. Séguy, J.L. Notteghem, S. Bouzinac, 1981 - Compte rendus du symposium sur la résistance du riz à la Pyriculariose - Montpellier, France - BP 5035 - CIRAD - P 139-152.
L. Séguy, S. Bouzinac, 1989 - Les principaux facteurs qui conditionnent la productivité du riz pluvial et sa sensibilité à la Pyriculariose sur sols rouges ferrallitiques d’altitude, Goiânia - GO - Doc. Inteme CIRAD - BP 5035 - Montpellier - France.
F. Chaboussou, 1995 - La snaté des cultures - Flammarion, la maison rustique, Paris, ISBN 2-7066-01-50-7.
O CIRAD CA foi o pioneiro e promotor do plantio direto em parceria com o agricultor Munefume Matsubara, nas frentes pioneiras do centro norte do Mato Grosso (L. Séguy, S. Bouzinac, 1988).
Resistência do tipo horizontal (resistência geralmente controlada por numerosos genes - poligênica)
Doenças dos aparelhos vegetativo e reprodutor, sendo o complexo fúngico das manchas de grãos - Helminthosporium oryzae, Phoma sorghina, drechslera o.
Complexo parasitário de fim de ciclo - bacteriose (Xanthomonas campestris), Ramulariose (Ramularia areola) , viroses (vermelhão e sobretudo doença azul, transmetida pelo pulgão Aphis gossypii).