La Ninha e o Ad Petendam Pluviam Gilberto R. Cunha Agrometeorologista da Embrapa Trigo, Passo Fundo, RS. Bolsista CNPq-PQ.
uando o fenômeno La Nifia começou, a partir de outubro de 1998, a dar o ar da Sua graça, reduzindo as chuvas no sul do Brasil e os veículos de comunicação passaram a dar destaque aos prejuízos causados pela seca (perdas na agricultura, problemas no abastecimento urbano, prefeitos decretando estados de emergência e de calamidade pública, entre outras desgraças do gênero); muita gente pensou que, nessas ocasiões, a única saída é pedir chuvas aos céus. E pelo que parece, em 1999, a serem consideradas as notícias que tem sido divulgadas, tipo: “Prevista estiagem a partir de outubro”, jornal Zero Hora, página 32, 10 de Julho de 1999, entre outros; a ameaça de uma nova adversidade climática pode estar de volta ao Sul do Brasil. Para os crentes na divindade, quando o assunto é pedir chuvas, nada melhor que invocar, do Missal Romano-Orações Diversas, ao Ad Petendam Pluviam. Ou seja, para pedir chuva, em bom latim, começar orando, na coleta: “Deus in quo vivimus, movemur et sumus: pluviam nobis tribue congruentem: ut, praesentibus subsidiis sufficienter adjuti, sempiliterna fiducialis appetamus. Per Dominum nostrum Jesum Christum.” Para os mortais comuns, entre os quais me incluo: “Oh Deus, em ti VIVEemos, nos movemos e estamos: concede-nos a chuva necessária, para que recebendo a ajuda precisa na necessidade, com maior confiança esperemos os bens eternos. Pelo Nosso Senhor Jesus Cristo”.
E continuar, na secreta: “Oblatis quaesumus, Domine, placare muneribus: et opportunum nobis tribue pluviae sufficientis auxilium. Per Dominum nostrum Jesum Christum. Isto é: “Com as oferendas, aplacaste Senhor, te rogamos e enviai a desejada ajuda de suficiente chuva. Pelo Nosso Senhor Jesus Cris- E, finalmente, no pós-comunhão: “Da nobis, quasumus, Domine Pluviam salutarem: et aridam terrae faciem fluentis coelestibus dignantei infunde. Per Dominum nostrum Jesum Christum ” Traduzindo: “ e rogamos Senhor nos envia uma saudável chuva e tem a bondade de irrigar a face da terra com torrentes celestiais. Pelo Nosso Senhor Jesus Cristo.” E evidente que todo homem precisa ter alouma crença. À nossa insignificância diante da grandiosidade do universo não pode ser explicada to i Revista Plantio Direto - Julho/Agosto de 1999 talmente pela chamada racionalidade científica. E quando o assunto é clima, pedir ajuda a Deus não faz mal algum. Embora, apenas implorar pelo auxílio do Criador não basta. Mirem-se no exemplo dos habitantes do Nordeste do Brasil. As procissões, rezas, crendices, sacrifícios e oferendas aos santos e milagreiros, se funcionassem , já teriam transformado aquela Região do País num verdadeiro Oásis. Provavelmente, ajudam, e muito, parte da população a suportar a condição de extrema miséria em que vive. Além de rezas, faltam ações com perspectivas de longo prazo, mudanças estruturais e conjunturais. Exemplos de sucesso econômico e social podem ser encontrados em locais tão ou mais secos até que o Nordeste. É o caso da Califórnia, nos Estados Unidos, Israel e algumas regiões da Espanha, apenas para citar alguns.
É inegável o avanço alcançado nas ciências atmosféricas na área das chamadas previsões climáti- Cas. Ou seja, na indicação do comportamento das variáveis climáticas de uma região, em relação aos valores considerados normais (médias de periíodos.de 30 anos de observações sistemáticas), em certas épocas do ano. Particularmente para aquelas regiões em que há indicadores de variabilidade climática conhecidos. Afortunadamente, este é o caso do Sul do Brasil, com base nas fases do fenômeno El Nifio- Oscilação do Sul (ENSO): El Nião (fase quente) e La Nina (fase fria). Em geral, com El Nino trazendo excesso de chuva e La N ”NA, por sua vez, falta de chuva. Também são conhecidas as duas épocas em que há uma relação mais forte entr O regime de chuvas e as fases do fenômeno O aSo Dra Vera-começo do verão e outono-começo TO, Os recentes episódios do El Nifio de 1997 e da La Niãa de 1998 reforçam esta informação. de Tóliico E REA especiais do Centro de MAPED fnfochnma. tie. Climáticos CEEE: NOAA) Ense 4 mate Prediction Center ( Aa: SL E MiCaA: lagnostics Advisory, têm SAN TIA a nS faz presente ISOS EEE RA NH oe ão O je , embora com intensidade cons!
derad- ; ada de moderada a fraca. E deverá continuar atuan do até o com cam os Modelos oce?ã ropeu (ECMWF).
E NS Com base no exposto, em termos de perspec” mMáticas para o Sul do Brasil, espera-se precipi- Inno-agosto-setembro. A continuar o evento La Nifia J estação de crescimento das culturas de verão na saee. 1999-2000, Ee há indicação de sobra de água ou, o mínimo, não ee OCOrrey excessos de chuva tipo : venificado na salra de verão 1997-1998. Portanto, ais uma vez, Questões climáticas voltaram a fazer parte upações do dia-a-dia dos agricultores do Sul 1. E nessa situação, o melhor que se tem a fa- 7er é buscar informações e dimensionar, junto com o segmento de assistência técnica local, as melhores alternativas para se T eduzir Os riscos de natureza climátique são inerentes à atividade agrícola.
De qualquer modo, La Nifia não é um fenômeno para ser amando ou odiado, simplesmente. Faz arte da variabilidade natural do nosso clima e é bem rovável que teremos de conviver com ele para o todo e sempre. Tampouco La Nifia traz somente prejuízos à agricultura sul-brasileira. Esse é o caso dos cereais de inverno, cujo principal é o trigo, que nos chamados anos de La Nifia e naqueles considerados neutros (nem El Nião e nem La Nifia) tem seus aspectos quantitativos e qualitativos de rendimento favorecidos. E isso se deve à ocorrência de temperaturas relativamente mais baixas no período de inverno e principalmente à menor quantidade de chuva na época da primavera. É na primavera que se dá o período de enchimento dos grãos, maturação e colheita do trigo no Sul do Brasil. Nessa época, excessos de chuva são extremamente prepudiciais ao trigo por favorecerem doenças da espiga e afetarem negativamente as características de qualidade dos grãos. Por 1sso, a safra de inverno de 1999, em função da continuidade do evento La Nifia, mesmo com intensidade moderada a fraca, se configura como favorável ao trigo, pelo menos sob o ponto de vista climático. Também é oportuno destacar que se está tratando com probabilidades. Ou seja, em termos de chances.
Não é uma questão absoluta. De qualquer forma há que se ter em mente que o rendimento de uma cultura não é determinado exclusivamente pelo clima, embora seja inegável a sua grande influência. O resultado final da lavoura, em termos de rendimento Cla técni A e produtor rural. De forma genérica: diverepocas de semeadura, plantar cultivares de ci- E ÍSE E esenaa es SOL mais resistentes ao suficiente para E Purantir E Anel SEA Ddr Usar sistemas dneane o - abe E RIA da cultura, tio dirafosianal, maumi ade no solo (plane Sie E eh : em relação ao convencional), fazer pouco mais profunda, entre outras. Acima de tudo, definir o nível tecnológico a ser empregado a partir de riscos climáticos conhecidos e fazer uma lavoura tecnicamente assistida, tomando as decisões de manejo no momento oportuno. Mais do que nunca a sabedoria popular, expressa no “Colocar todos os ovos na mesma cesta é uma estratégia arriscada”, parece ser a tônica do momento. O quê para nós sempre foi visto como um velho ditado, valeu a Harry Markowitz, pela demonstração matemática do mesmo, o Prêmio Nobel, em 1952. Coisas de americanos, pensarão alguns. Só que a demonstração do porquê a diversificação do risco é o melhor negócio para um investidor ou gerente de empresa desencadeou o movimento intelectual que revob- E > 4 el 2aOoru A Or (3 8rãos, Vai depender e muito do nível Gilberto Cunha: La Nina é um fenômeno que faz parte da variabilidade tecnológico utiliz desempenho eco- : ado. E o P natural do nosso clima e é bem provável que teremos de conviver com nômico da ativi | relacionado atividade vai estar ele para sempre.
também com as circunstâncias de mercado, no momento da comercialização da safra.
Com relação à safra de verão 1999- 2000, vale aguardar por informações adicionais sobre à evolução do fenômeno La Nifia no segundo semestre de 1999 e seus impactos associados no clima do Sul do Brasil. De qualquer modo já há um indicativo: de que não deverá sobrar água, novamente. Com base n1SSO, lucionou Wall Street, as finanças corporativas e as decisões empresarias em todo o mundo. (Ao dr. Gerardo Arias, pelo auxílio nas lides com o latim do Ad Petendam Pluviam, os agradecimentos do signatá- 7 Revista Plantio Direto - Julho/Agosto de 1999 31]