Qualidade Ambiental e Plantio Direto na 10ª ISCO (Estados Unidos)


Autores:
Publicado em: 01/08/1999

ESTADOS UNIDOS

Qualidade ambiental e plantio direto na 10a ISCO

Telmo Jorge C. Amado & Dalvan J. Reinert Professores do Departamento de Solos da Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, RS. CEP: 97105-900. E-mails: tamado@ccr.ufsm.br e reinert@ccr.ufsm.br

A 10a Conferência Internacional de Conservação do Solo (ISCO) realizada em maio, em West Lafayette, no Estado de Indiana (USA), reuniu cerca de 800 pesquisadores de diversas partes do mundo. O departamento de solos da UFSM esteve representado neste evento e, com base na participação dos seus professores, é apresentado, a seguir, um resumo interpretativo de alguns dos principais temas abordados na conferência:

Agricultores americanos poderão ser economicamente recompensados por benefícios ambientais do plantio direto.

É crescente a preocupação mundial com a emissão de gases que possam agravar o chamado efeito estufa (aquecimento do planeta). A última década, por exemplo, foi a mais quente do milênio que se finda e o ano de 1998 o mais quente já registrado. Entre os gases que podem ocasionar o efeito estufa destaca-se o dióxido de carbono (CO2) resultante, entre outras fontes, da queima de combustíveis fósseis, como a gasolina e o diesel. Os USA é o país responsável pela maior emissão deste gás para atmosfera. Entre as alternativas para controlar a emissão deste gás está a redução do consumo de energia e combustíveis, porém há forte resistência por parte da sociedade americana em implementar esta alternativa. Assim, avaliam-se outras alternativas de reduzir o efeito estufa e, neste sentido, a agricultura poderá desempenhar um importante papel. O sistema plantio direto, ao proporcionar o incremento da matéria orgânica, cujo principal constituinte é o carbono, é potencialmente um importante dreno de CO2 da atmosfera. Por prestarem este benefício à sociedade os agricultores americanos poderão receber até U$ 100/t de matéria orgânica incrementada em seus solos. Esta estimativa do custo do carbono é duas vezes superior a proposta pelo Banco Mundial, porém é seis vezes menor do que o custo estimado do carbono consumido na forma de combustível que movimenta os carros. Este parece ser um excelente negócio para a sociedade, pois agirá no sentido da preservação da qualidade ambiental, sem a aparente necessidade de diminuição do sofisticado padrão de vida americano, e para os agricultores, que terão uma recompensa econômica pelos benefícios advindos da adoção do sistema plantio direto. Convém salientar que o solo é uma fonte finita de sequestro de carbono, com máximo potencial de reter entre 10 a 15 % das emissões totais de CO2.

Efeito estufa e a redução do potencial agrícola do Brasil.

Em palestra proferida pela Dra Cynthia Rosensweig, pesquisadora da NASA-USA, foram abordadas as possíveis consequências das mudanças climáticas, atualmente em curso, sobre o potencial agrícola mundial. Segundo a pesquisadora, as evidências científicas de que está havendo um aumento na concentração de CO2 na atmosfera e de que há um aquecimento gradual do planeta são irrefutáveis. A partir disto, os esforços da pesquisa estão dirigidos em prever que consequências tais alterações poderão trazer a agricultura nas próximas décadas. Para o ano 2050, os modelos indicam um aquecimento na ordem de 2 a 3 oC na temperatura média anual e um aumento na concentração de CO2 na ordem de 8 a 10 %. O aumento da temperatura provavelmente irá se refletir na intensificação do ciclo hidrológico sendo previstos ocorrência de períodos de seca alternados com inundações. Do ponto de vista biológico, o aumento da temperatura poderá encurtar o ciclo das culturas e representar antecipações nas épocas de semeadura e de colheita. Haverá, também, maior risco de salinização do solo e de aumento de incidências de insetos e ervas daninhas. Por outro lado, o aumento da concentração de CO2 na atmosfera também poderá ser positivo uma vez que irá representar um incremento potencial na fotossíntese e no rendimento das culturas. Desta forma, as mudanças climáticas poderão aumentar o potencial produtivo dos países situados em clima frio, uma vez que haverá maior temperatura e maior precipitação. Já em países situadas nos trópicos, como o Brasil, poderá haver uma redução de até 10% no potencial produtivo por conta das adversidades climática, especialmente da maior evaporação e o consequente estresse hídrico. Este parece não ser um balanço muito justo, especialmente quando consideramos que os países desenvolvidos, localizados em regiões de clima frio, são os responsáveis por 75% da emissão de gases e terão seu potencial produtivo aumentado. Por outro lado, os países subdesenvolvidos responsáveis pela emissão de somente 25% dos gases, terão seu potencial produtivo diminuído.

Subsídios: conservação do solo e desequilíbrio no agronegócio internacional.

Em um mundo globalizado, os subsídios oferecidos aos agricultores de países desenvolvidos podem gerar uma competitividade artificial em relação aos seus pares de países subdesenvolvidos, os quais normalmente não tem acesso a tais subsídios. A agricultura americana é uma das fortemente suportada pelo governo. Com apenas 1% da população no meio rural, os americanos cultivam anualmente 120 milhões de hectares e são os principais produtores de grãos mundiais. Por trás desta enorme eficiência está uma consistente política de subsídios. Na conservação do solo são vários os programas de incentivos aos agricultores tais como: a) HEL ”High erosion land” que incentiva o uso de preparos conservacionistas em solos susceptíveis à erosão; b) CRP ”Conservation reserve program” que subsidia os agricultores para não plantarem em áreas muito susceptíveis à erosão e que são de interesse público; c) ”Environmental quality program” que incentiva a preservação ambiental e d) ”Clean water act” que subsidia os agricultores a minimizarem os riscos de poluição dos recursos hídricos com fertilizantes, inseticidas, herbicidas e sedimentos agrícolas. Aliás, este último programa é um dos que mais tem merecido a atenção das autoridades. Todos estes programas tem sido um importante aliado para a adoção de preparos conservacionistas e outras práticas de controle à erosão que já atingem 64% da área total plantada nos Estados Unidos. A estimativa de quanto cada agricultor recebe de incentivo depende da localização da propriedade, do número de programas que o agricultor participa e outros parâmetros, mas na média situa-se em U$ 50/ha de área incluída no programa de conservação. Estes números nos levam a reflexão do desafio que a agricultura brasileira tem que enfrentar para ser competitiva com a de países desenvolvidos.

Plantio direto no Meio Oeste

Os Estados Unidos é o berço do sistema plantio direto e ainda hoje possui a maior área de adoção deste importante sistema de cultivo. As últimas estimativas apontam para uma área de 19,3 milhões de ha, ou seja 16% da área total plantada. A principal cultura em que o sistema é utilizado é a soja com 32% da área plantada, seguido do milho com 12%, culturas de pequenos grãos 12%, algodão com 2% e sorgo com apenas 1%. Interessante registrar que as duas principais culturas, soja e milho, nas quais o sistema é utilizado experimentam situações distintas. Enquanto na cultura da soja o plantio direto continua avançando, na cultura do milho a área com o sistema encontra-se declinante. As principais razões para este fato estão associadas a características fenológicas dessas duas culturas e ao rigoroso inverno do hemisfério norte. Logo no início da estação de crescimento do milho (maio) o solo se encontra muito frio, em razão disto, muitos agricultores mobilizam o solo e incorporam parcialmente os resíduos, visando acelerar o aquecimento do solo e consequentemente realizarem a semeadura bem no cedo. Já no sistema plantio direto, a cobertura com resíduos retarda o aquecimento do solo forçando os agricultores a atrasarem o plantio em até duas semanas. Com isto os agricultores tem o mês preferencial de semeadura do milho, maio, restrito a praticamente as duas últimas semanas. Isto gera uma preocupação muito grande entre os produtores, pois possíveis adversidades climáticas neste período poderão forçá-los a semear em junho, neste mês para cada dia de atraso na semeadura do milho há perda de cerca de 1 bushell (meio saco) por acre no potencial produtivo. Por outro lado, na cultura da soja o período de semeadura é mais tardio do que o milho e, além disto, as sementes da soja possuem mais reservas. Com isto, não se verifica para a cultura da soja os mesmos inconvenientes descritos para o milho. Felizmente, no Brasil, condições de clima sub-tropical e tropical, a cobertura do solo e o plantio direto são importantes aliados no sentido de regular a temperatura e criar condições favoráveis ao desenvolvimento vegetativo das plantas.