Proposta da Fundacep tem como base o plantio direto e rotação de culturas
José RuedellEng.-Agr., M.Sc. - Fundacep-Fecotrigo - Cruz Alta-RS
1. Introdução
A agricultura que vem sendo praticada no Brasil visa fundamentalmente o máximo rendimento por unidade de área. Para alcançar este objetivo são realizados altos investimentos em insumos provenientes de fora da propriedade. Este modelo baseia-se nos países chamados de primeiro mundo, como por exemplo, os Estados Unidos. Esta agricultura é possível e até justificável, a primeira vista, quando se tem escassez de terras agrícolas, como na Europa e Japão e/ou quando se tem crédito fácil e oportuno, subsídios, garantia de bons preços, armazenagem e escoamento eficiente da produção. Certamente que subsídios não são problemas para os países do primeiro mundo. Os governos dos Estados Unidos e dos países da Europa gastaram desta forma 80 bilhões e 270 bilhões respectivamente, em 1996. No Japão a cifra atingiu os 30 bilhões de dólares (Correio do Povo, 1997; Midori, 1997; Diniz, 1996). Porém, inúmeras publicações têm relatado que, de uma maneira geral, esta é uma agricultura deficiente em termos de balanço energético (Machado, 1983). Isto é preocupante, uma vez que se sabe que a energia fóssil utilizada provém de fontes finitas. Além disso, a queima de energia fóssil para movimentar máquinas e para outros fins é uma das principais maneiras de lançar CO2 na atmosfera. O próprio preparo do solo da agricultura tradicional mineraliza a matéria orgânica, liberando também grandes quantidades de CO2 e que, segundo estudos, somente nos Estados Unidos somam mais de 200 milhões de toneladas (Kern & Johnson, 1993). Esse gás é o principal causador do efeito estufa que está contribuindo para o aquecimento do globo terrestre (Reijntjes et al., 1994) e que provocará um forte degelo do pólo Norte, tendo como conseqüência o aumento do nível do mar em aproximadamente 5 cm a cada dez anos, inundando muitas áreas costeiras, e aumentando sensivelmente as situações de secas e inundações no mundo (Derpsch, 1997). Muitos dos fertilizantes artificiais utilizados são fabricados a partir de matéria prima existente na natureza em quantidades limitadas (Rochas Fosfatadas) ou são obtidos através de processos com alto custo de fabricação, como é o caso dos nitrogenados (uréia). Na prática, a utilização destes oligoelementos é pouco eficiente (FAO, 1990) e pode causar uma série de desequilíbrios nutricionais, contribuindo para o surgimento de insetos, pragas e doenças nas culturas (Sharma, 1985; Tandon, 1990). O uso de fertilizantes também contribui para os riscos globais que surgem com o desprendimento de N2O na atmosfera e para além dela. Na estratosfera, o N2O destrói a camada de ozônio, aumentando as temperaturas globais (efeito estufa) com suas conseqüências, além de causar diretamente uma série de problemas para a saúde humana. Segundo Conway & Pretty, 1988, ”É necessário maior esforço no sentido de se promover o uso mais eficiente e menos poluidor dos fertilizantes nitrogenados e o uso de fontes alternativas de nitrogênio, como por exemplo, restos de cultivos, esterco animal, compostos vegetais, rotação com leguminosas, bem como algas cianofíceas e bactérias fixadoras de nitrogênio em gramíneas”. Os nitratos existentes nas águas subterrâneas e em excesso nos alimentos também são uma preocupação para a saúde humana, e sabe-se que são provenientes das aplicações de adubos nitrogenados (Aubert, 1983). Nos países em desenvolvimento, este modelo de agricultura também está causando a erosão do solo e a perda de 544 milhões de hectares, sendo 10% destes na América do Sul. Boa parte das terras restantes também está sofrendo decréscimo de fertilidade devido à perda da camada superior. A queda total de produtividade nas terras de sequeiro destes países está chegando a 29%. Além disso, sem contar as áreas que já são desérticas, verifica-se que 43% da África, 32% da Ásia e 19% da América Latina correm risco de desertificação (FAO, 1894). Queimadas com danos irreparáveis sobre o meio ambiente também fazem parte, em alguns casos, desse sistema de exploração da propriedade, como no caso recente de Roraima. A água é imprescindível em todos os setores da atividade humana e apesar do ”Planeta Terra” ter 2/3 de sua superfície coberta pela mesma, temos atualmente menos de 2% deste total potável. A água já está sendo e será cada vez mais motivo de disputas e até mesmo de conflitos internacionais. É um recurso caro, pois mesmo no Brasil a água é vendida a preços de 0,5 a 0,8 dólares por litro, portanto, valor superior ao leite (US$ 0,6/l) e ao diesel (US$ 0,4/l), segundo Gassen, 1997. O processo para produção de alimentos na quantidade que sustente uma pessoa por um dia, consome em torno de 17 mil litros de água. No entanto, este recurso, tão escasso e importante, recebe diariamente grandes quantidades de poluentes oriundos da agropecuária, das indústrias e das demais atividades humanas. Devido a estes fatos, e principalmente pelo uso intensivo do solo, está sendo destruído a base física e biológica do mesmo, com conseqüentes altos níveis de erosão, tornando a agricultura um negócio ineficiente, poluidor e insustentável a longo prazo. Portanto, esta sistemática de produção não pode se enquadrar dentro dos conceitos de sustentabilidade e obedecer as normas da ISO 14.000 que está sendo imposta como uma referência à qualidade dos alimentos produzidos.
2. Situação da agricultura
No caso brasileiro, as dificuldades são ainda maiores porque além das conseqüências nefastas relatadas, sobre a qualidade dos alimentos produzidos e degradação do ambiente, não se tem os incentivos sob a forma de crédito, subsídios, armazenagem e escoamento da produção como as do primeiro mundo. Enquanto que em subsídios os produtores americanos recebem 80 bilhões de dólares, o crédito liberado no Brasil para a agricultura é de 5 a 6 bilhões. O clima, principalmente em termos de distribuição de chuvas, é também mais inconstante do que no hemisfério norte. Mesmo assim, por muitos anos, técnicos, agricultores e sociedade brasileira em geral foram empurrados para praticar tal agricultura. Tanto é verdade que as estatísticas brasileiras sobre rendimentos por hectare são constantemente comparadas com as dos outros países, depreciando a nossa produtividade em relação a deles. Em conseqüência, desesperadamente busca-se produzir por hectare o que aqueles países produzem, não importando as diferenças anteriormente mencionadas. O quadro se agrava porque o produtor investe verdadeiras fortunas em cada safra, seguindo-se as técnicas modernas apregoadas, sem se saber qual o retorno possível, pois este modelo depende muito do clima favorável e das decisões políticas. Nos últimos anos os pacotes agrícolas, juros altos, crédito prometido e não liberado, importações subsidiadas na sua fonte de origem foram os fatores que tornaram a atividade rural insustentável. Além disso, os produtos agrícolas são taxados ao serem exportados e quando importados, o são praticamente sem taxas, e neste caso parece não haver preocupação com o gasto, por exemplo, de quase 1 bilhão de dólares nas importações de trigo e sua influência na balança comercial e no êxodo rural. E para a opinião pública, formada a partir de constantes declarações de pessoas desconhecedora da real situação dos produtores rurais, muitas vezes, todo o setor agrícola é visto como incompetente. E para piorar a situação, por causa de alguns poucos produtores irresponsáveis, pelo mau uso do escasso crédito ou de desvios, muitas vezes toda a classe é chamada de caloteira. Mesmo assim, mais com o coração do que com a mente, milhares e milhares de produtores rurais se jogam anualmente nesta empreitada na esperança de colher os alimentos que a sociedade exige. Avaliando a situação falimentar a que chegou a maioria dos produtores rurais, seguidores deste modelo, vale a pena transcrever o que opinam estudiosos europeus do assunto (Reijntjes, et al. 1994): ”A agricultura baseada no uso intensivo de insumos externos da propriedade tem como conseqüências: - a perda de diversidade do sistema agrícola, que o torna imutável e mais vulnerável a riscos ecológicos e econômicos; - a perda irrecuperável de recursos genéticos locais e de conhecimento tradicional a respeito de agricultura e criação animal ecologicamente orientadas, bem como de alternativas locais de insumos comprados; - desintegração social e cultural e marginalização dos agricultores mais pobres, especialmente mulheres; - danos ambientais resultantes, principalmente, do uso excessivo de agroquímicos”. Os autores comentam ainda, e se aplica exatamente ao momento atual da agricultura brasileira: ”Neste sistema agrícola, os agricultores que conseguem acesso fácil ao crédito podem ser empurrados em direção a altos investimentos de capital e a métodos de produção que demandam a manutenção de altos níveis de utilização de insumos externos, ou até mesmo o aumento desses níveis. Além disso, ao mesmo tempo em que os preços dos fertilizantes, dos herbicidas, dos pesticidas e dos combustíveis produzidos com base no petróleo aumentam, os preços dos produtos agrícolas continuam a ser mantidos artificialmente baixos, seja por liberação dos governos nacionais, seja pela inundação dos mercados locais com importações subsidiadas de produtos agrícolas dos países industrializados. Os agricultores do Terceiro Mundo estão, então, em grande perigo de serem aprisionados num espiral de dívidas. Nos casos em que os insumos comprados são subsidiados pelo governo ou por um projeto de desenvolvimento, o seu uso é viável apenas por um período limitado. Assim que os subsídios são retirados, a maioria dos agricultores é forçada a abandonar tais insumos. Se eles, durante o período, ajustaram outros aspectos de seus sistemas agrícolas (por exemplo, se reduziram a diversidade de culturas e de animais domésticos, ou se aumentaram a sua dependência nutricional em relação a culturas como milho, que requer grande emprego de fertilizantes), estarão então com problemas muito sérios”. A situação atual da agricultura brasileira está perfeitamente descrita por estes autores, entre os quais se destacam as perdas da diversidade agrícola, e dos conhecimentos tradicionais acumulados por centenas de anos, a desintegração social, a marginalização dos produtos. Na prática também se confirma o aprisionamento dos produtores em um espiral de dívidas, principalmente pelos altos custos dos insumos necessários para compor a lavoura, enquanto que os preços dos produtos são mantidos artificialmente baixos por deliberação do governo nacional, principalmente pelas importações subsidiadas de produtos agrícolas, confirmados nos exemplos atuais do trigo e do milho. No caso do trigo, as indústrias brasileiras recebem crédito a juros baixos e longo prazo para pagamento, viabilizando desta forma a triticultura Argentina e de países de primeiro mundo, em detrimento à brasileira. Comparar custos dos países do hemisfério norte, cheio de benesses, com os nossos que estão sem nenhum amparo, indica desconhecimento da causa ou interesses outros que não são a defesa da agricultura brasileira. Diariamente são publicados nos jornais do mundo inteiro dados sobre a proteção que estes países fazem para a sua agropecuária (Correio do Povo, 1997; Branco, 1996 e 1997). Apesar disso, demonstrando a força do setor primário, a balança agrícola teve um saldo positivo de 6,3 e 8,7 bilhões de dólares em 1996 e 1997, respectivamente, amenizando o déficit comercial dos outros setores (Mesquita, 1997; CNA, 1998).
3. Globalização e a agricultura brasileira
A globalização da economia, dizem os países do primeiro mundo, é uma tendência irreversível e, desta forma, na teoria não deveriam mais existir barreiras que restringissem o comércio entre as nações e que protegessem os produtos nacionais, ou pelos menos, deveria haver condições semelhantes. Na prática, porém, o governo britânico, por exemplo, protegeu a sua pecuária e o seu povo ao proibir em 1988 para o consumo interno a farinha animal contaminada com a doença da ”vaca-louca”, porém desdenhou o perigo a que expunha os habitantes de outros países, pois continuou exportando a farinha animal contaminada com o problema (Alencastro, 1997). Enquanto isso, o Brasil deixa de exportar, devido a sobretaxas impostas pelas grandes, economias na ordem de 10, 5 bilhões de dólares por ano em produtos agrícolas e mais de 5 bilhões de dólares em produtos agrícolas transformados (Branco, 1996 e 1997). Estes são apenas alguns exemplos para comprovar de que lado do mundo está a fragilidade e, ao mesmo tempo, impõe necessariamente uma mudança na condução de negócios agrícolas brasileiros. Por outro lado, estes fatos também mostram claramente, ou pelo menos deveriam, aos formadores de opinião pública, que são inadmissíveis e estéreis comparações de níveis tecnológicos, de competitividade e de resultados (rendimentos por hectare) entre países com e sem proteção de sua agropecuária. Isto sem considerar que, pelas peculiaridades de clima, os rendimentos dos países do hemisfério norte são obtidos em uma safra por ano, enquanto que a brasileira tem a possibilidade de realizar duas a três safras na mesma área por ano, que por conseqüência, para efeito de rendimento por hectare, deveriam ser somados em caso de comparações. Claro que este não é o essencial a ser analisado e sim o fato de eles estarem amplamente amparados e subsidiados. Esta é a situação atual, sem indicativos de ser alterada a curto e médio prazo. Pelo menos é esta a mensagem do governo brasileiro pois, segundo o Secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda: ”O campo está capitalizado e prova disso é o fato de o Banco do Brasil, não estar respondendo hoje, por mais de 25% dos financiamentos do setor” (Mesquita, 1997). Na verdade, todos sabem que não havia dinheiro ou se havia o produtor não tinha acesso por falta de capacidade de pagamento. Afora a contribuição das indústrias e das cooperativas no financiamento das lavouras, que na prática tem sido insuficiente, o produtor está deixando de aplicar determinados insumos, vendendo seus bens (terras), sucateando o parque de máquinas, cujo resultado são a produção de apenas 75,0 milhões de toneladas de grãos, por um período que já ultrapassa os 20 anos, o que para um país continental é muito pouco e tendo ainda a sua agricultura falida e desprotegida. Aliás, as cooperativas têm sido, ao longo das décadas, o principal e, às vezes, o único amparo dos produtores, principalmente no que diz respeito ao recebimento e armazenamento de grãos e derivados, tarefa que poupou pesados investimentos que seriam necessários por parte dos governos estadual e federal. As cooperativas também cumprem um papel fundamental na implantação e socialização das tecnologias, permitindo a excelente evolução técnica da agropecuária nacional que, apesar dos problemas mencionados, tem contribuído para a produção de alimentos com baixo custo, garantindo a estabilidade da moeda e possibilitando o saldo comercial positivo do setor de 8,7 bilhões de dólares no ano de 1997.
4. Mudanças necessárias na agricultura brasileira
Todos estes fatos e situações relatadas descortinam dois aspectos da agricultura brasileira. Uma, de que ela é muito importante para a estabilidade e crescimento do Brasil como povo e nação soberana. Porém, é também destruidora do solo, ambientalmente agressiva e produtora de alimentos de qualidade, às vezes, duvidosa e que terão restrições, inclusive no mercado internacional. Num segundo momento, verifica-se claramente que é uma agricultura desamparada por parte do governo nacional, incompetente sob o ponto de vista dos formadores de opinião pública, desprotegida em relação aos países concorrentes que, por sua vez, são amparados por seus governos. Ora, isso força necessariamente para uma mudança na maneira de se conduzir as propriedades rurais. Logicamente que o trabalho das entidades de classe no sentido de mostrar aos políticos, aos governantes e aos formadores de opinião a necessidade de também alterarem a sua forma de pensar sobre a agricultura, para não aumentar cada vez mais os desempregados e os problemas do campo. A busca por informações técnicas atualizadas e compatíveis com a situação brasileira, maior conhecimento de mercado e gerenciamento da contabilidade da propriedade rural são fatores fundamentais para reverter a situação atual. As cooperativas, através de seus departamentos técnicos, o sistema Embrater, o Senar são órgãos importantes para alterar essa situação. Pela parte dos produtores, é necessário diminuir os custos de produção porque, como conseqüência, se terá menos riscos. Porém, simplesmente eliminar os insumos, como está acontecendo, não teria fundamento, pois os rendimentos cairiam a níveis muito baixos. A busca por uma agricultura equilibrada entre insumos provenientes de fora e de dentro da propriedade parece ser o caminho a ser buscado. Por outro lado, deve-se reconhecer também que praticar uma agricultura com as chamadas grandes culturas com uso exclusivo de insumos advindos da propriedade, como algumas pessoas ou entidades ecológicas têm defendido, não garante a sustentabilidade, por vários motivos. Uma primeira é que o produtor, por menor aspiração que tenha, necessita adquirir produtos básicos, como roupas e, para tanto precisa produzir excedentes para adquiri-las. Desta forma, ao longo dos anos, dependendo como é conduzida a propriedade, poderá ocorrer um saldo negativo na composição dos nutrientes do solo, pois algum produto será exportado e com ele irão os nutrientes. A questão se agrava dentro da realidade atual porque, no mínimo, 75% da população vive nas cidades. Logo, é necessário produzir muito mais do que poucos excedentes para garantir a alimentação desta população urbana. Desta forma, está criada uma situação que transcende as puras aspirações do produtor rural e de sua família, e torna-se um caso de segurança nacional. Mesmo sob o ponto de vista ecológico, a utilização de insumos produzidos unicamente na propriedade não garante a preservação do ambiente natural. Por exemplo, os estercos aplicados de uma forma inadequada podem causar os mesmos problemas de poluição nas águas subterrâneas que os fertilizantes químicos e defensivos agrícolas. Em função destas questões, muito tem sido discutido e estudado na procura de uma alternativa conciliatória. A análise comparativa das qualidades e defeitos de cada uma destas formas de conduzir a propriedade rural, realizada por cientistas do mundo inteiro, aponta para o rumo de uma agricultura sustentável com baixo uso de insumos externos da propriedade. Quer dizer, faz-se necessário mesclar o conhecimento agroecológico tanto dos cientistas como daquele dos produtores, gerado através de centenas de anos de observação da natureza e adaptado às condições locais. A partir deste balanço, a proposta é combinar insumos externos e internos de tal maneira que os recursos naturais sejam conservados e aprimorados, e que a produtividade da cultura e a segurança do homem sejam aumentadas e se eliminem os efeitos ambientais negativos. Desta forma, a agricultura, com baixo uso de insumos externos, está inserida dentro dos conceitos de tentar otimizar o uso de recursos localmente disponíveis através da combinação de diferentes componentes do sistema agrícola (plantas, animais, solo, água, clima e pessoas) de modo que estes elementos se complementem e tenham os maiores efeitos sinérgicos possíveis. Essa agricultura procura, também, formas de usar insumos externos (adubos, defensivos, sementes) apenas na medida em que eles sejam necessários para fornecer elementos escassos no ecossistema e para aprimorar os recursos humanos, biológicos e físicos disponíveis. Ao se utilizarem esses insumos externos, deve-se dar atenção sobretudo à máxima reciclagem e ao menor impacto possível sobre o ambiente. A agricultura com baixo uso de insumos externos não tem como objetivo o máximo rendimento por unidade de área. Pelo menos não a curto prazo. O que importa em primeiro lugar é ter rentabilidade. Para isso, procura-se manter e, se possível, aprimorar os recursos naturais e fazer uso maximizado dos processos naturais conhecidos. Nos casos em que parte da produção é comercializada, buscam-se oportunidades de recuperação dos nutrientes levados ao mercado (Reijntjes, et al., 1994). Neste sentido, o plantio direto com rotação de culturas, com todas as alterações que é capaz de provocar a nível de fertilidade e vida do solo, tem sido, na prática, uma fórmula para alterar a atual situação.
5. Sucesso do plantio direto com a rotação de culturas
A não observância da rotação de culturas, como por exemplo, semeadura contínua de soja, praticamente inviabiliza o sistema de plantio direto por que, ao longo dos anos, o rendimento da soja vai ficar comprometido pelos seguintes fatores (Derpsch, 1998). - Aumento de enfermidades e pragas específicas; - Aumento de plantas daninhas específicas; - Diminuição da disponibilidade de nutrientes devido à mudanças da atividade biológica e degradação física do solo (aumento da compactação); - Diminuição do desenvolvimento radicular; - Acúmulo de substâncias tóxicas ou inibidoras do crescimento. Ao contrário da agricultura convencional, o plantio direto com rotação de culturas comprovadamente tem zerado a erosão dos solos e diminuído sensivelmente as perdas e contaminações das águas. O plantio direto possibilita uma maior infiltração de água nos solos, recarregando os lençóis freáticos e aumenta o suprimento de água potável. Resultados de pesquisas indicam que, além disso, este sistema diminui em 70% as perdas de pesticidas (Fawcet, 1997). Outros estudos comprovam também que enquanto o sistema convencional libera grandes quantidades de CO2 para a atmosfera, o sistema de plantio direto diminui, através da maior fixação de carbono (Derpsch, 1997). Estima-se que o plantio direto poderia compensar em até 16% as emissões mundiais provenientes de combustíveis fósseis (CTIC, 1996), além de consumir entre 60% a 70% menos combustível (diesel) do que o sistema convencional (Ruedell, 1995 e Gassen, 1997). Vê-se que os graves defeitos que possui o sistema convencional de cultivar os solos, e que estão comprometendo a qualidade de vida terrestre, inexiste no sistema de plantio direto. O sucesso do plantio direto estará garantido uma vez compreendida e estabelecida uma adequada interligação entre as culturas que devem se seguir de uma forma harmônica. Para tanto, deverão ser levados em conta, além da proteção do solo e do fornecimento da matéria orgânica, a exploração do perfil do solo de uma maneira diferenciada e alternada quanto ao tipo de raízes que compõem esta rotação, quanto à capacidade desta cultura de extrair maior ou menor quantidade de elementos e terem uma tolerância às pragas e doenças. O segredo está em se estabelecer uma rotação de culturas que ”explore” continuamente o solo, nunca o deixando descoberto e, principalmente, trazendo à superfície elementos nutricionais que estavam atingindo profundidades ou formas inacessíveis para algumas culturas, recolocando-os no processo produtivo. A presença de insetos, doenças e mesmo de plantas daninhas se tornará suportável quando esta rotação for adotada. Neste sistema, a matéria orgânica aumentará, cujo efeito somado a não movimentação do solo, vai reestruturá-lo, conferindo-lhe ao longo dos anos a capacidade de aumentar a infiltração e o armazenamento das águas das chuvas, em mais de 20%, diluindo os riscos das estiagens, peculiares do clima do Rio Grande do Sul. Atualmente, já se vislumbra a possibilidade, através das culturas de cobertura, (nabo forrageiro, ervilhaca, guandu, crotalária, entre outras) de substituir parte do nitrogênio necessário para as gramíneas (milho, trigo, cevada), assim como lançar mão de fontes alternativas de fósforo, como os fosfatos naturais, que juntamente com aquele desobstruído pelos microorganismos e ligado a formas orgânicas, permitirão diminuir a quantidade utilizada e consequentemente os custos destes elementos por hectare. Em rotações bem planejadas, a soja, provavelmente, não necessitará mais do aporte de fósforo e vai requerer menos potássio. A necessidade de nitrogênio para o milho e o trigo poderá ser reduzida em 50 a 75%. A tecnologia de aplicação de defensivos, respeitando condições de ambiente, usando equipamentos adequados e adjuvantes que potencializam a eficácia desses produtos, e a ação física e alelopática de uma seqüência organizada e bem manejada das culturas, permitirão o uso racional e uma sensível diminuição de herbicidas que poderá chegar numa ordem de 20 a 30%. Da mesma forma, procura-se caminhos para a utilização parcimoniosa de fungicidas e inseticidas. A quantidade destes foram reduzidos em 3 a 4 vezes nos últimos 20 anos na cultura da soja, por exemplo. Variedades adaptadas para estas condições constituem outro desafio a ser perseguido, assim como a obtenção de estirpes de bactérias fixadoras simbióticas e assimbióticas de nitrogênio e de outros organismos que possam colaborar no processo nutricional das plantas. A rotação de culturas terá sucesso se forem atendidos os seguintes princípios básicos (Arnon, 1972 citado por Derpsch, 1997): 1 - Cultivos alternados de espécies de plantas com habilidade diferenciada para absorver nutrientes do solo, ou que tenham sistema radicular alcançando diferentes profundidades; 2 - Cultivo alternado de espécies de plantas susceptíveis a certas pragas e doenças, com aquelas que são resistentes; 3 - Seqüência planejada de espécies que levam em consideração todo efeito negativo ou positivo de um cultivo sobre o seguinte. Estes efeitos podem ter sua origem em substâncias tóxicas, no fornecimento de nutrientes, no incremento da matéria orgânica, no sistema radicular, estrutura do solo, microorganismos ou umidade do solo; 4 - Alterar o uso de cultivos que tendem a esgotar o solo com que contribuem para melhorar a fertilidade do solo; 5 - Cultivo alternado de espécies com diferentes necessidades de mão-de-obra, máquinas e implementos, água, etc., em épocas diferentes. O plantio direto, se implantado como um sistema, dentro dos critérios mencionados, nos quais as culturas se alternam e se sucedem continuamente, priorizando a vocação natural de cada região, e integrado a criação de animais (gado, aves, suínos), certamente será o único caminho para garantir a sustentabilidade e a permanência do homem no campo, levando-se em conta a grande diversidade de situações de módulos rurais e sistemas de utilização de terras no Brasil. De uma maneira geral, os rendimentos das culturas têm-se mantidos ou até aumentados mas, principalmente os custos têm diminuído entre 30 a 50%, viabilizando apesar de tudo, a propriedade rural. Deve ser lembrado também que cada 20 ha cultivados geram um emprego novo, além deste sistema propiciar um aumento global de alimentos. Neste caso, o efeito multiplicador em termos de valores na cadeia do sistema ”agroindustrial” é aceito mundialmente como de até 2,8 vezes daquele gerado pela produção da matéria prima. Portanto, investimentos públicos na área agrícola tem retornos rápidos e garantidos e possuem um efeito maior na cadeia agroindustrial do que os investimentos em indústrias de automóveis, por exemplo. A expansão deste processo está intimamente ligada a informações que precisam ser geradas pela pesquisa e imediatamente repassadas aos agricultores. Existem obstáculos como aqueles anteriormente citados, comuns a todas as jornadas vitoriosas, e a continuidade da pesquisa para indicar as opções para suplantá-las são fundamentais. Daí a importância da manutenção e do aumento de investimentos na pesquisa agrícola. Um país dependente de informações de terceiros, nunca alcançará a sua independência. É nesta direção que devem ser buscadas as soluções, porque esta é de fato a agricultura para o futuro.
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