Uréia aplicada na superfície do solo: péssimo negócio!
Waldo A. R. Lara CabezasDepartamento de Agronomia - UFU - Uberlândia - MG - E-mail: waldolar@triang.com.br - Fone/fax: 034-2125566
Ainda é comum a prática de se aplicar a uréia na superfície do solo tanto por produtores que usam o sistema convencional de plantio ou de plantio direto. A questão é definir, em termos técnico-econômicos, a melhor forma de aplicar a uréia (superficial ou incorporada a 5-7 cm de profundidade). É simples, em primeira instância, optar pela aplicação superficial, visto que a resultado é mais econômico que a incorporação, seja pelo menor consumo de combustível, consumo de mão de obra e do tempo requerido para se efetuar a aplicação. A situação muda radicalmente a favor da incorporação da uréia, quando são adicionados aos custos de aplicação os custos derivados das perdas por volatilização de amônia e a incidência dessas perdas, na queda de produtividade. Vamos comprovar isso utilizando como exemplo a cobertura nitrogenada na cultura de milho em plantio direto. Resultados de anos diferentes de pesquisa mostram com nitidez que, quando a uréia é deixada na superfície da palha, as perdas por volatilização podem ser superiores a 40 % do nitrogênio aplicado, apesar de uma irrigação posterior a adubação, para favorecer a incorporação (LARA CABEZAS et al, 1997a, figura 1), ou quando se comparam as perdas entre as duas formas de aplicação: superficial e incorporada (LARA CABEZAS et al, 1999, figura 2). Num estudo realizado em plantio convencional (aplicação superficial no solo) e outro em plantio direto (aplicação na superfície da palha), numa mesma safra agrícola (95/96) em Latossolo Vermelho Amarelo arenoso e Latossolo Vermelho Escuro argiloso, respectivamente, foram registradas perdas por volatilização acima de 30 e 70% do nitrogênio aplicado como uréia (LARA CABEZAS et al, 1997b), (figuras 3a e 3b). Vamos então ponderar em termos econômicos essas perdas e sua incidência na queda de produtividade do milho, em relação ao custo direto da aplicação do adubo. No quadro 1, mostramos os custos diretos da aplicação superficial e incorporada da uréia e da aplicação superficial de sulfato de amônio, tomando como base de cálculo 100 ha, e considerando a mão de obra, maquinário e consumo de óleo diessel para as duas fontes. Como era de se esperar, a incorporação da uréia se reflete num custo maior de 12,8 %, em relação a aplicação na superfície. Por outro lado, a aplicação de sulfato de amônio na superfície, visto que em termos de perdas por volatilização não compensa fazer incorporação, o custo se eleva a 112 % em relação à uréia aplicada na superfície. Esses resultados não surpreendem, porque em forma intuitiva o produtor sabe disto. Mas, a situação muda quando definimos valor das perdas e ao que se deixa de produzir derivado das mesmas. No quadro 2, o cálculo está baseado numa perda por volatilização média de 50 % do nitrogênio da uréia aplicado à superfície e de 4 %, quando incorporada. Estamos ainda assumindo uma perda por volatilização média de 7 % de N do sulfato de amônio aplicado na superfície. Dos resultados de estudos que relacionaram queda de produtividade e perdas por volatilização, sabe-se que, em média, por kg de nitrogênio volatilizado, são deixados de produzir 15 kg de grãos. Dessa forma, chega-se a estimar a queda de produtividade de 1.250 sacas/100 ha e somente 100 sacas/100 ha de milho, quando a uréia é deixada na superfície e incorporada, respectivamente. Usando sulfato de amônio, a queda de produtividade é de 105 sacas/100ha. Isto se reflete num aumento nos custos de 12,5 vezes, quando se deixa a uréia na superfície e de 11,9 vezes em relação ao sulfato de amônio aplicado superficialmente. Portanto, o que anteriormente se mostrava favorável a aplicação superficial da uréia (Quadro 1), se reverte dramaticamente a favor de sua incorporação, quando avaliadas economicamente as perdas por volatilização. Para os 100 ha utilizadas no exemplo, e somando os custos de aplicação do quadro 1, tem-se custos totais de R$ 11.616,5 quando se aplica a uréia na superfície e de somente R$ 929,3 quando se efetua a sua incorporação. Para o sulfato de amônio os custos totais seriam de R$ 1.610,0. Dito de outra forma, por cada real investido na aplicação de uréia na superfície é perdido R$ 1,95. Por sua vez, quando incorporada, somente é perdido R$ 0,14 e para sulfato de amônio é perdido R$ 0,13 (Quadro 3). Deve-se salientar que somente estão sendo consideradas as perdas por volatilização de amônia, sem incluir outros processos que estão afetando simultaneamente a eficiência de utilização do N aplicado. A simples lógica está indicando que o uso de sulfato de amônio na superfície é muito mais econômico que a uréia. Por outro lado, se a decisão é usar uréia porque o N é mais barato, então deve-se incorporar. Com algumas variações, dependendo do manejo, ainda pode-se duvidar de como aplicar a uréia? Senhor Produtor, incorpore a uréia, para maximizar seu lucro!
Figura 1. Perdas por volatização de amônia, com irrigação posterior à adubação, na cobertura hidrogenada de milho em sistema plantio direto.
Figura 2. Efeito do modo de aplicação e da adição de sal a uréia e uran, na cobertura nitrogenada de milho em plantio direto.
Figura 3a. Perdas acumuladas de 5 fontes nitrogenadas de cobertura em plantio direto.Fonte: Lara Cabezas et al. (1997b).
Figura 3b. Perdas acumuladas de 5 fontes nitrogenadas de cobertura em plantio convencional.Fonte: Lara Cabezas et al. (1997b).
Quadro 1. Custos envolvidos na aplicação da uréia e sulfato de amônio em 100 ha.
Modo Aplicação
Custos
Custo total
Aplicação
Adubo
--------------------------------------- R$ ---------------------------------------
Uréia superficial
218,50
5.733,00
5.951,50
Uréia incorporada
977,90
5.733,00
6,710.90
Sulfato de Amônio Superficial
218,50
12.400,00
12.618,50
Base de cálculos:-Aplicação superficial: trator 55 hp, 4,35 ha/h, com custo (mão-de-obra, maquinário e diesel) de R$ 9,5/h.-Aplicação incorporada: trator 110 hp, 3,32 ha/h, com custo (mão-de-obra, maquinário e diesel) de R$ 32,5/h.-Custo unitário de N: R$ 1,24/kg de N-SA e R$ 0,57/kg de N-uréia-Fonte: Pinusplan e Adubos Paranaíba - Uberlândia - MG
Quadro 2. Perdas de Nitrogênio e queda na produttividade devido à aplicação da uréia e sulfato de amônio em 100 ha.
Modo Aplicação
Perdas de N Volatilizado
Queda Produtividade
Custo Perdas
% N aplicado
Custo
Sacas 100/ha
Custo
------- R$ -------
Uréia superfície
50,0
2.866,50
1.250
8.759,00
11.616,50
Uréia incorporada
4,0
229,30
100
700,00
929,30
S. Amônio Superf.
7,0
875,00
105
735,00
1.610,00
Base de cálculos:-Queda de produtividade: 15 kg grãos por kg de N volatizado-Valor da saca de milho: R$ 7,00-Custo total perdas: custo N volatizado + custo queda de produtividadeFonte: Pinusplan e Adubos Paranaíba - Uberlândia - MG
Quadro 3. Relação perdas X custos de aplicação da uréia e sulfato de amônia em 100 ha.
ModoAplicação
Perdas de N + QuedaProdutividade
CustoAplicação
Relação Perdas X Custo Total
------- R$ -------
Uréia superfície
11.616,50
5.951,50
1,95
Uréia incorporada
929,30
6.710,90
0,14
S. Amônio Superf.
1.610,00
12.618,50
0,13
Base de cálculos: 100 haFonte: Pinusplan e Adubos Paranaíba - Uberlândia - MG
Literatura citada
LARA CABEZAS, W.A.R.; KORNDORFER, G.H. & MOTTA, S.A. Volatilização de N-NH3 na cultura de milho: I Efeito da irrigação e substituição parcial da uréia por sulfato de amônio. R. Bras. Ci. Solo, 21: 481-487, 1997a.
LARA CABEZAS, W.A.R.; TREVELIN,P.C.O.; KORNDORFER, G.H. & PEREIRA, S. Balanço da adubação nitrogenada de cobertura sólida e fluida na cultura de milho em sistema de plantio direto no Triângulo Mineiro-MG. R. Bras. Ci. Solo, (enviado para publicação), 1999.
LARA CABEZAS, W.A.R.; KORNDORFER, G.H. & MOTTA, S.A. Volatilização de N-NH3 na cultura de milho: II Avaliação de fontes sólidas e fluidas em sistema de plantio direto e convencional. R. Bras. Ci. Solo, 21: 489-496, 1997b.