Nodulação da Soja: Pontos Nevrálgicos


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Publicado em: 01/12/1999

Nodulação da soja: pontos nevrálgicos

Assim como já aconteceu com outros colegas e amigos, como Rolf Derpsch, por exemplo, o engenheiro agrônomo John Landers, da Associação de Plantio Direto no Cerrado, editor do Jornal Direto no Cerrado, publicado pela APDC, e um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento do plantio direto no centro oeste brasileiro, fez uma entrevista especial com a pesquisadora Mariangela Hungria, da Embrapa Soja de Londrina-PR, a qual foi gentilmente cedida para publicação na revista Plantio Direto, onde ele expressa sua inquietação sobre a questão da inoculação da soja.

John N. Landers - Vimos numa publicação comercial uns dados sobre a interação de tratamento de sementes com fungicidas e a nodulação de soja, com praticamente zero impacto sobre a produtividade, porém, alta redução da taxa de nodulação. Qual é a explicação para esse fato?

Mariangela Hungria - Estes dados foram extraídos de uma publicação de pesquisa em andamento e foram re-publicados sem o nosso conhecimento, de forma incompleta, o que normalmente gera esse tipo de dúvida. Neste ensaio de pesquisa científica, utilizamos um solo virgem, sem presença do Bradyrhizobium, para avaliar o efeito dos fungicidas na nodulação da soja, a campo, mas sem a interferência de inóculo existente no solo. Acontece que este solo virgem apresentava altos teores de N provenientes da decomposição da matéria orgânica e disponibilizou quantidades de N mineral elevadas à planta, muito acima do nível de um solo sob cultivo há vários anos, o que é o caso geral. Essa informação foi omitida da publicação comercial. Os resultados mostram, claramente, que alguns tratamentos reduziram a nodulação, de 20 a 65%, com exceção da combinação Carboxin +Thiram, que neste teste não mostrou redução e confirmaram os resultados obtidos em casa de vegetação. Contudo, neste caso particular, não houve efeito depressor no rendimento, porque a deficiência na nodulação e no processo de fixação biológica do nitrogênio foi suprida pelo N do solo. Repito, este solo virgem não é representativo e este efeito, não afetando o rendimento, não vai se reproduzir em solos com matéria orgânica em níveis normais (que geralmente são baixos) para a situação cultivada. Aqueles que desejarem obter mais detalhes podem procurar a publicação completa na Embrapa Soja (Cx. Postal 231, 86001-970, Londrina, PR, telefone 43-3716000, fax 43-371-6100), “Efeito do tratamento de sementes de soja com fungicidas na nodulação e fixação simbiótica do N2”. (Pesquisa em Andamento 21).

John N. Landers - Existem outros dados mais representativos da situação do agricultor que mostram queda de rendimento com uso de tratamento de sementes?

Mariangela Hungria - Outros experimentos foram conduzidos, os resultados foram reproduzidos e uma publicação completa deverá sair próximamente. Nesse tipo de estudo, o objetivo é verificar o efeito na nodulação, pois havendo menor massa de nódulos, as taxas de fixação de nitrogênio serão menores, a não ser que o solo tenha altos teores de N ou receba fertilizantes nitrogenados. Cientificamente, para comprovar que as estirpes usadas nos inoculantes não conseguiram formar nódulos, isso deve ser feito em um solo virgem. A não ser que nós usemos uma estirpe que não seja usada em inoculantes comerciais e, portanto, não esteja ainda presente no solo. Mas, então, surgirá a dúvida de que os resultados não representariam a realidade dos nossos inoculantes. Gostaria de salientar, porém, um ponto muito importante. Nós sabemos que as sementes precisam ser tratadas em diversas situações e estamos tentando solucionar o problema. Inicialmente, pensamos em obter, em condições de laboratório, variantes de nossas estirpes comerciais tolerantes aos principais fungicidas. Esse trabalho demoraria, no mínimo, de dois a quatro anos, pois temos quatro estirpes, vários produtos comerciais e os resultados precisam ser confirmados a campo. Contudo, em fevereiro nós tivemos acesso a alguns resultados interessantes de firmas dos Estados Unidos e Argentina, confidenciais, por isso não podemos citar os nomes, pois representam segredo comercial. Esses resultados indicavam, claramente, que a toxidez dos fungicidas ao Bradyrhizobium não estava no princípio ativo do produto, mas em substâncias usadas como solventes. O problema, então, poderia ser resolvido com maior facilidade. As diversas frações dos fungicidas seriam testadas quanto ao efeito tóxico ao Bradyrhizobium, e poderiam ser trocadas por outras substâncias menos tóxicas. A outra vantagem é que esse produto seria menos tóxico a outros microrganismos do solo que podem trazer benefícios às plantas e que, com certeza, também devem estar sofrendo toxicidade por esses produtos, como é o caso das micorrizas. Em abril, nós enviamos um projeto à ANPI e à ANDEF, solicitando um esforço para que solucionássemos o problema. A única coisa que solicitamos foram as frações dos diversos fungicidas e o pagamento de um estagiário. Infelizmente, não recebemos nenhum retorno até o momento. Mas essa seria não só a melhor solução, pois evitaria danos ambientais, mas também a mais rápida, pois em um a dois anos poderíamos ter produtos menos tóxicos no mercado.

John N. Landers - E em relação aos micronutrientes?

Mariangela Hungria - As plantas noduladas e fixando nitrogênio necessitam um suprimento adequado de Mo e Co. Se aplicados em excesso, porém, a sobrevivência do Bradyrhizobium cairá drasticamente, pelos efeitos osmóticos da salinidade na bactéria e, portanto, a nodulação também cairá. O importante é não exagerar. Mais detalhes podem ser conseguidos em outra publicação da Embrapa Soja, “Métodos de aplicação de micronutrientes na nodulação e na fixação biológica do N2 em soja” (Pesquisa em Andamento 19).

John N. Landers - E a polêmica sobre cobertura de nitrogênio?

Mariangela Hungria - Nós temos mais de cem resultados de experimentos a campo, nas diversas regiões produtoras de soja do Brasil, do Maranhão ao Rio Grande do Sul, que comprovam que a soja bem nodulada não responde à adubação nitrogenada. Isso é válido para doses iniciais (até 30 kg de N/ha) e aplicação no florescimento (até 150 kg de N/ha). Em tratamentos comparativos, para efeito de pesquisa, nós aplicamos até 400 kg de N/ha, parcelados em dez vezes, e não houve nenhum ganho no rendimento de grãos. O que acontece é que ocorre uma troca, isto é, a planta deixa de fixar nitrogênio e passa a utilizar o N do fertilizante. Também tem ocorrido alguma polêmica sobre alguns resultados de pesquisa, e inclusive nós participamos dos experimentos, em que se fala de “balanço negativo de N”. Esses estudos têm finalidade científica e esse é o termo usado em pesquisa. A soja nunca obtém 100% de seu N da fixação biológica, pois sempre existe N prontamente disponível no solo e ele é utilizado imediatamente pelas plantas, ou seria perdido por lixiviação. No caso da soja brasileira, que foi desenvolvida para responder à inoculação, até 90% do N da planta podem ser provenientes do processo biológico. Como comparação, a soja dos EUA só consegue obter ao redor de 40 a 50% do seu N pela fixação biológica. Essa é uma grande vantagem da soja brasileira. Contudo, embora a soja utilize o N prontamente disponível do solo, causando “um balanço negativo no solo”, foi comprovado que o N deixado pelos restos culturais e pelas raízes é suficiente para resultar em maiores rendimentos da cultura seguinte, no caso de Londrina, o trigo. Mais informações sobre o efeito da inoculação e da adubação nitrogenada na soja estão disponíveis em duas outras publicações da Embrapa: “Adubação nitrogenada na soja?” (Comunicado Técnico 57) e “A inoculação da soja” (Circular Técnica 17). Para finalizar, eu gostaria de agradecer, em meu nome e em nome dos dois outros pesquisadores da área de microbiologia da Embrapa Soja, Dr. Rubens Campo e Dr. Alexandre Cattelan, a oportunidade de explicar essas dúvidas. Nosso objetivo é que o agricultor use aquilo que é realmente necessário às culturas. Temos observado, constantemente, exageros na recomendação de insumos agrícolas, sem que isso traga benefícios em termos de aumento de produção ou até causando redução na nodulação, perda de dinheiro para o agricultor e poluição do solo. Afinal, nossa meta, no plantio direto, não é a sustentabilidade do sistema?