Especial Europa — Subsídios, Pedras, Tradição e Ovelhas no Caminho do Plantio Direto


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Publicado em: 01/12/1999

Subsídios, pedras, tradição e ovelhas no caminho do plantio direto o mês de outubro, os engenheiros agrônomos Dirceu Gassen, Luiz Graeff Teixeira e Eduardo Copetti percorreram a Espanha e outros países europeus, participando de congressos e dias de campo.

À visita dos técnicos brasileiros revelou o potencial e contradições da agricultura na Espanha, Portugal e na Europa. O plantio direto está em um estágio inicial porque, em função dos altos subsidios e da falta de uma consciência da maioria dos produtores, entre outros fatores, o preparo convencional, com todos os seus aspectos negativos, ainda predomina na maioria das regiões. Na Espanha é onde se nota um crescimento mais significativo da semeadura direta. Entretanto,mesmo naquele país, a agricultura de conservação, como eles chamam, alcança um percentual menor do que 5% da área total de cultivos, por causa de dificuldades como a ausência de conhecimento sobre o processo, a presença de pedras nas lavouras, resultado da erosão, e a legislação milenar, que permite aos pastores de ovelhas utilizar as áreas de resteva, entre outros fatores. No caso da Espanha, para os rebanhos ovinos, o plantio direto tem sido um atrativo especial, mas o dano que causam à cobertura são sempre citados como um impecilho ao desenvolvimento do sistema. Apesar disso, o sucesso da semeadura direta entre os espanhóis começa a ficar evidente no exemplo de alguns pioneiros, em cujas lavouras o processo já se estabeleceu, com inequívocas vantagens sobre o sistema tradicional de cultivo. Na Europa, de uma forma geral, cresce o número de associações regionais e nacionais voltadas à agricultura de conservação, cuja base é o plantio direto. No ano passado, foi criada a ECAF - European Conservation Agriculture Federation, que reúne associações de diversos países, com objetivo de dinamizar ações voltadas para uma agricultura sustentável, sem lavrações e queima de palha.

Outro fator, que sinaliza uma evolução positiva para o plantio direto na Europa, é o trabalho de pesquisa e desenvolvimento realizado pela Monsanto e pela Semeato, empresas que atuam de maneira objetiva nessa fronteira agrícola.

Congreso Hispano-Luso “Penso que haverá uma mudança bastante rápida nos métodos de plantio dos agricultores europeus pois, além das vantagens do plantio direto na palha, acontecerá uma pressão muito forte da sociedade em geral, principalmente dos organismos que cuidam da preservação do meio ambiente.

Revista Plantio Direto - Edição 54 - Novembro/Dezembro de 1999. EX A afirmação é do engenheiro agrônomo e produtor Luiz Graeff Teixeira, um dos pioneiros em plantio direto na região do Planalto Gaúcho. Ele foi um dos palestrantes do Congreso Hispano-Luso de Agricultura de Conservación e Medio Ambiena izado em Don Benito, Badajoz, AZ te, realiza l À EO CRSCZ na Espanha, nos dias 21 e 22 de ou SITE bro. Luiz Teixeira abordou um histórico de sua propriedade, que está sob plantio direto há 16 anos, e a evolução do processo de semeadura, principalmente das máquinas da Semeato, com as quais trabalha desde o início. No retorno ao Brasil, ele se declarou impressionado com a forma com que os agricultores europeus ainda preparam o solo, utilizando inúmeras passadas de arado e grade, O que provoca graves erosões e o afloramento de pedras na superfície, trazendo dificuldades para aqueles que se propõe a fazer plantio direto.

“Apesar do baixo percentual de utilização do plantio direto na Espanha (cerca de 240 mil ha, 3% de 8 milhões de ha do total de área agrícola do país), disse Teixeira, o resultado obtido por produtores como Alejandro Tápia Penalba, Francisco Hernando Benito e Ricardo Lopes Laguna, em diferentes regiões, direcionam para um desenvolvimento rápido do sistema em território espanhol.” O potencial produtivo do plantio direto na Espanha foi demonstrado a campo no segundo dia do Congreso Hispano-Luso, na propriedade do produtor Francisco Hernando Benito (Paco), que cultiva cerca de 1.500 ha, sendo uma parcela sob Irrigação, em Madrigalejo (Cáceres). Ele está obtendo médias de 15 ton/ha na cultura de milho e 4 ton/ ha de arroz, além de boas produtividades em outras culturas como cevada e tri go, em áreas com 4 anos de plantio direto. Os 000 participantes do Congreso puderam testemunhar a rapidez com que são recuperados os solos pedregosos da região, a partir da adoção do plantio direto.

O dia de campo na “Casa de Hitos” tazenda de Paco Benito, também contou c demonstrações dinâmicas de semeadoras destaque para o desempenho dos mo Semeato, que a Espanha importa do Br a om ; Com delos agrônomo Eduardo Copetti e de Sérgio de O.

veira, demonstrou o potencial das semeado. ras em ação sobre solos pedregosos e úmidos . .: , pois tinha chovido no dia anterior.

Entre os participantes do dia de campo em Madrigalejo também estava o pesquisador Dirceu Gassen, da Embrapa Trigo que, no dia anterior, fizera a conferência inaugural do Congreso Hispano-Luso, abordando o tema “A vida no solo”. Ele aproveitou a viazem à Europa para ter uma visão do plantio direto e dos diversos enfoques que compõe a agricultura européia, principalmente da Espanha e Portugal. Nesses dois países, onde permaneceu a maior parte do tempo, Gassen realizou várias palestras em universidades e associações de produtores, além de visitas a campo em diversas regiões. Entre as palestras não programadas, foi feita uma especialmente para a equipe de diretores regionais e assessores do Ministério da Agricultura de Portugal, solicitada pelo Secretário de Desenvolvimento Rural Vitor Coelho Barros, Ministro em exercício. Barros assistiu à Conferência de abertura do Congreso em Don Benito e ficou impressionado com a exposição do pesquisador brasileiro, tendo feito, na ocasião, um convite para que ele falasse sobre o assunto aos seus assessores, A abordagem feita para o pessoal do Ministério da Agricultura deverá servir como subsidio na montagem do “Código de Boas Práticas Agrícolas de Portugal”, válido para os próximos 5 anos, pois o Ministro determinou, ao final da reunião, que plantio direto, sequestro de carbono, preservação da a8Ua e atividades biológicas fossem considerados na elaboraç ão do documento e dos planos do governo.

; Assim como os demais técnicos que es” tiveram naqueles países, Dirceu Gassen voltou impressionado com vários aspectos da agricultura européia, principalmente o poder da PAC (Política Agrária Comunitária), quê — determina os vantajosos subsídios recebidos pelos produtores, com os quais nós não pode ”108 concorrer, e o alto nível de degradação os solos utilizados para agricultura. “Somente à é que fui entender porque as entidades SãO denominadas de associações de conservação, ao invés de associações de plantio direto”, afirmou Gassen no seu retorno ao Brasil.

Para ele, é impressionante o nível de desestruturação e perdas de solo, porque os produtores europeus ainda utilizam intensamente o preparo convencional, chegando, em determinadas circunstâncias, a nove ou dez passadas de escarificadores, arados e grades. Segundo dados apresentados pelo pesquisador Luiz Torres, que também é o presidente da Associação Espanhola de Agricultura de Conservação/Solo Vivo, em um seminário realizado na Universidade de Córdoba, para professores, estudantes de pós graduação e produtores líderes, as perdas de solo na região podem chegar a 90 t/ha, sob um regime de chuvas anuais inferior a 500 mm. “Isto é pouca chuva, considera Dirceu Gassen, mas as lavrações morro abaixo, em um solo desestruturado e compactado, acaba levando tudo embora, algo semelhante ao que tínhamos no Brasil na década de 70.” As informações trazidas pelo pesquisador da Embrapa e demais técnicos brasileiros que visitaram Espanha e Portugal são bastante amplas e interessantes. À seguir, uma síntese dos principais aspectos que envolvem a agricultura e as perspecti1- vas do plantio direto na Europa, na visão de Dirceu Gassen, retiradas de uma entrevista que com ele realizamos.

Conservação de solo: nenhuma Revista Plantio Direto - Como está o nível de sustentabilidade da agricultura européia, em relação ao manejo dos solos?

Dirceu Gassen - Em todos os lugares que passamos, não só na Espanha e Portugal, do que foi possí- (Luiz G. Teixeira) (Luiz G. Teixeira) Grandes máquinas e equipamentos massacram o solo.

(Dirceu Gassen) Solo sem proteção: erosão e pedras Lavoura do pioneiro Ricardo Lopes Laguna, em Córdoba, com 5 anos de PD. As pedras já não aparecem (D). Na esquerda, lavoura de um vizinho, s preparo & convencional e : pedras. 2 Ricardo Lopes Laguna, Paco Benito, Eduardo Teixeira, Luiz mx Teixeirae Dirceu Gassen em uma = lavoura de plantio “ direto em área pedregosa.

Revista Plantio Direto - Edicão 54 - Novembro/Dezembro de 1999. vel observar, os produtores não utilizam nenhuma estratégia de conservação, como ter raços, e a degradação do solo agrícola é evidente. Em geral, as lavouras são sempre na forma de quadrados ou retângulos, utilizando-se o preparo na direção da linha maior, não importando se é que encontraria pelo menos algum tipo de proteção em contorno, mas não vi nada nesse sentido. Após cada chuva é preciso recompor a área erodida, pois o solo desceu para estradas e rios. Mesmo com precipitações de 30 mm, como tivemos oportunidade de assistir, passamos por rios que pareciam uma nata. O preparo do solo para cultivo de cereais e olivas é um massacre, com cerca de 9 passadas de escarificador, arado e grade. O nível de conhecimento de conservação de solos é mínimo, não faz parte da consciência deles. Existem muitas diferenças culturais, de relevo e tipos de solo entre os países, mas, principalmente na França, Espanha e Portugal, a degradação das áreas agrícolas é assustadora para os nossos padrões atuais. Inclusive, a queima de palha ainda é um processo largamente utilizado, sem nenhuma restrição legal.

RPD - É verdade que eles plantam sobre pedras, em função da erosão? Dirceu Gassen - Os solos em geral são muito antigos, originados de aluvião, e a erosão proporciona o aparecimento de pedras ; que são comuns nas lavouras. Um fato interessante é que, muitas vêzes, encontra-se montanhas de pedras coletadas das áreas agrícolas. Em função do preparo do solo, o processo de subsolagem, aração e gradagem movimenta a terra e expõe as pedras. Quando ocorrem as chuvas, a argila e areia são levadas pela erosão e 1sto cada vez mais destaca as pedras, dando a impressão que elas “crescem” nas lavouras, que é uma expressão usada pelos próprios produtores.

RPD - Como o plantio direto tem se comportado em relação às pedras? Revista Plantio Direto - Edição 54 - Novembro/Dezembro de 1999 Dirceu Gassen - Mesmo no preparo con. vencional eles retiram as maiores, e isso tam. bém se faz no processo de semeadura direta. Ao contrário do preparo convencional, o plantio direto está fazendo desaparecer as pedras. Com a deposição e permanência da palha, com a erosão menor, o terreno vai firmando com a passagem das rodas das colhedoras e tratores e o resultado é que as pedras vão desaparecendo da superfície do solo nas lavouras sob plantio! direto. Áreas como as do produtor Ricardo Lopes Laguna, na região de Córdoba, que já estão com 5 anos sob semeadura direta, nocomparativo com as lavouras do vizinho, que fazo preparo convencional, pode-se dizer que, » práticamente, não aparecem pedras.

”r nm. a RPD - Como é o trabalho das semeadoras nessas condições? ; Dirceu Gassen - Pelo que foi possível perceber, as semeadoras com disco liso na frente Já são suficientes em áreas com pedras, pois eles permitem cortar ou passar sobre, proporcionando uma boa semeadura. De outro lado, é comurm a utilização de semeadoras leves, utilizadas no preparo convencional, que não conse- A guem cortar a palha de forma adequada e não distribuem corretamente a semente, em terreno adensado ou compactado. Essa é uma das restrições existentes, porque os produtores não conseguem fazer uma boa semeadura direta com máquinas destinados ao plantio convencional. À Semeato está desenvolvendo um bom trabalho na Europa, pois suas semeadoras tem tido bom desempenho nas condições locais e, nº meu ponto de vista, ela está sendo beneficiada pelo fato de que as demais empresas, com todo 9 pacote de grandes máquinas e equipamentos, não tem interesse no desenvolvimento do plan- Y % ti1O direto.

; RPD - Quais os fatores principais que ? influem para que os produtores ainda utili =. zem o preparo convencional?

Dirceu Gassen - Eu diria que as facilidades Proporcionadas pelos subsidios favorecem 4 compra de máquinas novas de grande potém “la e esse é um dos fatores básicos que determi” nam a forma de agricultura praticada na Europa. As grandes indústrias de tratores, arados, grades, rotativas, etc. da Europa e dos Estados Unidos tem maior vantagem econômica comercializando esse tipo de máquinas e equipamentos, e o desgaste dos materiais, com tanta e desnecessária utilização, é permanente. Essa indústria não tem interesse no plantio direto. Em uma palestra realizada em Portugal, onde o auditório parecia estar convencido das vantagens da semeadura direta, um produtor pediu a palavra e, de certa forma indignado, perguntou a quem deveria se dirigir para ser ressarcido dos investimentos que fizera recentemente com um trator potente e implementos. Os agrônomos da Cooperativa Vale do Conde, no norte de Portugal, informaram que o país tem um índice inacreditável de trator/área plantada, algo assim como 1 trator/3 ha.

Subsidios - PAC RPD - Como funciona o subsidio na Europa? Dirceu Gassen - À política de subsidios adotada na Europa, definida pela PAC - Política Agrária Comunitária, tem influência definitiva nas decisões dos produtores. As indicações da pesquisa e de assessorias técnicas desempenham papel secundário em relações às determinações elaboradas pela PAC. Criada em Bruxelas, a PAC é a verdadeira bíblia do agricultor europeu, pois ela define o que vai ser subsidiado, quais as culturas, as regiões, em que situação, Federação Européia A ECAF (European Conservation Agriculture Federation) é uma entidade criada em 1998 com objetivo de coordenar atividades e ações visando a transferência de tecnologias entre sete associações nacionais de manejo e conservação de solo e água da Europa. Com associações membros na Dinamarca, França, Alemanha, Itália, Portugal, Espanha e Inglaterra, a Federação Européia visa dinamizar o trabalho de difusão do plantio direto, que é um consenso na solução dos graves problemas ocasionados pela intensa lavração e queima dos resíduos culturais.

trata-se de uma combinação de variáveis e, muitas vezes, o valor do subsidio é igual ou maior que o valor do produto colhido. Isso significa que, pelo menos até aqui, não se questiona a necessidade de rotação de culturas ou a preservação do solo e do ambiente. O que os produtores fazem é plantar aquilo que dá mais retorno econômico, baseados nas definições da PAC e não do que é recomendável tecnicamente. Existe sempre uma expectativa entre os produtores, gerada pela definição dos índices que serão utilizados na próxima saíra, mas os aspectos de conservação de solos, rotação de culturas, manejo de pragas e doenças são absolutamente secundários, em função dos valores elevados dos subsidios. Os critérios para a distribuição dos subsidios variam com os países, histórico da produção regional, importância e demanda de produtos e outros fatores, que dificultam a de- Revista Plantio Direto - Edição 54 - Novembro/Dezembro de 1999. 13 finição objetiva dos valores distribuidos pela PAC. Em ” .. termos gerais, são definidas regiões e produtos com A questão das ovelhas : ; maior ou menor subsidio. À PAC define um valor de eo plantio direto referência que, em 1999, é de aproximadamente US$70,00. Os agricultores recebem índices que variam de 1 a 10, conforme a região e cultivo e, em função | anhos de ovelhas estão ' A maneira como os reb disso, é estabelecido o valor/ha.

transitando e pastando em nossos campos é incompatível com a nova agricultura. E inconcebível que, no final do século XX, exista supremacia das ovelhas so- ”bre as terras de cultivo. Certamente, segundo meus mo? conhecimentos, isto não acontece em nenhuma outra parte do mundo. O fato de que não haja uma regu- Dirceu Gassen - Vamos citar o exemplo prático lamentação deste pastoreio indiscriminado e anáraqui- de um agricultor da região de Córdoba, que cultiva mil co prejudica a agricultura de uma forma geral, e re- ha de cevada, trigo, girassol e colza, e recebe o Índice sulta duplamente ne- “ 3,9 , pelo histórico regiofasto para determina- 1 2 ESA, A PP” “3 nalede produtividade. Isso das técnicas, como é o a, AMO À Kb : SRA o SS À sionifica que ele terá um caso do plantio direto. . o A aa CIA CN subsidio de U$273,00/ha Existem informes Ne. a De ão | 4 Ê : S A $ ; í Aos a = À de área cultivada. No caso, que asseguram que, lr E GADO A AT o ROO ECA — ste apricultor recebeu 273 em muitos casos, os mil dólares de subvenções, rebanhos de ovelhas + como os espanhóis chasão transmissores de Outro aencultor que determinadas pragas e A 1 planta na região de Don responsáveis pela pro-* RESSACA Aa o pagação de plantas ESPE ARS ADCRADO S Ia a as a E a a abala od) RSA JANESSe gate Te To [UIge MO DINA io e o o NR gor CDA UR NAS Ser ana a EaD? — e OUtros cultivos sob irrigareta tem limitações, - ESSES aa A AR AAA, CO Tora COCA Ro ra Ao Te cesa ISA a IS Da Color A Como a excessiva HH EM dincadadAco. EE NRO PORCA CSA A a END 18sto significa USS64,00/ha. compactação superí!- Foto: Dirceu Gassen — Em 1.500 ha, ele recebeu cial, eisto é devido, em | : S46 mil dólares de subvenmuitas ocasiões, ao momento em que o terreno é ções. Dinheiro depositado no banco, sem nada a ver pisoteado pelos rebanhos de ovelhas. com o lucro que ele obtem da lavoura. É possível com- Os agricultores e proprietários de rebanhos de- SS x : É petir com uma agricultura feita dessa Ira? vem cohabitar no nosso meio rural. Porém, são espe- . Maneira cializações distintas, com interesses diferentes, ao contrário do. passado, quando as explorações eram mistas e o gado de todos pastava na propriedade de todos. Não pretendo terminar com a pecuária tradici-' : onal. As atividades agrícolas e animais podem e de- Dirceu Gassen - Na prática, não existe distinção vem ser complementadas dentro de um mesmo terri- entre o tamanho das áreas, de tal forma que, segundo tório. No entanto, a única maneira de compatibilizá- informaram técnicos de cooperativas de Portugal, 5% las é através de acordos que regulem o aproveita- dos agricultores recebem 90% do valor total das submento da resteva, sem contrariar interesses agríico- venções.

las e sempre partindo do princípio da propriedade, já Outro detalhe intere Í bs j ; ao Ssante está relacionado à paque ninguém poderia ocupá-la sem a autorização Ilha, cuja queima é ai ; E | Cu ainda gener expressa do dono. generalizada, tendo permissão e. para 1sso da própria PAC. De outra parte,em várias re- Alejandro Tapia Pefialba 810S, ela tem um valor grande para silagem. Esses fa- Presidente da A.B.U.L.A.C. (Asociación Burgalesa de pesa confirmam o fato de que a cobertura de solos é Laboreo de Conservación), produtor pioneiro em algo “To nos países europeus. O depoimento de uma plantio direto na região de Quintanarraya, Burgos, agricultora em Portugal revela o seguinte: no ano pas- Espanha | sado, ela vendeu a palha porque o valor desse material, utilizado para alimentação do gado, era maior do que o RPD - Como funciona na prática esse mecanis- RPD - Existe alguma distinção em relação ao tamanho das áreas?

14 Revista Plantio Direto - Edição 54 - Novembro/Dezembro de 1999 valor recebido na colheita do trigo cultivado na área. À subvenção para a alimentação do gado cria um quadro interessante e o resultado é que você praticamente não vê animais no pasto. O subsidio vai para milho ensilado, existindo regiões que recebem até U$600,00/ ha para silagem de milho. Então, não interessa ao produtor colocar o gado no pasto, porque ele não ganha subsidio nessa área. Além disso, no caso da região norte de Portugal, o produtor de leite recebe R$ 0,45/1, enquanto o pequeno produtor no Brasil recebe R$ 0,25/ l. No caso de cereais, se fizéssemos um exercício para um produtor brasileiro, que plantasse 1.000 ha, por exemplo, e tivesse um fíndice médio 5, ele receberia líquido 350 mil dólares de subsidios, além do resultado da produção. Essa é a diferença da agricultura brasileira e européia. Na Espanha, além do subsidio, existe um preço mínimo garantido pelo governo que, no caso de cereais (trigo, cevada), é de R$ 220,00/t.

Tradição RPD - Você acha que o subsidio é o principal problema que o plantio direto enfrenta para se desenvolver na Europa?

Dirceu Gassen - Ele é um dos entraves maiores mas, do ponto de vista da PAC, nada impede que se faça plantio direto, e as próximas resoluções deverão contemplar subsídios para agricultura de conservação, que direcionem para práticas ambientais positivas. Isto ficou claro em manifestações de autoridades políticas da Espanha e de Portugal no Congresso de Don Benito. Nota-se que, dentro da PAC, existe uma forte tendência de crescimento da necessidade de se estabelecer medidas com objetivo de conservar água e de recuperar os recursos naturais.

Talvez, o principal problema para o desenvolvimento do plantio direto na Europa esteja na tradição de lavrar a terra. Em várias oportunidades, em reuniões com agricultores nas associações de conservação, ouvimos manifestações sobre a pressão familiar que recaía sobre o produtor que deixa de lavrar e parte para o plantio direto. Ele é considerado preguiçoso até pela família, pois enquanto os demais agricultores estão lavrando e eradeando a terra, ele está sem fazer nada.

RPD - Herbert Bartz, o pioneiro do Brasil em plantio direto, enfrentou problema similar com o pai, quando iniciou o SS 4 processo, em 1972, ST Dirceu Gassen - Em São Luiz Gonzaga,RS, tivemos um histórico semelhante, com o produtor Azir Costa Beber. Seu sogro ficava indignado e o chamava de preguiçoso e relaxado por não lavrar a terra. Quando o genro começou a plantar nabo e aveia para cobertura, o sogro dizia: “agora, além de não lavrar, está plantando INnço.

Na Europa, este problema é mais acentuado, porque os agricultores são ricos, com carros de luxo e um padrão de vida elevado, com viagens pela Europa e outras facilidades. Num outro episódio pitoresco, em Portugal, um produtor questionou o fato de que, no plantio direto, haveria uma redução de custos e, consequentemente, teria que pagar mais i1mpostos sobre a renda líquida.A sugestão foi a de que buscasse fórmulas fiscais de resolver essa questão e que ela não deveria ser debatida na presença de estrangeiros!

RPD - Numa entrevista conduzida por Roberto Rodrigues, no Canal Rural, afirmour-se que, na Europa, a idade média dos agricultores aumenta um ano a cada ano. Sabemos que, entre nós, não existe uma renovação e imagino que essa questão é mais aguçada por lá.

Dirceu Gassen - Parece que 18so se confirma, pois são poucos os jovens envolvidos na agricultura. Os negócios relacionados a turismo e outras atividades são muito mais atrativos do que a agricultura. Conversamos com vários produtores que, na realidade, estão aposentados, semelhante ao que acontece no Brasil, em que a atividade rural complementa a renda. Provavelmente, os filhos desses agricultores não continuarão na atividade. Isto também pode significar um ponto positivo para o desenvolvimento do plantio direto, pois a redução da mão de obra será compensada pela redução das operações agrícolas. Outro dado 1nteressante é que, apesar de haver um índice de 16% de desemprego na Espanha, o governo está tendo que fazer programas de cooperação com países africanos para contratar mão Revista Plantio Direto - Edição 54 - Novembro/Dezembro de 1999. 15 de obra temporária destinada à colheita de azeitona e outras atividades rurais. O emprego existe mas os espanhóis, e os europeus em geral, não consideram este trabalho digno.

Prestadores de Serviços RPD - Existe uma forte estrutura de prestação de serviços no meio rural na Europa. Como esse setor encara o plantio direto?

Dirceu Gassen - É compreensível e tem lógica o fato de os prestadores de serviços levantarem restrições à utilização do plantio direto na Europa. É evidente que eles percebem no plantio direto um potencial de queda de suas atividades e de seus rendimentos, pois o sistema significa uma drástica redução nas inúmeras operações de lavração e gradagem. As fábricas de tratores igualmente não tem interesse na evolução do plantio direto, pois os produtores passarão a utilizar tratores menores e equipamentos que terão maior durabilidade. Isto tudo leva a pensar nas dificuldades para a redução dos subsídios, pois existe uma cadeia complexa de interesses que vão desde as grandes indústrias até os próprios produtores, passando por revendedores e prestadores de serviço. Isto não impede, entretanto, que existam empresas dessa área que já estão se especializando em plantio direto, cobrando preços compatíveis com o preço da semeadora e a menor velocidade de semeadura.

RPD - Como os agricultores europeus encaram a possibilidade de redução ou eliminação dos subsidios?

Dirceu Gassen - Os subsidios à produção de alimentos são práticas consagradas na agricultura da Europa Ocidental e poucos agricultores acreditam que o mercado será liberado, ao contrário dos políticos, que manifestam a necessidade de redução nas subvenções e um maior rigor na avaliação dos Impactos ambientais.

Revista Plantio Direto - Edição 54 - Novembro/Dezembro de 1999. RPD - O que poderia acontecer Caso acontecesse uma queda ou redução nos subsidios?

Dirceu Gassen - À princípio, uma queda nos subsidios inviabilizaria os produtores europeus. Os que quisessem continuar teriam que adotar o plantio direto para reduzir custos e aumentar a escala de produção. Provavelmente a PAC, no momento em que definir como prioridade a questão de conservação dos recursos naturais, direcione sua política de subsidios para a agricultura mais biológica ou natural. Autoridades presentes ao Congresso de Don Benito ressaltaram os seguintes ítens: Os agricultores fazem o que é economicamente mais rentável; a política de conservação da CE não conserva nada; as subvenções devem ter alsum tipo de consequência ambiental positiva; as áreas cultivadas com cereais e baixos rendimentos (1.000 kg/ha) deveriam ser ocupadas para a produção de carne limpa ou ecológica: as oliveiras deveriam ser cultivadas em áreas de topografia plana e com menos agrotóxicos.

RPD - Como eles observam a agricultura do Brasil e da América Latina? Dirceu Gassen - Em relação ao plantio direto, eles manifestam surpresa pelo desenvolvimento do processo sem subsidios. Anotamos manitestações contrariadas do tipo “temos que aprender com um país que só tem 500 anos, quando nós temos 3 mil anos de agricultura”. Emrelação à concorrência na produção de grãos e leite, a preocupação maior dos políticos e dirigentes é com o futuro das planícies férteis do leste europeu, como as da Ucrânia e Polônia, que representam um potencial produtivo muito grande, com mão de obra barata. No momento em que essas regiões tiverem estabilidade política e econômica, elas tendem a abastecer O mercado da Europa Ocidental, em melhores condições do que a América Latina. Com issº, os europeus se livrariam das incômodas pressões da produção norte americana e abririam oportunidades de mercado na Europa Oriental.

Ovelhas e aves migratórias RPD - Qual a reclamação dos espanhóis que utilizam plantio direto em relação às ovelhas?

Dirceu Gassen - Esse é um caso muito interessante, que nós não temos por aqui. O deslocamento de animais do norte para o sul da Espanha, nos meses de inverno, com retorno na primavera, é uma atividade muito antiga dos pastores de vacas e ovelhas. No início da idade média foram criadas as “Cafiadas Reales”, caminhos para a passagem desses animais. Os pastores tinham o direito de entrar com os animais em áreas de lavouras colhidas ou em pousio, para consumo da resteva e de plantas daninhas. Essa tradição é mantida até hoje para os pastores de ovelhas. Para evitar a presença indesejada das ovelhas, os agricultores lavram e gradeiam a terra, enterrando os restos culturais. Os agricultores que adotam o plantio direto, mantendo a palha na superfície ou plantando culturas de cobertura, tem suas áreas sistematicamente ocupadas por ovelhas. Durante os períodos de chuva, a movimentação dos rebanhos, que variam de 200 a 500 cabeças, provoca a compactação do solo, além do consumo da palha e das culturas de cobertura. Essa situação resulta em conflitos entre agricultores e pastores, mas a lei protege os proprietários de rebanhos, que vivem na região e utilizam pequenas áreas como refúgios para os animais. Segundo os produtores de plantio direto, os rebanhos de ovelhas estão crescendo depois que iniciou o plantio direto e a palha fica sobre o solo.

RPD - E a questão das aves migratórias? Dirceu Gassen - À Espanha é parte do roteiro da migração de aves, que se deslocam do norte da Europa para a África, no outono, e retornam no início da primavera. À ausência de preparo de solo e o plantio de culturas de cobertura, como a colza, nas áreas sob plantio direto tem sido um forte atrativo para as aves, mas os produtores reclamam que a alimentação dos pássaros tem trazido prejuízos. Uma das campanhas dos produtores e suas associações é que haja um subsiídio aos produtores de plantio direto, para compensar esses prejuizos.

Plantio Direto RPD - Quais as principais vantagens e as perspectivas do plantio direto na Espanha, Portugal e na Europa em geral?

Dirceu Gassen - As perspectivas imediatas de crescimento do plantio direto em Portugal e na Espanha são evidenciadas pelo crescimento do número de associações de conservação de solos que estão sendo criadas e no número de participantes das reuniões sobre plantio direto. Uma associação regional de Fontidueõa, na Segovia, Espanha, criada há um ano atrás com 10 membros, hoje já conta com /0 produtores associados. Isto tudo porque as vantagens estão sendo vistas na prática pelos produtores. As principais são a redução de custos e o controle da erosão, além da facilidade no manejo das áreas, com menor trabalho e necessidade de mão de obra. Outra vantagem que os produtores que já adotam o sistema destacam é a maior produtividade nos períodos de seca. Os agricultores de plantio direto, que não utilizam irrigação, tem uma certeza de que a palha na superfície proporciona uma retenção adequada de umidade e uma produção bem melhor do que os vizinhos, que utilizam o preparo convencional. Na Espanha, existem regiões com precipitações anuais de 300-400 mm, distribuidos de forma irregular. A safra deste ano foi mais seca e os benefícios da palha foram constatados. Acredito que alguns aspectos básicos do futuro do plantio direto serão definidos pela PAC. No momento em que a política de subsídios proibir a queima da palha, por exemplo, o que ainda é uma ação permitida, ou assumir o status de agricultura conservacionista da semeadura direta, proporcionando incentivos a quem proteger o solo e a água, é certo que teremos uma revolução na forma de conduzir a agricultura na Europa. Por enquanto, estamos assistindo a um quadro semelhante ao que tínhamos na década de 70, quando nossos pioneiros enfrentavam enormes dificuldades para provar que a nova tecnologia era o caminho da agricultura brasileira, lutando contra as estruturas industriais e econômicas estabelecidas, o descrédito dos colegas produtores e as tecnologias arcaicas incrustradas na cabeça do mundo acadêmico, que ainda é possível encontrar hoje.

Revista Plantio Direto - Edição 54 - Novembro/Dezembro de 1999.