Manejar a palha para enfrentar riscos
Manejar a palha para enfrentar riscos
Um pequeno debate a céu aberto sobre a importância da palha, e diversos outros aspectos do plantio direto, como forma de enfrentar os riscos climáticos, mercadológicos e de política macro-econômica na agricultura sul brasileira aconteceu na fazenda do engenheiro agrônomo Ulfried Arns, em Cruz Alta-RS, na tarde do dia 24 de novembro. Na ocasião, Arns recebeu, juntamente com o engenheiro agrônomo José de Vargas, da Cotricruz, a visita de um grupo de pesquisadores nacionais e estrangeiros, desgarrados do III Encontro Brasileiro Sobre Substâncias Húmicas, que estava se realizando em Santa Maria. A pequena caravana era composta pelos pesquisadores Telmo Amado e Flávio Eltz, da UFSM, Ladislao Martin Neto, da Embrapa Instrumentação Agropecuária, de São Carlos-SP, Adrian Andriulo, do INTA de Pergamino, Argentina, Alessandro Piccolo, da Universidade Federico II, de Nápoles, Itália, e Donald Reicosky, pesquisador do USDA, de Morris, Minesotta, Estados Unidos, que vieram a Cruz Alta para conhecer um exemplo bem sucedido de plantio direto, com utilização reduzida de insumos externos, maximização na importância da palha e da rotação de culturas. Participaram do giro de campo o pesquisador Dirceu Gassen, da Embrapa Trigo, e o engenheiro agrônomo Gilberto Borges, editor da Revista Plantio Direto. Antes da visita à Fazenda de Ulfried Arns, fizemos uma mesa redonda, com a participação de todos, em que o pesquisador americano Donald Reicosky e o professor italiano Alessandro Piccolo foram o foco do debate, relatando opiniões sobre os trabalhos atuais de suas especialidades. Ambos palestraram no Encontro de Santa Maria e, em Cruz Alta, fizeram uma síntese sobre a questão das substâncias húmicas e suas implicações no sequestro de carbono, algo que vem sendo destacado em reuniões científicas de todo o mundo e já encontra respaldo em atitudes governamentais e de grandes indústrias. Segundo Donald Reicosky (ver matéria na página seguinte), grandes usinas geradoras de energia à base de carvão, no Canadá, estão pagando bonificações a produtores que utilizam o plantio direto, como forma de compensar o pagamento de impostos que são obrigados a fazer pela emissão de gás carbônico na atmosfera.
Pesquisadores internacionais e brasileiros na Fazenda de Ulfried Arns, em Cruz Alta.
12 anos de plantio direto
“Após 12 anos de plantio direto, convivendo com variações adversas de clima e de mercado, ao invés de buscar altas produtividades, o que gera um risco acentuado na estabilidade econômica da propriedade, nós optamos por fazer uma agricultura com menor utilização de insumos, buscando garantia de rentabilidade”, disse Ulfried Arns ao mostrar os vários aspectos de sua fazenda de 1.000 ha, a 10 km de Cruz Alta. Esse procedimento, baseado num conhecimento profundo das condições de solo e clima da propriedade e da região, tem garantido a Arns e ao grupo de produtores ligados a Fundacep, ao Clube Amigos da Terra e a Cotricruz uma garantia de sobrevivência, sem problemas econômicos, no atribulado momento que vive a agricultura brasileira. “Isso não quer dizer que não possamos tirar altas produtividades, ressaltou ele, mas é importante notar que a utilização de fósforo, potássio e calcário, por exemplo, que a maioria ainda aplica em suas lavouras, não dá resposta em termos de produtividade, principalmente quando você tem uma quantidade adequada de palha. Por isso, nós somente repomos aquilo que foi exportado através dos grãos colhidos.” Ulfried Arns planta 500 ha de milho e 500 ha de soja, na safra de primavera /verão e suas produtividades médias tem ficado em torno de 2.700 kg/ha em soja e 4.000 kg/ha na cultura do milho. Os resultados da lavoura de milho tem sido bastante variados, em função das secas que afetam a região nos períodos mais sensíveis da cultura. “O clima não é o único risco que os produtores enfretam, enfatizou José de Vargas, diretor técnico da Cotricruz, mas eles precisam estar atentos às políticas macro-econômicas e às oscilações de mercado, que nunca os favorecem.” Para Vargas, o principal insumo necessário para enfrentar esse quadro é a informação, e o grupo de produtores e assistentes técnicos de Cruz Alta tem exercitado essa prerrogativa com sucesso, buscando um caminho que implica em métodos adaptados à região. “Quem nos levou a buscar essas soluções, que hoje utilizamos, foi a necessidade”, disse o agrônomo da Cotricruz.
Ulfried Arns: palha é o segredo.
A importância da palha
Principalmente os visitantes estrangeiros ficaram impressionados com o conhecimento do manejo e a importância que se dá à palha na região. “Nós objetivamos 12 t/ha/ano de resíduos de culturas sobre o solo”, afirmou Ulfried Arns. Segundo ele, a quantidade de palha deixada pela cultura antecessora é o que definirá a produtividade da safra seguinte. Quando o trigo é bom, a soja será melhor. Se ocorre o contrário, toda a cadeia de matéria orgânica será prejudicada e a safra seguinte já acusará menor produtividade. “Quanto menor a quantidade de palha, maior será a necessidade de fertilizantes e, nesse caso, poderá haver resposta ao aporte de adubos. Aí, entra a questão dos riscos. Você está fazendo uma lavoura mais cara e sujeito ao humor do clima, do mercado, etc.”, sentenciou Arns. “Quanto custa manter essa palha no sistema?” Perguntou o professor Piccolo, da Itália, impressionado com esse fator. Segundo os técnicos de Cruz Alta, os custos de instalação das culturas de cobertura, como ervilhaca, nabo forrageiro, aveia e tremoço ficam ao redor de 30% dos custos da lavoura conduzida no esquema por eles proposto. Ou seja, a implantação dessas culturas, somados sementes e outros ítens, fica ao redor de US$ 70,00/ha/ano. O custo médio do ha/ano, abrangendo todas os cultivos, está em US$ 200,00. Ulfried encerrou a visita ao campo mostrando uma área de milho onde estão instalados experimentos com diversas coberturas antecessoras. Antes, semeando soja em plena seca, ele mostrou um equipamento, adaptado para a semeadora, que permite um plantio praticamente sem revolvimento de solo. De longe, exceto por uma linha de marcação, a impressão que dá é que ainda não foi feita a semeadura. Esta é apenas uma síntese das diversas informações e questionamentos que aconteceram naquela tarde quente e seca, nas belas coxilhas de Cruz Alta.
Donald Reicosky e o seqüestro de carbono “A questão da utilização do plantio direto para reter uma quantidade maior de carbono no solo tem uma lenta evolução, porque ainda estamos na fase de envolver a sociedade e os políticos, que elaboram as leis, sobre a importância desse mecanismo para reduzir o efeito estufa. Mas, temos informações do Canadá que dão conta do pagamento de um benefício extra a produtores de plantio direto por parte de usinas elétricas movidas a carvão. Segundo essa informação, já existem cerca de um milhão de ha cultivados em plantio direto, no Canadá, que estariam recebendo uma bonificação entre 6 a 12 dólares/ha. Na verdade, essas usinas estão utilizando artifícios para minimizar o pagamento de impostos e taxas que incidem sobre as indústrias poluidoras do ar com CO2. Alguns dos nossos estudos mostram que a emissão de uma tonelada de dióxido de carbono custa cerca de 25 dólares e que o agricultor americano que lavra o solo deveria pagar em torno de 200 dólares/ha, para compensar a emissão de CO2. Se eu fosse levantar essa proposta, provavelmente seria crucificado, porque existe uma reação muito grande, nos Estados Unidos, quando se fala em criar taxas e os próprios políticos não admitem conversar sobre isso. É uma pena que que os agricultores brasileiros que fazem plantio direto, que tiveram a coragem de mudar, e que estão reduzindo custos, fixando carbono e preservando o ambiente, não estão tendo nenhum benefício extra e nem o reconhecimento da sociedade e dos políticos. Diferente do que ocorre nos Estados Unidos, é notável a paixão com que os agricultores brasileiros e da América Latina se envolvem com as causas da agricultura, demonstrando um senso de responsabilidade e prazer com o trabalho que realizam.”
Donald Reicosky