Aplicações de Previsões Climáticas na Agricultura — Perspectivas para a Safra 99/2000


Autores:
Publicado em: 01/12/1999

previsões climáticas na agricultura Perpectivas para a safra 99/2000 Gilberto R. Cunha Agrometeorologista da Embrapa Trigo, Passo Fundo, RS. Bolsista do CNPq-PQ Introdução A incorporação de previsões cl1- máticas nos processos de tomada de decisão na agricultura não é tão simples como pode parecer à primeira vista. A credibilidade da informação, a noção clara dos aspectos fortes e dos pontos de incerteza das previsões, O conhecimento dos impactos da variabilidade climática sobre o rendimento econômico das culturas, a identificação das práticas de manejo de plantas que podem ser feitas diferentes de acordo com cenários de variabilidade climática e, acima de tudo, a consciência que os resultados esperados, em se tratando de futuro, serão sempre probabilísticos são questões que exigem um processo intenso de educação de usuários e de difusão de resultados, visando transformar conhecimento científico e informação em tecnologia com características pragmáticas, como demandam os segmentos do agronegócio, em particular o produtor.

Um grande esforço sobre aplicações de previsões climáticas foi desenvolvido, em nível mundial, a partir do evento El Nifio de 1997- 1998. Buscou-se incorporar informações relacionadas com previsões climáticas, feitas nas escalas de tempo estacional e interanual, nos processos de tomada de decisões práticas. Para 18s0, foram considerados e envolvidos todos os setores da atividade humana que são sensíveis aos impactos causados pela variabilidade climática. Tais como: agricultura, abastecimento de alimentos, energia, saúde pública, gerenciamento de recursos hídricos, defesa civil etc.

A divulgação intensa de informações, valendo-se dos poderosos recursos da Internet, nas páginas mantidas por instituições que atuam na área das ciências atmosféricas em vencionais de comunicação (jornal revista, rádio e TV), fez com que - público geral tivesse acesso, quase que simultaneamente à comunidade científica, à uma série de informacã listas científicos da área de previsões climáticas e representantes dos setores usuários, muitas vezes causou dúvidas, dando margem a interpretações equivocadas e apressadas sobre o quê de fato estava sendo previsto, que impactos na variabilidade climática regional poderiam ser esperados e qual a melhor forma de se utilizar este tipo de informação para reduzir os nS- cos decorrentes de condições adversas ou otimizar o aproveitamento de situações favoráveis.

Entre os setores da atividade humana que podem se beneficiar de previsões climáticas, destaca-se à agricultura. Particularmente, naquelas regiões do mundo que há sinais de variabilidade climática associados às fases do fenômeno Enso. El Nino La Nina, fase quente e fase fria do Enso, influenciam principalmente º regime de chuvas da Região Sul do Brasil. Em geral, El Nifo causando chuvas acima dos valores normais : La Nifa sendo responsável por dim! nuição na quantidade de chuvas. Este conhecimento por si mesmo não à segura qualquer utilidade à informa ção relacionada com a divulgação de previsões do fenômeno Enso-.

Resultados a Embrapa Trigo, consciente essidade de agregação de vandiment Si fases do fenâm eae da cultura de trigo no Brasil, conforme as ; Período 1920 a 1997, Cunha et al. (1999) da nec é : joras informações relacionadas com eae a o ETA ER Co aDAAE o TT as previsões das fases do fenômeno Paraná TE ta ” Total de anos a. Nx : -1997 esenvolveu várias atividades Rio Gr 9 (39% N E o à eteorologia agrícola. vi Santa mea o PNI S1S20-1997 -— 10,140: 140661% 23(290% 78(100%) A d O ENSINA A, nta Catarina 1920-1997 (43%) —13(567%) 23(29%) 78(100%) sando compreer SE Os umpactos da Mato Grosso do Sul 1971-1997 2(39%) 14(61%) 23 (29%) 78(100%,) variabilidade climática regional as- São Paulo EA 3(30%) — 7(70% 10(87% 27(100%) sociada às fases do Enso e orientar o Minas Gerais jo7Ê 6(43% 8(57% 14(80% 46(100%) emento produtor sobre suas apli- Brasil 7997 4(44%) 65(56% : segm nliniado Sul 1920-1997 : o) 9(41%) 22(100%) cações na agricultura do Sul do Bra- Estado : (89%) 14(61% 23(29% 78(100%) sil Período A E. : ro | nos de La Nifia Total O objetivo deste artigo é sinte- ” + - Total de anos ar as atividades realizadas araná 1920- tizar ó pela E ioGran 20-1997 —— 9(60%) 6(40%) 15(19% 78(100%) Embrapa Trigo no tocante às aplica- ndedoSul 1920-1997 —10(67%) 5(33%) 159º el é e : o o o) ções de previsões climáticas na agri- gaia catanna 1920-1997 8 (53%). 747 º js ADA rh . O > % o%, cultura do Sul do Brasil e atualizar Mato Grosso do Sul — 1971-1997 2(40% 3 (Sos | : es S RUONT informações referentes ao fenômeno São Paulo 1952-1997 6(75%) 2 os ) 8 à e: ' à E Bb: | La Nina de 1999 e seus possíveis im- Minas Gerais 1976-1997 — 3(100%) — 0(0%) 3(14 º jane? E ão p . =. . MO . o o Y Yo pactos na variabilidade climática re- Brasil 1920-1997 — 11(78%) 4(27% 15(19% 78 Ao gional, durante o período da safra de Estado Período Anos N : verão 1999-2000. ada: uno Via o as ie Ut pr sets tease aeee os is 2 5 emo ONT RADIOS Nos últimos anos, o esforço de- Paraná 1920-19 dicado pela Embrapa Trigo na área Se -1997 — 26(65% 14(35%) 40(52%) 78(100%) O o AS Sra t, IO Grande do Sul 1920-1997 25 (63%) — 15(37%) 40 (52% o de aplicações de previsões climáti- Santa Catarina 1920-1997 : se. A ; - [e O o cas na agricultura do Sul do Brasil Mato G 22 (55%) 18 (AS%9) nn 40 (S290)a E TO C1DD”b) dao rossodo Sul 1971-1997 — 8(67%) 4(33%) 12(45%) 27(100%) compreendeu: palestras, artigos para Sã À A ETR E NO ão Paulo 1952-1997 — 12(50%) 12(50%) 24(53%) 46(100% jornais, artigos técnico-científicos Mi S (100%) ; : À inas Gerais 1976-1997 3(30%) 7(70% 10(45% 22(100%) para revistas de divulgação, artigos Brasil º 1920-1997 — 22(55% 18(45%) 40(52%) 78(100%) científicos para revistas especializadas e anais de congressos, apresentação de resultados em eventos científicos, participação de audiência pública da Câmara dos Deputados e entrevistas sobre o tema para Jornais, rádio e T V.

Entre 1997 e 1999, foram realizadas 42 palestras sobre aplicações do fenômeno El Nifio-Oscilação do Sul na agricultura. Engenheiros-agrônomos, Técnicos-agrícolas, produtores rurais, autoridades, líderes locais e público geral de 25 municípios da região produtora de grãos do Rio Grande do Sul estiveram presentes nestes eventos, atingindo, diretamente, 0465 pessoas.

Além das palestras, artigos de opinião Para jornal, artigos científicos e de divulgação técnica, disponibilização de informações na Internet destacam-se a participação em audiência pública na Câmara dos Deputados Brasília, DF, 22 de outubro de 1997, reunião da Comissão de Agricultura e Política Agrícola sobre os impactos do fenômeno El Nifo), entrevistas para rádios, TVs e jornais, envolvendo o tema de aplicações de previsões cl1- máticas na agricultura La Ninha e a safra de trigo de 1999 O fenômeno El Nifio-Oscilação do Sul (ENSO) ou apenas El Nifio, como é referido nos veículos de comunicação de massa, possui duas fases: uma quente (El Niho) e outra fria (La NiÃa). O comportamento da tempe- 9 Período Fonte: CUNHA, G.R.; DALMAGO, G.A. ESTEFANEL, V. Enso influences on wheat crop in Brazil. Revista Brasileira de Agrometeorologia, Santa Maria, v. 7, n. 1, p. 127-138, 1999.

Revista Plantio Direto - Edição 54 - Novembro/Dezembro de 1999. ES) ratura da superfície das águas do oceano Pacífico tropical (parte central e junto à costa oeste da América do Sul), em associação com os campos de pressão (representados pelo Indice de Oscilação do Sul), altera o padrão de circulação geral da atmosfera , assim, influencia o comportamento do clima global. Várias regiões no mundo têm o clima é afetado pelas fases do ENSO. Entre essas, no caso do Brasil, citam-se a parte norte da Região Nordeste e o leste da Amazônia (na faixa tropical) e a Região Sul (na faixa extra-troplcal), que está inserida em uma grande região Particularmente no sul do Brasil, tem-se excesso de chuvas nos anos de El Nifio e estiagem em anos de La Nihfa. Apesar da influência dar-se durante todo o período de atuação desses eventos, há duas épocas do ano que são mais afetadas pelas fases do ENSO. São elas: primavera e começo de verão (outubro, novembro e dezembro), no ano inicial do evento, e final de outono e começo de inverno (abril, maio e junho), no ano seguinte ao início do evento. Assim, nestas épocas, as chances são maiores de chuvas acima do normal, em anos de El Nião, e chuvas abaixo do normal, em anos de La Nifia.

No Brasil, o trigo tem sido cultivado principalmente no Sul. Nesta região, Paraná e Rio Grande do Sul são os principais estados produtores. Também há trigo em Santa Catarina, embora em menor escala. No restante do país, há disponibilidade de estatísticas de trigo no Mato Grosso do Sul, em São Paulo e em Minas Gerais. Com isso, pela expressão no total da produção brasileira de trgo e considerando a sensibilidade da região às variações climáticas associadas às fases do fenômeno ENSO, serão apresentados e discutidos, primeiramente, os resultados obtidos para os estados da Região Sul (PR, R5 e St; nesta ordem, pela importância da cultura). Na segiiência, os efeitos sobre o rendimento médio nos estados de MS, SP e MG e no país.

No período de tempo considerado, 78 anos, ocorreram 23 eventos El Nifio e 15 even- : tos La Nifa. Os outros 40 anos foram anos Bom neutros. A análise dos dados da Tabela 1 evrdencia que os impactos dos eventos El Nino são, na maioria das vezes, negativos sobre O rendimento do trigo, nos três estados da Região Sul do Brasil. O inverso ocorre nos anos de La Niãa, quando os impactos predominantes são positivos. E nos anos neutros, também impactos positivos são maioria.

Para os estados de Mato Grosso do Sul, São Paulo e Minas Gerais a influência regional das fases do ENSO sobre o clima não É tão evidente quanto no sul do Brasil, po! exemplo. Associado ao fato da análise basear-se em uma série histórica mais curta de rêndimentos, os resultados devem ser vistos com cautela. De qualquer forma, os dados da Ta bela 1 indicam maior ocorrência de desvios negativos em anos de El Niãho, comparativ* mente aos anos de La Nifia e neutros, embolocalizada no sudeste da América do Sul, abrangendo também o Uruguai, o sudeste do Paraguai e o nordeste da Argentina.

NCEP/CMH - - MERO FORECAST SST ANOMÁLIES NOV1999—JANZOOD FEBZOOO—-APRROVO HAYRZO00—JULEOOO 1606 —140W —120T — 100M — Bo0w Figura 1. Previsões de anomalias de temperatura da superfície do mar, novembro de 1999 a julho de 2000, atualização de 10 de novembro de 1999, NCEP/ CMB/NOAA.

El Revista Plantio Direto - Edição 54 - Novembro/Dezembro de 1999 o nos episódios El Nifo, quan- LaNiãa Moto ttues: aero E todo El Nifio E TÉCEN ente que nem até abril do ano 2000 está sendo preato Grosso do Sul. . ; Necessariamen- : 2 :vos para te, im ; n Vista tanto gal! Consideran do se os dados de pactos negativos sobre o EB por modelos estatísticos 0 de tricomersgad mento da cultura de triso : como de acoplagem oceano-atmosfeandimento e trigo agregados no O nível de AEE Brasil. ra, por exemplo o do NCEP, atualizaten no período de 1920,a 1097, — 2 Dpactovaidependermois — doem10d Bras! se que o Rio Grande do Sul o da intensidade do fenômeno eda —“t RR pr - E O - E Paraná 2m maior influência na S nSSe causada no regime de chu- À Aeee baia “ .. Se Brasil. a e Ar Fr . ; SECNAdO ue . E , 9, : ticas de trigo que, para quantificação d : ; OSIÇÃO das estalis 8 i aa: ção de expectativ E nível nacional. Assim, há uma N—.. 98 episódios podem ser clas- Sa tr de SAT xi E scanci T Ificados como frac : À ão aos evento , quanto Ortes. o relaçã : Pelo axposto, an funes anos de El Nifio (tipo 1997/98, por às chances de trazerem impactos po- representado nal em função do peso exemplo). Pelo menos até janeiro de sitivos SObre O rendimento da cultura SOS e pelos estados do sul na 2000, a tendência é de chuvas próxide trigo no Brasil. produçao brasileira de trigo, fica evi- mas da média histórica; conforme o Os dados da Tabela 1 mostram que, no Brasil, nos 23 episódios El Nino analisados, em 61 % deles os desvios nos rendimentos foram negativos. Nos eventos La Niõa (15 eventos considerados) ocorreu o inverso, pois em 73 % dos casos os desvios no rendimentos foram positivos, ou seja, acima do esperado. Nos 40 anos considerados neutros, em 55 % das vezes os desvios foram positivos e em 45 % das restantes, negativos.

O comportamento da variabil1- dade dos rendimentos de trigo no Brasil, frente às fases do fenômeno ENSO, pode ser explicado pela infludente o maior risco para essa cultura, nos anos que o fenômeno El Nifo está atuando. As chances maiores de impactos climáticos positivos ocorrem nos anos de La Nifia, seguidos dos anos neutros, devido ao comportamento do regime de chuvas no sul do Brasil em associação com as fases do fenômeno ENSO. Uma discussão detalhada dos impactos das fases do fenômeno El Nifio-Oscilação do Sul sobre a cultura de trigo no Brasil pode ser encontrada em Cunha et al. (1999). Esta expectativa foi confirmada na safra de 1999, tanto em rendimento com em qualidade, pelo menos nas Boletim Infoclima, ano 6, número 11, de 18 de novembro de 1999, do Cptec-Inpe.

Por isso, em anos como este, mais do que nunca, valem as orientações relacionadas com manejo de culturas voltadas à redução de riscos climáticos, particularmente os causados por seca. Por exemplo: diversificar épocas de semeadura, plantar cultivares de ciclos diferentes, optar por culturas mais resistentes ao estresse hídrico (sorgo comparativamente ao milho, quando for o caso), plantar quando há umidade no solo suficiente para garantir o estabelecimento da ência que o mesmo éxerce nas ano- primeiras colheitas. cultura, usar sistemas que conservam malias de chuva nos períodos de pri- a umidade no solo (plantio direto na mavera e de começo do verão, no Sul Perspectivas palha em relação ao sistema convencional), ficar atento ao nível de dano econômico causado por pragas, entre do Brasil. Esta região concentra, no Paraná e no Rio Grande do Sul, gran- climáticas para de parte da produção nacional. E ex- a safra de 1999-2000 outras. Acima de tudo, definir o nível cesso de chuva para o trigo, como tecnológico a ser empregado a partir ocorre em anos de El Nifo, cria con- O boletim Enso Diagnostic de riscos climáticos conhecidos. dições de ambiente favoráveis para O Advisory, liberado pelo Climate desenvolvimento de doenças, além do Prediction Center em 10 de novem- Internet encharcamento do solo e da redução bro de 1999, destaca que as condições de luminosidade, verificados em pe- de um episódio La Nifia dominaram Várias informações e artigos soríodos chuvosos, diminuírem o cres- o Oceano Pacífico tropical, durante O bre El Nifio e La Nifia e suas aplicacimento das raízes e da parte aérea mês de outubro. As anomalias de tem- ções na agricultura do Sul do Brasil (massa seca), influindo negativamen- peraturas da superfície do mar fica- encontram-se disponibilizadas no A te nos componentes de rendimento. ram entre -0,5 e -1,5 ºC, indicando Internet O DNA Aeticltcra No evento El Nifio de 1997, foram es- uma condição que tem persistido des- o aa O io, d audendo St timadas perdas de 568.641 toneladas de junho de 1998 e é provável que se SO Cbeedas” h . ds reço: http:// na safra agrícola da Região Sul. Des- mantenha nos próximos meses. . vwenpt.embrapa.br/agromet.htm. í total, 82 % era referente à cultura —— .ontinuidade do atual evento La Nifa e trigo.

Revista Plantio Direto - Edição 54 - Novembro/Dezembro de 1999. e eee eee Pe íSôl!O*%ê!|:!|-i“sm=