Perguntas e Respostas sobre o Tamanduá-da-Soja


Autores:
Publicado em: 01/02/2000

Perguntas e respostas sobre o tamanduá-da-soja

Pragas

Perguntas e respostas sobre o tamanduá-da-soja

Dirceu N. Gassen Pesquisador da Embrapa-Trigo, Passo Fundo, RSE-mail: gassen@cnpt.embrapa.br

Qual a origem do tamanduá-da-soja? O tamanduá-da-soja, Sternechus subsignatus (Col., Curculionidae) foi constatado em soja no município de Marau, RS, em 1965, por E.M. Reis. Em 1972 foi citado por E. Corseuil como praga esporádica em soja. O inseto também ocorre na Argentina, Paraguai e Uruguai. No Brasil é citado nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Na Bolívia ocorre inseto com biologia e danos similares e identificado como S. pinguis.

Qual é o ciclo biológico da praga? O ciclo biológico completa-se em um ano. A postura é realizada no caule ou nas hastes de soja e de feijão, a partir do fim de dezembro e até fevereiro. As larvas emergem e penetram no xilema das plantas causando engrossamento típico (calo). Completam a fase larval em março e abril. Após chuvas, caem das plantas e penetram no solo onde constróem uma câmara de terra endurecida e impermeável. A partir do fim de outubro e início de novembro passam a fase de pupa na câmara larval no solo. Os adultos emergem do solo a partir de novembro apresentando a estrutura do corpo desenvolvida e capacidade de deslocar-se caminhando. Nessa fase os músculos de vôo e os ovários ainda encontram-se reduzidos. Após sair do solo, os adultos alimentam-se avidamente de soja, feijão e outras leguminosas, durante uma semana, para desenvolver os músculos de vôo e disseminar. A diapausa de outono e de inverno na fase de larva é uma adaptação para o frio no sul e para o período seco nos cerrados.

Quais são as plantas hospedeiros e os inimigos naturais do inseto? Pouco se conhece sobre as plantas hospedeiras nativas e sobre os agentes de controle biológico natural. Os adultos alimentam-se de Eriosema sp., uma leguminosa nativa em campos dos planaltos do Sul do Brasil. Larvas semelhantes as de Sternechus e danos de anelamento e de engrossamento de caule ocorrem em mata-campo ou assa-peixe (Vernonia sp., família Compostae). O tamanduá-da-soja parece ser nativo de áreas com vegetação rasteira e não de florestas ou arbustos. A soja é uma planta hospedeira nutritiva, cultivada em escala e perfeitamente adaptada ao ciclo biológico da praga. A ocorrência de inimigos naturais é esporádica sendo constatados moscas, vespas e nematódeos parasitos e alguns predadores de larvas. São pouco eficientes no ecossistema de lavouras extensivas de soja.

Figura 1. Época de ocorrência de adultos, ovos, larvas e pupas do tamanduá-da-soja, Sternechus subsignatus, no sul do Brasil (Gassen 1987).

Qual a influência do clima na biologia do inseto? As estiagens na fase em que as larvas caem da planta e penetram no solo, em fevereiro e março, podem causar elevada mortalidade do inseto. Na fase de diapausa larval (abril a outubro) sofrem pouco efeito de elementos climáticos. A falta de umidade no solo em novembro e dezembro dificulta a emergência e pode causar a morte de adultos.

Como amostrar e determinar a presença de larvas no solo? Durante os meses de outono, inverno e início da primavera as larvas encontram-se em diapausa, no solo, junto à fileira de soja infestada da safra anterior. Basta raspar o solo com o auxílio de uma enxada, até chegar a camada adensada. As larvas de Sternechus encontram-se em câmaras, em torno de 10 cm de profundidade e 3 cm dentro da camada compactada de solo.

As larvas podem ser confundidas com outros insetos no solo? As larvas do gorgulho-do-solo, Pantomorus sp. apresentam tamanho e coloração geral do corpo semelhantes aos de Sternechus. A larva do gorgulho-do-solo caracteriza-se por alimentar-se de partes subterrâneas de plantas, movimentar-se ativamente no solo e apresentar a cabeça retrátil destacando apenas as mandíbulas de coloração preta. A larva do tamanduá-da-soja alimenta-se do xilema na parte aérea de plantas, onde produz engrossamento (calo) típico. No solo, encontra-se dentro de câmara larval, apresenta movimentação lenta, característica de dormente, corpo amarelado e cabeça marrom diferenciada do corpo. Ela não se alimenta de partes subterrâneas de plantas.

A praga poderá chegar ao cerrado? A cultura da soja adapta-se perfeitamente ao ciclo biológico e as necessidades de alimento do inseto. Já foram constatados danos severos em lavouras de soja na Bahia, em Minas Gerais, no Mato Grosso, no Mato Grosso do Sul, em Goiás e em Tocantins. A diapausa na fase de larva e de pupa, em câmaras no solo, desde o outono até a primavera e a intensa atividade biológica a partir de novembro até o fim do verão indica a adaptação do inseto à distribuição de chuvas nos cerrados.

Qual a distância de vôo e de disseminação do adulto? Observações preliminares indicam que distância de vôo pode alcançar dezenas de quilômetros. A disseminação depende do vigor do inseto e da disponibilidade de plantas hospedeiras adequadas para a oviposição. A disseminação e a capacidade de vôo dependem da qualidade do alimento e do vigor do inseto. Após o desenvolvimento dos músculos de vôo e da disseminação, fim de dezembro, ocorre o desenvolvimento do ovário e a reprodução.

Qual é a estratégia de manejo da praga? Monitorar a lavoura de soja, identificando as áreas com maior infestação de larvas, no verão, e adotar a rotação de culturas cultivando, no ano seguinte, milho, sorgo, girassol ou pastagens. Nas bordas das áreas onde foi adotada a rotação de culturas, semear algumas fileiras de soja ou de feijão como armadilha de atração. A partir de meados de novembro, deve-se monitorar a presença de adultos do tamanduá-da-soja e aplicar inseticidas quando encontrar mais de um inseto por metro de fileira. Assim, reduzindo a população para o ano seguinte. Se não for feito o controle nas bordas, os adultos disseminarão para outras áreas e poderão voltar para a mesma área quando cultivada com soja ou feijão.

Qual a rotação de culturas mais indicada para o controle da praga? Nos primeiros dias após a emergência os adultos são ávidos por feijão, soja e outras leguminosas. Não se alimentam de girassol, de algodão, de milho, de sorgo e de outras gramíneas. Na ausência de alimento adequado, os insetos adultos saem da lavoura caminhando até às bordas ou até encontrar alimento adequado. As gramíneas e outras culturas diferentes da soja e do feijão são indicadas como alternativa de rotação de culturas para o controle da praga.

Quais os inseticidas indicados para o controle do tamanduá-da-soja? O controle é indicado para insetos adultos. Os ovos, as larvas na planta ou em diapausa no solo e as pupas são de difícil controle. Em lavouras de soja, por causa da emergência de adultos durante um mês (novembro a dezembro), podem ser necessárias aplicações com intervalo de uma semana. Os inseticidas, seguidos da dose de ingrediente ativo (g/ha), testados para o controle do tamanduá-da-soja são: clorpirifós 480, deltametrina 7,5, fenitrotiom 1000, fosfamidom 600, metamidofós 480, monocrotofós 200, permetrina 50 e profenofós 500. É importante destacar que apenas uma formulação de metamidofós encontra-se registrada para controle desta praga no Ministério da Agricultura e Abastecimento.