A questão do efeito estufa e o plantio direto
Seqüestro de Carbono
A questão do efeito estufa e o plantio direto
Poderemos cobrar por não lavrarmos mais o solo? Qual o potencial de seqüestro de carbono que a não lavração do solo e a utilização do plantio direto no Brasil, com o conseqüente aumento da matéria orgânica, podem proporcionar ao balanço de gás carbônico na atmosfera mundial ? Esta é uma resposta fundamental, que talvez já exista, para as nossas pretensões de participar no fantástico mercado que dá passos vigorosos na direção do seu estabelecimento mais definitivo. Falamos do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), através do qual os países industrializados podem investir nos países em desenvolvimento em projetos que promovam o seqüestro de carbono da atmosfera, contabiliza como redução líquida de suas emissões, destacando-se projetos de reflorestamento e de proteção de florestas naturais. Países como México, Costa Rica e Bolívia já estão se beneficiando desse mecanismo. Agricultores canadenses que utilizam o plantio direto também negociam a retenção de carbono em suas propriedades com as indústrias que utilizam carvão e que emitem quantidades significativas de CO2 na atmosfera. No Brasil, alguns setores governamentais e da área privada começam a estudar as fórmulas de participar dessa nova e milionária perspectiva de mercado. As associações de produtores ligadas ao plantio direto, precisam, com urgência, definir qual o potencial e as ações necessárias para que possa usufruir desse novo manancial de recursos econômicos. Sabe-se que a área governamental não tem a agilidade necessária, principalmente quando se trata de interesses ligadas à agricultura, por isso devemos agir e não nos queixarmos depois que o governo não fêz nada.
Efeito Estufa Segundo matéria especial sobre a questão, publicada pela Revista AgroAnalysis, da Fundação Getúlio Vargas, na edição de novembro de 1999, a Conferência de Kyoto, realizada em dezembro de 1997 reuniu-se para definir as metas de redução da emissão de gás carbônico na atmosfera, principalmente dos países desenvolvidos do hemisfério norte. Os primeiros passos para enfrentar o problema haviam sido dados na Conferência Rio-92, quando 150 países assinaram a Convenção sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas. Naquela ocasião, já estavam claras as preocupações com o efeito estufa e a elevação da temperatura global, cujas conseqüências são os furacões, enchentes, secas e a elevação dos níveis dos oceanos. Cada vez mais se relacionam as crescentes concentrações de CO2 na atmosfera com mudanças climáticas de dimensões e custos imprevisíveis, expressos nas conseqüências sociais e econômicas provocadas por fenômenos climáticos nos últimos tempos. A queima de petróleo e de carvão (cerca de 50% do total de CO2 emitido para a atmosfera), agregados com a queima de florestas, transporte e consumo doméstico são responsáveis pelo acréscimo de 21 bilhões de toneladas de gás carbônico na atmosfera do planeta. Como se trata de um gás de circulação global, tanto a sua emissão como a sua absorção independem da origem e do local onde foi gerado. Esse fato está abrindo uma nova opção de mercado ambiental, principalmente para países em desenvolvimento e localizados em regiões tropicais. O Brasil é reconhecido por especialistas internacionais como um dos países de maior capacidade de resgate de CO2, além de apresentar baixo nível de emissão, menos de 0,5 t/habitante/ano, enquanto nos Estados Unidos, que é o maior emissor, a relação é de 6 mil t/habitante/ano.
Plantio Direto Segundo o pesquisador Dirceu Gassen, da Embrapa Trigo, em artigo publicado recentemente, a maior parte da população desconhece as profundas mudanças introduzidas na agricultura brasileira com o plantio direto, entre elas a redução em mais de 90% na erosão, o aumento dos teores de matéria orgânica no solo e a redução de 60% no consumo de combustíveis fósseis. Estes dois últimos itens estão ligados diretamente com a redução de CO2 na atmosfera e diminuição do efeito estufa. Segundo cálculos citados por Gassen, numa área estimada de 12 milhões de ha sob plantio direto em todo o país, é possível supor que, com o aumento de 1% no teor de matéria orgânica, proporcionado pelo plantio direto, ocorre a fixação de mais de 100 milhões de toneladas de carbono, extraídas do ar e fixadas no solo. ”O exemplo do plantio direto, afirma ele, evidencia que a agricultura, além de produzir alimentos, assumiu na prática os compromissos da Eco-92 com a sustentabilidade ecológica dos sistemas agrícolas, com reflexos mais amplos e globalizados.” No caso do Brasil, o emergente mercado do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo é uma possibilidade concreta de adicionar valor e de remuneração extra não só aos produtores que utilizam plantio direto mas a uma extensa gama de atividades agrícolas. Na prática, o mercado de cotas de resgate de gases responsáveis pelo efeito estufa já é realidade e a própria bolsa de Chicago tem cotação básica estimada de US$ 10,00/t de carbono, sendo interessante notar que, quando se trata de outros gases, como o SO2, a cotação pode chegar a US$ 90,00/t. Segundo um dos articulistas da AgroAnalysis, além de decisivo para a competitividade da agricultura brasileira e de representar importante alternativa futura para o financiamento dos agronegócios, a fixação de carbono significa oportunidade de valorizar a imagem institucional da produção rural, destacando sua contribuição positiva para o melhoramento ambiental do planeta.”