Plantio direto aumenta quantidade de substâncias húmicas no solo
Seqüestro de Carbono
Plantio direto aumenta quantidade de substâncias húmicas no solo
”Existem evidências de que, ao aumentarmos a quantidade de substâncias húmicas, poderemos incentivar a fixação de carbono no solo. Agricultores de países como o Brasil podem se beneficiar com o aumento de húmus na sua extensa área agrícola e a possibilidade de renda adicional pela escala de carbono fixado no solo, desde que alguém pague por isso.” As declarações são do professor Alessandro Piccolo, do Departamento de Ciências de Química Agrária, da Universidade Federico II, de Nápoles, Itália, um dos conferencistas do 3º Encontro Brasileiro Sobre Substâncias Húmicas, realizado em novembro, na Universidade de Santa Maria, promovido pelo Departamento de Solos daquela instituição. O Dr. Piccolo também participou de visita à Fazenda do engenheiro agrônomo Ulfried Arns, em Cruz Alta, juntamente com o Dr. Donald Reicosky, dos Estados Unidos, e outros pesquisadores da área agrícola, conforme matéria publicada na edição anterior da Revista Plantio Direto. ”Como compensação às fontes antropogênicas (resultante da ação humana) de gases causadores do efeito estufa na atmosfera terrestre, a atividade agrícola desempenha importante função no controle da emissão e fixação desses gases”, afirmou o pesquisador italiano durante a visita a Cruz Alta, no final de novembro. Segundo ele, a utilização do solo através de práticas agrícolas intensivas, como lavrações e gradagens, e o desmatamento aumentaram a transferência de carbono da biomassa e da matéria orgânica do solo para a atmosfera, na forma de CO2. Para o Dr. Piccolo, a resistência de substâncias húmicas hidrofóbicas à degradação por microorganismos pode ser a base para a redução da emissão de CO2 dos solos. Resultados de pesquisas por ele conduzidas indicam que o aumento dos teores de matéria húmica hidrofóbica no solo pode diminuir a emissão de CO2 das áreas agrícolas, significando importante ferramenta para suavizar o efeito estufa. A seguir, alguns dos principais tópicos da entrevista que o Dr. Piccolo nos concedeu durante sua estada em Cruz Alta.
Alessandro Piccolo: ”O processo de fixação de carbono e de estabilidade da atividade biológica só é possível através do plantio direto com palha”.
Substâncias húmicas
Revista Plantio Direto - O que são substâncias húmicas e qual a sua importância na agricultura? Alessandro Piccolo - Na Universidade Federico II, em Nápoles, eu trabalho com substâncias húmicas e ácidos húmicos, que são os componentes mais estáveis da matéria orgânica. A química das substâncias que fazem parte da degradação da matéria orgânica ainda é desconhecida, e o desafio do meu trabalho é aprofundar o conhecimento sobre elas. O estudo da química começou há 200 anos com a matéria orgânica mas, por causa da complexidade das substâncias que a envolvem, nós ainda não atingimos um nível de conhecimento suficiente sobre o que é húmus. Na realidade, trata-se de uma substância muito mais complexa para interpretar do que uma molécula de nitrato, por exemplo. Existem inúmeros pesquisadores de todo o mundo tentando estudar e conhecer mais sobre a estrutura química dessas substâncias no solo e no ambiente.
Revista Plantio Direto - O que já se sabe até o momento sobre elas? Alessandro Piccolo - Nós já sabemos que parte crucial da compreensão do seu funcionamento está ligada ao grau de hidrofobicidade das substâncias relacionadas ao húmus. Descobrimos que quanto mais hidrofóbicas, mais estáveis são as substâncias húmicas. Assim, o objetivo é aumentar a hidrofobicidade da matéria orgânica no solo para aumentar e tornar mais estável a sua presença. A história dos ácidos húmicos é complexa e difícil de descrever num curto espaço de tempo. Nós queremos que o carbono seja retido no solo e que permaneça estável na forma de húmus. As substâncias mais lábeis, como açúcares, carbohidratos e proteínas são prontamente mineralizadas pelos microorganismos e o carbono é liberado para a atmosfera, enquanto as substâncias húmicas são mais estáveis e mineralizadas mais lentamente.
Revista Plantio Direto - Qual a função do plantio direto nesse processo? Alessandro Piccolo - O objetivo é criar um estado de constante e estável degradação de material orgânico, garantindo a continuidade e a sobrevivência dos microorganismos, com o acúmulo de frações húmicas no solo, que são, na verdade, o processo de fixação de carbono e de estabilidade da atividade biológica. Isso só é possível através do plantio direto com palha. Ele garante o aumento de substâncias e ácidos húmicos, que melhoram a estabilidade dos agregados, fixam alumínio, aumentam a porosidade do solo e a troca de gases e de água, auxiliando no importante processo de fixar substâncias lábeis e transformá-las em não lábeis.
Revista Plantio Direto - O que pode modificar na correção da acidez do solo? Alessandro Piccolo - Nós sabemos que o plantio direto aumenta as produtividades mesmo com a redução do uso de calcário. As substâncias húmicas tem a capacidade de fixar o alumínio do solo, o que elimina a necessidade de utilizar o corretivo e significa uma mudança importante na forma tradicional de fazer agricultura. No futuro, possivelmente, buscaremos um equilíbrio na produção utilizando estratégias combinadas com o uso de substâncias húmicas naturais, produtos químicos sintéticos e fertilizantes. O húmus, na realidade, é uma dádiva de Deus, embora precise ser melhor estudada. Em alguns países, onde há necessidade de reduzir o uso de fertilizantes, já se chegou a aumentos de 30% na produção graças à utilização de ácidos húmicos solúveis, que auxilia na eficiência dos fertilizantes químicos. Este processo, em síntese, também é possível de concretizar utilizando o plantio direto, que aumenta os teores de matéria orgânica e de substâncias húmicas. Como conseqüência, é possível prever redução no uso de fertilizantes químicos, aumento na atividade biológica e fisiológica da planta e maior rendimento, além de aspectos positivos na fixação de carbono e melhoria na estabilidade física, química e biológica do solo.