Franceses Também Vieram Ver Nosso Plantio Direto


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Publicado em: 01/02/2000

Franceses também vieram ver nosso plantio direto

PD Global

Franceses também vieram ver nosso plantio direto

A França é a segunda potência agroalimentar do mundo, utilizando uma área de 40 milhões de ha, dos quais somente cerca de 10 mil ha utilizam o plantio direto, que eles chamam de Tecnologia Cultural Simplificada, pois elimina a série de práticas, como arações e gradagens, que a grande maioria dos produtores ainda utiliza em todo o país. Alguns produtores da região da Bretanha e do Rio Loire, que estiveram visitando o Brasil, no final de janeiro, já estão se conscientizando das vantagens que o plantio direto apresenta, principalmente na redução dos custos de produção, mantendo a mesma produtividade. A caravana de franceses, que veio ver de perto o plantio direto das diversas regiões agrícolas brasileiras, era composta de produtores independentes e técnicos ligados a AFD - Agência Francesa de Desenvolvimento, uma instituição que financia projetos agrícolas para países da África, do Caribe e da Ásia, principalmente aqueles que foram colônias francesas no passado. No Brasil, o grupo de 14 pessoas teve como guia Lucién Seguy, engenheiro agrônomo francês do CIRAD - Centro de Cooperação Internacional em Pesquisas Agronômicas, que trabalha com pesquisa e desenvolvimento de plantio direto no Cerrado, a partir de sua sede em Goiânia-GO. Seguy é um técnico dedicado e o seu trabalho extrapola o nosso continente, pois todos os anos ele realiza palestras e assessorias na França e países da África. ”Os agricultores franceses que estão nos visitando vieram buscar informações sobre o nosso plantio direto, visando maior redução nos custos de produção”, disse Lucién Seguy. Segundo ele, esses produtores já conseguiram reduzir significativamente o custo da lavoura de trigo e de outros cereais, utilizando o que eles chamam de tecnologias simplificadas, um similar do nosso sistema, mas estão curiosos para ver como os brasileiros conseguiram desenvolver tecnologias e maquinários adequados para o sucesso do plantio direto em condições de clima temperado e subtropical. ”Eu também sou agricultor na França e estou preocupado com a conservação do patrimônio solo”, disse Seguy, numa entrevista com alguns dos membros da delegação, em que ele foi um ardoroso intérprete. ”Como francês, estou gritando pela falta de uma gestão duradoura na conservação do solo, pois parece que esqueceram disso, os problemas econômicos esconderam a gestão do meio físico. Hoje, todos sabem que a Europa e os Estados Unidos estão com os lençóis freáticos cheios de nitratos e agrotóxicos!” Por outro lado, Lucién Seguy estava muito satisfeito em ver, pela primeira vez, representantes da AFD visitando o Brasil, pois ele e outras pessoas conseguiram convencê-los a ver com os próprios olhos a verdadeira revolução no manejo do solo que está ocorrendo numa região de ecologia tropical. ”Se eles não viessem ver de perto o que estava acontecendo, eles poderiam ficar à margem da moderna agricultura!”, sentenciou ele.

Solos Mortos

Apesar do entusiasmo dos agricultores que utilizam a tecnologia cultural simplificada, com a qual conseguiram melhorar a vida do solo e reduzir o custo da lavoura de trigo pela metade, a maioria dos produtores franceses ainda tem restrições ao plantio sem preparo porque colhem altas produtividades e recebem subsídios generosos, situação que acaba mascarando a realidade da degradação do solo. Alguns produtores tem sido assustados em relação ao estado de suas propriedades, quando recorrem ao trabalho de assessoria e pesquisa da empresa do engenheiro agrônomo e pesquisador Claude Bourguignon. ”O solo está morto!”, alerta o pesquisador, que criou um método para medir a atividade biológica do solo. Ele fez um levantamento bastante pessimista do solo agrícola francês, por causa da perda quase total da fauna, em conseqüência da queda do teor de matéria orgânica. Bourguignon é formado em agronomia pela Universidade de Paris, com pós graduação na Universidade de Los Angeles, nos Estados Unidos, sendo especialista em microbiologia do solo, mais especificamente em fixação biológica de nitrogênio na cultura do tremoço. Ele é um dos principais difusores do plantio direto na França, através do seu trabalho de assessoria que consiste primeiramente na avaliação do perfil cultural da lavoura em termos físicos, químicos e biológicos. A partir das análises em laboratório, ele faz um plano em conjunto com o produtor, direcionando para a recuperação da vida no solo, que passa basicamente por cobertura do solo e rotação de culturas. ”Nos anos 70, a hipótese dos pesquisadores era de que a microbiologia não tinha valor algum”, disse Claude Bourguignon, durante a entrevista à Revista Plantio Direto. Ele e sua esposa, que também trabalha na área de biologia, foram dispensados depois de 10 anos de atividades no INRA, o Instituto francês de pesquisa agrícola. A partir dos anos 80, eles criaram uma consultoria privada e o laboratório Laboratório de Análises Microbiológicas do Solo. Eles desenvolveram um método que permite avaliar os índices da atividade microbiana no solo e apontar as necessidades em termos de biomassa. ”As primeiras iniciativas de reduzir as operações de lavoura e de utilizar preparo mínimo de solos foram de alguns agricultores, disse ele. Quando analisei a atividade biológica dessas áreas, notei que já havia retorno de vida, ao contrário daquelas áreas com intenso preparo cujos solos se encontravam mortos. Principalmente a partir dos últimos 3 anos, quando se diz para um agricultor, dentro de uma trincheira: o teu solo está morto!, ele tende a tomar consciência da necessidade do retorno da atividade biológica.” Claude Bourguignon tem sido um dos grandes incentivadores do plantio direto na França. Ele demonstra aos produtores que os microorganismos são importantes na geração de óxidos, nitratos e fosfatos, que ajudam na alimentação das plantas. Segundo ele, para o solo ter oxigênio precisa de galerias feitas por insetos. Se o solo é morto, há necessidade de comprar o fosfato e o nitrato. Os agricultores que utilizam o plantio direto ( TCS - tecnologia cultural simplificada), já perceberam que a vida no solo proporciona a possibilidade na redução do uso de fertilizantes, sem afetar os níveis de produtividade.

Produtores independentes e técnicos ligados a AFD, visitaram a fazenda de Luiz Graeff Teixeira, em Passo Fundo-RS.

Javalis, subsídios e produtividade

O produtor Jean François Sarreau é proprietário de 100 ha em Champagne e 180 ha em Bretanha. O principal problema dele era a organização do trabalho, pois ele possui uma avicultura destinada à produção de ovos, e o preparo convencional não lhe permitia a organização racional do tempo. Na fazenda da Bretanha, ele planta milho durante 4 anos, depois trigo, colza, trigo ou aveia, trigo e novamente a sucessão de lavouras de milho durante 4 anos. Em Champagne, onde o clima é seco, a rotação é colza-trigo-cevada, uma cultura por ano. ”A primeira vez que fiz a semeadura sem preparo, disseram que eu era louco”, relatou Sarreau, na entrevista com alguns dos membros da delegação Francesa, durante a visita a Passo Fundo. ”Os vizinhos não viram quando foi feito o plantio e, como havia palha sobre o solo e o aspecto da lavoura não era nada semelhante ao que se observava no preparo tradicional, circulou a notícia de eu havia colocado javalis para fazer a semeadura, pois havia uma mistura de palha, terra e as linhas de semeadura. Quando viram a semeadora enorme passando pelo povoado, coisa que não tinham visto antes, muitos foram atrás, afirmando que eu realmente era mais louco do que imaginavam, e todo dia alguém ia na lavoura para ver se o milho tinha nascido.” Durante a entrevista, conduzida por Lucién Seguy, na qual participaram os produtores Jean François Sarreau e Michel Sauvageot, o pesquisador Claude Bourguignon e Denis Loyer, agrônomo da AFD, muitos aspectos interessantes sobre plantio direto e a agricultura francesa em geral foram comentados. Aqui, alguns itens relatados pelos visitantes franceses:

Revista Plantio Direto - Como funciona o trabalho da Agência Francesa de Desenvolvimento? Denis Loyer - A AFD trabalha em países da Ásia, África e Caribe desenvolvendo projetos agrícolas, principalmente para produtores pequenos e de baixa renda. Normalmente atuamos em regiões de agricultura familiar, onde a subsistência é a regra. Se sobra alguma coisa, eles vendem. A missão no Brasil é ver a similaridade de situações, onde as ecologias são parecidas e o que foi feito em termos de agricultura sustentável, para que possamos levar essas tecnologias aos demais países necessitados. O trabalho tem sido bem sucedido, como em Madagascar, onde Lucién Seguy e outros técnicos e produtores brasileiros estiveram em missão de apoio.

Revista Plantio Direto - Quais as produtividades dos agricultores que utilizam plantio direto? Qual o valor que recebem de subsídios governamentais? Jean François Sarreau - Na cultura do trigo, por exemplo, nós recebemos cerca de US$ 200,00/ha. Nossa produtividade em trigo e milho situa-se em torno de 7.000 kg/ha, mas estamos reduzindo os custos, que é nosso objetivo principal. Antes colocávamos mais de 200 kg de N, hoje aplicamos apenas 60 k e mais cama de aviário, e a produtividade não se alterou. Os vizinhos colhem mais, 9.000 de trigo, mas o custo deles é o dobro. Hoje, nós conseguimos comprar mais 10 ha de terras a cada ano, e isso é o resultado do bom desempenho do plantio direto.

Revista Plantio Direto - A erosão e a degradação do solo é o principal problema na sua região? Jean François Sarreau - Na França, o problema da erosão é grande, mas na nossa região não. Nosso maior problema era a organização do tempo e do trabalho, além dos aspectos relacionados a custos. A gestão do trabalho foi importante e nós conseguimos isso com a introdução do sistema de Tecnologias Culturais Simplificadas.

Revista Plantio Direto - É possível fazer agricultura sem subsídios? Lucién Seguy - O Brasil, pela necessidade, foi obrigado a criar uma agricultura, hoje integrada no processo de globalização, sem subsídios. Já a Europa, está sentada sobre uma bomba relógio, em função da possível retirada das subvenções. A França e a Europa estão olhando para a América Latina, para ver fórmulas de desativar essa bomba relógio. As políticas agrícolas da Europa são ditadas pelos tecnocratas e muitas vezes desagradam aos agricultores. E, olhando o que está acontecendo no Brasil, eles começam a se perguntar se fizeram as coisas erradas durante esse tempo, principalmente na gestão do patrimônio solo.