Tempo e clima como instrumento de tomada de decisão Meteorologista, Diretor Técnico da SOMAR Meteorologia, São Paulo - SP E-mail: paulo O somar.met.com.br À origem Desde os primórdios, no leste da África, há cerca de cinco milhões de anos, esforços para dominar o clima e melhorar as condições de conforto foram arduamente empenhados pela humanidade. Conhecer e dominar o comportamento da atmosfera tem sido um constante desafio do homem moderno.
Ão longo dos tempos, o ser humano adaptou suas inúmeras atividades ao ciclo natural do clima que, num período de um ano e para grande parte do globo, oscila entre dois extremos, o verão e o Inverno. O clima tropical, típico de grande parte do território brasileiro, oscila também entre os perio- Círculos representam 0$ eventos extremos peratura da Superfície do Mar (CC) Central, no período de 1970 EE Revista Plantio Direto - Edição 56 - Março/Abril de 2000 ai | a A | dos seco e chuvoso. Este “modus operandi esperado, e que constitui o ciclo sazonal, pode ser substancialmente perturbado em certos anos, sobretudo nas regiões situadas na faixa tropical. Essa = perturbação está diretamente relacionada ao modo como as camadas superficiais do Oceano Pacifir co Equatorial e a Atmosfera estão acoplados. Mudanças nos ventos induzem modificações nãs correntes oceânicas que afetam as temperaturas na superfície do mar, que por sua vez determinam onde ocorrerão as chuvas. Essas mudanças nâ localização das chuvas implicam em modificações dos ventos que, novamente, afetam as correntes = oceânicas, fechando assim um ciclo. Esse cielo tem duas fases: a fase quente conhecida comº 2 Nifio, e a fase fria conhecida como La Nifaã. No caso do El Nião é quando todo o Ocean Pacífico Equatorial está aquecido e as chuva? ocorrem sobre a parte central e leste, próximo 2 costa oeste da América do Sul. Já a La Nina ocor À re quando, no centro e leste do Pacífico Equator | al, se observam águas mais frias e ausência . Chuvas. Esse comportamento do Pacífico Ea torial não é regular, em média de 3 a 7 anos pá... | se observa um ciclo completo. A figura 1 a senta a anomalia mensal da temperatura 0â ?- perfície do mar sobre o Oceano Pacífico Equê al Central durante o período de 1970 à 1999, e constata-se a irregularidade desse ciclo é SS cisó rência de sete episódios de EI Nifo e sete SPP Om dios de La Nifa, nesses últimos 30 anos por As fases extremas de El Nino ela NINA Opostas em várias partes do globo, * te na regiões tropicais e subtropicais.
Região Sul é afetada com chuvas acima do normal na primavera/verão do ano que começa o El Nifio e no outono/ inverno do ano seguinte, enquanto o leste da Amazônia e o norte da região Nordeste são afetados por secas. O El Nifio também é responsável por temperaturas mais altas durante o inverno nas Regiões Sul e Sudeste. Em anos de La Niha ocorrem secas no Sul e, em partes, favorece as chuvas no Nordeste, cuja qualidade da estação chuvosa(fevereiro a maio) depende também das condições do Oceano Atlântico. Exemplos recentes e marcantes do La Niha foram as secas intensas vividas pela Região Sul, sobretudo o Rio Grande do Sul, nos últimos dois anos.
Novas Tecnologias Nos últimos anos a Meteorologia tem apresentado avanços significativos. A observação do tempo tem se automatizado cada vez mais e as previsões de tempo, mais acuradas com o uso de modelos numéricos, estenderam seus prazos de validade. A evolução da Meteorologia está intimamente ligada ao desenvolvimento e à aplicação de novas tecnologias. O continuo aperfeiçoamento dos computadores, das telecomunicações, dos instrumentos de medidas “in situ” e remotos, como os radares e satélites, está alterando profundamente as rotinas de trabalho dos serv!- ços meteorológicos modernos em todo o mundo.
Países como os Estados Unidos, Canadá, Japão e os do Continente Europeu, para citar alguns exemplos, beneficiam-se de informações sobre a variabilidade climática nas escalas sazonal a interanual e de previsões de tempo para até 10 dias, com enorme Impacto no planejamento de suas atividades produtivas dos setores público e privado. No Brasil, com a implantação do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos(CPTEC) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), seguramente trouxe melhorias na qualidade das previsões do País e nos coloca em grau de equivalência aos países desenvolvidos. Portanto, está colocado o desafio de Incorporar esses novos conhecimentos nos diferentes processos de tomada de decisao e, em especial, ao setor agrícola cujo calendário depende diretamente do clima. Hoje já é possível prever com boa mar- Figura 2. Previsão de Anomalia mensal da Temperatura da Siperfície do Mar (ºC) ao longo do Oceano Pacífico Equatorial, para o perído de Abril de 2000 a Janeiro de 2001. Fonte (NCEP/NOAA).
gem de confiança as condições oceânicas no Pacífico com até um ano de antecedência. Portanto, o zoneamento climático que define o calendário agrícola não mais pode ser considerado como uma média climatológica de uma série de dados, onde anos de El Nifo e anos de La Niha são tratados igualmente.
Tendências Climáticas Nos últimos três anos vivemos sob efeitos de episódios climáticos bem distintos. Em 1997/98 tivemos o El Ninho mais intenso do século, que nem bem tinha acabado e ainda no 2º semestre de 1998, já sentíamos os efeitos do fenômeno La Nifia, que se prolongou durante todo o ano de 1999 e perdura até hoje.
Esse episódio La Niha, tão comentado nos últimos tempos, aos pouco, começa a dar sinais de enfraquecimento. A figura 2 apresenta os resultados do modelo oceânico do Centro Norte-Americano de Meteorologia (NCEP/ NOAA) com a previsão, para os próximos 10 meses, da anomalia mensal da temperatura da superfície do mar ao longo do Oceano Pacífico Equatorial, onde pode-se observar que as áreas com águas frias(representadas pela cor azul) diminuem gradativamente a partir de abril, com as temperaturas da superficie do Oceano Pacífico voltando à normalidade em junho/julho de 2000 e continuando assim pelo menos até o final do ano. Interessante observar que, segundo esse mesmo modelo, para dezembro/2000 e janeiro/2001 no lugar de águas frias, o Oceano Pacífico leste passa a apresentar águas aquecidas entre 0.5 e 1.0 ºC acima da média climatológica. No entanto, ainda é prematuro afirmar que trata-se de um novo episódio de El Nifo, cuja evolução deverá ser monitorada com muita atenção ao longo do ano.
Com isso, sobre todo Brasil o outono em curso deverá se caracterizar como um período de gradativa transição para a normalidade das condições climáticas. Projetando uma tendência para o próximo inverno e a próxima primavera, depois de três anos seguidos sob efeitos de episódios climáticos de grandes proporções(El Niho/La Niha), neste ano o Inverno e a primavera deverão acontecer sob condições de normalidade, em relação as condições de circulação geral da atmosfera em grande escala. O que em outras palavras quer dizer que, sob essas condições, durante o inverno e a primavera devem prevalecer as condições climatológicas médias(normal) de cada região.
Revista Plantio Direto - Edição 56 - Março/Abril de 2000 EJB