Aveia e semeadura direta
Aveia e semeadura direta:cobertura e renda
Elmar Luiz FlossEngenheiro Agrônomo e licenciado em Ciências, doutor em Agronomia,professor titular da Universidade de Passo Fundo; CP: 271; CEP 99070-970: E-mail: floss@upf.tche.br
Introdução
O manejo adequado dos solos agrícolas se traduz pela manutenção e a melhoria das propriedades físicas, químicas e biológicas dos mesmos, visando a maximização da produtividade das culturas econômicas, de forma permanente. A manutenção de restos culturais na superfície do solo, num sistema de rotação de culturas, é um importante fator melhorador da estrutura do solo, refletindo de maneira eficaz no incremento da infiltração da água, redução da temperatura superficial do solo, aumento da estabilidade de agregados e da disponibilidade de nutrientes e água, e estímulo às atividades microbiológicas. Consequentemente, ocorre uma redução das perdas por erosão do solo e água, um aumento gradativo da produtividade das culturas e a redução dos custos de produção. A inclusão da aveia no sistema de produção através da semeadura direta propicia, além das vantagens acima, também a redução da incidência de algumas moléstias e pragas de outras culturas e o controle alelopático de várias plantas daninhas, a possibilidade da obtenção de renda pelo uso da forragem na produção animal ou a produção de grãos. A adoção crescente do sistema de semeadura direta (SSD) pelos produtores da região Centro-sul do Brasil é a principal e mais positiva mudança no perfil das propriedades agrícolas observado nos últimos anos. Nesta Região, grandes quantidades de solo fértil eram perdidas anualmente devido a erosão, como conseqüência da intensa mobilização destes solos para implantação das culturas de inverno e verão e à falta de cobertura morta no solo. A cobertura do solo com material orgânico é essencial para o sucesso da semeadura direta, tornando-se preocupação prioritária dos agricultores pretendentes a implantação deste sistema. Depois da fracassada implantação do SSD no início dos anos 70 devido, principalmente, a falta de palha na superfície dos solos, o sucesso veio com a semeadura das culturas, especialmente de verão (soja e milho), sobre a palha das culturas de inverno, como o trigo. Com a redução paulatina da área cultivada com trigo, a partir de 1977, a aveia passou a ser a cultura de inverno/primavera mais importante como produtora de palha em toda a região Sul do Brasil, ocupando parte da grande área de solos agrícolas que ficam em pousio nesta época do ano. A principal espécie cultivada como cobertura verde/morta é a aveia preta (Avena strigosa Schreb). Apesar dos enormes benefícios desta prática, a necessidade de aumento da renda nas propriedades, seja pelo aumento dos rendimentos dos cultivos ou pela redução de custos de produção, fez com que os produtores aumentassem, ultimamente, o aproveitamento desta biomassa na produção animal através da integração lavoura pecuária. Outra alternativa econômica para agregação de renda na propriedade é o incremento crescente da área cultivada com aveia branca (Avena sativa L.). Esta prática mantém uma boa produção de palha e de forma suplementar a produção de grãos de alto valor nutritivo, tendo como principal destino a substituição do milho no arraçoamento animal na própria propriedade ou na região, especialmente nos meses de outubro a fevereiro. Estes grãos de aveia solucionariam o déficit crescente de grãos de milho observado no RS, principalmente na complementação da alimentação da vacas leiteiras, eqüinos e ovinos, e parcialmente na alimentação de suínos e frangos
A aveia como cobertura verde/morta do solo
Por muito tempo, haviam restrições no Brasil ao uso de outras espécies como coberturas verdes de solo, ao invés do cultivo tradicional de leguminosas. A prática do cultivo de leguminosas como adubos verdes é realizada há vários séculos na Europa como cultura intercalar, entre duas culturas principais, evitando o pousio. O cultivo de cereais como aveia, trigo, cevada, centeio e outros, e a manutenção da resteva (palhas), ao longo de muitos anos, incrementou o teor de matéria orgânica dos solos destas regiões. A larga relação C/N das palhas de cereais e as baixas temperaturas que ocorrem nestas regiões reduzem a atividade microbiana e a conseqüente degradação das palhas. De outro lado, no sistema de cultivo europeu, raramente está inserida uma leguminosa produtora de grãos em larga escala. Assim, o cultivo de leguminosas como adubo verde, tem como objetivo precípuo o fornecimento de nitrogênio no sistema, obtido através da fixação simbiótica efetuada pelas bactérias do gênero Rhizobium. Como a palha das leguminosas tem uma relação C/N menor, a decomposição desta matéria orgânica é rápida, liberando ainda outros nutrientes e assim diminuindo os custos da fertilização das culturas sucessoras. Por esta razão, as leguminosas, não são formadoras de grandes quantidades de húmus no solo, mas fornecedoras de nutrientes, enquanto as palhas de gramíneas produzem mais cobertura morta e húmus, portanto são mais condicionadoras do solo. No Brasil, a principal função das plantas de cobertura do solo é a manutenção ou melhoria da estrutura física do solo e a estabilidade de agregados, proteção do solo contra a erosão e, inclusive, a descompactação de camadas compactadas sub-superficialmente. Em todo Sul do Brasil, a principal cultura de lavoura é a soja que produz anualmente enormes quantidades de palhas, acrescentando ao solo mais de 100kg/ha de nitrogênio, fixado simbioticamente. Como a decomposição desta palha é rápida, devido às condições climáticas que ocorrem e a baixa relação C/N, é difícil o aumento do teor de matéria orgânica no solo. Grande parte deste nitrogênio é perdido por desnitrificação e volatilização e não há a formação da camada de palha na superfície do solo. Desta forma, para viabilizar o SSD, há necessidade de acrescentar ao solo materiais de relação C/N mais larga, como a palha de cereais e o cultivo de leguminosas como adubos verdes quando o sistema está estabilizado. Com a semeadura de soja sobre a resteva da própria cultura, sem o cultivo no inverno, não ocorre a formação de cobertura morta no solo, pela rápida decomposição da palha desta leguminosa. Consequentemente, não são obtidos os enormes benefícios do sistema de semeadura direta, quanto ao controle da erosão, aumento da infiltração de água, redução do aquecimento do solo, melhoria da estrutura física do mesmo e aproveitamento de nutrientes pelas plantas. Estes problemas não ocorrem, quando se cultiva um cereal no inverno, como aveia, trigo, cevada, triticale, centeio ou outra, conservando a resteva na superfície e realizando a semeadura direta das culturas de verão sobre esta palha. Estas palhas, mais resistentes a decomposição, são responsáveis pela formação da cobertura do solo (”mulching”), fazendo com que as vantagens do sistema apareçam já a partir do segundo ano. Devido a problemas sanitários e limitações de mercado, os solos do Sul do país não são ocupados integralmente no inverno com cultivo de cereais produtores de grãos, enquanto no verão, os solos são totalmente cultivados com milho, feijão, sorgo, e, principalmente, a soja. Na busca de soluções para a deficiência de palha para garantir o sucesso do SSD muitos produtores rurais do Paraná, e posteriormente, em várias regiões do Rio Grande do Sul e outros Estados, iniciaram em meados da década de setenta, experiências com o cultivo de gramíneas como aveia, centeio e azevém, para utilização como coberturas verdes de inverno. O cultivo destas espécies evita o pousio neste período do ano, protegendo o solo contra erosão, além da produção de grandes quantidades de matéria seca. Atualmente, áreas expressivas na região Sul do Brasil são cultivadas com aveia preta, visando a implantação, em sucessão, de soja e outras culturas de verão, especialmente através da semeadura direta. Esta cultura possibilita, além da cobertura verde e morta do solo, a formação de pastagens anuais de inverno e a elaboração de feno e silagem. Na produção de grãos cultiva-se a aveia branca, em cuja espécie também encontram-se cultivares com duplo propósito: produção de forragem verde no inverno e a posterior colheita de grãos do rebrote. Estima-se que somente no Estado do Rio Grande do Sul sejam cultivados aproximadamente 1.250.000 ha de aveia destinada a cobertura verde/morta do solo. A preferência pela aveia preta para esta finalidade deve-se: (a) a facilidade de obtenção de sementes; (b) ao menor custo de implantação em relação a outros adubos verdes; (c) a maior capacidade de formação de cobertura morta devido à larga relação C/N; (d) a rusticidade quanto a exigência de pH e disponibilidade de nutrientes no solo e condições climáticas; e) adaptação às diferentes regiões brasileiras; (f) ao alto potencial de rendimento de matéria verde e seca; (g) apresentar um sistema radicular agressivo e melhorador das propriedades físicas do solo; (h) ao controle alelopático sobre várias plantas daninhas, através de exsudações radiculares de escopoletina; e, (i) a melhoria da sanidade do solo, diminuindo a população de patógenos causadores do mal-do-pé (Gauenmanomyces graminis tritici) e podridões radiculares do trigo (Bipolaris sorokiniana e Helmintosporium sativum) e esclerócios (Sclerotinia sclerotiorum), rizoctoniose (Rhizoctonia solani) e nematóides (Meloidogyne incognita) da cultura da soja. A preferência pelo cultivo de aveia como produtora de fitomassa é também por que as outras alternativas como centeio, triticale e azevém são multiplicadoras dos patógenos causadores do mal-do-pé e das podridões radiculares do trigo e cevada, as culturas econômicas produtoras de grãos de maior importância no inverno. O potencial de rendimento de fitomassa da aveia pode ser verificado na análise dos resultados de rendimento de matéria verde e seca obtida em experimentos conduzidos pela Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Passo Fundo no período de 1992 a 1996, baseado nos resultados obtidos por FLOSS, 1993; FLOSS 7 CECCON, 1994; FLOSS & CECCON, 1996; FLOSS & CECCON, 1997; FLOSS & GRAPIGLIA, 1995 (Tabela 1). Foram avaliados todos os genótipos disponíveis de aveia preta e os experimentos conduzidos sem adubação, implantados através de semeadura direta. O corte foi realizado na floração plena. Apesar da variabilidade observada na comparação entre anos, obteve-se um rendimento médio de 26 t/ha de matéria verde e 6,6 t/ha de matéria seca. A amplitude de variação entre anos foi de 20 t/ha de matéria verde em 1994 e 1995 para 36 t/ha em 1992, enquanto a variação da matéria seca foi de 5,2 t/ha em 1993 para 9,3 t/ha em 1992. Na comparação da produtividade dos genótipos avaliados verifica-se uma amplitude de variação de 3,8 (1993) a 11,2 t/ha (1992) de matéria seca. A prática do cultivo de aveia preta tendo como único objetivo a cobertura verde do solo e a produção de biomassa visando a semeadura direta de soja tem tido um papel fundamental para o sucesso do sistema. Sob ponto de vista econômico esta prática tem um custo de aproximadamente R$82,17/ha, conforme expressa a Tabela 2. Representa apenas o custo das sementes e semeadura, amortização do calcário, mão-de-obra, custos financeiros e o custo da dessecação da área para a implantação da soja em sucessão. Isto representa um investimento de aproximadamente 50% da renda liquida média auferida pelos produtores com a cultura da soja nos últimos anos. Considerando a necessidade do aumento da rentabilidade da propriedade, uma das estratégias mais eficientes é a redução dos custos de produção. Como o sucesso do sistema de semeadura direta depende da produção de palha, surge o desafio da obtenção deste objetivo, aliado ao aumento da renda com a utilização da aveia como forrageira ou na produção de grãos.
Tabela 1. Rendimento de biomassa (RMV) e seca (RMS) de genótipos de aveia preta, no estádio de floração, em Passo Fundo, 1992/1996
Anos
Números de genótipos avalidados
RMV(kg/ha)
Variação(kg/ha)
RMS(kg/ha)
Variação(kg/ha)
1999
17
29565
(20931-36167)**
6822
(5073-6220)
9
36067
(21447-40533)*
9343
(5627-11236)
1993
22
22409
(17625-28677)
5214
(3858-6328)
1994
23
20182
(14380-24698)
5500
(4067-6727)
1995
22
20064
(14133-26596)
5385
(3773-6782)
1996
15
28293
(20530-34420)
7509
(5949-9693)
Médias
26097
6629
*Ensaio regional; **ensaio preliminar
Tabela 2. Custo de produção de aveia preta para cobertura do solo
Discriminação
Especificação
Unidade
Quantidade
CustoVariávelR$
CustoFixoR$
CustoTotalR$/ha
A) OPERAÇÕES
1. Semeadura
15 linhas
Hora*
0,80
6,05
15,56
21,61
2. Dessecação
Hora
0,20
1,51
3,89
5,40
Sub-total
27,01
B) INSUMOS
1. Sementes
fiscalizada
kg
60
18,00
-----
18,00
2. Herbicida
Glifosate
L
1,5
15,00
-----
15,00
3. Formicida
Isca
kg
0,18
1,17
-----
1,17
Sub-total
34,17
C) DIVERSOS
1. Calcário
PRNT 75%
t
5
-----
9,82
2. Juros do orçamento
8,75 a.a.
R$
-
14,31
-----
5,66
3. Mão-de-obra
tratorista
R$
1
-----
5,51
Sub-total
20,99
CUSTO TOTAL
82,17
Adaptado de Ambrosi, I. Embrapa-Trigo, out. 1999.
Pastejo de aveia em sistemas de semeadura direta
Mediante um manejo adequado do pastejo e do solo é perfeitamente possível a integração lavoura-pecuária em sistemas de semeadura direta. Na formação de pastagens de inverno, cultivada de forma isolada ou consorciada com outras forrageiras de clima temperado, a aveia é a principal forrageira utilizada devido a alta produção de matéria seca e qualidade nutritiva da forragem, resistência ao pisoteio e baixo custo de produção, possibilitando ainda a elaboração de feno e silagem durante o inverno. A estimativa é de que no Estado do Rio Grande do Sul sejam cultivados com aveia, de forma isolada ou consorciada, aproximadamente 750.000ha com fins forrageiros, utilizados na alimentação de gado leiteiro, terminação de bovinos de corte e produção de ovinos. Este procedimento significa a garantia de alimentação dos rebanhos no período em que as geadas crestam completamente as pastagens nativas (hábito estival de crescimento), possibilitando a produção de carne na entressafra e a estabilização da produção leiteira a custos significativamente inferiores em relação à utilização de concentrados ou silagem de milho. Representa um aumento significativo da oferta de forragem na propriedade para alimentação dos animais no verão/outono quando os solos estão ocupados com as culturas de verão, como soja e milho, e o conseqüente aumento da produção de leite e carne na propriedade. Para evitar a compactação do solo e a perda muito elevada de forragem através do pisoteio é recomendado o pastejo rotacionado através da divisão da área em piquetes mediante o uso de cerca elétrica. Outra prática é deixar os animais pastejando somente por algumas horas pela manhã e a tarde. Os animais somente devem entrar na pastagem quando houver uma disponibilidade de aproximadamente 1500 kg/ha de matéria seca (MS) ou seja aproximadamente 900 g de forragem verde por metro quadrado, deixando uma resteva de 7cm acima do solo. É fundamental que os animais sejam retirados da lavoura com uma antecedência mínima de 21 dias antes da dessecação, para que haja um rebrote das plantas e produção de biomassa para não prejudicar a semeadura direta da soja em sucessão. Com este rebrote, além da formação de palha na superfície, o crescimento radicular reduz a compactação superficial do solo. Em sistemas de semeadura direta já consolidados é possível a elaboração de feno (floração) e silagem, na forma pré-secada ou diretamente no estádio de floração plena da aveia. Recomenda-se que o corte seja realizado na fase de elongação ao emborrachamento para permitir o rebrote das plantas e a produção de biomassa. Para evitar prejuízos ao SSD, recomenda-se ainda que a retirada de forragem na forma de feno ou silagem seja realizada anualmente em 20% da área, repetindo-se a retirada da biomassa de 5 em 5 anos. Para a ensilagem recomenda-se o cultivo preferencial de cultivares de aveia branca com alta estatura de plantas e alto potencial de rendimento de forragem, como o cultivar UPF 18 e UFRGS 16.
Rendimento de grãos e palha da aveia branca
Na substituição do cultivo de aveia preta por aveia branca, objetivando a produção de grãos, obtém-se os mesmos benefícios quanto a melhoria das propriedades físicas, químicas e biológicas do solo, acrescida pelo produção de grãos de alto valor nutritivo e custos baixos. Graças aos programas de melhoramento genético de aveia existentes no sul do Brasil, há disponibilidade de cultivares com alto potencial de rendimento e melhor adaptação às diferentes condições edafo-climáticas, quando comparado com alguns anos atrás. Através da Tabela 3 são apresentados os resultados de rendimento de grãos dos cultivares recomendados de aveia branca obtidos em Passo Fundo (RS) no período 1992/1996 (Floss, dados não publicados). Os ensaios foram conduzidos utilizando uma adubação na semeadura com 200 a 250 kg/ha de fertilizante ( 5-20-20 ou 5-25-25) e mais 30 kg/ha de nitrogênio (uréia) em cobertura. Nos quatro primeiros anos não foi aplicado fungicida na parte aérea e nos dois últimos anos foi realizada uma aplicação de tebuconazole (Folicur, 0,75L/ha). Não houve necessidade da aplicação de inseticidas para controle de pulgões e lagartas. Na média dos cinco anos, o melhor rendimento foi obtido com os cultivares UPF 15 (2983kg/ha) e UPF 16 (2774 kg/ha), enquanto o cultivar UFRGS 7 apresentou um rendimento inferior, utilizando o critério da média mais ou menos um desvio padrão. Na média dos cinco anos e 13 cultivares avaliados obteve-se um rendimento de 2451kg/ha. Quando comparada à média dos cultivares ao longo dos anos, verifica-se através da Tabela 3 que o maior rendimento ocorreu em 1992 (3460kg/ha) e o menor em 1994 (1335kg/ha). Destaque-se que nos cinco anos considerados apenas na safra de 1994 houve uma frustração de safra que afetou todos os cereais de inverno. Os 13 cultivares de aveia avaliados produziram na colheita uma média de 3928 kg/ha de matéria seca, conforme expressa a Tabela 4. Os cultivares UPF 15 (4894kg/ha) e UPF 17 (4761kg/ha) apresentaram um rendimento de palha superior aos demais, enquanto os cultivares UFRGS 7 (2960 kg/ha), UFRGS 10 (3229 kg/ha) e UFRGS 14 (3275 kg/ha) apresentaram um rendimento de MS de palha inferior. Portanto o agricultor tem a possibilidade de escolher cultivares que além do alto potencial de rendimento de grãos, também apresentem altos rendimentos de palha na resteva, mantendo a cobertura do solo e o sucesso do SSD. Quando comparado o rendimento médio de resteva de palha da aveia branca (3928 kg/ha), apresentados na Tabela 4, com o rendimento total de biomassa de aveia preta na floração (6629 kg/ha - Tabela 1), verifica-se que ela representa 59%. Apesar da quantidade da palha de aveia branca ser significativamente inferior, a relação C/N desta palha é superior a 90, o que significa uma menor velocidade de decomposição pelos microrganismos e a manutenção da palha na superfície do solo por maior período de tempo.
Tabela 3. Rendimento de grãos (kg/ha) de cultivares de aveia branca, em Passo Fundo, 1992/1996
Cultivares
1992*
1993*
1994*
1995**
1996**
Médias
UPF 15
4179
3618
1393
2603
3123
2983 S
UPF 16
4062
3207
1598
1920
3083
2774 S
UPF 13
3363
2847
1449
2392
3004
2611
UPF 17
3594
2775
1682
1537
3007
2519
UFRGS 15
3321
2934
1360
2375
2568
2512
UFRGS 17
3980
2664
1427
1754
2633
2492
UFRGS 16
3457
2655
1515
2370
2339
2467
UPF 14
3402
2735
1471
1837
2367
2362
UFRGS 10
3913
2597
794
1909
2576
2358
UPF 7
2950
3008
1265
1898
2535
2331
UFRGS 14
3562
3169
760
2031
2055
2315
UFRGS 18
2766
2618
1756
2246
2228
UFRGS 7
2427
2031
888
1954
2266
1913 I
Médias
3460
2835
1335
2026
2600
2451
Peso corrigido para 13% de umidade; *sem fungicida; **com fungicida; S=média mais um desvio padrão e I = média menos um desvio padrão.
No entanto, apesar da menor quantidade de palha colhida, quando a cultura da aveia é conduzida com uma densidade adequada (300-350/m2) e um desenvolvimento normal das plantas, não há necessidade de utilização de herbicidas dessecantes antecedendo a semeadura da soja, o que representa uma redução de custos de produção desta leguminosa. Outro aspecto por vezes questionado pelos produtores é o ciclo dos cultivares de aveia branca. Através da Tabela 5 observa-se que a média do ciclo total da emergência à maturação dos cultivares avaliados foi de 133 dias, variando de 124 e 128 dias nos cultivares mais precoces (UFRGS 14 e UFRGS 7, respectivamente), para 139 e 137 dias nos cultivares mais tardios (UFRGS 18 e UFRGS 16, respectivamente). Isto significa, na prática, que a semeadura realizada na época ideal para a região de Passo Fundo (20 de maio a 15 de junho) terá sua colheita realizada entre 15 de outubro e 05 de novembro. Portanto a lavoura estará disponível para a implantação da cultura da soja na época ideal (15/10 a 15/11). Na Tabela 6 é apresentado o custo de produção de aveia branca, atualizado em fevereiro de 2000, considerando a tecnologia utilizada nos ensaios experimentais conduzidos nos anos de 1995 e 1996. O custo total é de R$304,98/ha, quando utilizada a tecnologia completa sendo que a maior participação neste custo são os insumos (R$162,62) ou seja 53,3% do total. Nesta planilha não foi considerado o custo de transporte e beneficiamento, representando, portanto, os custos dos grãos ao nível de propriedade. Quando considerado o custo da implantação de aveia preta apenas como cobertura do solo e sem a obtenção de renda, totalizando R$82,17 (Tabela 2) e o custo do cultivo de aveia para produção de grãos (R$304,98) observa-se uma diferença de R$222,81, que seria o custo adicional para obtenção dos rendimentos apresentados na Tabela 3. Baseado no custo total de produção (R$304,98) e os rendimentos apresentados na Tabela 3, foi calculado o custo dos grãos de aveia produzidos na propriedade e apresentados na Tabela 7. Verifica-se que o custo por tonelada de grãos produzidos nas condições de Passo Fundo variou de R$88,00/t em 1992 para R$228,00/t em 1994. Na média dos cinco anos e o rendimento de 13 cultivares recomendados, o custo média obtido foi de R$124,00/t. Considerando que estes grãos são colhidos nos meses de outubro e novembro no Sul do Brasil, estes custos dos grãos de aveia são competitivos com os grãos de milho durante este período do ano. Considerando como referência o ano de 1999, o preço de milho variou de R$166,00 a R$ 233,00 a tonelada.
Tabela 4. Rendimento de palha (kg MS/ha) de cultivares de aveia branca, em Passo Fundo, 1992/1996
Cultivares
1992*
1993*
1994*
1995**
1996**
Médias
UPF 15
4839
6660
4293
6619
5714
4894 S
UPF 17
5972
6217
3665
6692
4814
4761 S
UPF 16
4313
4308
3496
7431
5456
4368
UFRGS 16
5836
3560
3462
6428
4755
4183
UPF 13
4464
5051
4534
6603
3304
4168
UPF 14
4723
4530
3777
5327
5382
4131
UFRGS 17
6602
4503
3254
5377
3932
4118
UFRGS 15
3117
4503
4320
5357
5264
3926
UPF 7
1987
3273
4027
6954
4185
3554
UFRGS 18
4223
2475
3766
4887
3500
UFRGS 14
3859
4325
2515
4539
3582
3275 I
UFRGS 10
3303
3227
2738
4524
4768
3229 I
UFRGS 7
3077
2957
2511
4355
4111
2960 I
Médias
3769
3787
3102
4957
4026
3928
*sem fungicida; **com fungicida; S=média mais um desvio padrão e I = média menos um desvio padrão.
Tabela 5. Dias de emergência à maturação de cultivares recomendados de aveia, em Passo Fundo, 1992/1996
Cultivares
1992*
1993*
1994*
1995**
1996**
Médias
UFRGS 18
143
137
130
144
140
139 S
UFRGS 16
143
137
120
142
143
137 S
UPF 13
140
137
120
139
137
135
UPF 15
140
136
120
137
141
135
UFRGS 15
137
136
124
139
140
135
UPF 14
138
134
123
138
134
UFRGS 10
137
133
120
139
134
UFRGS 17
137
130
128
141
135
134
UPF 7
137
132
119
137
140
133
UPF 16
137
134
118
137
138
133
UPF 17
137
131
119
138
136
132
UFRGS 7
133
128
120
129
132
128 I
UFRGS 14
113
132
117
129
131
124 I
Médias
136
134
121
138
133
*sem fungicida; **com fungicida; S=média mais um desvio padrão e I = média menos um desvio padrão.
Tabela 6. Custo de produção de aveia branca para grãos, em semeadura direta, safra 2000
Discriminação
Especificação
Unidade
Quantidade
CustoVariávelR$
CustoFixoR$
CustoTotalR$/ha
A) OPERAÇÕES
1. Semeadura
15 linhas
hora*
0,80
6,05
15,56
21,61
2. Aplicação de uréia
600 kg
hora*
0,40
3,19
3,35
6,54
3. Tratamentos fitossanitários
-----
9,02
8,27
17,29
4. Colheita
4 saca-palha
hora*
0,90
15,83
28,73
44,57
Sub-total
90,01
B) INSUMOS
1. Sementes
fiscalizada
kg
110
27,50
-----
27,50
2. Fertilizante semeadura
5-20-20
kg
200
81,00
-----
81,00
3. Fertilizante cobertura
uréia
kg
70
22,95
-----
22,95
4. fungicida parte aérea
tebuconazole
l
0,50
30,00
-----
30,00
5. Formicida
isca
kg
0,18
1,17
-----
1,17
Sub-total
162,62
C) DIVERSOS
1. Calcário
PRNT 75%
t
5
-----
9,82
2. Juros do orçamento
8,75 a.a.
R$
-
14,31
-----
14,98
3. Mão-de-obra
tratorista
R$
1
-----
27,55
Sub-total
52,35
CUSTO TOTAL
304,98
Adaptado de Ambrosi, I. Embrapa-Trigo, out. 1999.
Tabela 7. Custo (R$) da tonelada de grãos de aveia branca no período 1992/96
Anos
Custo R$
1992
88,00
1993
108,00
1994
228,00
1995
151,00
1996
117,00
Média
124,00
Valor nutritivo dos grãos de aveia branca
O alto valor nutritivo do grão de aveia branca deve-se aos elevados teores de proteína e bom balanceamento de aminoácidos, além de bons níveis energéticos, minerais e vitamínicos. Por esta razão, o seu consumo é particularmente indicado para alimentação infantil. A inclusão da aveia na merenda escolar, além da alimentação adequada das crianças e a formação do hábito alimentar de consumo, também possibilitaria o aumento da demanda deste cereal, estimulando o aumento da área cultivada. A utilização de produtos derivados de aveia passaram a ser considerados importantes nas dietas alimentares, visando o controle dos níveis de colesterol na corrente sangüínea, hipertensão e doenças do aparelho digestivo. Estes efeitos são atribuídos principalmente ao fato da aveia apresentar altos teores de fibra dietética solúvel ou fibra alimentar, chamada de b-glicano.
Tabela 8. Composição química média (%) de grãos de aveia com casca e milho
Aveia com casca
Milho
Umidade
9,9
13,5
Proteína
11,7
10,0
Óleos
5,0
4,0
Glicídios
59,4
68,4
Fibra
10,7
2,3
Cinzas
3,3
1,8
Fonte: Agrieducation, adaptado por Floss (1988)
No entanto, o maior mercado potencial dos grãos de aveia é o seu uso na alimentação animal, como bovinos de leite, ovinos, suínos, aves e, especialmente, cavalos, na forma integral ou laminados. Na Tabela 8 é apresentada a composição química média dos grãos integrais de aveia branca e o milho. O grão de aveia destaca-se pelo maior teor de proteína bruta e óleos, apresentando teores inferiores de glicídios e maiores teores de fibra bruta. O menor teor de glicídios em parte é compensado pelos maiores teores de óleos, razão do bom valor energético. Quando comparado com os grãos de milho, os grãos integrais (com casca) apresentam aproximadamente 2 % mais de proteína bruta, o que significa economia de farelo de soja, e aproximadamente 75% do valor energético. Desta forma a aveia pode ser utilizada sem restrições no arraçoamento de vacas leiteiras e ovinos, inteiros ou amassados (laminados ou machacados). Os grãos de aveia são considerados os alimentos mais adequados para atender as necessidades nutricionais dos eqüinos. Mesmo para suínos recomenda-se a substituição em até 36% do milho, pois para monogástricos há uma limitação devido ao excesso de fibra na casca. Recomenda-se o uso de grãos de aveia sempre que o preço do kg de milho multiplicado por 11,17 + 0,83 X o preço do kg de farelo de soja for maior que 12,0X o preço do kg de aveia branca (Barbosa & Fialho, 1991). Baseado nos preços praticados em janeiro de 2000 ( farelo de soja = R$325,00/t e milho = R$233,00/t), teríamos:
-11,17 X R$233,00 + 0,83 X R$325,00 = R$2.872,36
Isto representa um custo da ração de milho + farelo de soja de R$239,36/t, significativamente superior ao custo da tonelada de grãos de aveia colhida nesta época do ano.
Quando descascados, 100 kg de grãos de aveia tem aproximadamente o mesmo valor nutritivo que 76,5kg de milho mais 20kg de farelo de soja. Aos preços praticados em janeiro de 2000 o custo de 76,5 kg de milho seria de R$ 17,82 e 20 kg de farelo de soja custariam R$ 6,50, totalizando R$ 24,32 ou seja R$ 252,07/t. deve ser considerado que no descasque de grãos de aveia branca há uma perda de 30-35% de casca. Considerando o aumento significativo dos rebanhos de bovinos leiteiros, suínos e aves na região, bem como as boas perspectivas futuras, a produção de grãos de aveia branca é uma importante alternativa econômica para estas cadeias produtivas. Representa um aumento da demanda aos produtores de aveia e a redução da dependência de grãos de milho na entressafra aos produtores de leite, suínos e aves. Pelo potencial edafo-climático da região possibilitando a colheita de duas safras por ano, agregando o aproveitamento dos solos no inverno e o aumento da produção de grãos é um importante fator para a melhoria da competitividade do setor de produção animal.