O Percevejo-Castanho nos Cerrados


Autores:
Publicado em: 01/04/2000

O percevejo-castanho nos Cerrados

Dirceu GassenPesquisador da Embrapa Trigo - Passo Fundo-RSFone: (54) 311 3444 - E-mail: gassen@cnpt.embrapa.br

Distribuição e ocorrência

O percevejo-castanho, Scaptocoris castanea é citado como praga desde o início desse século no Brasil. Nos cerrados constatou-se a presença de ovos, de ninfas e de adultos, durante o ano inteiro, inclusive nos períodos mais secos de inverno. O hábito de infestar lavouras, completar uma geração e emigrar para outras áreas dificulta o prognóstico de danos e a adoção de estratégias de controle.

Hábitos

Nas revoadas, os percevejos partem da superfície do solo e mantêm vôo irregular, por alguns minutos, até o aquecimento dos músculos. Após, desenvolvem vôo quase vertical, até atingir algumas dezenas de metros de altura, deslocando-se, então, em direção horizontal. Observações durante as revoadas indicam a possibilidade de deslocamento até dezenas de quilômetros. A revoada ocorre sobre áreas de soja, algodão, milho, pastagens e cerrado nativo e não se constatou preferência por cultura ou por cobertura de solo. Os insetos adultos encontrados no solo, apresentavam os músculos de vôo reduzidos (não-desenvolvidos), caracterizando a hipótese de que a população presente estava completando o ciclo biológico na área, sugerindo a infestação a partir de insetos voadores, que emigraram ou que morreram após vários dias ou semanas de oviposição. Não foi possível relacionar a ocorrência de surtos de perceveio-castanho com o aumento de área cultivada sob plantio direto. Lavouras sob preparo convencional de solo foram infestadas e em diferentes fases de desenvolvimento de culturas, caracterizando a migração nas revoadas. O cultivo de milheto ou de outra espécie com produção abundante de palha levará ao aumento da atividade biológica e à possibilidade de controle natural através de predadores, parasitóides e patógenos, determinando o colapso da população do percevejo-castanho. As evidências indicam que o inseto pode ter várias gerações por ano e não apresenta diapausa de inverno. O percevejo apresenta estratégias de defesa contra inimigos naturais, destacando a liberação de líquido com cheiro repugnante, a habilidade de cavar e aprofundar-se no solo com rapidez e a de produzir som semelhante ao de chocalho. Insetos adultos, em uma hora, cavaram e penetraram até 9cm, em solo adensado de lavoura sob plantio direto.

Danos

As ninfas e os adultos alimentam-se de raízes e de outras partes subterrâneas de plantas. Populações elevadas causam o definhamento e até a morte de plantas. O percevejo causa danos pela injeção de saliva tóxica e pela extração de seiva. A partir dos últimos estádios da fase de ninfa e até chegar a adulto reprodutivo, o percevejo suga seiva, avidamente, para o desenvolvimento pleno de ovários e de músculos de vôo. Os insetos adultos abandonam a área infestada, em revoadas, para ovipositar em outras lavouras. Eles voam durante o fim da tarde, em dias com umidade e temperaturas elevadas e ausência de vento. Infestam novas áreas, independente do preparo desolo, de plantio direto ou de culturas perenes. O cenário de revoadas freqüentes durante a primavera, verão e outono e a constatação de insetos adultos sem músculos de vôo desenvolvidos, nas áreas infestadas, sugere a infestação de lavouras seguido de danos severos e a emigração. Assim, lavouras podem ser infestadas em épocas diferentes e não de forma contínua na mesma área.

Controle

Os insetos-de-solo com hábitos subterrâneos são de difícil controle. Em geral ocorrem, ciclicamente, em populações elevadas e em partes de lavouras. A combinação de fatores climáticos favoráveis à praga e desfavoráveis aos agentes de controle natural resulta na explosão populacional dessas pragas. É importante monitorar a presença da praga durante os meses de inverno, examinando pastagens, plantas cultivadas para cobertura vegetal e plantas daninhas nas lavouras, para tomar a decisão de uso de inseticida na semeadura das culturas de verão. O tratamento de sementes com inseticidas é uma alternativa efetiva até duas ou três semanas após a semeadura. A aplicação de inseticidas na parte aérea não garante o controle da praga nem mesmo com inseticidas sistêmicos ou volumes elevados de água. A aplicação de inseticidas, via líquida ou granulado, no sulco de semeadura é a alternativa mais promissora de proteção de plantas porque permite o uso de doses mais elevadas de ingrediente ativo. Entretanto, os hábitos de emigração e de infestação rápida e intensa de lavouras, em diferentes fases de desenvolvimento das culturas pode resultar em frustrações na expectativa de controle do percevejo-castanho. A aração ou a gradagem pode reduzir (estima-se em 30 %) a população dos percevejos que se encontram na camada superficial do solo. No período normal de aração (abril a novembro), quando os percevejos se encontram em camadas mais profundas do que às alcançadas pelo arado ou pela grade, o controle será insignificante. O cultivo de plantas com maior volume de raízes, como as gramíneas, ou a adoção de práticas que estimulam o crescimento radicular (sulcador na semeadora, gesso etc.) permitirão à planta tolerar a presença da praga, quando em populações baixas. É provável que as populações elevadas sejam resultado de erupções cíclicas e que o equilíbrio natural ocorra a partir dos próximos meses com o restabelecimento no equilíbrio na população do percevejo-castanho por alguns anos.