Plantio Direto e rotação de culturas: benefícios que se somam
Márcio ScaléaEngenheiro Agrônomo da Monsanto do Brasil
O cultivo de diferentes espécies em seqüência temporal numa mesma área de terra é chamado de rotação de culturas. O exemplo mais clássico, típico para as regiões do Sul do Brasil, é o do plantio, no primeiro ano, de soja no verão e aveia preta no inverno; no segundo ano do milho no verão e aveia preta no inverno e no terceiro ano, de soja no verão e trigo no inverno.
Benefícios
Os benefícios da adoção de esquemas de rotação de culturas são conhecidos há muito tempo, destacando-se a quebra do ciclo de pragas, doenças e plantas daninhas e a exploração diferenciada do solo, pois diferentes espécies possuem diferentes sistemas radiculares. A eventual reciclagem de nutrientes é outro benefício, já que diferentes culturas requerem adubações diferenciadas, sendo também diferentes os resíduos que permanecem após os cultivos, como nos casos clássicos de gramíneas se beneficiando do nitrogênio deixado por leguminosas. A física do solo também é afetada pela ação característica de cada espécie. O nabo forrageiro, por exemplo, provoca um afofamento do solo que pode favorecer a cultura que o seguir. A ação contra patógenos do solo, como a da mucuna preta contra nematóides, por exemplo, é outro caso de efeito benéfico da rotação de culturas.
Monocultura: fonte de problemas
O oposto de rotação de culturas é a monocultura. Monoculturas de soja, que dominam hoje grande parte do País; de milho, a base da produção de silagem nas bacias leiteiras; do algodão (nos seus tradicionais nichos) e, por fim, mas não menos comum, a monocultura de pastagens, são exemplos onde a rotação de culturas não é adotada, por limitações técnicas em alguns casos, mas principalmente por limitações econômicas. E toda monocultura traz problemas, sejam eles agronômicos ou econômicos, com os inevitáveis ciclos que já nos acostumamos a acompanhar no Brasil. Enquanto predominavam os sistemas tradicionais de plantio, com o uso de arados e grades, a monocultura tinha seus efeitos negativos mascarados, pois o fato de revolver o solo e enterrar os restos de cultura, conseguia atenuar os eventuais problemas de aumento de infestação de inços, pragas e doenças. Mas a partir do momento em que se tomou consciência dos efeitos negativos do uso continuo e indiscriminado de implementos de preparo de solo, que levou à adoção em massa do Plantio Direto, a monocultura voltou a ser um motivo de preocupação. Plantio direto sem rotação de culturas, sem formação de palhada, sem quebra do ciclo de pragas, doenças e mato, tem vida curta. Plantio direto de monocultura é pior do que plantio convencional, já nos foi mostrado por pesquisadores como L.Sèguy, L. Bonamigo e R.Derpsch, entre outros.
Sucessão de culturas: solução paliativa
Particularmente no Cerrado, a falta de rotação de culturas, sob plantio direto, tende a dar problemas. Existem algumas alternativas que são apenas paliativas, como a sucessão soja/milho ou sorgo ou milheto em safrinha. Em algum momento, uma cultura gramínea deverá tomar o lugar da soja no verão, para fazer retornar ao solo um volume mais consistente de palha com alta relação carbono/nitrogênio, essencial para a fertilidade e a saúde dos solos de Cerrado. Já é comum em certas áreas o plantio de milho em 20%, 30% e até 50% da área no verão, o que é um bom sinal de que a rotação de culturas está começando a ser encarada com seriedade.
Cerrados: soluções à vista
Há regiões em que o plantio de milho, seja no verão, seja na safrinha, ainda é inviável economicamente, pois os altos custos dos fretes para trazer o produto para os centros de consumo corroem a lucratividade. Há outras regiões onde o cultivo do milho no verão é de alto risco, devido à ocorrência de veranicos e inviável até como safrinha, pois as chuvas param cedo demais. Para todas as regiões onde é limitada a adoção do milho como rotação de cultura para a soja, surgem hoje novas perspectivas: nos locais onde a chuva limita o cultivo do milho, a rotação soja/pasto na Integração Agricultura e Agropecuária desponta como uma excelente alternativa, vindo a equacionar não só o problema da rotação para a soja, mas também e principalmente a rotação das pastagens degradadas com a soja, renovando-as. Onde a limitação não é por chuva, mas por distância dos mercados consumidores, o plantio direto do arroz de sequeiro, como alternativa para quebrar a monocultura da soja, tem se mostrado muito valioso, pois configura uma rotação muito interessante agronômica e financeiramente.
Monocultura do milho: guandu nela
Para aquelas regiões onde se repete ano após ano o plantio de milho para silagem, está sendo avaliada a alternativa de introduzir uma leguminosa para quebrar a sequência. A espécie seria o feijão guandu Super N, que além da fixação de nitrogênio, age como um escarificador do solo e pode permitir, se necessário, até pastejos no inverno, quando mais é sentida a falta de boas forrageiras. O importante é entender que se a rotação de culturas era importante há 50 anos, nos plantios convencionais, hoje ela é por um lado essencial, pois a perenidade e o equilíbrio do plantio direto dela dependem, mas por outro lado mais fácil de ser implantada, graças ao mesmo plantio direto, que elimina tempo e operações desnecessárias.