Controle de corós rizófagos em trigo, em plantio direto
J.R. SalvadoriDoutor em Entomologia, pesquisador da Embrapa Trigo - E-mail: jrsalva@cnpt.embrapa.br
O controle de corós em trigo é necessário quando a presença de espécies reconhecidamente daninhas atinge níveis populacionais com potencial para causar reduções significativas no rendimento de grãos da cultura. Isso implica a identificação das espécies existentes e a determinação da quantidade de indivíduos presentes numa determinada área. A tomada de decisão de controlar corós não deve ser deixada para a véspera do plantio e muito menos para depois deste. O acompanhamento das áreas, ano após ano, nas safras e nas entressafras, permite manter um histórico, em relação à ocorrência de corós. Esse monitoramento pode ser feito de duas maneiras: a) observação da ocorrência de sintomas de ataque nas plantas, como morte de plântulas ou de afilhos, mau desenvolvimento ou produção aquém da esperada, indicadores da presença de corós, a qual deve ser confirmada por meio de escavações expeditas na área, e b) numa etapa seguinte, através da amostragem de solo, para conferir as espécies presentes e a densidade de corós por unidade de área (metro quadrado). Amostragens de solo são trabalhosas, especialmente em grandes áreas. Uma alternativa é concentrar as amostragens onde houve ou há sintomas de ataque nas plantas. Cada amostragem pode medir 1,0 m de comprimento (sentido das linhas de semeadura) x 0,25 m de largura x 0,20 m de profundidade. Para espécies de corós que cavam túneis verticais (galerias), como, por exemplo, o coró-das-pastagens, a simples raspagem da palhada na superfície do solo, expondo as aberturas das galerias, pode dar um indicativo da densidade de corós. No entanto, isso exige certa prática para não haver confusão com galerias feitas por outros tipos de insetos (grilos, p. ex.) ou corós não pragas. Há, também, a possibilidade de que existam galerias velhas e sem corós. Associadas ao trigo e às demais culturas de inverno e de verão que fazem parte do sistema de produção de grãos sob plantio direto, no planalto rio-grandense, há quase uma dezena de espécies de corós. As mais comuns, porém, são o coró-do-trigo (Phyllophaga triticophaga), o coró-das-pastagens (Diloboderus abderus) e o coró-pequeno (Cyclocephala flavipennis). O coró-do-trigo é tipicamente fitófago, especializado em comer raízes, partes subterrâneas de plantas e mesmo a parte aérea de plântulas, que puxa para dentro do solo. O coró-das-pastagens,logo que sai do ovo, nos primeiros 3 a 4 meses de vida, quando ainda pequeno, portanto, consome a palha (saprófago) que a mãe (besouro) carregou para dentro do ninho. No entanto, nos meses seguintes (outono, inverno e início da primavera), quando está no seu tamanho máximo, também é fitófago, com hábitos alimentares semelhantes aos do coró-do-trigo. Ambas as espécies, coró-do-trigo e coró-das-pastagens, constituem, portanto, os principais corós-praga no referido sistema de produção. Já o coró-pequeno, em condições de campo, parece apresentar predominância de hábitos saprófagos, uma vez que seu potencial de danos às culturas é insignificante do ponto de vista prático. Considera-se que densidade de 5 corós-praga/m2 , tanto do coró-do-trigo como do coró-das-pastagens, ocorrendo isolada ou simultaneamente, já tem potencial para reduzir o rendimento de trigo e de cevada. Quanto maior a população, maior é o prejuízo e maior a dificuldade de controle, dentro de padrões de eficiência técnica e economicamente aceitáveis. Embora ainda não existam pesquisas para dar sustentação científica para tanto, na prática pode-se considerar, tentativamente, como parâmetros para fins de resposta econômica do controle químico, que 5 corós-praga/m2 é uma infestação baixa, 10 a 15 é uma infestação média e 20 é uma infestação alta. Quanto maior a infestação, maior a dose de inseticida a ser empregada e menor a probabilidade de retorno econômico para o gasto feito com a prática de controle. Há situações em que, sendo a infestação média ou grande, mas restrita a áreas relativamente pequenas (reboleiras) em relação a toda a lavoura, a aplicação do controle apenas nas áreas com problemas dilui o custo do controle, evitando, também, que o problema se agrave nos anos seguintes. Há, por outro lado, situações em que infestações altas e generalizadas impedem a utilização da área para produção econômica de grãos. Felizmente, embora ainda não seja possível prever quando isso vá acontecer, não é raro que populações de corós diminuam naturalmente pela ação de fatores ambientais, principalmente pela mortalidade devido a doenças causadas por microrganismos entomopatogênicos.
O estudo dos corós e o desenvolvimento de métodos de manejo e controle são particularmente difíceis e demorados, quando comparados a outros grupos de insetos-praga que atacam a parte aérea das plantas, como pulgões, lagartas etc. O longo ciclo biológico, a dificuldade de criação em laboratório e os hábitos subterrâneos são fatores determinantes para que isso se configure. Pode-se dizer que a pesquisa com esse grupo de pragas está apenas começando. Apesar disso, as instituições do Sul do Brasil, especialmente a Embrapa Trigo, são referências reconhecidas internacionalmente quando o assunto é corós em culturas graníferas, sob plantio direto. Nos últimos dez anos, houve avanços expressivos em termos de identificação de espécies, de conhecimentos biológicos e comportamentais, de identificação de agentes de controle natural (inimigos naturais) e de desenvolvimento de estratégias de manejo de corós. Inicialmente, visando a atender a demanda mais imediata, ênfase foi dada ao controle químico. Hoje, além do aperfeiçoamento do controle com inseticidas, estão sendo pesquisados métodos alternativos (biológicos) de controle. As investigações sobre métodos e produtos para controle químico de corós em cereais de inverno realizadas até o momento indicaram a viabilidade do tratamento de sementes com certos ingredientes ativos e doses. Em experimentos, formulações comerciais para tratamento de sementes à base de carbosulfan (Marshal 250 TS, em doses de 0,70 a 1,5 litros/100 kg de sementes), de furathiocarb (Promet 400 SC, em doses de 0,8 a 1,6 litros/100 kg de sementes), de imidacloprid (Gaucho 700 PM, nas doses de 50 a 100 gramas/100 kg de sementes, ou Gaucho 600 FS, nas doses equivalentes) e de thiodicarb (Semevin 350 RA, nas doses de 0,70 a 1,5 litros/100 kg de sementes, ou Futur 300, nas doses equivalentes), têm se mostrado eficientes no controle de corós em trigo. A dose a ser usada depende do nível de infestação de corós. A economicidade do controle depende do preço do produto, da dose e do potencial de produtividade da lavoura e deve ser calculada para cada situação. O gráfico ilustra a resposta obtida em teste realizado em Muitos Capões, RS, em 1998, incluindo diferentes inseticidas e doses, em tratamento de sementes, numa área com infestação média de 20 corós/m2 das espécies P. triticophaga e D. abderus. O experimento foi conduzido em parcelões de 175 m2 (50 x 3,5 m), com três repetições para cada tratamento, semeados e colhidos a máquina. Nas parcelas do tratamento testemunha (sem inseticida) o trigo produziu 2.492 kg/ha, enquanto nas parcelas tratadas com inseticidas, o rendimento de grãos atingiu 3.266 kg/ha. Todos os inseticidas foram superiores à testemunha, porém diferiram entre si tanto em termos do produto em si, como de dose. Nas parcelas com tratamento de sementes o rendimento de grãos de trigo superou o obtido nas parcelas sem inseticidas, em níveis que variaram de 15 % (6,3 sacos/ha) a 31 % (12,9 sacos/ha). Esses resultados não podem ser extrapolados para todas as situações, pois em cada local a resposta ao tratamento de sementes vai variar com as características específicas do mesmo. Mostram, porém, que há situações em que o custo de controle pode ser coberto pelo retorno em produtividade. Há que se considerar, também, que o resultado obtido com o tratamento de sementes pode estar incluindo outros efeitos que não apenas o resultante do controle de corós. Outras pragas de solo e mesmo da parte aérea (pulgões) podem ser controladas adicionalmente pelo tratamento de sementes, dependendo do inseticida. É importante ressaltar que o tratamento de sementes, além de poder apresentar limitação de uso em virtude de custo, exige cuidados especiais na operação de mistura do inseticida às sementes, bem como na semeadura, para evitar intoxicação de operadores e de animais silvestres. Além disso, é necessário verificar o aspecto legal, ou seja, se o produto está autorizado para uso na cultura e para a praga em questão através do registro nos órgãos públicos competentes. Atualmente, entre os inseticidas citados, considerando os requisitos de eficiência no controle e de registro no Ministério da Agricultura e do Abastecimento, a Comissão Sul-brasileira de Pesquisa de Trigo recomenda apenas o inseticida imidacloprid, para o controle de D. abderus, via tratamento de sementes.