Problemas do Plantio Direto Estão Relacionados à Falta de Palha no Solo


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Publicado em: 01/06/2000

Problemas do plantio direto estão relacionados à falta de palha no solo

A lavoura que tem mais problemas é a que tem menos palha.” Com esta afirmação curta e objetiva, o assistente técnico Délcio Alaíde Donato, de Humaitá/RS, parece definir um aspecto básico da ampla discussão que acontece em todo o país, com relevância maior em determinadas regiões, como o noroeste e as Missões, no Rio Grande do Sul, sobre a atual fase que atravessa uma parcela significativa das lavouras sob plantio direto, enfrentando problemas ou situações adversas de pragas e compactação do solo. ”O que tenho notado, afirmou Donato, é que onde o solo recebe pouca adubação, tem menor quantidade de palha e menor teor de matéria orgânica, é compactado, aí é onde os corós aparecem mais. O problema maior é que 90% dos nossos produtores não estão preparados para enfrentar as pragas ainda, se assustam e partem para o absurdo de lavrar e gradear.” Na safra passada, os produtores da região tiveram prejuízos nas lavouras de trigo, cevada e aveia, com a presença de corós fitófagos. Para tentar reverter esse quadro, a Cotricampo, de Campo Novo/RS, da qual Délcio Donato é técnico há 23 anos, realizou uma tarde de campo sobre ”Pragas das Culturas de Inverno”, no dia 9 de maio, em Linha Wolf, no município de Humaitá, com a presença do pesquisador Dirceu Gassen, da Embrapa Trigo. Participaram do evento, além da Cotricampo, a Cotrimaio, a Emater, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais e a Secretaria Municipal de Agricultura de Humaitá. ”Apesar do ataque de corós, tivemos lavouras de trigo que produziram em torno de 2800 kg/ha, no ano passado,” relatou Délcio Donato. Segundo ele, a região já teve um percentual acima de 60% com plantio direto mas, no momento, em função dos problemas, muitos partiram para gradear ou arar o solo. ”Nós achamos que a solução não é esta, frizou, pois existem muitos produtores que estão solucionando a questão fazendo rotação de culturas e colocando uma quantidade mais adequada de fertilizantes, o que resulta numa quantidade maior de palha sobre o solo.”

Foto: Dirceu Gassen

Conviver com os problemas

”Eu não voltaria a lavrar a terra por causa de corós, de compactação ou qualquer outro problema semelhante. Dificuldades existem no sistema de preparo convencional também, nós precisamos é saber conviver com elas e superá-las.” A afirmação é do produtor Flávio Vicente Licks, que planta 200 ha de lavoura, em Linha Wolf, Humaitá/RS, e faz plantio direto em toda a área há 6 anos. Ele começou a deixar de preparar o solo em algumas áreas em 1986 e a sua produtividade vem crescendo desde então. Na atual safra de soja, ele fechou uma média de 2940 kg/ha, apesar de todas as dificuldades climáticas, que trouxeram a média do município para 1600 kg/ha aproximadamente. Na safra anterior, Licks colheu acima de 3600 kg/ha em soja, onde utiliza uma adubação de 250 kg/ha. Na região, segundo informa ele, outros produtores que também estão seguindo as orientações técnicas e mantem o plantio direto, tiveram produtividades semelhantes na cultura da soja, apesar da seca. Seguindo as orientações da cooperativa e da Emater, Flávio Licks planta 25% da área com a cultura do milho, que tem sofrido mais com a seca. ”No início, nós conseguimos segurar os corós apenas com a rotação de culturas, apesar das quebras na lavoura de milho, que chegaram a 100%, em 98. Porém, nos últimos dois anos, quando a presença deles aumentou, fomos obrigados a tratar as sementes, inclusive as de trigo e aveia. Monitoramos as áreas e utilizamos o tratamento de sementes só naquelas em que existe necessidade. Em algumas áreas, ainda não utilizamos nenhuma vez o tratamento de sementes com inseticidas no inverno, somente na cultura do milho, na primavera, e a situação está sob controle.” Bastante confiante no plantio direto e nos ganhos de produtividade como forma de enfrentar o quadro econômico atual, Flávio Licks tem uma condução tranqüila de sua propriedade e, no começo de maio, já era possível vizualizar o verde da aveia em parte de suas lavouras, em contraste com as demais da região. Sua confiança na palha vai ao ponto de ele ter retirado os terraços de meia base, deixando apenas os de base larga. ”A palha supera qualquer falha, finalizou Licks, não deixando ocorrer erosão. É preciso fazer rotação de culturas, adaptar a semeadora e, principalmente ter muita palha.”

Délcio Alaíde Donato

”O problema mair é que 90% dos nossos produtores não estão preparados para enfrentar as prgas ainda, se assustam e partem para o absurdo de lavrar e gradear”

Flávio Vicente Licks

”Dificuldades existem no sistema de preparo convencional também, nós precisamos é saber conviver com elas e superá-las”

Levantamento da Embrapa Trigo aponta dificuldades atuais do plantio direto

Manejo e controle de plantas daninhas, principalmente pela evolução de espécies resistentes à herbicidas e de difícil controle; pragas da parte aérea e de solo; compactação de solo; e falta de opções para rotação de culturas, no inverno e verão, foram os quatro ítens principais apontados por um levantamento feito nos meses de janeiro e fevereiro pela Embrapa Trigo, de Passo Fundo, como sendo aqueles que significam os maiores fatores restritivos e dificuldades para o plantio direto no Planalto, Missões e outras regiões agrícolas do Rio Grande do Sul. No final do levantamento, realizado com 137 pessoas, em Santo Ângelo, Tupanciretã, Não-Me-Toque, Erechim, Passo Fundo e Vacaria, foram citados cerca de 20 ítens que precisam ser trabalhados e melhorados por todos os envolvidos no processo produtivo: pesquisa, assistência técnica e produtores. Participaram das reuniões assistentes técnicos privados, da Emater, das cooperativas regionais, pesquisadores, agricultores líderes, membros dos CATs e outros segmentos O manejo da fertilidade, que tem sido um fator restritivo na produção de grãos e palha, e a gestão técnica das propriedades também aparecem com destaque entre os ítens apontados como restritivos ao desenvolvimento do plantio direto. Os participantes das reuniões, além dos problemas, relacionaram sugestões de ações, que envolvem uma participação interinstitucional, para a evolução das questões apresentadas. Nas próximas etapas, a Embrapa Trigo e as demais instituições participantes do trabalho realizarão novas reuniões, com o objetivo de levar na prática as sugestões recolhidas.

Gerenciamento e palha

”Boa parte dos problemas que aparecem nas regiões onde foi feito o levantamento estão relacionados com a capacidade de investimento dos agricultores”, disse o pesquisador Dirceu Gassen, da Embrapa Trigo, que coordenou o trabalho. Uma das principais sugestões apresentadas pelos participantes do levantamento é a necessidade da existência de linhas de financiamento para o plantio de culturas de cobertura. Além disso, afirma ele, a questão do gerenciamento das propriedades aparece como uma deficiência fundamental, pois existem produtores estabelecidos nessas regiões com plantio direto em boas condições e estabilidade financeira. ”Eu acredito que a informação técnica e o conhecimento para aplicá-los em cada região e solucionar os problemas levantados existem. O que está faltando é justamente uma união dos recursos humanos para assumir essas mudanças necessárias e estabelecidas. A dificuldade maior, parece, continua sendo o modelo conservador de voltar atrás naquilo que se conhecia, ao invés de buscar a solução dentro do novo modelo”, enfatizou Gassen. A seguir, uma entrevista com o pesquisador da Embrapa, onde ele apresenta sua visão sobre os principais problemas citados no levantamento realizado e que também observa nas suas viagens e contatos com produtores e técnicos do Brasil e do exterior.

Dirceu Gassen

”A palha sobre a superfície modifica a estrutura e a vida do solo”

Revista Plantio Direto - A Embrapa Trigo já tinha uma noção dos problemas que o plantio direto vem apresentando?

Dirceu Gassen - Sim. Mas isso não significa que nós estivéssemos pré concebendo problemas ou dificuldades. Um dos primeiros aspectos que se observa é que em algumas regiões os problemas são aguçados. As regiões Noroeste, Missões e Planalto, quando direciona para Cruz Alta, não conseguem viabilizar o cultivo de milho e tem uma baixa produtividade na cultura da soja, em função da frequente ocorrência de estiagens. Por não terem uma boa renda e as frustrações acontecerem de forma sucessiva, não está havendo investimento nas lavouras, numa sequência que pode ser considerado um verdadeiro ”ciclo da pobreza”.

RPD - Como que isso acontece?

Dirceu Gassen - A região das Missões, por exemplo, conforme dados apresentados, utilizou cerca de 72 kg/ha de adubo, no último ano. Essa quantidade não cobre nem o que foi extraído em termos de nutrientes com a produção, mesmo que esta seja baixa. Com esse volume de fertilizantes, o produtor também está deixando de colocar quantidade adequada de palha sobre o solo. Sem palha e sem raízes, começam os problemas, como a compactação, em função do menor teor de matéria orgânica. Em consequência, aparecem as ervas de difícil controle, que se adaptam mesmo em solos ruíns. Sem dinheiro para adubar e fazer cobertura, o agricultor tende a não usar herbicidas e, com trator e grade disponíveis no galpão, ele imagina somente o custo do óleo diesel e opta por uma forma de controle mecânico, o que vai expor o solo à erosão. Com isso, há um controle parcial das plantas daninhas mas desestrutura 3 a 4 cm de solo superficial, perde solo por erosão, não há um crescimento de raízes e baixa a produção, caracterizando um ciclo de dificuldades e pobreza.

RPD - Os produtores tendem a culpar o plantio direto pelos problemas?

Dirceu Gassen - A nossa agricultura vive uma crise generalizada e, em consequência, aparecem problemas no plantio direto, mas não é o sistema que causa as crises, pois existem muitos produtores que estão bem, com excelentes rendimentos, iguais aos melhores do país, com produtividades que chegam ao dobro do que se colhe na sua região. São agricultores claramente capitalizados, que tem condições de aplicar adubo, que resulta em cobertura vegetal adequada e bom manejo da palhada. Então, boa parte dos problemas que aparecem nessas regiões estão relacionados com a capacidade de investimento dos agricultores.

RPD - Mas por que somente alguns conseguem?

Dirceu Gassen - Foi bastante enfatizado a questão dos ”recursos humanos”, o agricultor e o assistente técnico com dificuldades, com ausência de controle financeiro da propriedade e análise econômica da unidade, tudo refletindo num raciocínio simplista de solucionar pelo preparo de solo. Este aspecto precisa ser trabalhado e modificado, a quantificação do efeito das práticas de cobertura, das rotações de cultura e, especialmente, o investimento na capacitação dos operadores finais, daquele operário que vai fazer a semeadura ou a pulverização. É comum encontrarmos lavouras sendo plantadas com solo úmido, em alta velocidade e utilizando semeadora de duplo disco, com pouco adubo e quase sem palha.

RPD - Quais seriam as soluções mais imediatas?

Dirceu Gassen - Dentre as alternativas para iniciar a solução dos problemas, é necessário incluir a cobertura vegetal como um investimento e não como custeio no financiamento da lavoura. A cobertura vegetal é uma alternativa importante e deveria ser paga a médio e longo prazo, não como custeio, que se deva pagar na mesma safra. Existem outros ítens conjunturais, que poderiam ser modificados para ajudar, como, por exemplo, a adaptação das semeadoras, que possam ajudar no desenvolvimento inicial de raízes e auxiliar na germinação, com possibilidade de romper a camada adensada da superfície e, sem dúvida, investimento no treinamento de pessoal, em todos os níveis, desde os assessores técnicos até os tratoristas.

Compactação e Pragas

RPD - Como que você vê essa questão da compactação do solo e o plantio direto?

Dirceu Gassen - O plantio direto será sempre um solo adensado, mais firme, diferente do convencional. É importante notar que, em condições de chuvas normais, o problema da compactação do solo não se evidencia e os rendimentos são bons. Os problemas de compactação são aguçados em períodos de seca, principalmente porque, no momento da semeadura, não foi rompida essa camada superficial adensada, que permitiria o desenvolvimento e a penetração de raízes. Com mais palha, evita-se o secamento, com mais raízes, aumenta-se a infiltração de água. O que se observa nas lavouras conduzidas dentro de um padrão que se julga adequado é a presença maçiça de vegetação e palha. Nestas áreas é possível verificar o trabalho de corós que abrem galerias e incorporam palha, além dos canais abertos por raízes, que ajudam no desenvolvimento das plantas.

RPD - Mas os agricultores temem os corós, porque percebem somente o dano das espécies que prejudicam a lavoura.

Dirceu Gassen - Sim. Existe falta generalizada de conhecimento sobre a diferença entre insetos úteis e prejudiciais e de estratégia de controle para dar garantia ao produtor de que não haverá prejuízo. Existe um tabu muito forte, que pode ser resumido naquilo que os americanos afirmavam: o único inseto bom é o inseto morto. O inseto que o produtor percebe é a praga, ele tem dificuldade em vizualizar aqueles que são úteis. O plantio direto implica em mudanças na forma de manejar as pragas e na necessidade de estudar mais, de fazer intercâmbios. Quando vamos à lavouras, onde os produtores afirmam que os corós vão comer tudo, é possível identificar a presença de coró-da-palha (Bothynus), que se alimenta só de palha, cava galerias profundas, por onde se infiltra ar, água, crescem raízes e são incorporados nutrientes. Esse coró não é praga e pode ser considerado o símbolo do plantio direto, por ser exclusivamente útil e dependente da palha. Por outro lado, as espécies de corós capazes de causar dano podem ser identificadas antes da semeadura, através da amostragem, e tomadas as medidas de controle recomendadas.

Cerrado

RPD - Em termos gerais, a região central do Brasil também apresenta problemas similares, como compactação, pragas e falta de opções para colocar palha sobre o solo.

Dirceu Gassen - Existe uma diferença importante entre o Cerrado e a região Sul, que é a escala de tamanho das propriedades. O principal estímulo para o uso do plantio direto é econômico e a adoção do sistema em grandes lavouras reduz bastante os custos de produção. Por outro lado, lá também as reclamações estão relacionadas com à pragas e à falta de palha, fatores que estão associados entre si. Uma das coisas que está faltando é a reorganização das estratégias de manejo de pragas, aproveitando épocas oportunas, como os meses que vem logo após a colheita da soja, para controlar formigas e cupins e monitorar os corós, além de aumentar a palha para estimular o controle biológico natural. Isso, infelizmente, não está sendo feito, embora existam inúmeros exemplos de sucesso, lavouras com cobertura de palha muito boa, envolvendo rotação com milho. Novamente a dificuldade com os recursos humanos e a gestão aparece de forma destacada.

RPD - A quantidade de palha pode ajudar a solucionar os problemas de pragas do solo também no Cerrado?

Dirceu Gassen - Existe uma relação muito importante entre a palha e o controle natural de pragas. A palha em quantidade cria um ambiente favorável para a atividade biológica. Se tivermos, por exemplo, 20 corós/m2 e perdermos 1 coró a cada semana, eliminado por formigas, aves, outros predadores ou fungos, que se desenvolvem sob a palha, em cinco meses a população será eliminada. Aliás, essa é a dinâmica populacional de corós. Nas manchas onde ocorrem populações elevadas, no ano seguinte desaparecem por controle natural. Quanto maior a atividade biológica, maior a complexidade das relações e isso leva a uma tendência natural de equilíbrio.